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22 April 2021

SEGREDOS, SONHOS E MEDOS

Quando, em 1980, Ivo Watts-Russell e Peter Kent fundaram a 4AD, o plano era manter-se em actividade durante 10 anos e, no último dia de 1990, fechar as portas. Ainda esse dia estava longe de chegar e já Watts-Russell – o mais novo de oito irmãos de uma linhagem aristocrática arruinada –, na segunda metade dos anos 80, confessava ser incapaz de virar costas às bandas (Cocteau Twins, This Mortal Coil, Dead Can Dance, Clan of Xymox, Bauhaus, Modern English, Birthday Party, Xmal Deutschland, Colourbox, The Wofgang Press, Momus/The Happy Family...) que haviam transformado a editora num dos mais luminosos faróis da cena "indie" britânica. Segundo Martin Aston, autor de Facing The Other Way: The Story Of 4AD (2013), o sucesso da 4AD assentou no desprendimento comercial de Ivo Watts-Russell – que, logo em 1981, ficaria sozinho à frente da editora – e numa inclinação estética que privilegiava “sentimentos e segredos ocultos, sonhos ansiosos e medos sufocados, esperança e raiva, criados por uma trupe de 'beautiful freaks' que não desejavam ser vistos”.

O horizonte alargar-se-ia até à outra margem do Atlântico onde iriam descobrir os Pixies, Throwing Muses e Breeders mas, em 1999, Ivo venderia a sua quota da editora à Beggars Banquet – para a qual, desde o início, a 4AD fora pensada como incubadora de novas bandas – e exilar-se-ia até hoje no deserto do Novo México. A partir de 2007 com Simon Halliday no comando das operações, sem abdicar significativamente do perfil original, o catálogo foi-se diversificando e alargando (Mountain Goats, TV On The Radio, The National, Scott Walker, Beirut, Bon Iver, Tune-Yards, St. Vincent, Efterklang, Grimes, Future Islands, U.S. Girls, Holly Herndon, Aldous Harding, Big Thief), chegando, agora, o momento de celebrar quatro décadas de existência com a publicação de Bills & Aches & Blues (primeiro verso de "Cherry-Coloured Funk", dos Cocteau Twins) uma espécie de recuperação actualizada do conceito This Mortal Coil no qual bandas actuais revisitam temas dos “clássicos” 4AD. (daqui; segue para aqui)

26 December 2019

MÚSICA 2019 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 40)























 




 



* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Esqueçam a lista de dez que acabaram de ler. Não só a ordenação é consideravelmente arbitrária como, nos lugares que esses ocupam, se escolhidos noutro dia e a outra hora, poderiam, sem grande esforço, residir outros tantos igualmente valiosos. Para que constem: Robert Forster – Inferno, Bill Callahan – Shepherd In A Sheepskin Vest, The Monochrome Set – Fabula Mendax, Trash Kit – Horizon, Vanishing Twin – The Age of Immunology, Trupa Trupa – Of the Sun, Modern Nature – How to Live, Laurie Anderson – Songs From The Bardo, Gauche – A People’s History of Gauche, Jesca Hoop – Stonechild, The Delines – The Imperial, Sunwatchers – Illegal Moves, Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold, School of Language – 45, Rickie Lee Jones – Kicks, Edwyn Collins – Badbea, Filthy Friends – Emerald Valley, Sean O’Hagan – Radum Calls, Radum Calls, Divine Comedy – Office Politics, Orchestra of Spheres – Mirror. Sim, foi um ano muito bom.

12 July 2019

27 May 2019

PROTÓTIPO 


No passado mês de Março, a Warner Music comunicou ao mundo ter sido a primeira editora a assinar contrato com um algoritmo. Criado pela Endel, um “cross-platform audio ecosystem” especializado na produção de “mood music”, o algoritmo, será responsável pela fabricação de 600 faixas para 20 álbums que serão disponibilizados em plataformas de "streaming". Os cinco primeiros já estão acessíveis e orientam-se para o design de atmosferas propícias â concentração e/ou ao relaxamento. Aparentemente, nada de extraordinariamente novo se recordarmos a vetusta historia da "muzak"/"ambient music" ou, há dois anos, Reflection, de Brian Eno, um projecto de música infinitamente auto-gerada a partir de uma série de algoritmos criados em colaboração com Peter Chilvers. A diferença crucial está no facto de, na qualidade de entidade dotada de poderosa Inteligência Artificial (IA), o algoritmo Endel oferecer igualmente “frequências sonoras personalizadas baseadas em dados pessoais dos utilizadores: a hora do dia, o horário de trabalho, a batida cardíaca, a meteorologia ou o padrão de condução automóvel”. Cândida e inquietantemente, Oleg Stavitsky, co-fundador e CEO da Endel, declara: “Desejamos compreender o contexto do seu dia-a-dia e reconfigurar todo o seu ambiente sonoro”. Com a vantagem adicional de exigir “um mínimo de envolvimento humano”, o que, a crer no dilúvio de publicações acerca da iminente devastação no mercado de trabalho – e a selvática violação da privacidade que “The Privacy Project”, do “New York Times”, analisa em profundidade – consequência da IA, tenderá a transformar-se no modus operandi habitual. 



Em Platform (2015), Holly Herndon, apropriando-se do ponto de vista do colectivo Metahaven, autor dos videos para esse álbum – “Science fiction politics need science fiction aesthetics” –, propunha “música que reage em termos actuais sem dependência de nenhuma nostalgia do passado”. Quatro anos depois, PROTO dá um largo passo em frente e coloca Herndon literalmente a interagir com Spawn, uma “bebé”-IA treinada para aprender, interpretar, desenvolver e desfigurar a matéria vocal que lhe é proposta e, a seguir, integrar-se simbioticamente no ensemble humano. O que escutamos, então, é um fabuloso exercício de corais desencarnados, polifonias entre o êxtase e a ansiedade, a desagregação e a recomposição, até que, em “Extreme Love”, a interrogação decisiva é, enfim, formulada: “Is this how it feels like to become the mother of the next species?”

16 January 2018

VIDEOCLIPS 


Interessa muito pouco saber se Twin Peaks: The Return foi o melhor filme de 2017 ou “apenas” uma série de televisão que fez explodir tudo aquilo que, até aqui, supúnhamos serem os traços definidores das séries de televisão. O que verdadeiramente importa é que nos obrigou, inevitavelmente, a reflectir sobre isso. E que, curiosamente, coincidiu com um ano em que, no universo audiovisual, a região demarcada dos videoclips, contrariando os repetidos rumores de “music videos are dead”, demonstrou precisamente o oposto: não teremos reentrado na Idade de Ouro dos Corbijn, Mark Romanek, Chris Cunningham e Jonathan Glazer mas, se a "old-school" – essencialmente sustentada pela exposição televisiva – foi definitivamente substituída pela presença no YouTube, Vimeo e demais plataformas, isso não impediu que, enquanto forma de expressão artística, o videoclip tenha continuado a ser uma vibrante área de experimentação na qual as fronteiras com as “curtas” cinematográficas se dissolvem. 


Recentemente, Holly Herndon, Anna Meredith, Jesse Kanda (nos videos para Arca, FKA Twigs e Björk), PJ Harvey com Seamus Murphy ou as Pussy Riot na sua agit-prop metafórica, haviam já deixado claro que muito território havia ainda por explorar. No ano passado, porém, seria demasiada desatenção não ter reparado na extraordinária trilogia de clips de St. Vincent, para o álbum Masseduction ("New York", "Los Ageless" e "Pills"), realizados, respectivamente, por Alex Da Corte, Willo Perron e Philippa Price. Todos cromaticamente saturados e em registo exuberantemente surreal, constituem o exacto tipo de matéria que amplia desmedidamente o leque de sentidos das canções que lhes deram origem. Precisamente o mesmo que poderia dizer-se de "Don’t Go To Anacita" e "A Private Understanding", de Relatives In Descent, dos Protomartyr: se o primeiro, dirigido por Yoonha Park, é uma angustiante variação breugeliana sobre Stairway To Lenin (1990), de Zbigniew Rybczyński, em torno de uma ideia aterradora – “cada novo horror que enfrentamos é parte de um contínuo sem fim” –, o outro (um "lyric video" a encenar um solilóquio, realizado por Tony Wolski e Trevor Naud), com a preciosa participação do veterano actor Marty Smith, é uma exemplar ilustração de “this age of blasting trumpets, paradise for fools”.

24 December 2015

MÚSICA 2015 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 25)




















* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Foi, essencialmente, um ano assaz pluralista e de óptima música. Do experimentalismo em cambiantes vários de Holly Herndon, FKA twigs, Laurie Anderson, Momus e Julia Holter, ao discreto mas significativo ressurgimento folk – com a sofisticação das Unthanks, o minimalismo de This Is The Kit e Rozi Plain, a crueza dos Stick In The Wheel ou a felicíssima amplitude das óptimas homenagens a Shirley Collins e Ewan MacColl –, e ao inevitável e sempre bem-vindo contingente de "singer-songwriters" de distintas gerações (Sufjan Stevens, Robert Forster, David Corley, Laura Marling, Richard Thompson, Rickie Lee Jones), desta vez, brilhando com fulgor particularmente intenso no extraordinário álbum dos Apartments, de Peter Milton Walsh. E houve ainda espaço para singularidades como o encontro Dylan-Sinatra, as investidas políticas de Darren Hayman e Milky Wimpshake ou o devaneio filarmónico dos British Sea Power.

22 July 2015

PRAZER 



Numa entrevista de 29 de Junho passado à revista espanhola “Sonograma”, interrogado acerca dos pontos de vista que defendeu em Retromania (2011), Simon Reynolds reconhece que, desde que escreveu o livro, houve, sem dúvida, maior atenção prestada à “música do futuro” apesar de, mesmo aí, continuar a existir um reflexo condicionado de “reciclagem de velhas ideias (dos anos 70 e 80) acerca do que é ‘futurista’”. E, tomando por exemplo Holly Herndon e o último álbum, Platform, sem deixar de dar a bênção ao conceito de “science-fiction politics” (“Pretendemos desenhar uma política nova. Todo o nosso trabalho explora o ‘extremismo visual’, o que significa que vivemos, espelhamos, digerimos e reflectimos sobre o tempo actual em vez de nos satisfazermos em ser meros figurantes ou, pior, curadores picuinhas de um falso design minimalista. Acreditamos que as ‘science-fiction politics’ necessitam de ‘science-fiction aesthetics’ e que ambas devem caminhar a par”, proclama Metahaven, o colectivo de designers holandeses responsável pelos vídeos de Platform), argumenta que não apenas padecerá do mal de “encarar o futuro como um género” mas também, apesar de “impressionante do ponto de vista composicional e do design sonoro, não estou certo de poder descrever como prazer a sensação que me provoca”



Não será necessário trazer à conversa as práticas BDSM para densificar um bocadinho o conceito de “prazer”. Basta evocar Metal Machine Music, de Lou Reed, a trilogia Tilt/The Drift/Bish Bosh, de Scott Walker, ou The Litanies Of Satan, de Diamanda Galás, e – rejeitando-os ou aceitando-os – facilmente se compreenderá que proporcionar prazer anda longe de ser missão única e obrigatória da música: não é pouca aquela que se ouve com admiração, espanto, curiosidade intelectual ou quase violação auditiva mais do que com prazer. E, já agora, Simon, por maiores reticências que lhe possamos colocar, há que saudar tudo o que contribua para que a música contemporânea não se assemelhe cada vez mais à Mrs Sheryl C. de que fala Oliver Sacks, em Musicophilia: uma infeliz senhora de 70 anos, praticamente surda, mas que sofria da alucinação auditiva de possuir um jukebox intracraniano que reproduzia interminavelmente as memórias musicais do seu passado.

08 July 2015

Holly Herndon/Metahaven - Call

(com som aqui)

METAHAVEN: Our work wants to stretch the expressive vocabulary of progressive or "science fiction politics" far beyond mere language or leftover tropes from the 1960s (as in, sit-ins and hand-painted signage). We have now seen decades of the Left trying to look, successively, as in like the Centre-Right, from the 1960s, or completely undesigned so as to appear grassroots. We want to design a new politics and a liberation from their visual dogma. All our work explores and works with “visual extremism,” which means that we intensively live through, mirror, digest, and reflect our current age in our design work, instead of being its mere bystanders or, worse, cherry-picking “curators” of an idealized, faux-minimalist design hotel.

It is our belief that science fiction politics need science fiction aesthetics, and that the two belong together; we find the same belief in Holly’s music. For example, the first visual piece we did for Holly was Call, a series of animated gifs that each have a nine-second music track embedded that plays on mouseover. Each Call gif works with different notions of landscape, portrait, and interface, recycling online portraits of Holly and placing her in a new setting. These gifs are ultra-short music videos that introduce themes of autonomy, dystopia, exit, hope, resistance, which would later become powerful tropes in the album. The video for "Home" is a veil of NSA graphics that becomes a torrent of emoji. The minute we discussed "Home," we figured out that it should be about these strange logos that appeared in NSA PowerPoint presentations leaked by Edward Snowden. Ironically, these icons of the surveillance state somehow look very much like emoji when applied as a pattern.

Platform is a political project, an aural revolution for egalitarianism whose consequences should be reaching beyond the "music scene." Recently, in The Guardian, there was a piece by Owen Jones in which he wondered where the hell the 21st century protest songs might be, and we feel he’s just looking in the wrong direction. There is a self-politicization going on and this involves the politicization of aesthetics. The idea that beauty becomes weaponized with exit, freedom, and democracy is so much more attractive than the opposite: the beautification of weapons.

14 May 2015

POLÍTICA DO PARAÍSO


Guy Standing, professor de Economia na University of London, é o autor de The Precariat: The New Dangerous Class (2011), quase-manifesto em que, a propósito desse emergente grupo social situado entre os “indignados” espanhóis, o Den Plirono (Não Pagamos) grego e as revoltas árabes (“O precariado, classe em construção que se aproxima de uma consciência da vulnerabilidade comum, consiste de todos aqueles que sentem que a sua vida e identidade são constituídas de fragmentos dispersos a partir dos quais não são capazes de construir uma narrativa desejável ou uma carreira”), propõe a adopção de algo, pela sua própria designação, capaz de pôr os cabelos em pé aos apologistas do respeitinho pelas folhas de Excel dos donos da “realidade”: as "politics of Paradise", assentes na “reinvenção do lema progressista da liberdade, igualdade e fraternidade”.



Foi, justamente, inspirada por Standing que Holly Herndon classificou o seu terceiro álbum, Platform, como “um gesto paradisíaco”. Licenciada em música electrónica pelo Mills College, de Oakland, na Califórnia, e, actualmente, a concluir doutoramento em composição na Stanford University, bebeu o biberão do techno nos clubes de Berlim, estudou a gramática contemporânea com John Bischoff e Fred Frith, e, hoje, afirma que “o laptop possui muito mais conteúdo emocional do que qualquer violino poderia sonhar: estão lá o meu Skype, a minha conta bancária, os meus emails, as minhas relações”. Deve ser por isso que já viu a sua música qualificada como techno recuperado de uma "hard drive" que esteve demasiado tempo debaixo de água. Não é realmente verdade. Ela própria admite que, desejando criar “música que reage em termos actuais sem dependência de nenhuma nostalgia do passado”, para este fulgurante jogo de espelhos sonoro tanto contribuíram Meredith Monk, Morton Feldman e Laurie Anderson como Missy Elliot, Charles Ives, William Byrd, Thomas Tallis ou o "grime" britânico. E, acrescente-se, uma "guest list" de activistas dos microuniversos mutantes da Internet e arquipélagos afins – Claire Tolan/ASMR, Spencer Longo, Mat Dryhurst, Colin Self, Amnesia Scanner –, cúmplices e co-artífices das ruidosas utopias e paraísos digitais de que tanto carece a pobre e aterrorizada “realidade”.