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08 April 2026

"God’s Lonely Man" (feat. Iggy Pop)
 
(sequência daqui) Em 2020, publicaria Hunted, álbum de revisão de temas de Hunter entregues a Joe Talbot (Idles), Courtney Barnett, Julia Holter e Charlotte Gainsbourg; e, em variadíssimas coordenadas espaciais e temporais, veria o seu nome associado aos de Colette, Gucci, Vogue,Fendi, Lagerfeld, Chanel ou Burberry (com EP Live For Burberry incluído, 2017); não menor cometimento seria a banda sonora para a soberba série de TV Peaky Blinders (Peaky Blinders: Season 5 & 6 (Original Score, 2024) à qual se sucede agora o EP Is This All There Is?. Apresentado como o primeiro de uma trilogia de gravações "que explora a identidade como uma metamorfose, moldada e remodelada pela experiência da paixão", o que Calvi busca - acompanhada por Matt Berninger,Laurie Anderson, Perfume Genius e Iggy Pop - é estimular a eclosão de um desdobramento de personalidades, da fria racionalidade à mais física colisão sonora.

02 February 2026

CERCADOS PELA LINGUAGEM
No "Guardian", Alexis Petridis encontrou aquela que é provavelmente a melhor forma de caracterizar o papel da voz de Florence Shaw nos Dry Cleaning: "É um pouco como dizia o Stuart Moxham dos Young Marble Giants acerca da Alison Statton: 'Ela canta distraidamente como se estivesse na paragem, à espera do autocarro". Na verdade, Florence mal chega a cantar: da colagem de cut-ups e spoken word a que quase apaticamente se entrega qual Laurie Anderson dadaísta, resulta o que, ao longo dos três álbuns publicados - New Long Leg (2021), Stumpwork (2022) e, agora, Secret Love (2026) - foi encarado como poesia post-punk, sismogramas beatnick e surreal excelência idiossincrática de poetas punk londrinos. Nada, porém, de estratégias furtivas, jogos de dissimulação ou evasão. Apenas uma questão de acreditar numa ética do trabalho peculiar: "I make sure there are hidden messages in my work”. E de se manter fiel ao método que assegura que "the ordinary is worth mining for the extraordinary". (daqui; segue para aqui)
 
"Cruise Ship Designer" (legendas disponíveis)

02 January 2025

MÚSICA 2024 - INTERNACIONAL (VI) 

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 27)
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
  
 
 
* a ordem é razoavelmente arbitrária  
 

14 December 2024

 
"The Fun Of It" (ft. Andreya Casablanca)
 
(sequência daqui) Este ano, porém, sem que nada o fizesse prever, foi publicado o magnífico Amelia, de Laurie Anderson, e, pouco mais de um mês depois, The Last Flight, dos britânicos Public Service Broadcasting. Se ainda for indispensável apresentá-los, saiba-se que se trata de um quarteto londrino - J. Willgoose, Esq. (maquinaria, guitarras, samples), Wrigglesworth (bateria, piano), JF Abraham (baixo e multi-instrumentista) e Mr B (design visual) - inteiramente dedicado à missão de articular conceptualmente imagens e registos sonoros de arquivos históricos com cenários musicais contemporâneos. Nos anteriores Inform-Educate-Entertain (2013), The Race For Space (2015), Every Valley (2017) e Bright Magic (2021), o espectro alargava-se da corrida pelo espaço ao declínio da indústria mineira em Gales. The Last Flight ocupa-se do derradeiro episódio da trajectória da intrépida aviatrix e, com a participação de Andreya Casablanca, da norueguesa EERA, de Kate Stables (This Is The Kit) e da actriz Kate Graham que dá voz aos discursos directos de Amelia, concretiza o projecto que J. Willgoose, Esq. desvenda: "Inicialmente, interessei-me pelo seu voo final mais do que pelos sucessos dela. Mas, quanto mais lia, mais fascinado por ela ficava. A sua bravura e proezas aeronáuticas eram extraordinárias mas a sua filosofia e dignidade faziam dela uma pessoa excepcional". A encenação sonora está à altura do lema de Amelia: "I do it because I want to, I do it for the fun of it’".

27 October 2024

 
(sequência daqui) JL - Na sua video-participação nas Norton Lectures - Spending The War Without You: Virtual Backgrounds, 2020), a certo ponto, faz questão de, mais uma vez nos deixar o sangue gelado ao mostrar-nos de modo muito caricaturalmente aterrador a aproximação do perigo: “Nos meus piores pesadelos que podem ser muito gráficos, a iCloud desfaz-se e toda a informação precipita-se sobre nós. Nas noites mais difíceis, vejo Trump, os filhos e todos os seus amigos como Noé e a família, prestes a embarcar na nova Arca, um imenso navio de cruzeiros chamado Princess Ivanka. No último minuto, aparece Mark Zuckerberg na sua prancha de surf eléctrica, mesmo a tempo de iniciar o novo emprego dirigindo, organizando e personalizando todas as experiências no caminho para nenhures”. O que contém a sua Arca? 

    LA - The Ark aborda a questão da sobrevivência - o modo como nós, enquanto cultura, lidamos com as crises e o que significa sobreviver num mundo tecnológico. Não apenas a sobrevivência física mas também cultural e emocional. Usamos muita tecnologia para contar essa história. Mas a tecnologia nunca foi o ponto essencial. Importante é o modo como a usamos para reflectir a experiência humana, para observar como ela transforma as nossas relações e a forma como olhamos para o mundo. A arca é um símbolo poderoso de preservação, um veículo que transporta tudo quanto é importante para um futuro incerto. Jogámos com aquela ideia: o que devemos salvar e o que deveremos deixar para trás? Trata-se de criar uma experiência viva e imersiva. Não era apenas uma performance mas uma forma de convidar as pessoas para este mundo que construimos no qual elas poderão reflectir sobre as suas ideias de sobrevivência e que significado poderá isso ter. É, afinal, tudo uma consequência do modo como nos movemos através do tempo. Há quem pense que, no prazo de 4 anos, será já demasiado tarde para sobrevivermos ao desastre climático. A outra metade das pessoas nos EUA acha que é indispensável tornarmos a América grande outra vez. Como no passado. Mas em que ficção do passado estarão a pensar? É muito diferente pensar no passado quando se tem 77 anos ou quando se tem 17. 

    JL - Conhece, por acaso, Uma História do Mundo em Dez Capítulos e Meio, do escritor inglês, Julian Barnes, cujo primeiro capítulo conta a história da arca de Noé mas apenas na última linha ficamos a saber quem é o narrador? 

    LA - A sério? Sempre as dúvidas, sempre as perguntas... Vou ter de investigar.

24 October 2024

(sequência daqui) JL - A Laurie nunca aderiu muito a fazer grandes declarações panfletárias acerca da situação política nos EUA e no mundo em geral. Mas há casos que, de tão extremos, é praticamente impossível fugir a manifestar uma opinião. Donald Trump é, sem dúvida, um deles... 

    LA - Trump é um sintoma de uma doença muito mais generalizada de medo e desinformação. É um performer mas o problema de fundo é saber o que lhe permitiu conquistar tamanha popularidade. Ele transformou a política num "reality show". É completamente absurdo. Vemos aquela enormidade a desenrolar-se perante os nossos olhos e perguntamo-nos como foi aquilo possível. As palavras podem construir pontes ou podem derrubá-las. O que Trump tem feito é usar a linguagem para dividir e criar inimigos, O oposto da empatia. A democracia é frágil e a era Trump mostrou-nos quão fácil é ameaçá-la. É um grito de alerta para nós artistas e para qualquer pessoa que se preocupe com a verdade e a justiça. Aquela criatura acredita que as mulheres são estúpidas e idiotas e isso aterroriza-me! (segue para aqui)

21 October 2024


(sequência daqui) JL - O seu interesse pelo uso da tecnologia como ferramenta indispensável no trabalho de criação foi sempre muito evidente. Actualmente, com os mais recentes desenvolvimentos no campo da Inteligência Artificial, continua a pensar do mesmo modo em relação a ela? 

    LA - Adoro a IA, usei-a imenso em Amelia. Particularmente, os modelos de linguagem do Machine Learning Institute, em Adelaide, na Austrália, onde sou artista residente. Tudo o que eu, desde sempre, escrevi, gravei ou disse foi alojado num supercomputador. O que me permitiu, de certo modo, colaborar comigo mesma. É uma ideia muito interessante, com imenso potencial para dilatar os limites da actividade artística. Por outro lado, deixei de ser tão optimista quando me apercebi que a realidade começou a transformar-se em algo bizarro, opcional. A IA pode ser-nos muito útil mas teremos de estar muito atentos ao caminho por onde nos irá conduzir e aquilo que, por aí, poderemos ir perdendo. E também me arrepia o facto de ela fazer parte da enorme e aterradora cultura da vigilância que rasteja atrás de nós e do elevadíssimo e perigosíssimo potencial para gerar desinformação que contém. 

    JL - A "sua" IA foi utilizada recentemente para a escrita dos textos de canções do último álbum dos Loma, How Will I Live Without A Body?, a partir de imagens fotográficas. De quem é, então, a autoria destes textos? 

    LA - Os algoritmos que participaram na criação desses textos foram treinados na minha escrita. Trata-se, portanto, da minha personagem IA. Tanto pode resultar muito bem como assemelhar-se ao que escreveria um chimpanzé agarrado a um teclado. No fundo, nem é muito diferente da minha própria escrita: a maior parte vai parar ao lixo e há uma coisa aqui, outra ali, que merece ser salva. (segue para aqui)

18 October 2024

(sequência daqui) JL - Por outro lado, a história trágica de Amelia Earhart, contém uma série de elementos quintessencialmente americanos, não é verdade?

 
     LA - Absolutamente! Ela era apaixonada pela velocidade e pela tecnologia. A ideia de poder estar a falar com as mulheres americanas motivava-a também muito. E casou com o assessor de imprensa: em cada pausa da viagem, falava com jornalistas contava-lhes detalhes, telefonava, enviava telegramas, escrevia o diário de bordo. Deixou um enorme registo da viagem! Mas tudo isto é o que nós fazemos: tecnologia, velocidade e guerra. Vendemos armas ao mundo. A II Guerra Mundial realmente acabou? Olhamos à volta - Israel, Rússia, Ucrânia - e pensamos que, provavelmente, durante algum tempo terá arrefecido um bocadinho mas agora parece estar a aquecer outra vez. (segue para aqui)

14 October 2024


(sequência daqui) JL - Trabalhar com uma orquestra transformou de alguma forma o seu modo habitual de encarar a música, o spoken word e a relação entre ambos? A fronteira entre a fala e o canto manteve-se mas, aqui, permitindo que, como nunca antes, este fosse invadido pela orquestra...
 

    LA - Trabalhar com orquestras é fascinante porque damos connosco a ter de lidar com aquele imenso corpo sonoro orgânico. É como uma espécie de paisagem. Se lhe acrescentarmos a dimensão tecnológica, abre-se um universo de possibilidades ainda maior: tanto permite concentrar-nos em detalhes ínfimos como alargar o ângulo sobre vastos espaços abertos. Além disso, também cometemos algumas heresias como, por exemplo, gravar baixo e bateria em último lugar, ao contrário do que é habitual. Usei a história de Amelia Earhart como estrutura narrativa, incorporando simultaneamente referências ao voo, ao desaparecimento e à comunicação.

    JL - Amelia reflecte, mais uma vez, o seu interesse na combinação de elementos pessoais, históricos e míticos na criação de peças totalmente contemporâneas mas de modo algum prisioneiras do seu tempo...  

  
     LA - A Amelia Earhart é, simultaneamente, uma heroína e um mito. Uma figura de exploradora corajosa que pretendeu romper limites mas que, ao mesmo tempo, se deixou capturar no espaço entre o sucesso e a extinção. Há qualquer coisa de muito perturbador nas últimas transmissões de rádio dela (um motivo que pontua todo o álbum), enviadas para o vazio, fragmentos de som que ficaram perdidos no ar, à deriva na vastidão. A voz dela estava lá mas inatingível. E falava-nos do medo de se sentir irremediavelmente perdida, de, pela quebra de comunicação, desaparecer sem deixar rasto. (segue para aqui)

10 October 2024

(sequência daqui) Laurie Anderson - É curioso porque, durante todo o processo de composição, nunca tive consciência dessa relação. E, de facto, ambas têm como desfecho um desastre. Não faço a menor ideia de por que motivo isso aconteceu. 

    João Lisboa - Amelia teve um longo percurso até atingir esta forma final... 

    LA - Amelia deu os primeiros passos em 2000. Foi uma encomenda. O Dennis Russel Davies - actual maestro da Filarmónica de Brno, na República Checa - veio ter comigo, disse-me que iria apresentar no Carnegie Hall um espectáculo cujo tema era o voo e no qual seriam apresentadas peças de Philip Glass, Kurt Weill, e Samuel Barber. E perguntou-me se não me apeteceria escrever também alguma coisa, se me sentia capaz de escrever uma obra orquestral. Não fazia a menor ideia de como o fazer. Não me pergunte porquê mas prefiro sempre sentir-me no lugar do principiante. Gosto de fazer coisas que não sei como fazer, se já sei fazê-las não me interessam tanto. Por isso, não me acobardei. E o resultado foi muito mau. Mesmo. No entanto, alguns anos depois, o Dennis veio ter outra vez comigo e disse-me que gostava muito das partes de cordas dessa primeira tentativa. Fomos, então, por aí e a recuperação nem resultou mal. O passo seguinte seria deixar de lado todo o resto. Por mim, o processo estava concluído. Mas, durante a pandemia, ele veio-me com a ideia de aproveitarmos esse tempo e gravarmos tudo. Na verdade, as três versões que foram sendo concretizadas têm entre si apenas uma relação familiar muito longínqua. E, uma vez que tenho em curso um outro projecto, Ark, precisava de concluir este com alguma rapidez. (segue para aqui)

06 October 2024

ENTRE O SUCESSO E A EXTINÇÃO
Pergunte-se a Laurie Anderson como travou conhecimento com a personagem histórica de Amelia Earhart - pioneira norte-americana da aviação e feminista, desaparecida tragicamente sobre o Oceano Pacífico, em 1937, quando tentava realizar a mais longa viagem de circum-navegação aérea da Terra - e ela explicará que, por algum motivo, desde a infância, parecia estar predestinada a cruzar-se com ela: "Devia ter 10 ou 11 anos e adorava contar e ouvir histórias. E a maioria delas era acerca de pessoas em aviões. A minha irmã mais nova sofria de insónias e, por isso, todas as noites a adormecia com mais um episódio da história de Judy Marie, uma personagem de ficção que eu tinha criado que guardava um avião na garagem e todas as noites partia em novas aventuras". É, pois, apenas natural que, daí, possa ter resultado um álbum como Amelia onde todos os fios que, habitualmente, se cruzam na obra de Anderson surjam reactivados e recontextualizados. Se, ainda que só implicitamente, a sombra de John Cage paire sobre toda a gravação (o acaso, a indeterminação, a incorporação do silêncio como elemento musical primordial e a noção de que toda e qualquer produção sonora é potencialmente musical - dos motores do Lockheed 10E Electra à cacofonia desnorteada de sinais radio no momento da queda sobre as imediações da ilha Howland), verdadeiramente significativo é que tenhamos conhecido Laurie Anderson quando, em 1981, antecipando o terror das Twin Towers, em "O Superman" cantava "Well, you don't know me, but I know you, and I've got a message to give to you: here come the planes, they're American planes, made in America" e, agora a reencontremos recordando-nos de um outro avião que se despenhou. (daqui; segue para aqui)

23 September 2024

 
(sequência daqui) No novo Amelia, a personagem que Laurie Anderson encarna é Amelia Earhart, pioneira feminina da aviação, na última e trágica etapa da sua vida quando, em 1937, morreu, durante a tentativa de circumnavegação aérea do planeta. Inspirada pelos seus diários de bordo, pelos telegramas que enviava ao marido ("Ela foi a blogger original!", garante Laurie) e "por aquilo que imagino que uma mulher voando à volta do mundo pensaria", a peça já passou por três encarnações: a primeira no Carnegie Hall, em 2000 ("Uma cacofonia, provavelmente o pior que já ouvi de uma orquestra", desabafaria ela ao "Guardian"); em 2003, com a Stuttgart Chamber Orchestra com direcção de Dennis Russell Davies; e, agora, com a checa Filharmonie Brno e superlativas orquestração e direcção de novo de Russell Davies e, igualmente, a participação de Gabriel Cabezas, Rob Moose, Ryan Kelly, Anohni, Martha Mooke, Marc Ribot, Tony Scherr, Nadia Sirota, e Kenny Wolleson. Pelo seu riquíssimo e intincado labirinto, circulam as memórias de quem, muito jovem, "era apaixonada pela beleza e liberdade do céu... de braços abertos, como as asas de um avião, fechava os olhos e corria!" e que, agora, diria à "Rolling Stone", se entrega à criação de uma música, "a que chamam 'multimedia', 'art music' ou, a que gosto menos, 'experimental'. Parece que estou num laboratório a lidar com produtos explosivos!..." Se, do passado, se pode inferir algo em relação ao futuro, o de Laurie Anderson permanece insondável: "Em S. Francisco leram-me as mãos. Aparentemente, nas vidas anteriores, fui uma linha infindável de centenas e centenas de rabis. Segundo parece, na minha primeira vida, fui uma vaca. Depois, um pássaro e, a seguir, um chapéu. Provavelmente, o chapéu foi feito com as penas do pássaro. Um chapéu conta como meia vida".

16 September 2024

 
(sequência daqui) Mas ela não nos dá descanso. Em "Dark Time In The Revolution" (de Homeland, 2010) - pela mesma altura na qual (a propósito da tentativa de ataque bombista da Al Qaeda, na véspera de Natal, num voo para Detroit), Osama Bin Laden quase a citaria: "Se as nossas mensagens pudessem ser transmitidas por palavras não as enviaríamos por avião" - as trevas desceriam um pouco mais: “You thought there were things that had disappeared forever, things from the Middle Ages, beheadings and hangings and people in cages, and suddenly they’re alright, welcome to the American night”. E, durante as nove horas da sua fantástica video-participação nas Norton Leectures - Spending The War Without You: Virtual Backgrounds, 2020), pudemos voltar a arrepiar-nos seriamente com a aproximação do perigo: “Nos meus piores pesadelos que podem ser muito gráficos, a iCloud desfaz-se e toda a informação precipita-se sobre nós. Nas noites mais difíceis, vejo Trump, os filhos e todos os seus amigos como Noé e a família, prestes a embarcar na nova Arca, um imenso navio de cruzeiros chamado Princess Ivanka. No último minuto, aparece Mark Zuckerberg na sua prancha de surf eléctrica, mesmo a tempo de iniciar o novo emprego dirigindo, organizando e personalizando todas as experiências no caminho para nenhures”. (segue para aqui)

09 September 2024

 
(sequência daqui) Voltaria igualmente à superfície a polémica citação de Don De Lillo que, em "The Cultural Ambassador" (de The Ugly One With The Jewels, 1995), ela usara, defendendo que "os terroristas são os derradeiros artistas que restam pois são os únicos capazes de verdadeiramente nos surpreender". Afinal, apenas uma versão menos entusiástica do que a de Karlheinz Stockhausen que, no calor dos acontcimentos, qualificaria o 11 de Setembro como “a maior obra de arte de todos os tempos, o sonho de qualquer músico: trabalhar durante dez anos para a realização de uma obra e morrer durante a consumação dela". Stockhausen nunca se retrataria mas, anos mais tarde, Laurie procuraria explicar-se: “A questão, quando se escreve sobre estética e política, é que a política e a arte estão sempre a mudar. Há um tempo e um lugar certos para abordarmos determinadas ideias que não são sempre necessariamente verdadeiras”. (segue para aqui)

06 September 2024

INTRINCADO LABIRINTO 

Tenham medo. Tenham muito medo. Laurie Anderson é exactamente o tipo de pessoa que, involuntariamente, quase sem se aperceber disso, actua como veículo de antecipação do futuro. Aquilo que, antigamente, se designava como profeta. Em 1981, no primeiro álbum Big Science, incluia 'O Superman', inviamente inspirada na ópera "Le Cid", de Jules Massenet, na qual, em gélido registo vocal, mecanicamente entoava: “Well, you don't know me, but I know you, and I've got a message to give to you: here come the planes, they're American planes, made in America (…) And the voice said: neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds”. Dez anos depois, uma semana e um dia após o atentado da Al Qaeda ao World Trade Center, Laurie Anderson actuaria no Town Hall de Nova Iorque. Durante a interpretação de peças como "Strange Angels" (“Big changes are coming, here they come, here they come”), "Let X=X" ("I feel like I am in a burning building... I gotta go"), e, sobretudo, "O Superman'", na própria gravação (Live At Town Hall, New York City, September 19-20, 2001) era palpável a tensa atmosfera glacial que se instalara. (daqui; segue para aqui)