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20 September 2023

 

"Messenger Birds" (álbum integral aqui)

(sequência daqui) Por essa altura, na verdade, as duas meninas ainda adolescentes, já se haviam irremediavelmente extraviado do caminho da salvação e iriam travando conhecimento com diversos enviados das forças do mal: o belíssimamente discreto guitarrista David Williams, o baixo sinuosamente melódico de Frank Boylan e a inventividade rítmica do baterista Will Murray. Em conjunto, descobririam afinidades com os melhores da colheita da época: Sandy Denny/Fotheringay (em "Messenger Birds"), Steeleye Span (em "Dan The Wing"), Pentangle (em "Break Your Token"), Fairport Convention ainda seriamente contaminados pelos Jefferson Airplane (em "The Poet And The Witch" e "Lonely Man") e, de um modo geral, todas as mais cristalinas águas da corrente folk-rock convergiriam para Swaddling Songs (1972). Exemplar único - e, por isso, ainda mais precioso - de uma via que se manteria para sempre aberta.

19 July 2023

Remember what the dormouse said: feed your head (XXXI)

"O racismo nas páginas de 'A Esfera' atinge uma maior virulência no campo artístico. Aí é que os nossos germanófilos perdem as estribeiras e, de caneta em riste, alongam-se em artigos contra a 'degenerada música negra': o jazz. Para um germanófilo, o que era o jazz quando comparado com a alta estética da música alemã? Poderíamos dar vários exemplos mas este artigo, que surge na edição de 20 de Março de 1945 (...), é paradigmático. Satiriza essa 'música espiritual dos negros', cujo batuque o articulista escutou depois de 'esfregar os olhos de espanto' e depois de constatar que 'se aquilo é arte, então a missão civilizadora dos portugueses em África de nada valeu'. O jazz não ia ao encontro do gosto germanófilo de 'A Esfera' (...). Como garantia Eduardo Frias (...), o jazz era um conjunto de 'sonoridades roucas, bacanais e rugidos, dissonâncias loucas, monstruosidades grotescas como esgares acústicos, [sendo evidente a] origem satânica desta irrupção do primitivismo selvagem'" (Sérgio Luís de Carvalho - Lisboa Nazi: A cidade secreta dos portugueses que lutaram pelo Terceiro Reich

(ver também aqui e aqui)

28 May 2023

"Badi Sabah Olmadan"
 
(sequência daqui) Em Anadolu Ejderi, ficámos, há pouco tempo, a conhecer a mui óptima Gaye Su Akyol – uma espécie de Grace Slick tecendo melismas vocais sobre a trama psicadélica de uns Jefferson Airplane médio-orientais – e, agora, é o momento de escutar os Altın Gün, entidade colectiva que, sem necessitar de justificações, baralha ainda mais os dados e provocará, decerto, apoplexias aos ferozes adversários da “apropriação cultural”. Após uma viagem pela Turquia, há 5 anos, na qual derreteu o saldo bancário em vinis, o holandês Jasper Verhulst, de regresso a Amesterdão, colocou um anúnco no Facebook em demanda de músicos turcos com os quais formar uma banda. Responderam à chamada Merve Daşdemir e Erdinç Ecevit e, à razão de um álbum por ano, os Altın Gün, muito em particular no último Aşk, reinventariam gloriosamente a música popular e tradicional turca, embriagando-a de psicadelismo e passando-a pela austera peneira de aparelhagens e técnicas de gravação "vintage".

26 December 2022

Domenico Modugno - "Volare (Nel Blu Dipinto Di Blu)"
 
(sequência daqui) Mas nenhuma supera o ponto de vista sobre "Volare", de Domenico Modugno (“Esta poderá ter sido uma das primeiras canções alucinogénicas antecipando em quase dez anos "White Rabbit", dos Jefferson Airplane”), que desencadeia uma especulação linguística inesperada: “Há algo muito libertador em escutar uma canção numa língua que não compreendemos. Vão a uma ópera e verão como o drama salta das páginas mesmo que não percebam uma só palavra. Escutem um fado e a tristeza escorrerá dele ainda que não falem uma sílaba de português”. Pelo caminho, depois de ampliar desmedidamente o "plot" original do texto de uma canção, é perfeitamente capaz de se pôr a escrever em rimas (em "The Pretender", de Jackson Browne: “He’s an ice-cream vendor, a drunk on a bender, a moneylender, and he could have been a contender, the pretender has drawing power“) ou de – a meio da abordagem de “The Little White Cloud That Cried”, de Johnnie Ray – apresentar uma lista de 26 canções banhadas em lágrimas, nenhuma delas na ponta da língua de ninguém.
 
  
 
 Elvis Costello -"Pump It Up"
 
Genuína obra-prima de elogio acri-doce temperado de ciumeira é, no entanto, o que escreve sobre "Pump It Up", de Elvis Costello: “Esta canção tem imensos defeitos mas consegue disfarça-los a todos. Por essa altura, Costello tinha andado a ouvir Springsteen de mais. Mas também tinha ingerido uma valente dose de ‘Subterranean Homesick Blues’. É implacável como são todas as canções dele deste período. O problema é que isso fatigava as pessoas, continham um excesso de ideias que chocavam umas com as outras e eram palavrosas demais. Aqui, porém, tudo é compactado numa única canção. Com o tempo, Elvis demonstraria possuir uma gigantesca alma musical. Dali em diante, comporia música de câmara, escreveria canções com Burt Bacharach, discos de country, versões, soul, música orquestral e para bailado. E, se escrevemos canções com Burt Bacharach, quem quer saber o que as pessoas possam pensar?”

03 November 2022


"EL - A mudança passará tanto pelos movimentos sociais como pela arte ou pelo voto. Em contrapartida, não penso que se deva procurar o bem comum, mas sim as fracturas, as oposições, as tensões, que de qualquer modo existem. Porque o bem dos dominados será possível contra o que os dominantes vêem como sendo o seu bem. Não é o bem comum, é a melhoria da vida dos que sofrem, contra aqueles que têm tudo" (Diálogo Sobre Arte e Política - Ken Loach/Édouard Louis)

23 July 2022

"'Com tanta falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito?' O escritor não estava a ser jocoso, estava a recordar o que tinha começado a fazer na adolescência" (Pessoa: Uma Biografia - Richard Zenith)

11 January 2022

(sequência daqui) Ne verdade, uma boa parte dessa “magia” foi fruto da sua vontade e determinação. Quando, em 2002, declarou à “Rolling Stone” que a indústria musical era “uma fossa séptica” e “tinha vergonha” de fazer parte dela, anunciando a muito provável reforma antecipada, não estava a brincar: de facto, apenas publicaria mais um álbum (Shine, em 2007). Em entrevista ao “Los Angeles Times”, em Setembro de 2004, explicar-se-ia ainda melhor: “Noutro dia, alguém da indústria dizia que já não andavam em busca de talentos, o que fazia falta era gente com uma determinada imagem e vontade de colaborar. Engraçado, pensei eu, sempre me pareceu que ser totalmente destituído da vontade de colaborar era indispensável para se ser um artista. Não por quaisquer motivos perversos mas pela necessidade de proteger a nossa visão. As considerações de uma empresa, especialmente agora, nada têm a ver com arte ou com música. É por isso que passo o meu tempo a pintar”. Cobrindo o período durante o qual publicou os primeiros quatro álbuns – Song To A Seagull (1968), Clouds (1969), Ladies Of The Canyon (1970) e Blue (1971) –, Archives Volume 2: The Reprise Years (1968-1971) recolhe mais de 5 horas de raridades, ensaios e "outtakes", gravações domésticas, de estúdio e ao vivo, incluindo a estreia no Carnegie Hall de 1969, a aparição televisiva no Dick Cavett Show de 18 de Agosto de 1969 (onde, com Stephen Stills, David Crosby e Grace Slick se discutiriam as peripécias do festival de Woodstock dos dias anteriores), e a Peel Session, no Paris Theatre, de Londres, com James Taylor (1970).  (segue para aqui)

28 December 2021

 
 
(sequência daqui) "Se um desejo de felicidade e de inocência suscitava nas almas devotas a ideia do paraíso terrestre, para os miseráveis e famélicos de todos os tempos a imagem das delícias de Cocanha sempre suscitou desejos mais terrenos de sair da penúria e satisfazer apetites mais animalescos e imperiosos. Os vários relatos dirigem-se muitas vezes aos deserdados, anunciando que também para eles é chegada a hora de viver à vontade. A lenda da Cocanha não nasce em ambientes impregnados de misticismo, mas entre as massas populares que passam fome há séculos. A liberdade de que se goza em Cocanha é tal que, como no Carnaval, as coisas podem ser viradas de pernas para o ar e um aldeão pode zombar de um bispo. De facto, associado à lenda da Cocanha, temos o tema do mundo às avessas, com homens puxando um arado guiado por um boi, um moínho ao contrário, onde o moleiro usa a canga no lugar do asno, um peixe que pesca o pescador ou animais que admiram seres humanos em jaulas" (Umberto Eco - História das Terras e Lugares Lendários)

30 June 2021


 
"Sob qualquer forma, em qualquer tempo, o diálogo é um sinal de civilização e de paz. Mas, pouco a pouco (...), quase todos se foram moldando à fala telegráfica, que é apenas uma maneira de evitar a fala, um substituto sintético da verdadeira fala. A invasão da língua pelo calão ou, pior, por meia dúzia de termos de calão, não é mais do que um aspecto desta redução da linguagem (do pensamento e da sensibilidade: da pessoa) a meia dúzia de lugares-comuns que pobremente se repetem até (quem sabe?) ao desgaste final da língua (do pensamento, da sensibilidade, das pessoas). Pouco a pouco, cedendo à pressão de tantas e tantas circunstâncias, a conversa no seu mais alto significado, que é o de desfiar a realidade a dois ou a três, o de reencontrar a realidade através do choque suave e compreensivo, do encontro tolerante (seja vivo, embora, seja entusiástico!) de duas ou mais visões opostas que, ao fim, se completam, esfumou-se. A maior parte das pessoas - e são professores, são advogados, são médicos, são até artistas - não suporta uma frase mais longa, uma observação que não pareça trazer, ao fim de dois minutos, a sua aplicação imediata, ou seja: a observação pessoal, o outro lado, a variedade, de que a vida se enriquece. Habituaram-nos a receber essa nova entidade, odiosa e esterilizante: o slogan. O sim ou o não, a chave que abre esta porta e se deita fora mal a abriu". (Mário Dionísio - Passageiro Clandestino I, 20/10/50)

03 May 2021


"(...) Para Pluckrose e Lindsay, as agendas pós-modernas nos estudos de raça, sexo, género, etc. não passam de 'pós-modernismo aplicado'. Elas são filhas daquilo, que de um modo simples, gosto de chamar 'tretas pós-modernas'. Tendo o pós-modernismo estagnado como filosofia, deixou como herança uma agenda política, uma agenda totalitária, pois os defensores dessas causas não admitem ser contrariados. Claro que os autores de Teorias Cínicas aceitam que existe racismo, machismo, colonialismo, etc.., isto é, há preconceito e opressão, mas pensam também que, nos seres humanos, há um balanço entre a realidade biológica e a construção social, não podendo a primeira ser ignorada (...)" (aqui)

Edit (12:46) - ver também aqui

11 April 2021

(sequência daqui) "Numa quase citação do fabliau, segundo o qual os dorminhocos da Cocanha ganham cinco soldos e meio, num pequeno povoado descrito por Rabelais, as pessoas ganham para dormir 'cinco ou seis soldos por dia, mas aqueles que roncam bem forte ganham sete soldos e meio'. Outra criação rabelaisiana, a abadia de Thélème, onde não há clausura, restrições de horário, separação de sexos, celibato, voto de castidade, pobreza e obediência, também apresenta claras ressonâncias cocanianas. Ali todas as mulheres são belas, como na Cocanha medieval. Ali o desejo de cada um procura satisfazer o dos outros, da mesma forma que na Cocanha, ao atender aos próprios desejos 'uns fazem a felicidade dos outros'. Ali, expressamente, a regra é 'fay ce que voudras' (faz o que quiseres), correspondente ao 'Ninguém ousa proibir algo' do texto do século XIII". . (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 7)
 
Cocanha - "La valsa d'Emiliana" (do álbum i ès ?)

31 March 2021

(sequência daqui) "Apesar de a Igreja preconizar o livre consentimento dos cônjuges no matrimónio, apesar de o amor cortesão fazer da mulher aparentemente 'a senhora' do trovador, em ambos os casos esta, na verdade, servia os interesses masculinos. (...) Mas, na Cocanha, em função do seu espírito panteísta, sexo e sentimento formam um todo que se manifesta de forma constante e natural. Não há necessidade de um espaço específico para o jogo amoroso, como a côrte no caso trovadoresco, ou um espaço para legitimar a união sexual, como a igreja no caso do cristianismo. (...) A Cocanha ultrapassa o conceito amoroso tanto cristão quanto feudal, ao possibilitar liberdade sexual - ali faz-se amor nas ruas -, sem com isso diminuir o padrão moral das pessoas, que são virtuosas como os clérigos e corteses como os trovadores". (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 6)

Cocanha - 5 Cants Polifonics A Dançar (na íntegra aqui)

20 March 2021

(sequência daqui) "A narrativa cocaniana é uma luta alegórica que valoriza o Carnaval diante da Quaresma. A terra maravilhosa com os seus excessos alimentares, alcoólicos e sexuais é um Carnaval ininterrupto. (...) Ao contrário das demais festas, cujo espírito pagão não tinha sido anulado pela evangelização, a Quaresma era essencialmente cristã. Apesar de as suas restrições terem sido flexibilizadas ao longo da Idade Média, ela continuava a ser um dos grandes símbolos da cultura eclesiástica, daí a forte e difundida resistência laica a ela. (...) A Quaresma também é ridicularizada pelo Fabliau de Coquaigne, segundo o qual ela ocorre no país maravilhoso apenas uma vez a cada vinte anos. E ainda por cima, sem restrições alimentares ou sexuais. A Cocanha, terra da vida (fartura, juventude, sexo livre), nega a Quaresma, símbolo da morte (jejum alimentar, abstinência sexual, decadência física)" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 5)
Cocanha - "Dempuèi Auriac" (do álbum i ès ?, aqui na íntegra)

09 March 2021


(sequência daqui) "Enfim, os cocanianos passam a vida a comer, beber e fazer sexo. A integrarem-se, portanto, na Natureza. A fundirem-se com ela. Logo, a Cocanha não é uma festa qualquer, é um tipo especial, é a festa por excelência, é uma orgia. É o momento (ilimitado no caso cocaniano) no qual, graças a cantos, danças e vinho, atinge-se o ékstasis ("sair de si"), possibilitando a sensação de enthusiasmós ("ter um deus dentro de si"), consequentemente de manía ("loucura sagrada"), enfim, de órguia (possessão divina na celebração). (...) De maneira semelhante às antigas festas gregas em honra de Diónisos, a Cocanha é uma comemoração de carácter agrário, carnavalesco, orgiástico, igualitário, propiciatório" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 4: segue para aqui)
(álbum integral aqui

27 February 2021


(sequência daqui) "The Land of Cockayne is one of the oldest English utopias, even pre-dating Thomas More. For the feudal and downtrodden peasant class of the Middle Ages, troubadours singing of Cockayne offered a compensatory vision of unimaginable plenty without effort; where unending physical and gastronomical pleasure was on tap and no punishment was meted out for laziness. 'The Big Rock Candy Mountain', a song originally collected in the 1930s by John Lomax, updates Cockayne for the Great Depression's discontents. Fittingly, the song as recorded by Burl Ives in 1949, was one of the first singles in the new Americam 'folk guitar' idiom to hit the big time back in the Old Country. The hobo's paradise where 'there ain't no short-handed shovels, no axes, saws, or picks... where you sleep all day, where they hang the Turk that invented work' is a post-industrial iteration of utopia that sounded mighty fine to a grey, somber Britain licking its war wounds" (Rob Young - Electric Eden/Unearthing Britain's Visionary Music) (segue para aqui)

Harry McClintock - "Big Rock Candy Mountain" (de O Brother, Where Art Thou?, de Joel e Ethan Coen, 2000)

25 February 2021

(sequência daqui) "A comensalidade cocaniana é símbolo de relações sociais livres e igualitárias. Liberdade e igualitarismo que se manifestam também no plano sexual, estabelecendo uma certa identidade entre consumo de carne animal (alimentação) e de carne humana (sexo). (...) A comunicação entre os habitantes da Cocanha ocorre através da cumplicidade no excesso alimentar e sexual, através do parentesco entre os pecados da gula e da luxúria, denunciados pela teologia da época. (...) Realmente, na Cocanha, cada um, homem ou mulher, pode satisfazer seus desejos com quem lhe agrade e "Assim, uns fazem a felicidade dos outros". Quando (...) se fala que, na Cocanha, "todo o dia é belo como em Maio", reforça o clima de sensualidade do país, pois, para a cultura folclórica, aquele é o mês do amor. Para uma civilização agrária como a medieval, a Primavera estimula a alegria, revigora a sociabilidade. Redesperta a sensualidade. Coloca a excitação no ar. "No belo mês de Maio, cada galante muda de amante", afirmavam as canções trovadorescas" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 3; segue para aqui)

Cocanha en Barcelona (ver aqui e aqui)

18 February 2021


(sequência daqui) "Por detrás do elogio da ociosidade [no Fabliau de Coquaigne], há uma contestação do tempo, do tempo medido, do calendário. Todos os dias sem trabalho são ali multiplicados: cada ano tem quatro Páscoas, quatro São João, quatro Todos os Santos, quatro Natais, quatro Candelárias, e na verdade 'todos os dias são domingos e feriados'. No século XIII (...), o sistema de festas é um sistema de dias de descanso, de folgas não remuneradas criadas para contentar o empresário, que economiza salários, e o assalariado, que repousa ou dedica-se a ocupações não consideradas trabalho. Com muita perspicácia, Hilário Franco Júnior nota que na Cocanha não há festas. A Cocanha é uma festa. O tempo, isento de actividades, é imóvel: ali é sempre 'como se fosse Maio'". (do prefácio de Jacques Le Goff para Cocanha - A História de Um País Imaginário de Hilário Franco Júnior - 2; segue para aqui)

Cocanha - "M'an dit Martin" (ver aqui e aqui)

16 February 2021


(sequência daqui) "O que realça ainda mais a abundância da Cocanha é o facto de ela não depender do trabalho humano. A ociosidade é ali a única actividade remunerada. O mais célebre verso do texto [Fabliau de Coquaigne] refere-se a isso: "Lá, quem mais dorme mais ganha". (...) A Idade Média não tinha o trabalho em bom conceito e, consequentemente, não havia uma palavra que o designasse de forma global e neutra. Até fins do século XII, a palavra latina labor estava associada a dolor e sudor. (...) Assim, labor (da qual derivaram em vernáculo, labeur, lavoro, labor, labour) significava esforço, pena, tribulação, contrição, doença, penitência. Mais expressivos ainda, os termos neo-latinos travail, travaglio, trebalh decorreram do latim popular tripalium que designava um instrumento de tortura. Travailler, surgido por volta de 1170 ou 1180, manteve até ao século XVI o seu sentido original de atormentar, penar, sofrer, referindo-se tanto ao esforço físico, como o de uma mulher que vai dar à luz, quanto ao esforço moral" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 1) (segue para aqui)