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25 October 2021

EM BUSCA DE FANTASMAS
 

Em 1967, Richard Brautigan – romancista, contista e poeta a meio caminho entre a geração "beat" e a contracultura de São Francisco da época, figura menor mas de culto persistente – publicou 1500 cópias do poema “All Watched Over By Machines Of Loving Grace” o qual, como aconteceu com várias das suas obras iniciais, distribuiria gratuitamente pelas ruas. É uma visão "naïve" de um ciberbucolismo filho de Thoreau, Lafargue e das utopias tecnológicas da época (“I like to think – it has to be! – of a cybernetic ecology where we are free of our labors and joined back to nature, returned to our mammal brothers and sisters, and all watched over by machines of loving grace”) que, relido mais de meio século depois, arrepia um bocadinho quando imaginamos o que poderiam ser (ou no que se tornariam) as “machines of loving grace”. Mas que, enquanto título alusivo da sexta faixa de The Hill, The Light, The Ghost, quinto álbum das Haiku Salut (Gemma Barkerwood, Sophie Barkerwood e Louise Croft, executantes de acordeão, piano, glockenspiel, trompete, trombone, guitarra, ukulele, percussões, melódica, malletkat, sintetizadores, e o resto a que chamam “loopery and laptopery”), sintetiza bem o geométrico pastoralismo assombrado de todo o disco. (daqui; segue para aqui)
 

17 February 2019

Eu não digo?...
 
"O Vaticano tem uma comunidade homossexual que se conta entre as mais elevadas do mundo e duvido mesmo que no Castro de São Francisco, esse bairro gay tão emblemático, hoje em dia mais misturado, haja tantos homossexuais!" (do prólogo de No Armário do Vaticano, de Frédéric Martel, em pré-publicação da "Visão")

25 January 2017

O jornalista/sociólogo totó dos 60s olha para Haight Ashbury e os Grateful Dead como o entomologista observa uma termiteira

11 March 2016

"Yes Parents, You Should Be Afraid"

Jefferson Airplane - "White Rabbit" + "Somebody To Love" (daqui)

17 January 2016

O ROCK’N’ROLL NUNCA MENTE 


Quando, em 1974, se planeava a publicação de 1969: Velvet Underground Live, o crítico de música Paul Nelson – então, a trabalhar para a Mercury Records – pediu ao ainda quase desconhecido (mas já aclamado como um dos “novos Dylan”) Elliott Murphy que escrevesse as "liner notes" para o álbum. Este não desperdiçou a oportunidade e entregou-lhe um texto que abria de modo pouco convencional: “Passaram já cem anos e todos os que estão a ler isto estão mortos. Eu estou morto. Tu estás morto. E um miúdo que frequenta o secundário e estuda música estará, talvez, a escutar os Velvet Underground porque tem de fazer um trabalho sobre rock’n’roll clássico. Pergunto-me o que estará ele a pensar? Gostava que se inventasse uma máquina que pudesse contar o maior segredo de cada pessoa... o teu, o meu e o de Lou Reed. A diferença entre o cinema e o rock’n’roll é que o rock’n’roll nunca mente. E nunca promete um final feliz”. Em Março deste ano, em entrevista à Popmatters, por ocasião da reedição da sua estreia, Aquashow (1973), Murphy recorda: “O Lou Reed telefonou à minha mãe para me agradecer e ela disse-lhe que eu iria ficar muito satisfeito por saber que ele tinha telefonado. O Lou perguntou porquê e a minha mãe respondeu que eu era um grande admirador seu. ‘Mas quem não é?...’ foi a resposta dele”.



É esse duplo LP, 1969: Velvet Underground Live, também já incluído na 45th Anniversary Super Deluxe Edition do terceiro álbum dos Velvets (2014) e em Bootleg Series Volume 1: The Quine Tapes (2001), que reemerge, agora, ampliado para versão "box set" de quatro CD (The Complete Matrix Tapes), integrando, aquilo que, supostamente, será, enfim, a totalidade das faixas registadas ao vivo no Matrix, de S. Francisco, clube fundado em 1965 por Marty Balin, dos Jefferson Airplane. As relações da banda com a cidade da Costa Oeste, então, já a viver a dura ressaca do Summer of Love de 67, nunca haviam sido as melhores (“Sempre tivemos as maiores objecções em relação a toda a cena de S. Francisco. É uma completa mentira, uma aborrecida falta de talento geral. Não sabem tocar e são absolutamente incapazes de compor. Passo a vida a dizer isto e ninguém liga. Costumávamos calar-nos mas deixei de me ralar por dizer coisas negativas, alguém tem de falar”, desabafava, na altura, Lou Reed) mas, em Novembro e Dezembro de 1969, expulso John Cale (substituído por Doug Yule), os VU que tinham acabado de editar o terceiro álbum já não eram exactamente a mesma banda de White Light/White Heat.



A atmosfera é surpreendentemente descontraída (“Boa noite, somos o vosso Velvet Underground local, não queremos que ninguém desfrute destas canções de forma frívola, isso iria contra a política nacional”), "I’m Waiting For The Man" é apresentada como “uma canção escrita sob a influência dos sonhos, acerca da viagem de um homem de 'uptown' para 'downtown'” e "Black Angel’s Death Song" na qualidade de expediente “que os clubes usavam quando desejavam esvaziar a sala para fecharem mais cedo”, mas, ao longo dos quatro discos – 4 versões de "Heroin" e "Some Kinda Love", 3 de "I’m Waiting For The Man", "We’re Gonna Have A Real Good Time Together" e "There She Goes Again", 2 de diversas outras –, tanto é notória a ausência de Cale (em particular, nos 37 minutos de "Sister Ray", esvaída de qualquer tensão e convertida em pretexto para quase convencional "jam"), como, embora sem fatal perda de energia, permite adivinhar o momento de transição para o seguinte – e último álbum da banda com Lou Reed –, Loaded.


No número de 24 de Dezembro de 1970 da “Rolling Stone”, o crítico de turno, Lenny Kaye, ainda que colocando algumas reticências, não lhe poupava palavras nem elogios (“facilmente, um dos melhores álbuns deste ou de qualquer ano”) mas, sobretudo, defendia o ponto de vista de que “a coisa mais surpreendente acerca da mudança deste grupo é que não tenha havido nenhuma verdadeira mudança. Loaded é apenas um refinamento da música dos Velvet Underground que conhecemos dos três álbuns anteriores”. Não tinha, de facto, razão. Se a gravação que, para superior satisfação editorial, deveria estar “loaded with hits”, continha futuros clássicos como "Sweet Jane" ou "Rock’n’Roll", a puríssima verdade é que Doug Yule nunca seria substituto sequer à altura dos tornozelos de John Cale. No álbum anterior isso não se teria tornado ainda completamente evidente mas, desta vez, a conversão praticamente integral dos VU ao modelo convencional de banda rock, amputada de toda a acidez e perversa bizarria que, em The Velvet Underground And Nico e White Light/White Heat, ostensivamente exibia na qualidade de erva daninha germinada em terreno tóxico warholiano, entrava pelos ouvidos dentro. Na luxuosa reedição de 5 CD e um DVD áudio de que é agora objecto (Loaded: Re-Loaded 45th Anniversary Edition), em formato de "scrapbook", por entre inúmera memorabilia iconográfica, podemos reler o texto de Kaye e o outro que ele, nesta oportunidade, lhe acrescenta como contextualização e evocação de Loaded (nas versões "remastered", mono original, "surround sound remix", estéreo "downmix" e estéreo original), de Live At Max’s Kansas City Remastered (gravado em cassete por Brigid Polk pouco antes da publicação de Loaded), e do Live At Second Fret, Philadelphia, 1970. A avaliação actual reafirma a de há 45 anos. Mas o disco – mesmo audiofilamente "pimped" – não deixou de ser o que era.

26 February 2014

... e o San Francisco Gay Men's Chorus fez questão de saudar o marido da poetisa Silva com a vibrante interpretação de uma medley dos ABBA
 


If you change your mind, 
I'm the first in line 
Honey I'm still free 
Take a chance on me

(só mais um miminho)

09 March 2009

"THERE'S A MANIAC LOOSE IN SAN FRANCISCO
AND THE POLICE ARE POWERLESS TO STOP HIM!"




The Sniper - real. Edward Dmytryk, 1952

"The Sniper is very likely one of the first films – using the new, more mobile equipment that emerged in the late 40s – to take full advantage as San Francisco as a location, transforming the city’s famously vertiginous geography into a metaphor for its protagonist’s unstable mental state. (...) If Hitchcock mined The Sniper for Vertigo, he seems also to have remembered it in constructing Psycho. Franz's character is portrayed as a strangely asexual loner with a profound mother complex (there is even a fatuous police psychiatrist, played by Richard Kiley, around to “explain” his compulsion, just like Simon Oakland in Psycho).


Marie Windsor

Just like Norman Bates, Eddie is driven to kill as a substitute for sexual fulfillment; he is alternately shyly protective around women (the Janet Leigh figure here is a nightclub pianist played by Marie Windsor) and violently contemptuous, a transformation triggered the instant a woman reveals a hint of sexual desire. Like Psycho, The Sniper ends with the camera closing in on an astonishing close-up of the killer, though in place of the death’s head grin that Hitchcock would give Norman Bates, Franz's Eddie releases a single glycerin tear as he looks up at the police detective (a rumpled Adolphe Menjou) who has finally, providentially captured him.

And the detective’s name (no kidding): Lt. Frank Kafka". (aqui)



(2009)