(sequência daqui) Entremos, então, pela magnífica "Shams", uma espiral de guitarra contaminada de flamenco que se deixa aproximar perigosamente de um espectro dos Doors, nos conduz até ao ponto no qual o perfil sonoro da canção se altera imprevisivelmente e, a seguir, os teclados de "Athar" abrem as portas a uma deriva de som e poesia praticamente sem palavras. A articulação de vertiginosas texturas rock e frases melódicas arabizantes parece inevitável, como se esta fosse a única forma de estas canções poderem existir, desde a radiação das linhas de guitarra exploratórias de Haya à inteligencia quase fisiológica do elástico baixo de Meesh até à bateria implacavelmente firme de Thing. Após a estreia internacional no final do ano passado, na Southbank londrina, "tudo nos convenceu que a nossa música não é coisa de nicho; vale por si mesma sem necessitar de explicações". Não será um acaso que este EP tenha sido publicado pela Women in CTRL Records / CTRL Music.
(sequência daqui) Na altura, Lou Reed preparava-se para, após as proverbiais bandas de liceu e de faculdade (na Syracuse University), abandonar a Pickwick Records – uma editora manhosa de "covers" de êxitos do momento na qual trabalhava desde Setembro de 1964 – e desejava assegurar-se de que aquilo que gravara na bobina, enviada para a casa dos pais onde ainda vivia, era propriedade intelectual sua. Na autobiografia (escrita a meias com Victor Bockris), What’s Welsh For Zen, John Cale – “that starving viola player from Wales”, como Reed lhe chamava – conta que Lou lhe mostrou algumas das que viriam a ser futuras canções dos Velvet Underground “como se fossem canções folk”. Voltavam a ser, finalmente, escutadas em 2017, sempre identificadas pela voz de Lou que anuncia “Words and music by Lou Reed”. Na verdade, o espectro que paira sobre várias destas faixas é o de Bob Dylan. Se, desde o início, Reed sempre vomitara ácido sobre a maioria dos seus contemporâneos – Frank Zappa era “provavelmente, a pessoa menos talentosa que alguma vez conhecera, um académico pretensioso incapaz de tocar seja o que for”; os Doors eram “dolorosamente estúpidos e pretensiosos e, quando desejavam ‘fazer arte’, eram ainda piores que o rock’n’roll mais estúpido”; os Who, “absolutamente desprovidos de talento e filosoficamente aborrecidos”; e aos Beatles - embora viesse a mudar de opinião – dirigiria o mimo “Nunca gostei dos Beatles, nunca passaram de lixo. Não estou a ser sarcástico, estou só a ser honesto. Acho que os britânicos nunca deveriam dedicar-se ao rock’n’roll. Não tenho respeito nenhum por eles. Safam-se os Stones e uma ou outra coisa de Ray Davies mas a verdade é que nunca levei o rock’n’roll britânico a sério. E continuo a não levar” –, em relação a Dylan, tratava-se de um despique entre iguais.
Como ele dizia, em 1989, à “Rolling Stone, “Para além de Dylan, não existe muito mais. Compro sempre os álbuns dele. Ele sabe como trabalhar uma frase. Todo o resto não passa de pop sobre a qual não tenho nenhum interesse. Mas o Dylan surpreende-me sempre”. Á “Uncut”, Laurie Anderson confirma tudo: “Dylan é a resposta para a maioria das coisas em Words & Music, May 1965. A harmónica, o gemido vocal, a tonalidade. A empatia com o ‘underdog’, não a voz do heroico poeta autor de canções. De vez em quando, falávamos sobre Dylan e o Lou tinha um grande respeito por ele. Uma vez, brigaram acerca de saber qual dos dois era verdadeiramente Rimbaud. Mais do que serem cantores, eram essencialmente, escritores, autores de canções letrados, não apenas fulanos que alinhavam umas rimas. A coisa mais importante em que reparei no arquivo dele é que andava permanentemente à procura de formas de escrita diferentes. Depois do fim dos Velvet Underground, pensou dedicar-se apenas à poesia. Escreveu um livro sobre Tai Chi na mesma linguagem que utilizava nas canções”. (segue para aqui)
(sequência daqui) O que estava, entretanto, no ponto de partida, em 1993, quando os Low iniciaram a caminhada? “Quando era miúdo, a música, para mim, era magia. Nessa altura – final dos anos 70, início de 80 – vivíamos numa comunidade agrícola, bastante longe da cidade. A informação acerca do que se passava era muito escassa. Lembro-me de ouvir os discos dos Doors do meu pai e até... os Emerson, Lake & Palmer ou In-A-Gadda-Da-Vida, dos Iron Butterfly!... Isto, antes de começarmos a comprar os nossos próprios discos: David Bowie, The Clash, Hüsker Dü, R.E,M., Violent Femmes, todos a que pudéssemos deitar a mão”. Tudo isso ter tido lugar em Duluth, Minnesota, chão sagrado do Nobel da Literatura de há 5 anos, não terá feito pairar um permanente fantasma sobre as cabeças de Alan e Mimi? “Só um bocadinho... Quando já era mais velho, costumava ir aborrecer o dono de uma loja de intrumentos e ele contava-me que tinha frequentado a mesma escola do Bob Dylan e recordava-se de histórias que lá tinham acontecido. Quando fomos para a universidade, em Duluth, aí sim, tive a noção de que, embora de uma forma discreta, a cidade orgulha-se de Dylan. A minha rendição a ele, contudo, só aconteceu há cerca de 15 anos. Antes disso, escutava Joy Division, Bauhaus, The Cure, Brian Eno, La Monte Young, Swans, Velvet Underground”. E, no meio dessa floresta de referências, quando sentiram ter encontrado a vossa via? “Isso acontece quando escrevemos a nossa primeira canção. Desejamos ser originais e trilhar um caminho próprio. Às vezes, de uma forma tão obsessiva que chega a cegar-nos para o facto de, se calhar, sermos iguais a todos os outros! (risos) Mas sentimos que descobrimos qualquer coisa que estava escondida e mais ninguém conhecia”. (segue para aqui)