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03 November 2024

"Patterns"
 
(sequência daqui) Na verdade, não será exactamente assim. Quando Sir Charles William Somerset Marling (o tal 5º baronete de Marling), mal Laura tinha completado 6 anos, se dispôs a ensinar-lhe os rudimentos da guitarra acústica, a primeira canção que aprendeu foi "The Needle And The Damage Done", de Neil Young, mais uma lista de TPC que incluía Bert Jansch e James Taylor e, hoje, se estende até Townes van Zandt e ajoelha perante o intocável Leonard Cohen ("Cohen foi um poeta de extraordinária elegância, um dos raros realistas-românticos, um género a que fui buscar inspiração para as minhas ainda curtas vida e carreira. O universo lírico dele é tão intenso, melancólico e solitário... mas, crucialmente, nunca isolado. É um 'storytelling' moderno, uma turbulência romântica adulta. Sempre o imaginei com 30 e tal anos, de fato completo, sempre olhando amavelmente para o mundo, interrogando-se sobre como caminhar nele, reflectindo sobre a sua última paixão e guardando espaço no coração para a seguinte"). Foi essa a Laura Marling que, aos 16 anos, trocou o Hampshire por Londres, mais exactamente pela nu-folk scene - Johnny Flynn, Mumford & Sons ou Noah & The Whale - que, na segunda metade dos anos 00, fervilhava no microscópico clube Bosun’s Locker, em Fulham. Porém, a pálida musa que, um atrás do outro, foi despedaçando corações no pequeno oásis folk, a partir de determinado ponto, sentiu-se desconfortável com o colectivismo instituido: "Tocar com toda a gente, ao mesmo tempo, tornava tudo demasiado homogéneo. Tinha de fazer coisas diferentes. Senti que a minha música estava a ficar igual à de todos os outros e queria que, para mim, ela fosse especial. Não era capaz de funcionar dentro de um gang, tinha um grande ego. Desejava ser única". (segue para aqui)

29 January 2014

REGICIDAS


Gastem algum tempo útil no YouTube e procurem as “Ralph’s Balcony Sessions”. No total, são vinte videoclips mas, se preferirem apanhar logo a ideia geral, podem começar pelo último: a canção é "Choices" e Ralph (na única vez fora da varanda/"balcony" do seu 15º andar em Londres), uma espécie de jovem Richard Thompson, passeia-se num jardim dedilhando a guitarra acústica e cantando as primeiras estrofes. Pouco a pouco, vários outros vão-se-lhe juntando – um quarteto de cordas e outro de sopros, teclado, guitarras, bateria, gente dos To Kill A King, Bastille, We Were Evergreen, Youth Imperal, Title Sequence, Professor Penguin, Emily Wood, no final, à volta de duas dezenas – e contribuindo para as sucessivas alterações de mood e o formidável crescendo final de uma elegia que começa por “I never took away your crutch, just became it day by day, blood filling up our boots, this is how the summer ends”. São todos eles, se quiserem, a segunda vaga daquele sobressalto londrino que, entre diversos outros em pausa ou ainda na sombra, nos ofereceu a preciosa Laura Marling, projectou os Mumford & Sons para o primeiro plano norte-americano e, por instantes, logo rápida e desgraçadamente desperdiçados, nos fez escutar The First Days Of Spring (2009), dos Noah & The Whale. 



Mas o que, agora, importa são os To Kill A King, de Ralph Pelleymounter, e Cannibals With Cutlery, álbum de estreia, publicado em Fevereiro do ano passado e reeditado com quatro faixas adicionais em Outubro – mais outro caso de pepita que não foi registada pelos radares na devida altura. Coisa particularmente indesculpável uma vez que a presença da banda na Net não é, de todo, preguiçosa (para além das “Balcony Sessions” – em que, um a um, os convidados que se reúnem em "Choices" vão desfilando pela varanda, interpretando temas dos TKAK –, uma apreciável colecção de outros óptimos vídeos e um site bem activo) mas, sobretudo, porque tão magnífica música não merece passar despercebida. Pensem no que poderiam ser uns National britânicos (imaginam-nos a cantar “I must make more friends, they'll be hanging at my funeral, just to make my parents proud”?) com as mesmas e simultâneas complexidade e urgência. Recordem, aqui e ali, a riqueza orquestral de The First Days Of Spring e a destreza de escrita dos primeiros Aztec Camera. O país que viu nascer Manuel Buíça não está autorizado a ignorar To Kill A King.

25 November 2012

NO LONGER "NU"


















Mumford & Sons - Babel 

Quem conhece a natureza profunda da coisa pop (em considerável medida, pura superfície) nunca leva demasiado a sério as sucessivas "scenes" que ela, periódica e impassivelmente, pare. Do "merseybeat" ao "shoegaze", de Bristol a Seattle, do "britpop" à "new wave of new wave", do "freak"/"psych"/"free folk" ao "nu-folk", após a conclusão do canónico processo de descoberta, frenético "hype" e inevitável demolição final, já terá sido motivo de desmedido contentamento, se, de cada uma delas, tiver emergido um par de talentos razoáveis ou, vá lá, com muita sorte, um pequeno génio. O que, na realidade, com maior ou menor pressão dos mecanismos de selecção natural e êxito variável, até tem acontecido. 



No caso do "nu-folk" londrino ("scene" antiquíssima, de há cinco anos), tudo foi excepcionalmente promissor: The First Days Of Spring (2009), dos Noah & The Whale, era óptimo, Been Listening (2010), de Johnny Flynn, não lhe ficava atrás, Sigh No More (2009), dos Mumford & Sons, inventava uns Pogues com menor teor alcoólico e mais adrenalina épica, Laura Marling, com Alas I Cannot Swim (2007), I Speak Because I Can (2010), e A Creature I Don’t Know (2011), reivindicava todas as passadeiras vermelhas e de Emma-Lee Moss (aliás, Emmy the Great), Eugene McGuinness e demais frequentadores do Bosun’s Locker, de Fulham, e da Big Chill House, de King’s Cross, aguardavam-se proezas não menores. Porém, Last Night On Earth (2011), dos Noah, surgiu, decepcionantemente débil, dos outros, continua-se à espera, e, agora, sobre Babel, dir-se-ia serem as "outtakes" de Sigh No More que, há três anos, foram, justificadamente, preteridas: molde idêntico mas a pender (já?) para a produção em série. Nada de grave, no fundo, se, por fim, apenas restar a belíssima Laura Marling.

18 April 2012

POUPINHA NEO-ROMÂNTICA

 
Fanfarlo - Rooms Filled With Light 

Se os Fanfarlo do inicial Reservoir (2010) se apresentavam como uma versão convenientemente aparada da pop descabeladamente barroca dos Arcade Fire, bem acompanhada, à época, pelos Mumford & Sons e Noah & The Whale, não se pode, de todo, dizer que os dois posteriores anos de crescimento lhes tenham sido benignos – tal como, já agora, não foram para os Noah, os que mediaram entre o óptimo The First Days Of Spring (2009) e Last Night On Earth (2011), peça inexplicavelmente insonsinha. Não há-de restar muita gente que ainda se deixe embalar pela velha cantilena do “difícil segundo álbum”: as “dificuldades” podem surgir em qualquer etapa e a história está repleta de excelentes segundos álbuns facilmente concretizados.

Porque, se algum problema existe, ele reside apenas nas decisões estéticas que se toma e as que passaram pelas cabeças de Simon Balthazar e cúmplices estiveram bastante longe de ser acertadas. Isto é, tentar converter a matriz anterior numa sua versão oitentamente recauchutada – pinceladas de sintetizador, polimento lustroso à la Roxy Music-modelo-lounge, acenos pouco decorosos aos Dexys Midnight Runners tal como as playlists os indexaram (aquela e só aquela banda que gravou "Come On Eileen"), ou, nos momentos mais embaraçosos, enlevos melódicos de poupinha neo-romântica – é o género de ideia que nunca deveria ter ocorrido a uma banda que retirou o seu nome de uma novela de Baudelaire. Não que o resultado seja insultuosamente vil (nos melhores trechos, aproxima-se de uma infusão descafeínada dos Divine Comedy) ou que, se apanhados, por acidente, no rádio, obriguem a saltar, em pânico, para o zapping. Mas apetecia outra coisa que não dissesse apenas bem com os cortinados.

22 August 2010

SANTÍSSIMA CRUZADA

Arcade Fire - The Suburbs

Garantem os relatos históricos que, quando, em 1087, Guilherme, o Conquistador, foi sepultado, em Caen, na abadia de Saint-Etienne, o seu corpo estava de tal forma obeso e inchado que, não cabendo no sarcófago que lhe havia sido destinado, o enorme esforço que foi necessário para aí o introduzir teve como pestilenta consequência o rebentamento do cadáver. Episódio assaz semelhante – por diversos motivos, como, adiante, se verá – ao primeiro falecimento do rock progressivo/sinfónico, pelo meio da década de 70 do século passado: não menos insuflada e pomposamente imperial, a música de todos os Yes, ELP, Pink Floyd, Barclay James Harvest ou Rick Wakeman da época só precisou de um apertão da canalha punk para conhecer destino tão pouco edificante quanto o do temível Guilherme. Mas, do mesmo modo que, com ele, aconteceu, apesar de defunto, a sua influência não se extinguiria facilmente: se, a partir do punk, a opção "less is more" determinaria, em boa medida, grande parte da produção das diversas sensibilidades indie/alternativas durante os períodos de 80 e 90, dos anos zero em diante, o apetite pela ênfase orquestral – já experimentado também, anteriormente, entre outros, pelos Echo & The Bunnymen, Tindersticks, Triffids ou Divine Comedy – regressaria e de forma particularmente voraz. Disciplinada, convenientemente emagrecida e esteticamente pertinente nos casos de Andrew Bird, Sufjan Stevens, St. Vincent, Noah & The Whale, Mumford & Sons, Grizzly Bear, My Brightest Diamond ou Fanfarlo (os ensinamentos históricos haviam sido devidamente digeridos através do filtro pop), porém, de novo, a escorregar para a grandiloquência messiânica com os Arcade Fire.


É muito difícil que uma educação mórmon não dê nisto (Jesca Hoop safou-se mas não é toda a gente que tem a sorte de poder ser "nanny" dos rebentos de Tom Waits): quem cresce a ouvir contar que Deus é de carne e osso e vive no planeta Kolob e que, se nos portarmos como Joseph Smith manda, iremos todos politeistamente procriar deusezinhos junto dele, só por acaso não dá consigo a proferir declarações portentosas e a imaginar-se o porta-voz iluminado de qualquer coisa. Win e William Butler foram à catequese dos Santos dos Últimos Dias e isso ajuda bastante a compreender o motivo por que hoje (ainda que não se afirmando como praticantes mórmons) continuam a fazer afirmações como "Os colégios internos, o exército e as igrejas são os únicos lugares onde as pessoas são obrigadas a permanecer em comunidade com gente que elas não escolheriam como companhia. Acho valiosa essa ideia de comunidade com pessoas com quem não temos nada em comum" ou “A Bíblia fala muito acerca do temor perante Deus. Esse é o tipo de medo que nos faz sentir o desejo de mudança”.


E também contribui utilmente para explicar as canções que os Arcade Fire interpretam: não há Grande Tema nem Interrogação Eterna que eles não se sintam tentados a abordar, preferencialmente naquele registo bombástico e monumental de quem galvaniza as tropas numa santíssima cruzada. Em The Suburbs, o alvo são os “kids” envenenados pela cultura-contemporânea-sem-alma-nem-coração que vegetam nos centros comerciais e que, mesmo sabendo que “the emperor wears no clothes, they bow down to him anyway”. O mundo está perdido, os subúrbios invadiram e devastaram a querida Mãe Natureza e, durante uma hora, qual sermão de proverbial tia velha, eles resmungam acerca de como (entrada para fanfarra sinfónica) “these days, my life I feel it has no purpose” e “tomorrow means nothing”. "City With No Children" assenta no riff de "Street Fighting Man", dos Stones, e, em "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)", Régine Chassagne parece mesmo à beirinha de, a todo o momento, se poder transformar na Deborah Harry de "Heart Of Glass". São os dois melhores instantes do álbum.

(2010)

02 July 2010

A MEETING OF MINDS IN THE NU-FOLK REVOLUTION



"With Laura Marling, Noah and the Whale and Mumford & Sons among its alumni, west London's informal school of folk is known for regularly producing popular, talented young singers and songwriters. Members of the aforementioned bands used to play together at the Bosun's Locker on the King's Road, until that venue closed. For the last two and a half years, however, their regular meeting place has been the monthly Communion night at Notting Hill Arts Club.



Founded by Mumfords keyboard player Ben Lovett, Mumfords producer Ian Grimble, and Kevin Jones, the bassist with Cherbourg, the night has now evolved into a record label and produced its first limited edition Communion compilation album. 'Communion allows people to play gigs in a friendly environment and try new things out', says Jones. 'And it's become a close-knit community of musicians swapping ideas – as well as a good place to find a banjo player if you need one. We liked the idea of documenting all that with a record'". (aqui)

(2010)

30 June 2010

A SAIR DO VIVEIRO



Johnny Flynn - Been Listening

E, pela terceira vez este ano, tropeçamos naquilo que, de agora em diante, só poderá ser designado como o efeito-Laura Marling. Mas, antes de aí chegarmos, permitam-me um ligeiro recuo histórico e a indispensável contextualização. Londres, 2007: no já desaparecido Bosun’s Locker, de Fulham, e na Big Chill House, um bar de King’s Cross, encontrava-se, regularmente, um grupo de gente francamente imberbe mas perdidamente apaixonada pela mitologia folk, que incluía Emma-Lee Moss (futura Emmy the Great), Marcus Mumford, Laura Marling, integrantes avulsos dos Noah & The Whale, Johnny Flynn, Eugene McGuinness... aquele exacto tipo de genealogia intrincada e arriscadamente incestuosa que – por mais do que uma boa razão –, apesar de ainda em estado embrionário, ameaça poder vir a ser a única competição à altura para a que descobrimos (e nos obriga a profunda concentração) sempre que procuramos as relações “familiares” dos clãs Fairport Convention/Steeleye Span.



Caso vos interesse investigar o assunto, no “Independent” de 6 de Fevereiro do ano passado, Tim Walker ensaiava uma primeira "rota das pedrinhas" do que já é conhecido como a "nu-folk scene", viveiro de diversas notabilidades indie em ascensão (conferir acima) e de outras na rampa de lançamento. "Scene" que os respectivos protagonistas, obviamente, se apressam a negar que exista (“É o tipo de caracterização que me dá arrepios: parece uma história elitista de candidatos a figuras 'cool'. Somos uma comunidade musical aberta”, rosna Johnny Flynn) e perante a qual os inevitáveis defensores da “autenticidade” se irritam, não levando a bem que putos de sotaque "posh" se atrevam a reinvindicar como sua a sacrossanta tradição.



Laura Marling, então. A mesma ninfeta que – em modo coração-despedaçado – inspirou The First Days Of Spring, dos Noah & The Whale, a musa de Marcus Mumford em Sigh No More, dos Mumford & Sons, a autora dos óptimos Alas I Cannot Swim (2007) e I Speak Because I Can (2010) e motivo para alusão, sob forma de anagrama, no título da estreia de há dois anos, de Johnny Flynn, A Larum (aliás, Laura M). E, ainda que apenas numa única canção ("The Water"), ei-la também presente em Been Listening, a simultânea confirmação de que a "nu-folk scene" londrina é algo de bem mais promissor que o "free-folk" transatlântico e de que Johnny Flynn – sul-africano de nascimento, actor shakespeareano, poeta, 27 anos – é, com toda a certeza, um dos "nu-folkers" a que vai ser obrigatório prestar atenção. Porque o que “ele tem andado a ouvir” e transparece, já muito satisfatoriamente digerido, é tanto a riquíssima herança dos Thompsons, Hutchings e Carthys como, naturalmente, aquela mais recente de Morrissey ou Jeff Buckley, rasgadas por uma ou duas labaredas da guitarra de Anna Calvi. Milagrosamente, sem qualquer sombra de atrito, incompatibilidade ou razão para suspeita de manobra calculada, num magnífico álbum que contém onze das mais perfeitas canções que, este ano, iremos poder escutar.

(2010)

23 April 2010

YES, SHE CAN



Laura Marling - I Speak Because I Can

O título do álbum, reparem no título: I Speak Because I Can. Apenas dois anos antes, o primeiro (tinha Laura Marling dezoito recentíssimos anos) chamava-se Alas I Cannot Swim. Exactamente o mesmo período de tempo durante o qual Laura foi a musa para The First Days Of Spring, de Noah & The Whale (leia-se, para a alma, por ela devastada, de Charlie Fink, que, qual Petrarca, se viu obrigado a narrar, poética e musicalmente, a perda da amada), e para Sigh No More, dos Mumford & Sons (aliás, Marcus Mumford, o último fiel depositário dos seus afectos). Se virem bem, está tudo na forma do mesmo verbo, na passagem da negativa para a afirmativa: "I cannot" e "I can". Agora, ela diz que sim, fala "porque pode" e, de agora em diante, muito difícil será calar esta voz daquilo que – em queda da coisa "free-folk" –, é capaz de ser bem mais sensato, porque sim, porque podemos, chamar (é só mais um rótulo, este, medianamente aceitável), "nu-folk".



Pelo único motivo de que só poderá haver uma relação entre a matriz do que o primeiro Donovan (oiçam “Made By Maid” e “Ballad Of A Crystal Man”) e o Dylan fundador de "It’s Alright Ma" (escutem "Devil’s Spoke") têm a dizer sobre o assunto. Convoquem-se outros como Nick Drake, os espectros iluminadores de Sandy Denny, Joni Mitchel ou Richard Thompson e imaginem que outra matriz – autêntica, sem outro cálculo que não tenha sido o da digestão da necessária aprendizagem – poderia ter estado na origem de canções como as que cospem palavras tais que “no hope in the air, no hope in the water, not even for me, your last serving daughter” ou “Why fear death, be scared of living, hearts are small and forever thinning”. Com quase todos os Mumford & Sons na tripulação e alguns Noah & The Whale incluídos como troféus do saque. A jovem diva comanda as operações, decide quando ser Mumford-épica ou apenas acusticamente terra a terra e escolher a ocasião para enviar recados como “the weak need to be lead, and the tender I’ll carry to their bed, and it’s a pale and cold affair, I’ll be damned if I’ll be found there”. Amem-na muito.

(2010)

14 February 2010

OS DOIS LADOS DA QUESTÃO



Fanfarlo - Reservoir




Owen Pallett - Heartland

A propósito de Reservoir, houve já quem tivesse escrito que a última coisa de que o mundo precisa é de bandas de rock orquestral, derramando épicos insuflados à la Arcade Fire sobre o povo desprevenido. Acontece que, por motivos absolutamente diferentes, tenho exactamente a opinião inversa: tal como sucedeu no histórico caso Doors vs Bunnymen – em que o modelo foi claramente suplantado pelos copistas –, todas as supostas (e reais) derivações recentes da banda canadiana, se lhe têm tomado de empréstimo o template estético como ponto de partida, no final do processo, apresentam-no consideravelmente emagrecido de excessos, limpo de arrebatamentos histriónicos e higienicamente a salvo da embaraçosa aura de messianismo litúrgico. Mumford & Sons e Noah & The Whale estão aí muito à mão para o demonstrar e, agora, os londrinos Fanfarlo encarregam-se de fornecer o derradeiro QED.



Um empregado sueco da Beggars Banquet (Simon Balthazar, voz, guitarra, teclados, bandolim, sax, clarinete, glockenspiel), um livreiro (Justin Finch, voz e baixo), um editor de uma revista de viagens (Leon Beckenham, trompete, teclados, melódica), uma professora de Inglês (Cathy Lucas, violino, teclados, bandolim, voz, serra friccionada) e um conselheiro vocacional de estudantes universitários (Amos Memon, voz e percussão), autodenominados a partir de uma novela de Baudelaire, inventam o género de música que, tendo, indiscutivelmente um ou dois dedos de um pé na pop “barroca” tal como Butler & Chassagne a praticam, vê os movimentos disciplinados por meio das justíssimas chibatadas correctivas aprendidas no manual-VU, lido segundo a tradução dos Talking Heads (Balthazar, por outro lado, também é algo mais do que apenas um discípulo de David Byrne explicado às massas pelos Clap Your Hands Say Yeah), e deixa-se temperar com as “etnicidades” recomendavelmente fake adquiridas na tendinha Beirut, de Zach Condon, e um ou outro subliminar psicadelismo da marca Neutral Milk.



Owen Pallett – ele, o orquestrador dos Arcade, mas, igualmente, dos Grizzly Bear, Beirut, Pet Shop Boys, e, heteronimamente, Final Fantasy – contribui com o outro ângulo da questão: entregue a si mesmo, aquilo que, nos Grizzly e Beirut, enriquece o tecido musical, é aqui somente a mesma pompa e decorativismo florido com que encadernou Funeral e Neon Bible. Conceptual e grandiloquente, Heartland pertence aquela família de grotescos empadões narrativos de que Ys, de Joanna Newsom, é um dos mais notórios exemplos: Lewis, “a young, ultra-violent farmer”, dialoga com o seu criador na terra de Spectrum, habitada por personagens de nomes The Butcher, Cockatrice, No-Face e Blue Imelda (uma espécie de Lewis Carroll que partilhou psicotrópicos com Philip K. Dick e a coisa correu mal a ambos), enquanto, à sua volta, a Czech Philarmonic Orchestra, Nico Muhly e "tutti quanti" debitam em piloto automático o catálogo integral de lugares comuns do sinfonismo “moderno” arrebicado de bruitage electrónica. Em curtas palavras: não é Andrew Bird nem Sufjan Stevens quem quer, só quem pode.

(2010)

17 January 2010

SEGUNDO EPISÓDIO



Mumford & Sons - Sigh No More

No episódio anterior, tínhamos deixado Charlie Fink, de coração despedaçado pela jovem Laura Marling que, à beira do sucesso – para o qual ele, em larga medida, contribuíra –, o abandonara, assim lhe oferecendo o argumento "arrache-coeur" para um dos melhores álbuns de 2009, The First Days Of Spring, dos Noah & The Whale. Vamos reencontrá-la, agora, redescobrindo o amor nos braços de Marcus Mumford, o baterista da banda que a acompanhava, o qual moço, embriagado pelos encantamentos de Afrodite, gravou um álbum – este – que, se ouvido em devido tempo, teria, facilmente, integrado também o escol do ano recém-defunto.



Imaginem uns Pogues (com idêntica "inautenticidade" folk) vitaminados pelo élan épico e coral dos Arcade Fire. Pensem em Nick Drake com a voz de Micah P. Hinson e mais testosterona. Considerem a hipótese de um Nick Cave cercado de banjos, bandolins, sopros mariachi-balcânicos, a expelir as mesmas tiradas bíblicas em que se doutorou ("There will come a time when I will look in your eye, you will pray to the god that you've always denied, I'll go out back and I'll get my gun, I'll say you haven't met me, I am the only son"). Acrescentem-lhe um refrão como "It was not your fault but mine, and it was your heart on the line, I really fucked it up this time, didn't I, my dear?". Aquela miúda, a Laura, deve ter mesmo qualquer coisa de muito especial...

(2010)

02 January 2010

UMA GRANDE DESORDEM SOB OS CÉUS



Após um julgamento que durou nove dias, a 17 de Abril, Peter Sunde, Fredrik Neij, Gottfrid Svartholm e Carl Lundström, responsáveis pelo Pirate Bay – o maior site de download ilegal de ficheiros torrent – eram condenados por um tribunal de Estocolmo a pôr termo à sua actividade, a um ano de prisão e a pagar uma multa de cerca de 2 700 000 euros. Todos recorreram da pena aplicada e, um mês depois, o Pirate Party sueco (braço político do movimento a favor da liberalização completa do filesharing), conquistava 7.13% de votos e dois deputados nas eleições para o Parlamento Europeu. A 6 de Outubro, e na sequência de diversos contratempos e peripécias (só um exemplo: a 15 de Agosto, um uploader anónimo iniciou a partilha de um torrent contendo o índice integral do Pirate Bay), em local indeterminado, o site corsário estava, de novo, online. Entretanto, a 24 de Novembro passado, o Parlamento Europeu aprovou um pacote de medidas destinado a combater a pirataria na Web que prevê a possibilidade do corte, por parte dos fornecedores, do acesso à Internet de quem descarregue ilegalmente ficheiros, não especificando, porém, a quem caberá a decisão: se aos tribunais, se a uma entidade administrativa.



É bem possível que a indústria discográfica não concorde com a célebre afirmação de Mao Tsé Tung “Há uma grande desordem sob os céus, a situação é excelente”. Até porque – a menos que alguma solução milagrosa e inesperada surja –, até agora, cada tentativa de controlar as forças que se libertaram da caixa de Pandora da Internet foi sempre torneada por um agilíssimo jogo de cintura tecnológico que a todas anulou. Naturalmente, tudo isto terá consequências quanto aos recursos de que os músicos (e não apenas músicos: a partilha de ficheiros abrange livros, filmes, séries de televisão...) poderão dispor, numa conjuntura em que as editoras vêem os lucros a reduzir-se drasticamente. Sintomaticamente (ou não), porém, o que na pop parece acontecer é um período de laboração no interior de códigos mais ou menos clássicos, sem que nenhuma sublevação estética se anteveja: dos (admiráveis) neo-academismos de Sufjan Stevens, Grizzly Bear, St Vincent e Noah & The Whale, à folk redescoberta de Alela Diane e The Unthanks, aos segundos e terceiros fôlegos dos clássicos Dylan ou Springsteen ou às grandes operações industriais de reciclagem do passado e repackaging – de que a remasterização da discografia integral dos Beatles foi, este ano, o mais emblemático exemplo – tudo parece ter entrado num compasso de espera de duração imprevisível. A história da música, de certeza, não parou e o negócio discográfico precisa de tempo para inventar e amadurecer modelos viáveis de reconversão. Mas, por enquanto, tudo indica que, tão cedo, não vale a pena sonhar com estrondosas e fulgurantes rupturas e inovações que, de resto, a atmosfera global de pós(?)-crise também não parece favorecer.

(2010)

01 January 2010

MÚSICA 2009 - INTERNACIONAL (III)
TOP 10




Andrew Bird - Noble Beast




The Unthanks - Here’s The Tender Coming




Grizzly Bear – Veckatimest




Tom Waits - Glitter And Doom Live




God Help The Girl - God Help The Girl




Noah & The Whale - The First Days Of Spring




St. Vincent – Actor




Sufjan Stevens - The BQE




Animal Collective - Merriweather Post Pavillion




Regina Spektor – Far

Se, durante a década de 80, o refrão-de-serviço rezava que “já não se fazia música como nos 60s”, agora, dificilmente se atura a lenga-lenga segundo a qual “os eighties é que eram”. Claro que, para uma indústria de tanga, a rentabilização da nostalgia será sempre um dos últimos cartuchos a disparar. Mas, mesmo sem convulsões estéticas no horizonte, é impossível não reparar que – como sempre aconteceu – se publicou óptima música e que, para além do top-10 obrigatório, pelo menos o dobro, entre “velhos e “novos” (de Springsteen a Vincent Delerm, Alela Diane, Hanne Hukkelberg, Neko Case, Camera Obscura, Flat Earth Society, The Phantom Band, Christina Courtin, Elvis Costello, Gogol Bordello, Dylan ou Prefab Sprout), poderia, facilmente, figurar numa lista paralela e não menos ilustre.

(2010)

06 September 2009

NARCISO FERIDO


Noah & The Whale - The First Days Of Spring

Costuma ser receita garantida para o tédio irredimivel: jovem poeta/músico/artista, de coração dilacerado pela ruptura de uma relação amorosa, verte toda a sua dor oceânica sobre a página/o microfone/a tela, insufla-lhe fôlego conceptual à escala himalaica da tragédia e não descansa enquanto não tiver aborrecido de morte o último habitante da galáxia. Não é, realmente, fácil achar forma de contar ainda outra vez a mais antiga história do mundo sem correr o risco de voltar a pisar, uma por uma, todas as pegadas já milhões de vezes deixadas por outros. Apresente-se, agora, Charlie Fink, desapiedadamente abandonado pela namorada (Laura Marling, starlet pop-folk ascendente e ex-elemento da banda de Charlie), e que, para aprofundar a ferida narcísica, foi o responsável pela produção do álbum Alas, I Cannot Swim de que resultou a nomeação dela para o Mercury Prize.



Uma réstea de luz acende-se – mas, como se sabe, isso nunca é garantia de nada – quando se descobre que Noah & The Whale, o nome da banda, se inspirou no filme The Squid and the Whale, realizado por Noah Baumbach, e que, na lista de afinidades electivas de Fink, se encontra também Wes Anderson. A música, então: primeira faixa (a canção-título), sete minutos de lenta mas avassaladora ascensão orquestral, da glacial secura marcial dos Joy Division até à explosão do fogo de artifício final em 70 mm. Tema: “I do believe that everyone has one chance to fuck up their lives". KO instantâneo e hipóteses de análise fria reduzidas a cacos. É, por isso, sob séria reserva de temporária insanidade, que, escutado todo o disco (tema geral: “If you gotta run, run from hope”), afirmo que The First Days Of Spring é o melhor álbum de dor-de-corno desde Sea Change, de Beck, coisa próxima de The Opiates, dos Anywhen, ou de Ocean Rain, dos Echo & The Bunnymen, o género de odisseia pop capaz de reduzir os Arcade Fire à sua insignificante dimensão e de obrigar Neil Hannon a colocar-se em sentido. Paralelamente, Fink realizou uma curta metragem homónima. Se for digna de caminhar na sombra de Wes Anderson, será a cereja em cima do bolo.

(2009)