Revisões da matéria dada (LVIII)
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12 June 2026
05 June 2026
NO JARDIM DO PARAÍSO
Quando, após a Revolução Francesa de 1789, os revolucionários vitoriosos encarregaram o padre católico Henri Grégoire de estudar as línguas regionais, o seu relatório de 1794 tornar-se-ia a pedra angular das políticas que proibiam o uso de qualquer língua além do francês na vida pública, no ensino e nas escolas. Apesar disso, estas línguas continuaram a ser faladas nos bairros operários, nas fábricas, nas docas e nas zonas rurais fora de Paris. É, numa delas, o occitano, que, desde a sua formação em 2014, as Cocanha - isto é, Caroline Dufau e Lila Fraysse - têm vindo a reinventar a música da Gasconha, do Languedoc e dos Pirenéus, a partir do trabalho sobre fragmentos do repertório tradicional. E foi a partir do contacto com os Carmina Burana – essa opulenta colecção de poemas e canções de Goliardos, libérrimos monges devassos medievais – que tropeçaram na primeira referência ao País de Cocanha: uma terra imaginária de liberdade e abundância, "onde se prestava culto ao prazer e ao ócio, e o trabalho e a velhice eram desconhecidos". Algo como um jardim do paraíso pagão no qual, segundo se explica em Cocanha - A História de Um País Imaginário (de Hilário F. Júnior), "os cocanianos passam a vida a comer, beber e fazer sexo. A fundirem-se com a Natureza. Logo, a Cocanha não é uma festa qualquer, é um tipo especial, é a festa por excelência, uma orgia". (daqui; segue para aqui)
"Diuré Samsir"
11 April 2021
(sequência daqui) "Numa quase citação do fabliau, segundo o qual os dorminhocos da Cocanha ganham cinco soldos e meio, num pequeno povoado descrito por Rabelais, as pessoas ganham para dormir 'cinco ou seis soldos por dia, mas aqueles que roncam bem forte ganham sete soldos e meio'. Outra criação rabelaisiana, a abadia de Thélème, onde não há clausura, restrições de horário, separação de sexos, celibato, voto de castidade, pobreza e obediência, também apresenta claras ressonâncias cocanianas. Ali todas as mulheres são belas, como na Cocanha medieval. Ali o desejo de cada um procura satisfazer o dos outros, da mesma forma que na Cocanha, ao atender aos próprios desejos 'uns fazem a felicidade dos outros'. Ali, expressamente, a regra é 'fay ce que voudras' (faz o que quiseres), correspondente ao 'Ninguém ousa proibir algo' do texto do século XIII". . (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 7)
Cocanha - "La valsa d'Emiliana" (do álbum i ès ?)
31 March 2021
(sequência daqui) "Apesar de a Igreja preconizar o livre consentimento dos cônjuges no matrimónio, apesar de o amor cortesão fazer da mulher aparentemente 'a senhora' do trovador, em ambos os casos esta, na verdade, servia os interesses masculinos. (...) Mas, na Cocanha, em função do seu espírito panteísta, sexo e sentimento formam um todo que se manifesta de forma constante e natural. Não há necessidade de um espaço específico para o jogo amoroso, como a côrte no caso trovadoresco, ou um espaço para legitimar a união sexual, como a igreja no caso do cristianismo. (...) A Cocanha ultrapassa o conceito amoroso tanto cristão quanto feudal, ao possibilitar liberdade sexual - ali faz-se amor nas ruas -, sem com isso diminuir o padrão moral das pessoas, que são virtuosas como os clérigos e corteses como os trovadores". (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 6)
Cocanha - 5 Cants Polifonics A Dançar (na íntegra aqui)
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20 March 2021
(sequência daqui) "A narrativa cocaniana é uma luta alegórica que valoriza o Carnaval diante da Quaresma. A terra maravilhosa com os seus excessos alimentares, alcoólicos e sexuais é um Carnaval ininterrupto. (...) Ao contrário das demais festas, cujo espírito pagão não tinha sido anulado pela evangelização, a Quaresma era essencialmente cristã. Apesar de as suas restrições terem sido flexibilizadas ao longo da Idade Média, ela continuava a ser um dos grandes símbolos da cultura eclesiástica, daí a forte e difundida resistência laica a ela. (...) A Quaresma também é ridicularizada pelo Fabliau de Coquaigne, segundo o qual ela ocorre no país maravilhoso apenas uma vez a cada vinte anos. E ainda por cima, sem restrições alimentares ou sexuais. A Cocanha, terra da vida (fartura, juventude, sexo livre), nega a Quaresma, símbolo da morte (jejum alimentar, abstinência sexual, decadência física)" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 5)
Cocanha - "Dempuèi Auriac" (do álbum i ès ?, aqui na íntegra)
09 March 2021
(sequência daqui) "Enfim, os cocanianos passam a vida a comer, beber e fazer sexo. A integrarem-se, portanto, na Natureza. A fundirem-se com ela. Logo, a Cocanha não é uma festa qualquer, é um tipo especial, é a festa por excelência, é uma orgia. É o momento (ilimitado no caso cocaniano) no qual, graças a cantos, danças e vinho, atinge-se o ékstasis ("sair de si"), possibilitando a sensação de enthusiasmós ("ter um deus dentro de si"), consequentemente de manía ("loucura sagrada"), enfim, de órguia (possessão divina na celebração). (...) De maneira semelhante às antigas festas gregas em honra de Diónisos, a Cocanha é uma comemoração de carácter agrário, carnavalesco, orgiástico, igualitário, propiciatório" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 4: segue para aqui)
25 February 2021
(sequência daqui) "A comensalidade cocaniana é símbolo de relações sociais livres e igualitárias. Liberdade e igualitarismo que se manifestam também no plano sexual, estabelecendo uma certa identidade entre consumo de carne animal (alimentação) e de carne humana (sexo). (...) A comunicação entre os habitantes da Cocanha ocorre através da cumplicidade no excesso alimentar e sexual, através do parentesco entre os pecados da gula e da luxúria, denunciados pela teologia da época. (...) Realmente, na Cocanha, cada um, homem ou mulher, pode satisfazer seus desejos com quem lhe agrade e "Assim, uns fazem a felicidade dos outros". Quando (...) se fala que, na Cocanha, "todo o dia é belo como em Maio", reforça o clima de sensualidade do país, pois, para a cultura folclórica, aquele é o mês do amor. Para uma civilização agrária como a medieval, a Primavera estimula a alegria, revigora a sociabilidade. Redesperta a sensualidade. Coloca a excitação no ar. "No belo mês de Maio, cada galante muda de amante", afirmavam as canções trovadorescas" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 3; segue para aqui)
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18 February 2021
(sequência daqui) "Por detrás do elogio da ociosidade [no Fabliau de Coquaigne], há uma contestação do tempo, do tempo medido, do calendário. Todos os dias sem trabalho são ali multiplicados: cada ano tem quatro Páscoas, quatro São João, quatro Todos os Santos, quatro Natais, quatro Candelárias, e na verdade 'todos os dias são domingos e feriados'. No século XIII (...), o sistema de festas é um sistema de dias de descanso, de folgas não remuneradas criadas para contentar o empresário, que economiza salários, e o assalariado, que repousa ou dedica-se a ocupações não consideradas trabalho. Com muita perspicácia, Hilário Franco Júnior nota que na Cocanha não há festas. A Cocanha é uma festa. O tempo, isento de actividades, é imóvel: ali é sempre 'como se fosse Maio'". (do prefácio de Jacques Le Goff para Cocanha - A História de Um País Imaginário de Hilário Franco Júnior - 2; segue para aqui)
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16 February 2021
(sequência daqui) "O que realça ainda mais a abundância da Cocanha é o facto de ela não depender do trabalho humano. A ociosidade é ali a única actividade remunerada. O mais célebre verso do texto [Fabliau de Coquaigne] refere-se a isso: "Lá, quem mais dorme mais ganha". (...) A Idade Média não tinha o trabalho em bom conceito e, consequentemente, não havia uma palavra que o designasse de forma global e neutra. Até fins do século XII, a palavra latina labor estava associada a dolor e sudor. (...) Assim, labor (da qual derivaram em vernáculo, labeur, lavoro, labor, labour) significava esforço, pena, tribulação, contrição, doença, penitência. Mais expressivos ainda, os termos neo-latinos travail, travaglio, trebalh decorreram do latim popular tripalium que designava um instrumento de tortura. Travailler, surgido por volta de 1170 ou 1180, manteve até ao século XVI o seu sentido original de atormentar, penar, sofrer, referindo-se tanto ao esforço físico, como o de uma mulher que vai dar à luz, quanto ao esforço moral" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 1) (segue para aqui)
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