Robert Forster - Influences On Strawberries
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06 August 2025
31 July 2025
OS 4 PILARES
Das profundezas do Instagram, Robert Forster esclarece-nos acerca dos 4 pilares sobre os quais assenta o seu último álbum, Strawberries: "É o meu primeiro álbum de 8 canções. Há décadas que desejava gravar um álbum com 8 canções. Há centenas de milhares de óptimos álbuns com 8 canções. Provavelmente, o primeiro verdadeiramente marcante foi Marquee Moon, dos Television. Costumava escutar aquelas 4 canções de cada lado do disco e tudo era belo e perfeito". De seguida, o segundo pilar: "Há 3 bandas de Nova Iorque que sempre adorei: The Lovin' Spoonful, Talking Heads e Vampire Weekend. Para mim, estas bandas, em décadas diferentes, criaram música pop inteligente e corajosa. Consigo ouvir ecos de tudo isso em 'Good To Cry'". Abrindo uma outra via, é a vez de Leonard Cohen: "Neste álbum, evitei escrever na 1ª pessoa. Quis escrever com um narrador diferente e o Leonard deu-me uma ajuda nisso. Neste processo, apenas o usei numa canção, 'All Of The Time'". (daqui; segue para aqui)
26 December 2024
LIMPEZA, RESTAURO E RECONSTRUÇÃO
Não há forma de lhes fugir. Pode atribuir-se-lhes muita, pouca ou nenhuma importância mas, a partir do momento em que, mais ou menos espontaneamente, surgem, é garantido que - para além do que de valioso produzam - a indústria rapidamente fará tudo o que estiver ao seu alcance para as esterilizar, normalizar, infinitamente replicar e converter em marcas registadas. Falo, naturalmente, das inúmeras "scenes" que, numa interminável corrida de estafetas, recebem o testemunho da anterior e logo o passam à seguinte. Breve revisão: o “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths); a breve mas intensa "no wave" novaiorquina; o lerdo grunge de Seattle; a coreografia química de Madchester; o "british jazz revival" de Sade, Weekend/Working Week ou Everything But The Girl; a languidez de Bristol; enfim, a cintilante polivalência da "Brooklyn scene" (Dirty Projectors, Vampire Weekend, The National, My Brightest Diamond). (daqui; segue para aqui)
Lone Justice - "Teenage Kicks"
24 March 2021
OLD, WEIRD BRITANNIA
"Sumer Is Icumen In" é o mais antigo cânone inglês, escrito no dialecto de Wessex do Middle English, na segunda metade do século XIII. O manuscrito no qual foi descoberto encontrava-se na abadia de Reading e é incertamente atribuído tanto a John Farnsette – monge dessa abadia – como a W. de Wycombe (aliás, Willelmus de Winchecumbe ou William of Winchcomb), compositor e copista do Herefordshire. Ouvimo-lo já neste século no preciosíssimo 1000 Years Of Popular Music (2003), de Richard Thompson – essa fantástica viagem que se inicia, justamente, com "Sumer Is Icumen In" e, passando por Orazio Vecchi, Thomas Morley, Gilbert & Sullivan, Cole Porter, Easybeats, Kinks e tradicionais vários, se conclui, em glória, com Britney Spears –, e, mais recentemente, como porta de entrada em forma de "sample", para Half-Light (2017), do Vampire Weekend foragido, Rostam Batmanglij. Serve, agora, também como título de mais uma colectânea da Grapefruit, selo da Cherry Red para raridades museológicas: Sumer Is Icumen In: The Pagan Sound of British & Irish Folk 1966-1975.(daqui; segue para aqui)
Spriguns Of Tolgus - "Flodden Field"
26 December 2019
MÚSICA 2019 - INTERNACIONAL (IV)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 40)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
Esqueçam a lista de dez que acabaram de ler. Não só a ordenação é consideravelmente arbitrária como, nos lugares que esses ocupam, se escolhidos noutro dia e a outra hora, poderiam, sem grande esforço, residir outros tantos igualmente valiosos. Para que constem: Robert Forster – Inferno, Bill Callahan – Shepherd In A Sheepskin Vest, The Monochrome Set – Fabula Mendax, Trash Kit – Horizon, Vanishing Twin – The Age of Immunology, Trupa Trupa – Of the Sun, Modern Nature – How to Live, Laurie Anderson – Songs From The Bardo, Gauche – A People’s History of Gauche, Jesca Hoop – Stonechild, The Delines – The Imperial, Sunwatchers – Illegal Moves, Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold, School of Language – 45, Rickie Lee Jones – Kicks, Edwyn Collins – Badbea, Filthy Friends – Emerald Valley, Sean O’Hagan – Radum Calls, Radum Calls, Divine Comedy – Office Politics, Orchestra of Spheres – Mirror. Sim, foi um ano muito bom.
30 July 2019
FORA DA JAULA
“O que é importante é preservarmos a nossa voz autêntica. Ser verdadeiros para com nós mesmos. Pôr de quarentena a expressão ‘apropriação cultural’. Se me apetecer fazer rap... claro que vou fazer rap. Posso vestir-me como um monge... ou um junkie... enquanto faço rap. A música é uma arte. Divirtamo-nos com ela. Não tolero que me venham dizer que não posso cantar de determinada maneira porque não nasci em Timbuktu. Temos de exprimir o que sentimos. Se somos camaleões, deixemos que as nossas cores mudem e brilhem. Incorporemos novas linguagens. O que quero dizer é que resistirei sempre à ideia de que não posso jogar com formas de expressão que não provenham da minha educação ou do meu ambiente próximo. O mundo é a nossa ostra e a arte é liberdade”, dizia Jesca Hoop, há três anos, à “Folk & Tumble”. Na altura, a propósito de Love Letter For Fire, uma colaboração com Sam Beam, Hoop falava apenas do esbatimento de fronteiras entre a folk e a pop ter-se transformado numa constante da sua música.
Mas o assunto estende-se, inevitavelmente, ao larguíssimo espectro de proibições (musicais, literárias, iconográficas, étnicas, de género) com que as inquisições do tribalismo identitário, imaginando-se intrépidas combatentes contra a pilhagem cultural do Ocidente face ao resto do mundo, não fazem mais do que – como poucas semanas após a entrevista de Jesca Hoop, a escritora Lionel Shriver alertava numa conferência em Brisbane – “abraçando identidades de grupo estreitas, encerrar-nos nas próprias jaulas em que nos querem aprisionar”. Não falando dos 40 000 anos de “apropriação cultural” a que chamamos História da Música, recordemos só que muitos dedos acusadores se viraram, por exemplo, para Paul Simon, Talking Heads ou Vampire Weekend, e, agora, dificilmente deixarão de o fazer em relação às Trash Kit. Trio feminino com as Slits, Au Pairs, Raincoats e Talking Heads a correr-lhes nas veias e Thomas Mapfumo a comandar cada dedilhado da guitarra de Rachel Aggs, Horizon é um magnificamente hiperactivo exercício de telepatia – "We play in tune not touching, we play in time not listening" –, com o Zimbabwe e Soweto num canal e o pós-punk no outro. Dirigido (mas não em exclusivo) a “young, queer and mixed race people”, vitaminado pelas ferroadas do sax de Dan Leavers (The Comet Is Coming) e pela harpa de Serafina Steer, nas gloriosas descolagens afro-psych-e-tudo-à-volta de "Disco", "Coasting" e "Every Second", avança destemido para o inferno dos “apropriadores”.
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27 June 2019
07 May 2019
Em Maio de 2018, cinco anos após a publicação de Modern Vampires of the City, Ezra Koenig anunciou ao mundo que, o novo álbum dos Vampire Weekend (intitulado “Mitsubishi Macchiato”) estava “94.5% concluído”. Aparentemente, os 5.5% que faltavam terão sido os mais difíceis uma vez que foram necessários outros doze meses para que o afinal designado Father of the Bride fosse publicado. Se, no início, terá estado uma interrogação essencial – “Porque precisaria o mundo de mais um capítulo nesta história?” –, na verdade, como explicou Koenig ao “New Musical Express”, ter-se-á tratado apenas de converter em modus operandi viável o velho lema de dar tempo ao tempo: “Por vezes, tenho a sensação que devo começar a trabalhar muito rapidamente, outras vezes parece-me que posso ir mais repousadamente. Quando temos um problema para resolver, primeiro, pensamos muito nele e, depois, conscientemente, metemo-lo na gaveta. Vemos televisão, vamos passear o cão, e, de súbito, a solução aparece. É a música que nos guia”. E a solução surgiu em tal abundância que chegou a ser considerada a possibilidade de assumir a forma de dois álbuns duplos com 23 canções cada, “uma espécie de mapa do genoma humano”.
Father of the Bride (entre várias outras pistas, obliquamente inspirado no filme homónimo, de 1991, com Steve Martin e Diane Keaton, remake do de Vincente Minnelli, de 1950, com Spencer Tracy e Elizabeth Taylor), acabaria por se ficar pela duração de uma hora e 18 faixas, algumas de um minuto e picos, outras, chegando aos cinco: “Umas são ensaios, outras são haikus. Neste momento, 10 ou 12 canções já não nos chegam. Se fosse mais curto, teríamos de deixar de fora momentos importantes”.
Na verdade, depois da saída do fundador Rostam Batmanglij, a necessária reconfiguração da banda – agora, Koenig, Chris Baio, Chris Tomson e, em palco, mais quatro músicos que se ocupam de, pelo menos, quatro teclados e duas baterias – teve de se acomodar às múltiplas actividades extracurriculares de Ezra: o programa bissemanal, “Time Crisis”, na Apple's Beats 1 radio (política, História e erudição pop), a criação da série de animação americano-nipónica da Netflix, Neo Yokio (fantasia e metáfora política com as vozes de Jude Law, Susan Sarandon e Jason Schwartzman), a participação na banda sonora de Peter Rabbit e o apoio à candidatura presidencial de Bernie Sanders.
De certo modo, tudo isto se reflecte naquilo que Father of the Bride veio a ser: a sua natureza profunda de “livro de recortes” e "bits and pieces", o intrincado jogo de referências cruzadas e pistas (mais ou menos) ocultas, o delicado equilíbrio entre frivolidades e comentário socialmente atento. Por vezes, em simultâneo: "Harmony Hall" combina o olhar desencantado sobre a América de Trump (“And the stone walls of Harmony Hall bear witness, anybody with a worried mind could never forgive the sight of wicked snakes inside a place you thought was dignified") com a constatação da impossibilidade de não tomar posição (“Anger wants a voice, voices wanna sing, singers harmonize 'til they can't hear anything, I thought that I was free from all that questionin' but every time a problem ends, another one begins”), a ácida alusão à identidade judaica (“Beneath these velvet gloves, I hide the shameful crooked hands of money lender, ‘cause I still remember”) e a piscadela de olho auto-referencial (“I don't wanna live like this, but I don't wanna die”, picada de "Finger Back", do album anterior).
Escute-se com a máxima atenção e uma lupa auditiva e, pelo meio da falsa simplicidade deste sofisticado exercício pop urdido com a cumplicidade de Danielle Haim, Jenny Lewis e Jake Longstreth, tropeçarão ainda em Jerry Garcia, Van Morrison, Albert Hammond, Haruomi Hosono, Hans Zimmer, a Declaração de Balfour, de 1917, ou a supremacia branca. Para Koenig, apenas uma pura evidência e inevitabilidade: “Por vezes, a crítica não é necessária, basta mostrar a realidade através de uma lente. Cada álbum fala do seu tempo, reflecte um momento histórico e a relação que com ele temos. Deliberadamente ou não”.
26 September 2017
PREVARICAR
Há divórcios (mais ou menos) felizes. Não sabemos ainda como será o quarto álbum dos Vampire Weekend – repetidamente anunciado desde o início deste ano – após a partida, em Janeiro de 2016, do multi-instrumentista, compositor, arranjador e produtor Rostam Batmanglij mas podemos já escutar Half-Light, o primeiro álbum dele a solo. E, porque a separação foi amigável, permanece aberta a possibilidade de continuar a trabalhar em regime de "outsourcing" com a banda de origem. Não que esta tenha sido a sua primeira aventura extra-“matrimonial”: já antes com Frank Ocean, Solange, Hamilton Leithauser, ou Wes Miles (Ra Ra Riot), no intrigante projecto Discovery, ele prevaricara. Mas, desta vez, no ponto de partida, havia um plano verdadeiramente ambicioso: “Tentar compor a música mais complexa sobre a qual alguém poderia cantar. Há uma quantidade de regras que desejo quebrar, tenho um impulso incontrolável para quebrar regras. Quis fazer um disco no qual não se possa exactamente dizer o que é a canção e o que é o arranjo de cordas. Um pouco aquela combinação entre a música clássica e o idioma da canção que ouvimos na pop francesa, nos Beatles ou no Tropicalismo brasileiro”.
A primeira faixa, "Sumer", estabelece, imediatamente o tom: algo semelhante a uma versão de "Three Blind Mice" em registo transtornadamente coral "à la" Animal Collective. Mas tudo o que virá a seguir deixará bem assente a ideia de que nada do que pingue na paleta de Rostam deixará de ser utilizado: "Bike Dream" é um exuberante exercício de experimentação texturada sobre a estrutura pop tradicional, "When" desliza da "rêverie" vocal ("When you know something how do you know that you know it?”) para uma fantasmagoria "spoken word" acerca da distribuição da riqueza e o complexo militar-industrial norte-americano, "Rudy" preguiça encostada a um reggae com implante de sopros "free form" que se dissolvem em pura transpiração sonora e "Warning Intruders" é um cristal flutuante de transparências digitais. São, porém, "Wood" (quase 6 minutos de um beat construido em torno de samples de tabla e sitar, uma guitarra de 12 cordas afinada como um "tar" persa e vertiginosas cordas bollywoodianas) e "Gwan" (a vitória da Penguin Cafe Orchestra perante os avanços de uma percussão marcial) que praticamente garantem que, da dissolução da parceria Koenig/Batmanglij não resultará catástrofe idêntica à que aconteceu com Lennon & McCartney.
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22 June 2016
AFINAL, NÃO É ESTRANHO
Primeiro, escuta-se uma "bent note" tocada no "gopichand" – um instrumento asiático de uma só corda – que, sem que nos apercebamos, se transforma em uivo de lobo. Após dez segundos de uma intrincada teia de universos rítmicos sobrepostos (que persistirá e se adensará até ao final), a voz canta: “Milwaukee man led a fairly decent life, made a fairly decent living, had a fairly decent wife, she killed him… ahhh, sushi knife, now they’re shopping for a fairly decent afterlife... the werewolf is coming”. E, alçada nessa metáfora do lobisomem, enquanto sopros, percussões e electrónica se preparam para ceder o lugar aos acordes de um orgão de "horror movie", mostra-nos o fim do mundo: “Life is a lottery, a lot of people lose, and the winners, the grinners, with money-colored eyes, eat all the nuggets, then they order extra fries (...) You’d better stock up on water, canned-goods off the shelves, and loot some for the old folks, can’t loot for themselves”. Acabámos de escutar o tipo que, há quase meio século, escreveu “Can you imagine us, years from today, sharing a park bench quietly? How terribly strange to be seventy”.
Afinal, não tem nada de estranho e, à beira dos 75 anos, Paul Simon (ele, perante quem Andrew Bird, Vampire Weekend, Dirty Projectors e Merrill Garbus/tUnE-yArDs ajoelham), muito longe de enganar as horas em bancos de jardim, ocupou-se a criar um dos mais ricos e audaciosos álbuns da sua discografia. A companhia (Nico Muhly, yMusic, Jack DeJohnette, Vincent Nguini, Cristiano Crisci/Clap! Clap!) foi inspiradora e as fontes de alimentação (Harry Partch, Laurie Anderson, a história e a política americanas) suficientemente estimulantes para que Stranger To Stranger se deixasse construir enquanto assombroso objecto multifacetado que tanto devora um "sample" do Golden Gate Quartet e compõe em torno dele como autoriza que uma balada sofisticadamente simoniana seja amavelmente trespassada pelos "cloud chamber bowls", "chromelodeons" e "zoomoozophones" de Partch. Apontado à terra (“The riots started slowly with the homeless and the lowly, then they spread into the heartland”) ou ao imaginário Além (“God goes fishing, and we are the fishes, he baits his lines with prayers and wishes”) mas com destinatários bem identificados: “I make my verse for the universe and my rhyme for the universities”.
15 November 2015
O maravilhoso matrimónio entre o jornalismo totó e os "académicos" televisivos
(vídeo via Aventar)
Maravilha 1 - "Prof. Tomé, acredita ou não em coincidências?" (prof que é prof tinha-se imediatamente levantado e ido embora);
Maravilha 2 - "Quem estuda esta temática do terrorismo internacional sabe que, alegadamente, os EUA interrogavam os terroristas islâmicos que estavam detidos, muitas vezes, com música heavy metal em alto som, mesmo de forma a ferir os ouvidos desses alegados terroristas" (moço, quem, alegadamente, estuda - chamemos-lhe assim, por comodidade - estas alegadas merdas, parece achar que a metaleirice, alegadamente, funciona como uma espécie de diazepam);
Maravilha 3 - "A banda que, hoje, estava no Bataclan, uma banda norte-americana, tocava heavy metal" (moço, estás bué confuso... e, se fosse a St. Vincent, era "uma banda" cristã? E os Vampire Weekend seriam, alegadamente, o quê, góticos?...);
Maravilha 4 - (responde o douto prof que, alegadamente, não pesca népia sobre o que seja heavy metal/death metal) "Eu penso (ele pensa) que é pura coincidência" (e, depois, numa demonstração de superior sapiência, oferece-nos um aterrador cheirinho do que, alegadamente, será o suplício de uma aula sua).
16 July 2014
CELEBRAÇÃO
Tivesse Lisbon (2010), penúltimo álbum dos Walkmen, sido um sucesso estrondoso e, muito provavelmente, por esta altura, estariam ao rubro as negociações entre, por um lado, Câmara Municipal de Lisboa e Secretaria de Estado do Turismo e, por outro, Woody Allen e a banda de Hamilton Leithauser, com o objectivo de alcançar o "jackpot" de um filme rodado à beira Tejo com banda sonora da mais pura extracção indie norte-americana. Porém, nem, aparentemente, Allen se deixa seduzir pelo património imaterial da UNESCO e pelos Grammies Latinos nem os Walkmen, com Lisbon ou com o derradeiro Heaven (2012), lograram ir além do habitual aplauso crítico que, contudo, não chega para provocar abalos sísmicos nas tabelas de vendas. Tanto assim foi que, após 13 anos e sete álbuns, optaram por declarar-se em “extreme hiatus” e ir cada um à sua vida.
Do que, a avaliar pelas consequências, não terá resultado nenhuma irreparável perda: o baixista Peter Matthew Bauer publicou Liberation!, o teclista Walter Martin decidiu-se por um álbum de canções infantis, We’re All Young Together (com Matt Berninger, dos National e gente dos Yeah Yeah Yeahs, Clap Your Hands Say Yeah ou dos próprios Walkmen), e, para o que, agora, interessa, Hamilton Leithauser, confessadamente inspirado por In The Wee Small Hours e September Of My Years, de Frank Sinatra, propõe Black Hours. Deverá, entretanto, dizer-se que o factor-Sinatra apenas actuou, de forma magnífica, nas sumptuosamente orquestrais "5 AM", "The Silent Orchestra", "St. Mary’s County" e ‘Self Pity’. Porque, no momento em que Rostam Batmanglij, dos Vampire Weekend, na qualidade de co-compositor e produtor informal, entrou em cena, juntamente com Amber Coffman (Dirty Projectors), Morgan Henderson (Fleet Foxes), Paul Maroon (Walkmen) e Richard Swift (The Shins), reconfigurou o plano original, convertendo Black Hours numa gloriosa e vibrantemente detalhada celebração de pop/rock que, sem abdicar de tiradas "à la" Casablanca – “I retired from my fight, I retired from my war, no one knows what I was fighting for”, de "I Retired", por exemplo –, terá sido, porventura, aquilo que os Walkmen, afinal, sempre perseguiram. Prémio de consolação para olisiponenses militantes: "The Smallest Splinter", primeira canção a ser composta para o álbum, nasceu ainda em Lisboa.
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