Showing posts with label Dirty Projectors. Show all posts
Showing posts with label Dirty Projectors. Show all posts

26 December 2024

 LIMPEZA, RESTAURO E RECONSTRUÇÃO


Não há forma de lhes fugir. Pode atribuir-se-lhes muita, pouca ou nenhuma importância mas, a partir do momento em que, mais ou menos espontaneamente, surgem, é garantido que - para além do que de valioso produzam - a indústria rapidamente fará tudo o que estiver ao seu alcance para as esterilizar, normalizar, infinitamente replicar e converter em marcas registadas. Falo, naturalmente, das inúmeras "scenes" que, numa interminável corrida de estafetas, recebem o testemunho da anterior e logo o passam à seguinte. Breve revisão: o “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths); a breve mas intensa "no wave" novaiorquina; o lerdo grunge de Seattle; a coreografia química de Madchester; o "british jazz revival" de Sade, Weekend/Working Week ou Everything But The Girl; a languidez de Bristol; enfim, a cintilante polivalência da "Brooklyn scene" (Dirty Projectors, Vampire Weekend, The National, My Brightest Diamond). (daqui; segue para aqui)

Lone Justice - "Teenage Kicks"

30 September 2023

 GEOMETRIA COLORIDA
 
 
Os pitagóricos afirmavam que "os olhos foram formados para a astronomia, os ouvidos moldados para a harmonia, e estas ciências são irmãs". Goethe declarava que "a arquitectura é música petrificada" e o crítico literário Walter Pater defendia que "todas as artes aspiram à condição da música". Mas foi o pintor e teórico russo Wassily Kandinsky quem qualificou a música como "a mestra suprema", explicando, em Do Espiritual na Arte (1910), que "as cores são um teclado. A alma é o piano com as suas muitas cordas. O artista é a mão que coloca a alma em vibração através de uma ou outra corda. Um pintor que não se satisfaça com a mera representação no anseio de exprimir a sua vida interior não pode senão invejar a facilidade com que a música, a mais imaterial das artes actuais, concretiza esse objectivo. Naturalmente, procurará aplicar os métodos da música à sua arte". Duas décadas mais tarde, pintaria Decisive Pink que não por acaso, Angel Deradoorian (ex-Dirty Projectors) e a experimentalista pop moscovita Kate Shilonosova, (aliás, Kate NV), quase um século depois, tomariam de empréstimo como nome para o duo. (daqui; segue para aqui)
 

22 June 2016

AFINAL, NÃO É ESTRANHO

  
Primeiro, escuta-se uma "bent note" tocada no "gopichand" – um instrumento asiático de uma só corda – que, sem que nos apercebamos, se transforma em uivo de lobo. Após dez segundos de uma intrincada teia de universos rítmicos sobrepostos (que persistirá e se adensará até ao final), a voz canta: “Milwaukee man led a fairly decent life, made a fairly decent living, had a fairly decent wife, she killed him… ahhh, sushi knife, now they’re shopping for a fairly decent afterlife... the werewolf is coming”. E, alçada nessa metáfora do lobisomem, enquanto sopros, percussões e electrónica se preparam para ceder o lugar aos acordes de um orgão de "horror movie", mostra-nos o fim do mundo: “Life is a lottery, a lot of people lose, and the winners, the grinners, with money-colored eyes, eat all the nuggets, then they order extra fries (...) You’d better stock up on water, canned-goods off the shelves, and loot some for the old folks, can’t loot for themselves”. Acabámos de escutar o tipo que, há quase meio século, escreveu “Can you imagine us, years from today, sharing a park bench quietly? How terribly strange to be seventy”


Afinal, não tem nada de estranho e, à beira dos 75 anos, Paul Simon (ele, perante quem Andrew Bird, Vampire Weekend, Dirty Projectors e Merrill Garbus/tUnE-yArDs ajoelham), muito longe de enganar as horas em bancos de jardim, ocupou-se a criar um dos mais ricos e audaciosos álbuns da sua discografia. A companhia (Nico Muhly, yMusic, Jack DeJohnette, Vincent Nguini, Cristiano Crisci/Clap! Clap!) foi inspiradora e as fontes de alimentação (Harry Partch, Laurie Anderson, a história e a política americanas) suficientemente estimulantes para que Stranger To Stranger se deixasse construir enquanto assombroso objecto multifacetado que tanto devora um "sample" do Golden Gate Quartet e compõe em torno dele como autoriza que uma balada sofisticadamente simoniana seja amavelmente trespassada pelos "cloud chamber bowls", "chromelodeons" e "zoomoozophones" de Partch. Apontado à terra (“The riots started slowly with the homeless and the lowly, then they spread into the heartland”) ou ao imaginário Além (“God goes fishing, and we are the fishes, he baits his lines with prayers and wishes”) mas com destinatários bem identificados: “I make my verse for the universe and my rhyme for the universities”.

16 July 2014

CELEBRAÇÃO


Tivesse Lisbon (2010), penúltimo álbum dos Walkmen, sido um sucesso estrondoso e, muito provavelmente, por esta altura, estariam ao rubro as negociações entre, por um lado, Câmara Municipal de Lisboa e Secretaria de Estado do Turismo e, por outro, Woody Allen e a banda de Hamilton Leithauser, com o objectivo de alcançar o "jackpot" de um filme rodado à beira Tejo com banda sonora da mais pura extracção indie norte-americana. Porém, nem, aparentemente, Allen se deixa seduzir pelo património imaterial da UNESCO e pelos Grammies Latinos nem os Walkmen, com Lisbon ou com o derradeiro Heaven (2012), lograram ir além do habitual aplauso crítico que, contudo, não chega para provocar abalos sísmicos nas tabelas de vendas. Tanto assim foi que, após 13 anos e sete álbuns, optaram por declarar-se em “extreme hiatus” e ir cada um à sua vida. 



Do que, a avaliar pelas consequências, não terá resultado nenhuma irreparável perda: o baixista Peter Matthew Bauer publicou Liberation!, o teclista Walter Martin decidiu-se por um álbum de canções infantis, We’re All Young Together (com Matt Berninger, dos National e gente dos Yeah Yeah Yeahs, Clap Your Hands Say Yeah ou dos próprios Walkmen), e, para o que, agora, interessa, Hamilton Leithauser, confessadamente inspirado por In The Wee Small Hours e September Of My Years, de Frank Sinatra, propõe Black Hours. Deverá, entretanto, dizer-se que o factor-Sinatra apenas actuou, de forma magnífica, nas sumptuosamente orquestrais "5 AM", "The Silent Orchestra", "St. Mary’s County" e ‘Self Pity’. Porque, no momento em que Rostam Batmanglij, dos Vampire Weekend, na qualidade de co-compositor e produtor informal, entrou em cena, juntamente com Amber Coffman (Dirty Projectors), Morgan Henderson (Fleet Foxes), Paul Maroon (Walkmen) e Richard Swift (The Shins), reconfigurou o plano original, convertendo Black Hours numa gloriosa e vibrantemente detalhada celebração de pop/rock que, sem abdicar de tiradas "à la" Casablanca“I retired from my fight, I retired from my war, no one knows what I was fighting for”, de "I Retired", por exemplo –, terá sido, porventura, aquilo que os Walkmen, afinal, sempre perseguiram. Prémio de consolação para olisiponenses militantes: "The Smallest Splinter", primeira canção a ser composta para o álbum, nasceu ainda em Lisboa.

11 March 2013

EM PRIMEIRO GRAU
 

















Reptar - Body Faucet

Primeiro, as boas notícias: está anunciado para este ano (algures pela Primavera) o sucessor de Contra (2010), dos Vampire Weekend. Depois, o trabalho sujo que ninguém deseja mas alguém deverá fazer: é oficial que não estamos já condenados a enfrentar apenas as hordas de gente que, com o cérebro engatado em marcha atrás na direcção dos sessentas, setentas e oitentas do século passado, avança pelo território pop adentro. Conheçam, pois, os Reptar, banda de Athens, na Georgia, que, ao contrário do que se poderia prever (e seria igualmente reprovável), não se dedica a mimetizar os conterrâneos R.E.M. mas prefere optar por uma espécie de "digest" dos últimos cinco anos da cena "indie" norte-americana, em particular, a que, por maior facilidade de arrumação, ficou conhecida como “de Brooklyn”. 



E porque, nestas práticas de adesão a um clube, é quase inevitável escolher a camisola do atleta mais famoso, os moços com nome de dinossauro de uma série televisiva de animação, não hesitaram e decidiram adquirir e envergar a dos Vampire Weekend. É verdade que estes – como toda a gente, aliás – não são musicalmente amnésicos e alimentaram-se avidamente do caldeirão "world" que Paul Simon e Peter Gabriel haviam, previamente, aquecido. Mas não só a vampirização implica a transformação em nova matéria pop, como o fazem com as devidas distância e ironia (“This feels so unnatural, Peter Gabriel too”, da autoexplicativa "Cape Cod Kwassa Kwassa"). Com os Reptar, porém, tudo acontece em primeiro grau: açorda de poliritmia "afrobeat" e guitarras "highlife" via-Vampire, pano de fundo psicadélico à la Animal Collective de braço dado com Yeasayer, e uma imensa aspiração fracassada ao QI de David Longstreth (Dirty Projectors). Claro que a voz de Mickey Mouse esterilizado de Graham Ulicny também não ajuda muito. 

31 December 2012

MÚSICA 2012 - INTERNACIONAL (II)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)












David Byrne & St. Vincent - Love This Giant













Paul Buchanan - Mid Air













Dirty Projectors - Swing Lo Magellan













Efterklang - Piramida













Field Music - Plumb













Fiona Apple - The Idler Wheel...













The Monochrome Set - Platinum Coils













Scott Walker - Bish Bosch













Andrew Bird - Break It Yourself













Leonard Cohen - Old Ideas

Até que uma revisão constitucional desbloqueie a possibilidade de, como disco do ano, ser eleita uma coerente colecção de singles apenas disponível via-Net, a lista de 2012 é tal como aqui se apresenta. Entretanto, enquanto isso não sucede e para que conste, o que deveria encabeçar este top 10 seriam as sete canções/vídeos das Pussy Riot ("Kill the Sexist", "Release the Cobblestones", "Kropotkin Vodka", "Death to Prison, Freedom to Protest", "Putin Got Scared", "Mother of God, Drive Putin Away" e "Putin Lights Up the Fires"), reunidas no álbum virtual Ubey Seksista. “A única banda que realmente importa", como foi classificada por altura do julgamento-farsa estalinista de Agosto que condenou Nadejda Tolokonnikova, Maria Alekhina e Ekaterina Samutsevitch a dois anos de prisão (as duas primeiras permanecem encarceradas em dois dos mais brutais centros de detenção da Rússia), ousou desafiar o czar Putin e o mundo solidarizou-se com ela. Em Portugal, do Parlamento à Presidência, nem uma sílaba foi pronunciada. Ali em cima deve ler-se: “Liberdade para as Pussy Riot!”



* a ordem é razoavelmente arbitrária...

13 October 2012

DO PESCOÇO PARA CIMA
 

Grizzly Bear - Shields

Não será particularmente arguto mas também não é indesculpavelmente idiota estabelecer alguma distinção entre aqueles tipos de música que nos afectam, predominantemente, do pescoço para cima ou da cintura para baixo (deixemos, por agora, de lado aquela zona que o capitão Renault, de Casablanca, quando lhe apontavam uma arma ao peito, designava como “o meu ponto menos vulnerável”). Existe, evidentemente, a que consegue carregar-nos nos botões certos de ambas as áreas e não é impossível que seja a mais estimável, apesar de esta ser matéria acerca da qual convém manter dúvidas e incertezas. Mas, concentrando-nos nos Grizzly Bear, não se há-de arriscar muito ao declarar que, na sua música – pelo menos, desde Veckatimest (2009) –, o que mais seduz é a intrincada inteligência da arquitectura de cada peça que, laboriosamente, edificam. Qualquer coisa (em não tão grandioso, claro) como o devastador orgasmo mental que Andrew Wiles terá experimentado ao conseguir, por fim, demonstrar o último teorema de Fermat.



A proeza dos Bear é, essencialmente, a de (como, por exemplo, também sucede com os Field Music ou Dirty Projectors) terem sido capazes de estabelecer, para além de todas as dúvidas razoáveis de uma severa "peer review", que, na linha evolutiva da música do século XX, o prog-rock não desembocou, irremediavelmente, nem beco sem saída: sim, é possível recusar o juramento-de-sangue punk e não acabar a tocar os Brandeburgueses para banda rock com a Filarmónica de Swindon. Shields – admirável pop em ocasional modo Nietzsche-zen (“No wrong or right, just do whatever you like”), tapeçaria de distorção psicadélica em harmonioso matrimónio com sinfonismo "à la" Van Dyke Parks, enoismos incidentais e sofisticação harmónica jazzy – é apenas mais uma eloquente prova disso.

26 September 2012

FANTASIAS NA PERIFERIA


David Byrne & St. Vincent - Love This Giant



Jherek Bischoff - Composed

“Que tipo de condições deve verificar-se para que ocorra uma grande transformação musical ou reavaliação cultural como a que aconteceu em Nova Iorque no final dos anos 70, início de 80? Um aspecto importante é que a economia deva estar de gatas. Estamos quase lá, portanto, essa parte está mais ou menos resolvida. O outro aspecto é um pouco mais difícil: recuando um pouco na memória, recordo-me da sensação de, nessa altura, praticamente nenhuma da música pop comercial ter alguma relevância para mim ou para os meus amigos. Actualmente, continua a haver muitos nomes grandes que não me interessam a encher estádios mas, igualmente, bastantes outros músicos e bandas excitantes – como os Dirty Projectors, St. Vincent ou tUnE yArDs – que se fazem ouvir e sobrevivem bem melhor do que poderiam fazer há trinta anos”, dizia, no último número da “Uncut”, David Byrne, com Annie Clark/St. Vincent ao seu lado. E, justificando o título (“The Triumph of Art Rock”) do post de 5 de Maio de 2009, no seu blog, aquando da sua participação no álbum/concerto Dark Was The Night, acrescentou: “A ambição desta geração de músicos não é a de serem estrelas, destruírem aparelhos de televisão e andarem de limusina. O que os motiva (e a mim) é criar óptima música”



Quando o primeiro álbum dos Talking Heads foi publicado (1977) Annie Clark (28.09.82) ainda não tinha nascido. Mas, não apenas David Byrne tem toda a razão como se pode afirmar ainda que, de um modo muito particular, ele e St. Vincent são a cara e a coroa daquela moeda estética que se sente especialmente à vontade a injectar fantasias experimentais na periferia da pop e a virar do avesso formas e conceitos tradicionais sem, por isso, perder o pé naquele terreno que não tem horror à aprovação pública. E, desde que, nesse concerto de Dark Was The Night, se conheceram e, por extensão, se voltaram a encontrar durante a apresentação de Björk com os Dirty Projectors para uma iniciativa da Housing Works (uma organização civil de luta contra a Sida) onde foram convidados a colaborar também, o conceito de Love This Giant começou a emergir. Como na sua participação numa das conferências TED (“How architecture helped music evolve”) Byrne explicou – e desenvolve, agora, no recém publicado livro How Music Works –, o contexto físico decidiu de boa parte das opções: na livraria onde o duo actuaria, o espaço não abundava pelo que, por sugestão de St. Vincent, apenas eles os dois e uma secção de sopros deveriam chegar bem para as encomendas. Assim, o conceito “Beauty and the Beast” – mas ao contrário:  David seria a "Beauty" de plástico e Annie a "Beast" feroz –, fundido com a inspiração em Walt Whitman a quem o álbum tomou o título de empréstimo (‘I Should Watch TV’, em que Byrne, em modo antropológico, canta “I used to think I should watch TV, I used to think it was good for me, wanted to know what folks are thinking, to understand the land I live in”, está repleta de citações do poema "Song Of Myself"), num período de três anos e muita troca de emails com ficheiros sonoros, assentou estacas e cresceu.



Se o método adoptado foi o de “pensar a música como um enigma cuja forma teríamos de decifrar no processo de construção”, o resultado, como só acontece nos melhores casos, é algo que nem um nem outra, sozinhos, poderiam ter realizado. Lugar de viagem (“the song is a gift, a song is a road, a road is a face, a face is a time and a time is a place“) entre géneros, em vários sentidos, tanto passa pelos mesmos pontos por onde Byrne e a Dirty Dozen Brass Band caminharam em Music For The Knee Plays (1985) como se socorre de "hoquetus" medievais enquanto motivo decorativo de ansiedades (“my heart beating, still the perilous night, the bombs burtsting air but my hair is alright”, "The Forest Awakes"), serpenteia entre jazz, funk e vocabulário clássico ("I Am An Ape", "Outside Of Space And Time" ou "Ice Age") e, com inexcedíveis elegância e impertinência e a ocasional colaboração dos Dap Kings e Antibalas, coloca-nos um espelho à frente (“I am an ape, I stand and wait, a masterpiece, a hairy beast”, “I am a shaky ladder, intergalactic matter outside of space and time”) e, sem aviso, puxa-nos o tapete debaixo dos pés (“Tanks outside the bedroom window, we’ll be fine with the curtains closed”).



Composed, de Jherek Bischoff, é outra história bem sucedida de colaborações (também com a participação de Byrne), mas, aqui, de modo artesanal: esboçadas as canções em ukulele, Bischoff deslocou-se a casa de todos os instrumentistas que escutamos para que violinos, violoncelos et alia gravassem as respectivas partes tantas vezes quantas as necessárias até que, no final, soassem como uma orquestra. Repetição do processo para com as vozes (Carla Bozulich, Caetano Veloso, Mirah Zeitlyn, Dawn McCarthy, Byrne...) e palmas para esta singular variação contemporânea sobre o modelo Song Cycle, de Van Dyke Parks, em registo Phil Spector-meets-Danny Elfman.

19 August 2012

ÁGUA E AZEITE


Dirty Projectors - Swing Lo Magellan
     
David Longstreth é o tipo que, como quem fala do tempo, explica que a súbita aparição orquestral a meio de "Dance For You" é apenas ele “a tentar compreender como raio o Ligeti, em Atmosphères, conseguiu extrair aquelas texturas insanas e futuristas de uma orquestra igualzinha às do século XIX”. E que, a seguir, revela que vê  na ponte de "About To Die" “uma pobre filha bastarda de Verklärte Nacht, do Schoenberg”, através da qual procurou atingir a mesma sensação “macabra, mórbida e aterradora” para que também Monster, de Kanye West, e Thriller, de Michael Jackson, contribuiram enquanto catalizadores. Ah, e ainda em "Dance For You", a guitarra e as cordas têm uma dívida a pagar a "Mambo Sun", dos T. Rex. Para não falar da conta calada que deverão somar os empréstimos pedidos aos Run DMC, NWA ("Gun Has No Trigger"), Nirvana e Lil Wayne ("Offspring Are Blank"), Peter, Paul & Mary ("Just From Chevron") e Neil Young ("Irresponsible Tune"). Estamos, então, perante o quase perfeito protótipo de banda retromaníaca de que falava Simon Reynolds?


     
Errado. Erradíssimo. Embora de forma completamente diferente, poderá tratar-se, sim, de caso idêntico ao dos Field Music: outro exemplo acabado de que a aventura prog não devia, inevitavelmente, ter acabado em tragédia. Só mais uma espreitadela pelo buraco da fechadura do cérebro de Longstreth: em Abril passado, na página online da Brown University, de Providence, descobria-se que, a pedido de David Longstreth, Willis Monroe e Zack Wainer, estudantes de Assiriologia, se haviam dedicado a traduzir "Gun Has No Trigger" para acadiano, tendo Monroe gravado o texto em escrita cuneiforme. Qual a razão? Exactamente a mesma que para o "cameo" de Ligeti em "Dance For You": “Tenho uma enorme curiosidade em relação a imensas coisas. Sou um estudante. E intriga-me o problema e a dificuldade da tradução para idiomas que não existiam há milhares de anos”.


     
Chegámos ao ponto: aquilo de que a música dos Dirty Projectors se ocupa é de, sob um ângulo que tem tanto de calculado como de "stream of consciousness" – nas melodias, nos textos, nos arranjos, na instrumentação –, traduzir para uma linguagem ainda sem nome, inúmeros fragmentos da história sonora (mais ou menos) recente, apostando tudo no que, por aí, se ganha e se perde, autorizando e encorajando uma estratégia de construir edifícios aparentemente destinados ao colapso. Como quem insiste em misturar água e azeite... e consegue. Poderia ser outra qualquer mas a pérola "See What She Seeing" é assaz esclarecedora: burburinho rítmico de "drum’n’bass" de vão de escada (na verdade, caixa de guitarra acústica percutida) para um lado, voz solista e coros daquele recorte “africano” que Paul Simon e os Vampire Weekend preferem para outro, riff curvo para cima, secção de cordas para baixo, e, algures, ninguém será capaz de garantir exactamente onde, aparece uma canção. Sem esforço evidente, o fulano que escutava os álbuns dos Beatles, primeiro, na coluna direita e, depois, na esquerda, e mais óbvio candidato a Zappa contemporâneo com sensibilidade pop (não excluir, à cautela, a hipótese tUnE-yArDs), salta do "high life" para o psicadelismo à la Jefferson Airplane, de "Strawberry Fields" para “the kind of silence that can swallow sound”, do esgotamento nervoso sónico para erráticas canções-origami e, no processo comandado por uma ideia – “You’d see a million colours if you really looked” –, após o já magnífico Bitte Orca (2009), inventa música como nunca antes a havíamos ouvido.

07 November 2011

INTOCÁVEIS



St. Vincent - Strange Mercy




Laura Marling - A Creature I Don’t Know

Annie Clark diz “Não acontece todos os dias poder subir-se a um palco, vomitar toda a bílis misantrópica que temos cá dentro para cima de uma multidão e ouvi-la pedir ‘Mais!...’”. Laura Marling confessa “Não sou religiosa, não sou romântica, e vivo exclusivamente guiada pela lógica”. Clark (aliás, St. Vincent, por um motivo particular: foi no Saint Vincent’s Catholic Medical Center, de Manhattan, que Dylan Thomas, em 1953, morreu – “É o lugar onde a poesia vem morrer. Sou eu”), quando não emite opiniões como “Não penso, necessariamente, que os seres humanos tenham sido talhados para a monogamia”, gosta de largar pelas canções frases, mais ou menos heterodoxas, do género de “Jesus saves, I spend” ou “We'll do what Mary and Joseph did, without the kid”. Marling, que entende a escrita de canções enquanto pretexto para “manter uma conversa com pessoas com as quais não nos é possível conversar”, desenha, quase subliminarmente, autoretratos – “Cover me up, I’m pale as night, with a mind so dark, and skin so white” – tão exactos quanto inquietantes. E ambas, ao terceiro álbum (e, respectivamente, aos 29 e 21 anos), atingem aquele estatuto de intocabilidade que, habitualmente, exige um pedaço de carreira consideravelmente maior.


St. Vincent - "Cruel"

St. Vincent, é aquilo a que se poderia chamar “drop-out com uma causa”: após ter frequentado, durante três anos, o Berklee College Of Music, desistiu do curso alegando que “chega sempre um momento em que, depois de termos aprendido aquilo que pudermos, devemos esquecer e desaprender tudo para começarmos realmente a fazer música”. E, quando esse momento chegou, em 2003, alistou-se na tripulação dos Polyphonic Spree e, a seguir, na banda de Sufjan Stevens, para, em 2007 e 2009, publicar Marry Me e Actor, pequenos clássicos instantâneos de pop literata e barroca, com tanto de Bowie como de Robert Fripp, dos musicais da Disney (triturados por Tim Burton) ou do cinema de Godard em que uma Anna Karina texana, diante de Paris em chamas, murmurasse “Come sit right here and sleep while I slip poison in your ear”. Strange Mercy, sem contrariar verdadeiramente o que dela conhecíamos, abre mais espaço para a Annie Clark propriamente guitarrista – a que aceita de bom grado ser convidada a saltar na fogueira de versões dos Big Black – e para complexidades estruturais algures entre Björk, Grizzly Bear, Andrew Bird e Dirty Projectors, como luxuoso cenário de sequências de Rohmer vertidas em vocabulário S&M ("Chloe In The Afternoon"), evocações elípticas de Marilyn (“Best, finest surgeon, come cut me open”) e John Barry (a vénia a "You Only Live Twice" de "Surgeon"), e amáveis provocações (”I’ve had good times with some bad guys, I’ve told whole lies with a half smile”).


Laura Marling - "Night After Night"

Musa e diva da cena "nu-folk" londrina que, desde 2007, pariu Johnny Flynn, Mumford & Sons ou Noah & The Whale (“Não havia cena nenhuma, limitámo-nos a descobrir as colecções de discos dos nossos pais todos ao mesmo tempo”), Laura Marling, com os óptimos Alas I Cannot Swim (2008) e I Speak Because I Can (2010), apenas por dois anos não apeara Roddy Frame do posto de génio mais precoce de sempre da pop britânica. Mas, detalhes etários à parte, será muito difícil encontrar uma outra tão amadurecida digestão contemporânea dos êxtases materiais de Judee Sill e Leonard Cohen (a homenagem a este em "Night After Night" não poderia ser mais explícita) ou da ira da primeira PJ Harvey, transportada através de Neil Young, para a fluidez de Joni Mitchell, sob a aprovação insolente de Fiona Apple, do que este magnífico A Creature I Don’t Know.

(2011)

17 May 2011

NÃO É BEM ISSO


tUnE-yArDs - whokill

Houve um instante nos anos do pós-punk em que, limpo o terreno de todos os detritos que, durante quase uma década, o tinham atravancado, o processo de reconstrução se iniciou e, por algum tempo, a pop mais intensa, inteligente e vibrante de sempre tomou conta dos acontecimentos. Política e eléctrica, imediata e enxuta (mas com o exacto grau de complexidade indispensável para não se confinar ao raso utilitarismo de agit-prop), atlética e eclética, a música que – dos Talking Heads aos Bush Tetras, das Raincoats aos Delta 5, dos Gang Of Four às Slits ou a James Chance & The Contortions – então, se escutou era, literalmente, como um cantil de água fresca descoberto a meio de um deserto que levara demasiado tempo a atravessar. De entre todos, no entanto, poucos terão conduzido essa transformação tão longe e produzido tão prolongadas consequências estéticas como o Pop Group. Constituído em 1978, abriu as hostilidades com "We Are All Prostitutes", prosseguiu-as com For How Much Longer Do We Tolerate Mass Murder?, agregou à seita Dennis Bovell, gente do free-jazz, as Slits e os Last Poets, e, quando, três anos depois, explodiu, os estilhaços – Pigbag, Maximum Joy, Head e, sobretudo, Rip Rig + Panic – não foram menos gloriosos do que o petardo original. E, de caminho, foram ungidos como precursores do “Bristol Sound” que pariria Massive Attack e Portishead.



Dito isto, sublinhe-se que de Merrill Garbus/tUnE-yArDs não se pode legitimamente afirmar que possua semelhanças com qualquer um dos anteriormente referidos. Na verdade, aquilo que de mais rigoroso se pode dizer é algo de raro e absolutamente precioso: ela não se assemelha, realmente, a nada do que possamos mais ou menos informadamente conhecer. A ex-estudante de artes de palco e ex-bonecreira que odiava fantoches, a aprendiz de swahili e recolectora de música tradicional africana no Quénia que confessa ter problemas de consciência com a pilhagem da cultura africana pelo Ocidente (“Que vou eu fazer com isto? Devo pedir autorização? Se tenho medo de pedir autorização, quererá isso dizer que não o deveria fazer? E, se não há ninguém a quem pedi-la, significa que não há problema?”) mas que, por fim, se absolve – e, por extensão, a Paul Simon e aos Vampire Weekend –, o que desses todos guardou foi a atitude DIY, a urgência das intenções e o apetite pela diversidade das fontes de alimentação sonora. Chamem-lhe, se quiserem, Mrs Beefheart, comparem-lhe o timbre vocal com Aretha ou Miriam Makeba, atrevam-se a um sonho no qual as Raincoats se entregam ao deboche com vários clones de John Zorn e Björk ensaia vocalizos com os Dirty Projectors (o que, aliás, já aconteceu) e, se isso parecer assaz coincidente com a memória que permaneceu do Pop Group/Rip Rig + Panic, seria bom que ficassem a saber que não nos conseguimos aproximar suficientemente do perfil-tUnE-yArDs. A antiga noção de “futurismo primitivo” é bem-vinda, um certo gestualismo à la Pollock corrigido pela disciplina formal de Braque ajuda a definir contornos, a ideia de uns Konono nº1 no corpo de uma americana branca desbocada que admite publicamente “You came to put handcuffs on my brother down in the alley, I dreamt of making love to you” e um humilde ukulele são, igualmente, necessários. Mas não, ainda não é bem isso.

(2011)

30 May 2010

23 May 2010

A BUMBLER, A STAGE DRIFTER



"He's [Matt Berninger] a bumbler, a stage drifter, sometimes lost, sometimes not. 'I'm just shy of total failure', he deadpans about his live shows. 'There's something awkward about what we're doing. Not by design, but it has an unpolished and borderline foolish and embarrassed exposure. Maybe that's what people relate to a little bit'. All this makes him stand out from his NYC nominal-rock-star peers. Julian Casablancas: too cool, too aloof. James Murphy: too jaded, too arch. The Grizzly Bear dudes: too soft, too gentle. Dave Longstreth: too cerebral, too academic. Karen O: too shrieky, too stylish. The Hold Steady's Craig Finn: too duuuude, too well read. Anyone in Interpol: too polished, too poised. Berninger flirts with all those qualities, but doesn't overplay any of them: a near-perfect mix of the personalities that surround us every day. The guy in your apartment building obsessed with his new new-media job. The trivia hound at the bar who's so sure Hanna-Barbera cartoons are art. The guy in film school who used to be a jock who made fun of film schools. The guy you slept with last night who hasn't called. The guy who wants you back. The guy who looks depressed and lonely as he reads novels you think you've heard of on the 2 train. The guy who says he loves you and means it; the guy who says he loves you and might not. The guy who hates himself but loves his biker rights. The guy who feels so alienated in a big city, finds the bright lights blinding and the noise deafening, but will never leave because he's too afraid to live anywhere else". (artigo integral aqui)

(2010)

11 January 2010

DEFINITIVAMENTE SEM LUVAS



Vampire Weekend - Contra

Desde o início da década de 80, momento de erupção do pós-punk, do mítico “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths) e do experimentalismo “industrial” de Sheffield (Cabaret Voltaire, Clock DVA, The Human League), que não emergia nada com a semelhança de uma “scene”, incluindo o melhor que, quando autênticas, elas possuem: energia, diversidade, espírito de aventura e pouca vontade de se resignar aos padrões de criação e consumo dos "mainstreams" das várias épocas. O grunge de Seattle, o frenesim dançante de Madchester, a saturnidade de Bristol poderão ter tido, na origem, um código genético fértil mas demasiado rapidamente, de vítimas/cúmplices do hype, se converteram em marcas registadas, facilmente esterilizadas e normalizadas pelas cadeias de montagem da indústria discográfica. Não espanta, assim, que, quando os primeiros rumores acerca do surgimento de uma “Brooklyn scene” começaram a fazer cócegas nos ouvidos, a atitude sensata fosse ficar de pé atrás: outra???!!!...



Pois bem, dois anos e tal após os zunzuns, pode confirmar-se: sim, ela existe, é musicalmente rica como poucas, o espírito de rebanho parece encontrar-se higienicamente ausente e, realmente de comum – para além da localização geográfica no "borough" mais populoso de Nova Iorque – a músicos e bandas como St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens, Joan Wasser, My Brightest Diamond, Grizzly Bear, Dirty Projectors, The National ou High Places, apenas há o desejo de individualidade criativa sem mimetismos tribais. Ah!... e não esqueçamos os Vampire Weekend, com os National, talvez os casos de maior relevo de uma cena indie que – outra diferença – não se acanha excessivamente com a ideia de poder ser popular. E de ostentar currículos académicos. E de (ao contrário dos Strokes que levavam a mal o facto de serem encarados como punks betos) lhes carimbarem na testa o selo de – falo dos Vampire – "Columbia-rich-kid-afro-indie-pioneers". Eles são, sem dúvida, tudo isso e é para o lado que dormem melhor.



Em Janeiro de 2008, Vampire Weekend despia o último par de cerimoniosas luvas com que a pop – de Paul Simon a Peter Gabriel ou mesmo David Byrne – sempre manuseara a coisa “étnica”, dita "world music": uma serpentina de guitarras da Orchestra Baobab é tão respeitável quanto a hiperactividade dos Feelies, o "soukous" congolês não é incompatível com literatas ironias sobre intimidades chiques do Upper West Side e uma sequência de arpejos mozartianos não tem que se sentir incomodada por se descobrir reclinada sobre uma rede rítmica de "highlife". O álbum de estreia da banda de Ezra Koenig, Chris Tomson, Chris Baio e Rostam Batmanglij era impuríssima matéria-pop em permanente celebração da inteligência, da "nonchalance" sofisticada e da urgência de inventar música, e adubou o terreno para que, mal surgiram, em Setembro passado, os primeiros indícios de que o segundo tomo estava para breve, meia Internet tenha uivado apelos a que, nas habituais esquinas mal frequentadas, algum dealer mais expedito permitisse que se espreitasse o tesouro. Uma semana antes da data oficial de publicação, porém, os próprios Vampire o colocaram, integralmente, em "streaming" na sua página do MySpace. Diga-se, então, que Contra refina esplendorosamente os sabores e aromas da investida inicial, em dois ou três instantes ("White Sky", "Diplomat’s Son", "I Think Ur A Contra"), viaja umas boas léguas adiante do que Paul Simon sonhou em Graceland e, na trovoada percussiva aspirada por túneis digitais de "Giving Up The Gun", deixa-o mesmo a perder de vista. Só isso já seria óptimo. Mas há ainda que reparar nos delirantes zigzags da arquitectura sonora, nas alusões barrocas, nos subtilíssimos reichianismos, nos divertimentos electro que Rostam carreou de Discovery ou na adrenalina ska-punk que borbulha, aqui e ali. Haveria melhor forma de inaugurar 2010?

(2019)

03 August 2009

HÍBRIDOS DE PLÁSTICO


Discovery - LP

Deve haver quem continue convencido que, quando Richard Thompson se entrega à interpretação de “Oops!...I Did It Again”, de Britney Spears, ou Lloyd Cole ensaia uma versão de “Believe”, de Cher, ambos o fazem apenas enquanto estratégia de "comic relief" no alinhamento de um concerto e não por estarem genuinamente convencidos de que se trata de boas canções. É bastante provável que vá acontecer coisa semelhante com este LP, empreendimento lateral de Rostam Batmanglij – o teclista dos Vampire Weekend – e Wes Miles – dos também novaiorquinos Ra Ra Riot, cujo óptimo The Rhumb Line, do ano passado, passou, indesculpavelmente, abaixo de inúmeros radares (incluindo este) –, concebido ainda antes de ambas as bandas terem ascendido à primeira divisão pop. E, porque a coisa envolve também Angel Deradoorian (dos Dirty Projectors) e Ezra Koenig (dos Vampire), maior será a tentação para a encarar como uma piada inconsequente da seita de Brooklyn, exclusivamente destinada a festarolas betas. À “Pitchfork” (que, previsivelmente, em defesa da honra indie ofendida, demoliu o álbum), Wes Miles caracterizou LP assim: “Well, we definitely had a sense of humor when we were creating the music. But it’s serious, too. It’s not, like, serious serious, but, um...”.



Exactamente, na mouche: é, sem dúvida, um divertimento em que Rostam e Wes se aplicam a fundo na pulverização da percepção pública do que é suposto ser uma divindade indie mas que, através dos próprios processos que utlizam – a plastificação sonora radical de uma estética que vai do synthpop a Aphex Twin e Timbaland –, cria, simultaneamente, uma caricatura-multigéneros e, em três ou quatro faixas (de um total de dez), belíssimos híbridos inclassificáveis de candura digital. Explicando um pouco melhor: tal como os Vampire Weekend têm pouco ou nada a ver com a autenticidade da música africana de que se alimentam (e confessam-no: “This feels so unnatural, Peter Gabriel too”), o duo Discovery é totalmente estranho a este universo de Auto-Tuners – a maquineta que "vocoderiza" e arredonda qualquer angulosidade ou imprecisão vocal –, batidas robóticas, êxtases andróides e, sim, aqui e ali, afloramentos do que, em latitudes próximas, Paul Simon ou Peter Gabriel poderiam muito facilmente experimentar. Mas que, quer se aplauda, quer se rejeite, nestas versões do épico “Can You Tell?” (dos Ra Ra) convertido em assombração electro, de “I Want You Back” (dos Jackson 5) envolvido em espirais de sintetizador e nas várias outras declinações, extravagantes ou minimais, deste vocabulário, não cora de vergonha por sair da sua zona de conforto nem parece demasiado preocupado com a chuva de impropérios que, inevitavelmente, o irá acolher.

(2009)

21 June 2009

SER DE BROOKLYN
 

  Grizzly Bear - Veckatimest
 
 

Dirty Projectors - Bitte Orca
 
Aquilo que de, provavelmente, melhor a chamada "Brooklyn scene" tem é o facto de, em comum com as habituais "scenes", apenas partilhar, na realidade, o território geográfico do município de Nova Iorque baptizado a partir da cidade holandesa de Breukelen. Tirando isso – o "ser de Broolyn" ou viver lá – pouco mais se poderá encontrar de semelhante em bandas e músicos como Vampire Weekend, High Places, St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens ou My Brightest Diamond. Ou, agora, Grizzly Bear e Dirty Projectors.
 

 
Veckatimest – nomeado a partir de uma minúscula ilha deserta próxima de Cape Cod... pronto, estabeleçam, se assim o desejarem, a ligação com os Vampire a partir daqui –, terceiro álbum da banda de Daniel Rossen, Ed Droste, Chris Taylor e Christopher Bear, é uma pequena jóia de pop detalhadamente burilada que talvez possa ser mais facilmente circunscrita se se falar das afinidades que suscita. A saber, personalidades musicais tão diversas como Paul Simon ou os Radiohead que já declararam publicamente a sua devoção. Não seria impossível desenhar um ponto de intersecção entre as músicas de ambos – raíz folk sofisticadamente academizada e complexidade pop-rock – e, por aí, descobrir o território onde os Bear se sentem confortáveis, na companhia dos arranjos de cordas subliminarmente precisos de Nico Muhly e das imponderabilidades corais herdadas dos Beach Boys. 
 

O fã ilustre de serviço dos Dirty Projectors é David Byrne mas, se a referência Talking Heads não é, de todo, despropositada, a formidável música da banda do diplomado em composição por Yale, Dave Longstreth, é algo de bastante menos definível, num bizarro polígono entre o aracnídeo "high-life" africano, Jimmy Page, as "disco car ad harmonies" das sereias Angel Deradoorian e Amber Coffman (pensem Nigéria em Bollywood) e, sim, acreditem, Nico. (2009)