A 17 de Fevereiro de 1978, os Clash publicaram o quarto single, "Clash City Rockers", no lado B do qual se encontrava "Jail Guitar Doors", uma canção que aludia à prisão de Wayne Kramer, dos MC5 (“Let me tell you 'bout Wayne and his deals of cocaine, a little more every day, holding for a friend till the band do well, then the D.E.A. locked him away”), três anos antes. Foi dela que Billy Bragg se recordou quando, em 2007, buscando uma ideia significativa para comemorar o quinto aniversário da morte de Joe Strummer, soube da iniciativa de uma cadeia de Dorset onde se ensaiava a reabilitação dos presos através de aulas de guitarra. Não apenas ofereceu, de imediato, diversos instrumentos como alargou também o âmbito do projecto – a que chamaria “Jail Guitar Doors” – a mais de 20 prisões e, em 2009, associou-se a... Wayne Kramer para a criação da “Jail Guitar Doors USA”. Integrada nesse programa, na California Institution for Women e na Lynwood Jail (ambas em Los Angeles), durante os últimos dois anos, apresentou-se como voluntária para orientar aulas de "songwriting", a também professora de Inglês para filhos de imigrantes, Eleni Mandell.
Embora com atraso, já a havíamos captado no radar há 12 anos, quando publicou Miracle of Five, o sexto álbum. Apadrinhada por Chuck E. Weiss – e pela corte de Tom Waits, em geral –, tão devota de Bukowski quanto de Gershwin, Cole Porter e Rogers & Hammerstein ou dos lendários punk angelenos, X, Mandell era ainda uma revelação que se enquadrava bem nessa atmosfera de família. É, por isso, algo indesculpável que só cinco álbuns mais tarde, com o actual Wake Up Again, tenhamos voltado a reparar nela. Mas compense-se a falha anunciando que este conjunto de 11 canções inspiradas pelas sessões de trabalho com as reclusas das duas penitenciárias femininas – advogadas, enfermeiras, donas de casa, professoras e traficantes de droga – é, sem dúvida, do mais precioso que essa particular linhagem do cancioneiro norte-americano já acolheu. Acompanhada por Ryan Feves (baixo), Kevin Fitzgerald (bateria) e pelo magnificamente waitsiano Milo Jones (guitarra), nestes instantâneos de perplexidade (“It wasn’t me who did those things, it was my circumstance”), claustrofobia (“She’s a box in a box, she’s underneath the floor, she’s a curtain that went down, she’s shut behind the door”) e desesperada esperança (“If I had the chance would I, could I wake up again?”), quase diríamos escutar Aimee Mann interpretada por Rickie Lee Jones.
26 June 2019
RATSO
Larry “Ratso” Sloman é aquilo que, tecnicamente, se designa por “um pintas”. Não carregando demasiado no jargão científico, pode mesmo considerar-se “um melga”. Pelo que é possível apurar-se do "mockumentary" de Martin Scorsese sobre a Rolling Thunder Revue, de Bob Dylan, se alguma unanimidade existia entre todos os participantes da aventura, era acerca de Sloman: o fulano era insuportável! Então jornalista da “Rolling Stone” enviado para cobrir a digressão, segundo a lenda, terá sido Joan Baez quem, devido às óbvias semelhanças com a personagem de Ratso Rizzo – o vigarista encardido de Midnight Cowboy, interpretado por Dustin Hoffman – lhe terá atribuído a alcunha de “Ratso” que nunca mais largaria. A meio do percurso, a “Rolling Stone” mandou-o passear mas Ratso, já mestre na técnica de lapa-cola-e-não-despega, manteve-se a bordo e daí resultaria o livro On The Road With Bob Dylan, que o próprio Zimmerman classificaria como “the War and Peace of rock and roll”. Seguir-se-iam o auto-explicativo Reefer Madness: A History Of Marijuana (com prefácio de William Burroughs), três volumes a meias com o figurão Howard Stern, várias biografias e The Secret Life of Houdini, no qual defende que o famoso" escape artist" era espião inglês e foi assassinado por uma conspiração de espiritistas.
À sua peculiar maneira, Ratso será um fala barato mas é também um sedutor. Só assim se explicam as amizades e ligações que foi estabelecendo e que, embora com um prolongadíssimo período de gestação, lhe permitiram, à beira dos 70 anos, gravar o seu... álbum de estreia, Stubborn Heart, com um leque de participações (directa ou indirectamente) absolutamente invejável. A começar por John Cale, aqui representado pelas duas canções – "Caribbean Sunset" e "Dying On The Vine" – que co-escreveu com Ratso (sim, é verdade, e com uma mãozinha de Tom Waits e Chuck E. Weiss, presentes no quarto de hotel de Sunset Boulevard onde o parto poético se deu), mas igualmente Nick Cave (num dueto em "Our Lady Of Light") que arrastou Warren Ellis, Dylan (via os 12 minutos inteirinhos de "Sad-Eyed Lady of the Lowlands") e Sharon Robinson, voz e esteio musical de Leonard Cohen, outro íntimo de Ratso. E é por aí que tudo corre muito mal: optando por aquele género de arranjos – teclados, coros femininos, e batida metronómica – que só ficavam bem a Cohen (mesmo quando lhe ficavam mal) e por um inacreditável registo vocal Dylan-imitando-Cohen-a-imitar-Dylan, não há como dar-lhe a benção. Já tinha idade para ter juízo.
Numa das inúmeras efabulações que Tom Waits dispara mal lhe colocam um interlocutor à frente, contava ele que, uma noite, numa loja de donuts, na esquina de Ninth e Hennepin, em Minneapolis, “o Chuck E. Weiss e eu estamos a beber café ao balcão quando somos apanhados no meio de uma guerra entre dois chulos de treze anos. (...) As balas acertam no fogão, numa nota de dólar emoldurada e num cão de porcelana. O Chuck e eu atiramo-nos ao chão no momento em que a 'jukebox' começa a tocar 'Our Day Will Come' da Dinah Washington. Todas as balas que lhe acertam mudam a selecção da 'jukebox' e cada canção é mais comovente que a anterior”. Conhecemos Chuck E. Weiss através de pouco mais do que episódios destes, por Waits o referir em "I Wish I Was In New Orleans" (e haver co-assinado com ele "Spare Parts", em Nighthawks At The Diner) e Rickie Lee Jones ter escrito "Chuck E’s In Love". Fora disso, para o mundo, Weiss é virtualmente inexistente, apenas uma personagem secundária nas biografias de outros.
E, aparentemente, dá-se bem com isso: se, pelo fim da década de 60, já tinha acompanhado lendas como Lightnin’ Hopkins, Muddy Waters ou Willie Dixon, durante os anos 70, deambulou pela cena do Tropicana Motel, de Los Angeles, em 1981, apercebeu-se que, lhe tinham publicado um álbum de demos que, imediatamente, excomungou e, durante os 18 anos seguintes, confessa candidamente, “andou distraído”. Talvez alarmado pela proximidade do fim do milénio, em 1999, gravou a estreia oficial, Extremely Cool (era mesmo) e, vertiginosamente, 2 anos depois, Old Souls & Wolf Tickets. Descansou 6 anos antes de 23rd & Stout e precisou de 7 para o actual Red Beans And Weiss. Não é, definitivamente, desta massa que se constroem os grandes impérios mas Weiss nunca jurou fidelidade a Max Weber. Basta-lhe – e ninguém reclama – ir apurando infinitamente o tempero da grande caçarola de blues, cajun, rockabilly, boogie, jazz e mariachi, cuidar dos três gatos domésticos e de mais meia dúzia de vadios, exibir as afinidades, à moda de Sgt.Pepper, na capa do álbum (de Rimsky-Korsakov a Lester Young, Hank Williams, Bessie Smith ou... os gatos) e, como respondeu a Waits quando este lhe perguntou que parte de uma refeição era ele, imaginar-se como “uma sobremesa: depois, a seguir, ainda há o café e, se calhar, a repetição”.
03 May 2014
VINTAGE (CCX)
Tom Waits - "I Wish I Was In New Orleans"
Well, I wish I was in New Orleans, I can see it in my dreams, Arm-in-arm down Burgundy, a bottle and my friends and me
Hoist up a few tall cool ones, play some pool and listen To that tenor saxophone calling me home And I can hear the band begin "When the Saints Go Marching In", And by the whiskers on my chin, New Orleans, I'll be there
I'll drink you under the table, be red-nosed, go for walks, The old haunts what I wants is red beans and rice And wear the dress I like so well, and meet me at the old saloon, Make sure that there's a Dixie moon, New Orleans, I'll be there
And deal the cards roll the dice, if it ain't that old Chuck E. Weiss, And Claiborne Avenue, me and you Sam Jones and all
And I wish I was in New Orleans, 'cause I can see it in my dreams, Arm-in-arm down Burgundy, a bottle and my friends and me New Orleans, I'll be there
How come he don't come and p.l.p. with me
Down at the meter no more?
How come he turn off the TV
And he hang that sign on the door?
We call and we call "How come?" we say
What could make a boy behave this way?
He learn all of the lines, and every time he
don't stutter when he talk
And it's true! It's true! He sure is acquired a
cool and inspired sorta jazz when he walk
Where's his jacket and his old blue jeans?
If this ain't healthy is it some kinda clean?
I think that Chuck E's in love
Chuck E's in love
I don't believe what you're saying to me
This is something I gotta see Is he here?
Look in the poolhall Is he here?
Look in the drugstore Is he here?
No, he don't come here no more
I'll tell you what I saw him
He was sittin' behind us down at the Pantages
And whatever it is that he's got up his sleeve
I hope it isn't contagious
What's her name? Is that her there?
Christ, I think he's even combed his hair!
Is that her? What's her name?
Oh, it's never going to be same.
But that's not her I know what's wrong Chuck E's in love with the little girl who's singing this song
A 11 de Janeiro passado, o mundo tomava conhecimento de que Mohamed Abdi Hassan, aliás "Afweyne" (“desbocado”, em somali), após uma portentosa carreira de oito anos como pirata nos mares da Somália – proezas maiores: as capturas de um cargueiro ucraniano carregado de armas e de um superpetroleiro saudita que transportava dois milhões de barris de crude avaliados em cerca de 100 milhões de dólares –, retirava-se da actividade (alegando “a falta de presas devido ao reforço de segurança nos mares efectuada por forças internacionais”) e encorajava os seus camaradas a fazerem o mesmo. Anunciava ainda ter já “estabelecido contactos com o novo governo da Somália de forma a podermos abandonar este trabalho sujo”.
De facto, a pirataria contemporânea não tem boa imprensa – nada que possa comparar-se com a dos tempos heróicos narrados na General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates (1724), do enigmático capitão Charles Johnson, e modernamente glorificada por Stephen Snelders e Hakim Bey em The Devil's Anarchy (2005) – mas nem isso chegará para justificar o espanto do autor da notícia quando comentava que "Afweyne", vestido à ocidental, com camisa branca, casaco escuro, barba feita e óculos Ray-Ban, “parecia mais um homem de negócios que um pirata”. Como demasiado bem sabemos (BPN, BPP, Madoff et alia, fazem soar campainhas?), uma coisa não costuma excluir, necessariamente, a outra.
É preferível, por isso, investir mais nos piratas clássicos do que nos actuais (de várias pintas), empreendimento que, à boleia do "franchise" cinematográfico da Disney, Piratas das Caraíbas, com cais de partida em Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs And Chanteys (2006), Johnny Depp, Gore Verbinsky e Hal Willner, prosseguem, agora, com notório deleite, no novo (igualmente) duplo, Son of Rogues Gallery. O casting de corsários, no primeiro CD, é praticamente imaculado: içam-se as velas ao som do lendário bucaneiro, Shane MacGowan, em "Leaving Of Liverpool", Robyn Hitchcock, a magnífica Beth Orton e Sean Lennon mantém o rumo até os oceanos se revolverem nas profundezas com o "Shenandoah" de Tom Waits e Keith Richards e, até ao final, por entre flibusteiros de longo curso como Chuck E. Weiss, Patti Smith, Gavin Friday e outros sérios candidatos ao posto de capitão (a óptima Shilpa Ray, mas também Macy Gray, Ivan Neville, Kenny Wollesen), a bandeira negra é hasteada bem alto em "Asshole Rules The Navy" onde Iggy Pop e A Hawk And A Hacksaw filosofam sobre o que viria a ser o modelo de relacionamento futuro entre fiscais das finanças e ex-secretários de Estado portugueses.
As águas são indesejavelmente menos encapeladas no segundo disco onde verdadeiros sobressaltos apenas ocorrem com Richard Thompson ("General Taylor"), no "Rio Grande" de – quais Anne Bonny e Jack Rackham – Michael Stipe e Courtney Love, e na ébria "shanty", "The Dreadnought" (Iggy outra vez). Mas qualquer rodela de plástico que, nem que seja durante 1’51”, nos permita escutar a raríssima Mary Margaret O’Hara merece canonização instantânea.
26 September 2007
TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XV)
"Vi Monti Rock III, em 1969, no Sunset Strip, num sítio chamado Filthy McNasty's, onde estavam seis pessoas na sala. Arrastava-se numa versão amarga e distraída de 'Tennessee Waltz' quando, subitamente, interrompeu a banda cujos elementos vestiam todos fatos cor-de-rosa, a condizer. A sala guinchou com o feedback, no momento em que ele atirou com o copo contra a parede e golpeou o amplificador com o suporte do microfone, berrando para os seis engravatados do público que eles não passavam de vampiros. Ria-se nervosamente e, enquanto transpirava debaixo do foco luminoso, entregou-se a uma confissão puramente psicótica que se assemelhava ao cruzamento entre uma execução e um striptease. Num estilo algures entre chulo e pregador, contou histórias de quando tinha sido cabeleireiro em Porto Rico e sobre a sua ambição de vir a ser alguém em Hollywood. Depois, recompôs-se e cantou 'I Who Have Nothing' a cappela. Eu estava lá e compreendi, nesse mesmo momento, que tinha de entrar para o show business o mais rapidamente possível.
(...)
"Foi na véspera de Natal de 1975, em Hollywood, na Califórnia. Estava de visita a uns amigos e a fazer as libações da quadra festiva quando chegámos todos à conclusão que a aparelhagem do vizinho estava alta de mais — os Mahogany Rush no volume máximo. Alimentado de coragem líquida, ofereci-me para o confronto, cambaleei por dois lanços de escadas acima e bati à porta com um pedaço de lenha. Um gigante abriu a porta. Tinha dois metros e meio de altura e uma cabeça do tamanho da de um cavalo. Disse qualquer coisa em alemão, levantou-me pelo pescoço como um animal empalhado e tentou atirar-me da varanda abaixo. No momento em que a balaustrada cedeu, agarrei-me a ele e caímos os dois, da altura de dois andares, sobre uma quantidade enorme de bicicletas. Tinha-me pegado pelo cinto como se eu fosse uma mala e preparava-se para me enfiar a cara numa torneira quando me desatei a rir. E, quando dei por isso, ele estava a rir-se comigo. Ali estávamos nós, eu e o gigante, a rebolar no chão às gargalhadas, com os Mahogany Rush em altos berros e um Pai Natal e uma rena com luzes eléctricas a acender e a apagar, a gozarem connosco. Foi o meu primeiro momento de heavy-metal a sério.
(...)
"Quando era rapaz, costumava mergulhar à procura de pérolas nas águas quentes da costa de Guaymas e San Felipe onde, um dia, descobri um navio afundado perto de San Blas. Penetrei nele através de corredores sombrios, agarrando-me aos corrimãos, a caminho da cozinha e da sala de jantar. Forcei uma escotilha encravada, espreitei para dentro e vi cem esqueletos — todos sentados à mesa e de smoking — que, de repente, se levantaram, ergueram os braços e começaram a acenar-me. Os corpos estavam em decomposição mas os smokings eram perfeitos.
(...)
"Em Hermosillo, uma prostituta anã subiu para o meu banco no bar, sentou-se-me ao colo, pediu um Double Suicide para beber e contou-me como tinha assassinado o chulo dela, a sangue frio, no Bali-Hai de Tijuana. Isso tinha-se passado há trinta anos, desde então tornara-se cristã 'born again' e queria que eu a ajudasse a juntar dinheiro para ir a Fátima.
(...)
"Quando tinha dez anos, fui a uma feira popular em San Vicente. Vi uma mulher que tinha uma cauda de trinta e cinco centímetros coberta de pelos. Era mesmo verdadeira. Deixou-me mexer-lhe e sorriu-me com os seus dentes podres. Um acordeão tocava polcas ranhosas de maneira a pôr-nos os ouvidos em sangue e, durante toda a noite, só comi churros até que a feira não fosse senão um borrão luminoso. Com a boca cheia de açúcar, a cabeça a andar à roda e os ouvidos a zumbir, regressámos ao rancho num atrelado carregado com trinta putos, escuros como breu e todos a gritar em castelhano. No dia seguinte, estava tão enjoado que me puseram numa das casas exteriores, longe do edifício principal. Tinha a certeza que me tinham largado ali para morrer, por isso aceitei o facto com uma amável tranquilidade. Todos os dias uma miudinha mexicana me ia visitar e eu lambia o Kool Aid da mão dela. O médico, esse, era parecido com o Charles Boyer e punha-se de pé junto a mim, com uma seringa gigante na mão, a falar em português e a esguichar o sôro amarelo para o ar.
(...)
"Uma loja de donuts aberta toda a noite, na esquina de Ninth e Hennepin, em Minneapolis. É já tarde e o Chuck E. Weiss e eu estamos a beber café ao balcão quando somos apanhados no meio de uma guerra entre dois chulos de treze anos. Um deles está na rua aos tiros e o outro corre para dentro do café, mergulha desarmado para trás do balcão e grita:'Leon, és um homem morto!'. As balas acertam no fogão, numa nota de dólar encaixilhada e num cão de porcelana. Chuck e eu atiramo-nos ao chão no momento em que o jukebox começa a tocar 'Our Day Will Come' da Dinah Washington. Todas as balas que lhe acertam mudam a selecção do jukebox e cada canção é mais comovente que a anterior.
(...)
1993
(2007)
19 July 2007
PIRATA NO MAR ALTO
Do outro lado do telefone, ao meio dia de Los Angeles, responde-me uma voz afeiçoada ao calor do "bourbon" desde o biberão. E começa por me fazer queixas amargas acerca do jornalista anterior que lhe telefonou com vinte minutos de atraso em relação à hora combinada, motivo pelo qual o mandou passear. Asseguro-lhe que eu não sou ele e, depois de me obrigar a prometer-lhe que não deixarei de participar tão grave ocorrência à editora, então, Chuck E. Weiss, dispõe-se a conversar. Chuck quê? A personagem é tão mítica quanto obscura e caracteriza-se por duas referências em canções de Tom Waits e Rickie Lee Jones e uma portentosa discografia de dois álbuns separados por um espaço de dezoito anos em que, desculpa-se ele, "esteve distraído". O segundo, Extremely Cool, co-produzido por Tom Waits, Johnny Depp e Kathleen Brennan acaba de ser publicado e (quem sabe?) passará a constituir o essencial do seu reportório até 2017. No final da entrevista, reconhecido, o cavalheiro diz-me "Thank you, sir, for making it easy for me". De nada, Chuck.
Desde que, em "I Wish I Was In New Orleans", o Tom Waits se referiu a "that old Chuck E. Weiss" e, pouco depois, Rickie Lee Jones lhe dedicou "Chuck E.'s In Love", sempre me interroguei quem seria essa personagem misteriosa. Agora que sai este seu disco, vai ter de me desvendar o enigma...
Na altura em que o Tom Waits escreveu "I Wish I Was In New Orleans", eu andava muito com ele e escrevíamos canções em conjunto. Há até uma canção minha, "Spare Parts", que ele incluiu em Nighthawks At The Diner. Conheço-o e somos amigos desde 72 embora não nos tenhamos encontrado aqui em Los Angeles mas sim em Denver, no Colorado, de onde eu sou. Por volta de 75, mudei-me para cá e conheci a Rickie Lee que era empregada de mesa e, ao mesmo tempo, tentava começar a cantar o que conseguiu, pela primeira vez, no "Troubadour" onde eu trabalhava como cozinheiro. Tornámo-nos amigos e, mais tarde, fui eu que a apresentei ao Tom. Pode-se dizer, figurativa mas não literalmente, que eu fui o "middle man" entre eles os dois.
Quando a Rickie Lee escreveu essa canção sobre si, estava mesmo apaixonado?
Não tenho bem a certeza, vai ter de lhe perguntar a ela! Sabe, naquele tempo, eu também me apaixonava com muita facilidade...Agora já não tenho tanta sorte...
Para além do Tom Waits e da Rickie Lee Jones de que conhecemos os percursos, o que aconteceu depois a esse grupo de artistas de que vocês faziam parte?
Essa cena tinha como quartel general o Tropicana Motel que era onde vivia a maioria dessas pessoas como nós, o Sam Sheppard ou o grupo punk Dead Boys. Quando os Blondie ou os Ramones vinham a Los Angeles, também ficavam lá. Não sei se está a ver, mas era um sítio bastante doido, como um dormitório sem vigilantes...(risos). Nunca ninguém deu um nome a essa nossa pequena cena apesar de ela ser muito especial. E parece-me que isso foi bom porque, até hoje, nunca foi explorada por ninguém. Agora, de repente, toda a gente parece muito interessada nela mas, na altura, era uma coisa bastante privada onde experimentávamos bastante com o "spoken word" que foi exactamente o mesmo ponto onde o rap e o hip hop acabaram por ir ter.
Entretanto, há dezoito anos, chegou a gravar um primeiro álbum que eu nunca consegui encontrar...
Ainda bem que nunca o ouviu porque desconfio que não gostaria muito dele. Chamava-se The Other Side Of Town e era uma "demo tape" que a Select transformou em disco porque não conseguiram arranjar dinheiro para eu gravar canções novas. Ficou bastante inacabado. Sei que, em França, foi distribuido pela RCA Victor.
Li no "New Musical Express" que a justificação que dá para ter passado dezoito anos sem gravar é ter andado distraído...
Pois, é mesmo verdade, andei um bocadinho distraído...(risos). Mas, durante estes dezoito anos, toquei sempre, pelo menos duas vezes por semana, em clubes, bares ou na televisão. Nunca deixei de dar concertos.
Sei que também, juntamente com o Johnny Depp, se ocupou do clube "Viper Room"...
Foi um dos sítios onde, durante quase doze anos, eu toquei. Quando um dos donos morreu e o clube (que se chamava "The Central") ficou numa situação económica complicada, perguntei ao Johnny Depp se ele não estaria interessado em comprá-lo. Mudámos-lhe o nome para "Viper Room" porque ambos adoramos a "viper music" dos anos 20 e 30, aquele jazz que o Cab Calloway, o Duke Ellington ou o Cootie Williams tornaram famoso e que era típico de New Orleans, Chicago e Nova Iorque.
Que outras músicas foi ouvindo?
Praticamente tudo o que não quer dizer que goste de tudo. Tenho gostos muito particulares. Gosto de música pouco rebuscada e parece-me que a dos últimos vinte anos tem-no sido demais. Gosto de tijuanas, de um tipo noruguês chamado Lucas, de Scatman John, dos dois primeiros álbuns dos NWA e de uma "singer/songwriter" de Los Angeles, Eleni Mandell.
Fiz-lhe essa pergunta porque, neste seu disco, oiço ecos de "cajun", música de New Orleans, delta blues, dos Cramps...Está de acordo ou estou a dar tiros ao lado?
Não, tem toda a razão à excepção de que, apesar de nunca ter realmente ouvido muito os Cramps, se calhar, fui também influenciado pelo mesmo estilo "swamp" que eles. A canção "cajun" a que provavelmente se refere, "Oh Marcy", na realidade, não pretendia ser nesse estilo, a ideia era mais ser como uma "sea shantie" cantada por piratas no mar alto!...(risos). Mas saiu assim.
Qual foi a participação real de Tom Waits neste disco?
Escrevemos em conjunto duas canções e ele ajudou-me em certas decisões da produção em relação ao alinhamento e também na escolha do que incluir do total de vinte e duas canções que eu tinha.
É verdade que o "bluesman" Willie Dixon lhe chamava "that little jew boy from Colorado with the big old head"?
Ele disse isso, de facto, numa entrevista que deu pouco antes de morrer. Cantei e gravei com ele cerca de dez canções das quais três foram publicadas a meio dos anos 70 por uma editora que já não existe chamada Rolling Rock. Já houve quem me pedisse para autografar um desses discos mas são muito difíceis de descobrir.
Chamou ao álbum Extremely Cool. É assim que vê a sua música?
Não, esse é só o título de uma das canções que faz pouco de um certo tipo de pessoas com enormes contas bancárias e pilas muito pequeninas! (risos).
"Se David Lynch abrisse um bar de strip-tease a meio caminho entre os blues, o jazz e o submundo, Chuck E. Weiss seria o perfeito mestre de cerimónias". Concorda com esta definição que deram de si?
Não sei, tinha de pensar muito bem nisso. Mas, primeiro, iam ter de me assegurar que o David Lynch tinha mudado de corte de cabelo. Faz-me muita impressão olhar para ele assim... (1999)
11 April 2007
VELUDO E NICOTINA
Eleni Mandell - Miracle Of Five
Quando, em Novembro do ano passado, propus a Laura Veirs que indicasse os “songwriters” actuais de que se sente mais próxima, o primeiro nome na ponta da língua foi o de Eleni Mandell. Seis anos antes, acontecera exactamente o mesmo, em conversa com Chuck E. Weiss (a lendária personagem desaparecida de “I Wish I Was In New Orleans”, de Tom Waits, e de “Chuck E’s In Love”, de Rickie Lee Jones, então em período de regresso ao mundo dos vivos com Extremely Cool), tinha Eleni ainda gravado apenas Wishbone (de 1999, produzido por Jon Brion) e Thrill (2000). Pouco depois, tropecei em New Coat Of Paint, um bastante pouco memorável álbum de homenagem a Tom Waits, onde não se salvava muito mais do que a sua versão de “Muriel” e a de Neko Case para “Christmas Card From A Hooker In Minneapolis”.
As peças começavam a juntar-se. Mas, só agora, ao sexto álbum de Eleni Mandell, se pode, finalmente, enxergar a configuração total da genealogia: produzido por Andy Kaulkin (responsável pela Anti que acolhe também Jolie Holland, Danny Cohen, Nick Cave, Neko Case e Tom Waits), Miracle Of Five convocou uma associação instantânea de todos esses nomes acrescentados dos de Ambrosia Parsley/Shivaree, PJ Harvey, Fiona Apple ou Cat Power.
Sim, existe aqui, sem dúvida, uma inegável atmosfera de família. Que ela própria, Eleni, não desmente: ajoelha perante Weiss que a apresentou a Waits e, aí mesmo, estabeleceram uma sociedade de apreciação mútua, jura que a sua mais preciosa relíquia é um poema que Charles Bukowski lhe autografou, coloca em plano de igualdade enquanto factores decisivos na sua formação o dicionário de rimas que Mrs Block (a professora do 6º ano) lhe ofereceu por ocasião do Bar Mitzvah e uma adolescência passada a ouvir a banda punk de Los Angeles, X, e confessa que a sua veia de “songwriting” entronca na linhagem dos Gershwins, Porter e Rogers & Hammerstein tal como Ella Fitzgerald, Nina Simone ou Billie Holiday os cantaram. Ah, e não dispensa o golfe e a máquina de costura.
Suponho que, através desta “declaração de interesses”, começarão a ficar com uma ideia do que Miracle of Five (capa inspirada em Saul Bass, designer gráfico dos genéricos de The Man With The Golden Arm, Psycho, Vertigo e inúmeros outros filmes clássicos) contém: um cocktail em registo “after-hours” de folk, jazz, blues e country (Andy Kaulkin chama-lhe “o elo perdido entre Hoagy Carmichael e Leonard Cohen”) para guitarras eléctrica e acústica (Nels Cline, dos Wilco), dobro, lap-steel, banjo, orgão, mellotron, sax, harpa, clarinete e a voz de veludo e nicotina de Eleni enroscada em melodias e palavras como “I am a marble the color of candy, I’ll make you money whenever you’re gambling, I am the dice you roll in the alley, I am the pennies that come in handy”. A garrafa de “bourbon” é um acessório de escuta obrigatório. (2007)