02 February 2026
19 November 2024
MEA MAXIMA CULPA (IV)
(publicado no nº 11 da "Granta")
(sequência daqui) Barbaridade seguinte: Tom Waits. O crime de difamação não terá sido da mesma gravidade mas, em contrapartida, desculpas, justificações e atenuantes eram totalmente inexistentes. Tratou-se tão só de um caso — sério, seríissimo — de vistas curtas. Ou melhor, de reles condicionamento auditivo. O ponto de partida não enfermava de nenhum defeito: Waits era caracterizado como "encarnando a imagem do boémio 'beat' à deriva, tão miticamente americano como, por exemplo, Springsteen. Mas, ainda que sendo ambos exactamente da mesma idade, a personagem-Waits é a de um Springsteen precocemente envelhecido a quem apenas resta meio pulmão em funcionamento, incapaz já de perder um segundo a pentear-se ao espelho retrovisor de um 69 Chevy ou de vibrar com as aventuras vertiginosas nos crepusculares 'highways' povoados de heróis em fuga". E, desenhando mais precisamente cenário e atmosfera, observava: "Entre um jazz de fundo de bar e uma omnipresente garrafa de Jack Daniel's, Tom Waits oscila de uma teologia particular ("You know there ain't no Devil, there's just God when he's drunk") a uma concepção de saúde muito pessoal ("I don't have a drinking problem except when I can't get a drink") conseguindo, por vezes, ser impagável e, talvez involuntariamente, cómico: poucos momentos conseguem fazer soltar uma gargalhada tão incontrolável como quando, em "Christmas Card From A Hooker in Minneapolis", a sua rosnadela trôpega de velho buldogue asmático inicia a recitação tartamudeando 'Hey Charley, I'm pregnant'" (segue para aqui)
09 September 2022
Em Novembro do ano passado, Lee Bains publicou em “The New Yorker” uma extensa “freewheeling poetic sequence” – Work Lunch – acerca da qual Kevin Young, o editor dessa publicação, diria: “Este ciclo de poemas tem o poder da música, uma exaltação do quotidiano que recorda Coney Island of the Mind, de Lawrence Ferlinghetti”. Pelo meio dessa imensa proliferação de personagens, tempos e lugares, uma “grandmama” viajava entre passado, presente e futuro – “She would walk those dusty miles down to the picture show. She usually didn’t have shoes then. This was the Twenties. The Depression hadn’t even hit yet. She would clutch the dime in her tight little hand, feeling the smooth cool of the plated silver and the wings on the side of Lady Liberty’s head. She would come to reach the pasture that, in warmer months, would be transformed into the expansive prairies of the Wild West, the glittering ballrooms of New York City, the dark stony castles of France, the sun-swept courtyards of Arabia” – para, a determinado ponto, deixar cair uma surda observação: “You may be poor, but at least you ain’t Black”. (daqui; segue para aqui)
22 July 2022
(sequência daqui) Combat Rock iria ser o último álbum dos Clash (não contando com Cut The Crap, de 1985, extertor final que, dos Clash originais, apenas reteria Joe Strummer). Inicialmente pensado como um duplo intitulado Rat Patrol From Fort Bragg, nos estúdios Electric Lady de Nova Iorque acabaria por se afastar do plano original de um regresso ao rock’n’roll primordial e incluir diversas colagens sonoras, uma secção de "spoken word" pelo poeta beat Allen Ginsberg em “Ghetto Defendant” (“Starved in metropolis, hooked on necropolis, addict of metropolis, the worm on the acropolis, slam dance the cosmopolis, enlighten the populace (...) Guatemala, Honduras, Poland, 100 years war, TV re-run, invasion, death squad, Salvador, Afghanistan, meditation, old Chinese flu, kick junk, what else can a poor worker do?”) e outra pelo street artist Futura 2000 em “Overpowered by Funk” (“Car crashed, food for the hungry millions? Funk out! Home for the floating people? Funk out! Over-drunk on power, Funk out! The final game will be solitaire, over-drunk on power, funk out”). Mas, sobretudo, "Should I Stay Or Should I Go", "Rock The Casbah" (uma parábola acerca da proibição da música nos regimes islâmicos fundamentalistas) e "Straight To Hell" que Simon Reynolds descreveria como "around-the-world-at-war-in-five-verses guided tour of hell-zones where boy-soldiers had languished”. Jim Jarmusch, em declarações à “Uncut”, preferir-lhes-ia a faixa de abertura, "Know Your Rights": “É um dos meus momentos favoritos em toda a história do rock’n’roll. Joe Strummer é um autor muito inteligente: trata-se, na verdade, de um alerta disfarçado de proclamação. E fá-lo com aquela tonalidade vocal dele, vigorosa e insolente, carregada de indignação. Por estes dias, 1982 parece-nos um ponto muito longínquo no tempo. Mas esta canção, em 2022, ressoa ainda mais poderosamente com todo o autoritarismo que se vai expandindo sobre o globo como as sombras no pôr do sol. Vivam os Clash!” (segue para aqui)
13 March 2022
25 October 2021
19 July 2021
11 July 2021
09 July 2021
17 March 2021
14 December 2019
2) "Esta última liberdade, a da renúncia total, encontrou-a na tradição hinduísta e, em particular, nos ensinamentos do filósofo indiano Swami Ramdas (1884-1963), cuja leitura aconselhou à assistência" - quem não daria dinheiro (não estou a pensar no Santos Silva) para ver o 44 a "ler" o Ramdas e a encaminhar-se pela via da renúncia total?...
3) "Coube ao presidente da Câmara de Matosinhos, Guilherme Pinto, apresentar o orador, de quem fez o esperado elogio, salientando ainda a amizade que os une. (...) Assegurou que 'quem não conhece bem o engenheiro José Sócrates, não sabe o que perde'" - a 8 meses de o recluso 44 se transformar no recluso 44, nem o Pinto sonhava quão profético era o seu comentário!!!
27 November 2019
Em Dezembro de 1959, Leonard Cohen viaja para Londres, onde se predispõe a escrever a sua “obra-prima”. Mas Beauty At Close Quarters apenas, em 1963, será publicado como The Favourite Game após, por determinação do editor, Jack McClellan, ter sido podado em metade da sua extensão original (“Qualquer pessoa com um bom ouvido perceberá que destruí orquestras inteiras para encontrar uma única linha melódica”, dirá mais tarde). Compra uma máquina de escrever Olivetti verde, e, na Burberry’s, de Regent Street, uma (futuramente famosa) gabardina azul. “Estar em Londres, naquele tempo, foi uma revelação. Era uma outra cultura, uma espécie de terra de ninguém entre a Segunda Guerra Mundial e os Beatles”. (Philip Larkin, doze anos mais velho, em "Annus Mirabilis", de 1967, confirmá-lo-ia: “Sexual intercourse began in nineteen sixty-three (which was rather late for me), between the end of the ‘Chatterley’ ban and the Beatles' first LP”). Um conhecido – Jacob Rothschild, futuro 4º barão de Rothschild – fala-lhe de uma ilha grega, Hidra, que abrigava uma comunidade de expatriados, artistas, boémios e escritores vindos de todo o lado.
19 March 2019
12 February 2019














