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16 March 2023

"Silver Seed"
 
(sequência daqui) E, um pouco por todo o lado, outros nomes – Shane MacGowan, Johnny Cash, Nick Cave, William Blake, Christy Moore – iriam sendo pronunciados, inclusive pela própria Lisa quando interrogada sobre que elementos a influenciariam: “A chuva, o vento, as flores, as abelhas, os rios, as árvores, os pássaros, as perguntas que as crianças fazem. Gente como Alan Watts, Charlie Chaplin, Einstein, Nina Simone, Moondog, a lua e o pó das estrelas”. Nem seria preciso recordar a assombração da sua voz no episódio final da série Peaky Blinders incinerando o haiku “All The Tired Horses”, de Bob Dylan, para que, antes da escuta de All Of This Is Chance, não tivesse já a menor dúvida de que “a lawless league of lonesome beauty” acabara de chegar das costas da Irlanda. Crua e densamente orquestral, entranhadamente tradicional e irremediavelmente contemporânea, com o olhar nas estrelas ("A star ran rings around the star before me and spun and swooped and sank in rock beneath me”) e uma fonte de alimentação inesgotável: “The solar system is a very large pool to draw from!

07 May 2017


"The difference between stupidity and genius is that genius has its limits" (Albert Einstein)

10 June 2016



"Every miserable fool who has nothing at all of which he can be proud, adopts, as a last resource, pride in the nation to which he belongs; he is ready and glad to defend all its faults and follies tooth and nail, thus reimbursing himself for his own inferiority" – Arthur Schopenhauer

"Patriotism is the passion of fools and the most foolish of passions" – Arthur Schopenhauer

"Patriotism corrupts history" – Goethe

"Into the cultural and technological system of the modern world, the patriotic spirit fits like dust in the eyes and sand in the bearings. Its net contribution to the outcome is obscuration, distrust, and retardation at every point where it touches the fortunes of modern mankind" – Thorstein Veblen

"At the bottom of all patriotism is war: that is why I am no patriot" – Jules Renard

"He who joyfully marches to music rank and file has already earned my contempt. He has been given a large brain by mistake, since for him the spinal cord would surely suffice. This disgrace to civilization should be done away with at once. Heroism at command, senseless brutality, deplorable love-of-country stance and all the loathsome nonsense that goes by the name of patriotism – how passionately I hate them!" – Albert Einstein

"Patriotism is a kind of religion; it is the egg from which wars are hatched" – Guy de Maupassant

"God and Country are an unbeatable team; they break all records for oppression and bloodshed" – Luis Buñuel

25 September 2015

"¿Cree que se puede ser un buen científico y creer en Dios?

Stephen Hawking - Utilizo la palabra 'Dios' en un sentido impersonal, igual que hacía Einstein, para referirme a las leyes de la naturaleza.

Usted ha dicho que no hace falta Dios para explicar el Universo tal como es. ¿Piensa que algún día los seres humanos abandonarán la religión y a Dios?

SH - Las leyes de la ciencia bastan para explicar el origen del Universo. No es necesario invocar a Dios" (daqui)

09 July 2015



"Pablo Casals dizia que 'o amor que temos pelo nosso país é uma coisa esplêndida. Mas porque não poderá esse amor passar a fronteira?' e Einstein acrescentava que 'o patriotismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade'. Foi (também) assente em generosas convicções desse género que projectos como o da União Europeia emergiram apesar de, já em 1979, o ex-embaixador britânico em Lisboa, Sir Archibald Ross, numa comemoração dos 25 anos de intercâmbio cultural entre Portugal e o Reino Unido, ter recordado um dos persistentes argumentos eurocépticos: 'Para quê aproximar as pessoas, se é sabido que, quanto mais se conhecem, mais se odeiam?'(autocitação)

17 December 2014

SEM CERIMÓNIAS 


Pablo Casals dizia que “o amor que temos pelo nosso país é uma coisa esplêndida. Mas porque não poderá esse amor passar a fronteira?” e Einstein acrescentava que “o patriotismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade”. Foi (também) assente em generosas convicções desse género que projectos como o da União Europeia emergiram apesar de, já em 1979, o ex-embaixador britânico em Lisboa, Sir Archibald Ross, numa comemoração dos 25 anos de intercâmbio cultural entre Portugal e o Reino Unido, ter recordado um dos persistentes argumentos eurocépticos: “Para quê aproximar as pessoas, se é sabido que, quanto mais se conhecem, mais se odeiam?” Uma das invenções que, particularmente no âmbito do cinema, mais contribuiu para fazer torcer o nariz ao europeísmo, foi o justamente mal afamado “europudim”, essa receita de transnacionalidade por encomenda que consiste em juntar um realizador eslovaco com um argumentista lituano, colocar-lhes à disposição um catálogo de actores e técnicos das outras 26 nacionalidades e sugerir-lhes que vão rodar na Transilvânia um épico sobre as campanhas napoleónicas. 



Não é, por isso, má vontade o motivo que leva a olhar, instintivamente, de esguelha um álbum que reúne 11 músicos da Grécia, Itália, Portugal, Estónia e Espanha, num “projecto cooperativo entre várias instituições culturais europeias”, com o objectivo de abater fronteiras e celebrar o diálogo entre as músicas tradicionais dos respectivos países. Afinal, todo o resto corresse tão bem na Europa como sucedeu em Folk Music In Museums – Young Musicians And Old Stories e não se associe aos “museus” a ideia de fósseis religiosamente preservados porque o que aqui se descobre é exactamente o contrário: a gloriosa promiscuidade que enrola “tammurriatas” com marchas catalãs, paganismos mirandeses e estónios, a total ausência de cerimónia na coabitação de melodias das Cíclades com “sardanas” tingidas de flamenco, a obscena naturalidade do convívio entre desbragamentos de taberna, virgens curandeiras e pescadores contrabandistas de haxixe, e o fogo de artifício tímbrico (teppo lööts, tsambouna, torupil, gralla – ataquem os dicionários!) não poderiam ser mais diferentes das hirtas folhas de Excel de qualquer Pacto de Estabilidade e Crescimento. 

01 March 2014



"One of the great attractions of patriotism - it fulfills our worst wishes. In the person of our nation we are able, vicariously, to bully and cheat. Bully and cheat, what's more, with a feeling that we are profoundly virtuous" (Aldous Huxley)

"Nationalism is an infantile disease. It is the measles of mankind" (Albert Einstein)

"Patriotism is a kind of religion; it is the egg from which wars are hatched" (Guy de Maupassant)

"You'll never have a quiet world till you knock the patriotism out of the human race" (George Bernard Shaw)

"Patriotism. Combustible rubbish ready to the torch of any one ambitious to illuminate his name" (Ambrose Bierce)

08 January 2014

... mas ninguém percebeu que é uma performance em torno de uma citação de Einstein?

"A distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão" (Albert Einstein)

22 June 2013

OMNÍVORO 


Aos 10 anos, ser convidado para o alpendre da casa de Albert Einstein, em Princeton, e – com ele ao violino e o infante dando uso às cordas vocais – ambos se entreterem a multiplicar a massa pela velocidade da luz ao quadrado, obtendo a suave energia musical de "Stille Nacht", não é coisa que deva ter acontecido a muita gente. Mas também não existirão muitas criaturas que, 60 anos após tal episódio, possuam um cartão de visita semelhante aquele onde se lê: “O Sr. Van Dyke Parks pede perdão pelo seu comportamento na noite de (inserir a data) e lamenta sinceramente qualquer prejuízo ou embaraço que possa ter causado”. O que até nem é, de todo, impossível quando reparamos que o afável cavalheiro com pinta de académico reformado não se ensaia nada para, numa entrevista, declarar: “Gosto da música de tipos brancos mortos. Gosto de música clássica. Gosto de música popular. Gosto de todos os géneros de música boa. No avião para cá, ouvi as valsas de Chopin todas. Para mim, bem melhor do que um fellatio. O que é dizer muito”



Pura verdade. Quero dizer, Van Dyke Parks gosta, de facto, do mais amplo leque de músicas. E isso nota-se bastante: desde aqueles com quem colaborou (U2, Frank Black, Laurie Anderson, Harry Nilsson, Phil Ochs, Ry Cooder, Tim Buckley, Randy Newman, Frank Zappa, e a lendária partilha da autoria de Smile, com Brian Wilson) à sua própria obra de que o tríptico inicial – Song Cycle, 1967, Discover America, 1972, Clang Of The Yankee Reaper, 1975 – foi reeditado o ano passado, o que sobressai é o perfil de um compositor versátil e avidamente omnívoro, tão à vontade com a tradição popular norte-americana (branca e negra), como com o modernismo orquestral dos Bernstein, Ives, Gershwin, ou do seu professor, Aaron Copland, que lhe explicou que “música americana é toda a que é escrita na América”.

  
Songs Cycled, o seu último álbum (apenas o sétimo, seguindo-se a Orange Crate Art, de 1995, assinado a meias com Brian Wilson), demonstra-o exuberantemente mais uma vez: como um pintor paisagista que, primeiro, se aplicasse a representar detalhadamente cada nervura de cada folha e, um por um, os grãos de pólen de cada estame, e só depois se preocupasse com questões de perspectiva, luz ou escala, Parks – operando num universo paralelo onde o rock’n’roll nunca existiu e Busby Berkeley é presidente dos EUA – pula agilmente de uma versão para "steel band" de "Aquarium" (do Carnaval dos Animais, de Saint-Saëns) para um gospel e, daí, em gincana pelo meio de quartetos de cordas, banjos, acordeões e bissectrizes improváveis entre a Argentina e o Havai, fiel à sua convicção de que “a canção é a ferramenta política mais poderosa disponível”, dispara sobre "Wall Street" pós 9/11 (“There is nothing but ash in the air, confetti all covered in blood”) devidamente antecipada por "Money Is King" e "Black Gold" (alusão à maré negra do petroleiro Prestige, em 2003, primeira intervenção em defesa da lusa pátria da residente de Fátima, segundo Paulo Portas). É assaz previsível que, como os anteriores, irá passar despercebido. Nada de grave: “Quando Kennedy foi morto apercebi-me de que a fama pode ser muito incómoda. E o tempo deu-me razão”.

11 January 2009

GOD'S AWAY ON BUSINESS (FOR GOOD) IN BARCELONA,
MADRID, WASHINGTON DC, AND ALL OVER THE UK



"La campaña para hacer publicidad en los autobuses urbanos de las principales ciudades españolas con el lema “PROBABLEMENTE DIOS NO EXISTE. DEJA DE PREOCUPARTE Y DISFRUTA LA VIDA” ha arrancado con fuerza. La Unión de Ateos y Librepensadores (UAL), organización promotora de la campaña, junto con Ateus de Catalunya, informa que en su primer día de funcionamiento ha logrado recaudar ya más de 1.000 € y que, de seguir a este ritmo, pronto podrá garantizar la presencia de autobuses con el lema de la campaña también en Madrid. La campaña se iniciará el próximo día 12 de enero en Barcelona, donde circularán dos líneas de autobuses de los Transportes Metropolitanos de Barcelona con la publicidad indicada. En los próximos días se darán a conocer los números concretos de las líneas de autobuses que pronto lucirán el eslógan “ateo”. Si la campaña sigue recaudando fondos al ritmo actual a continuación la publicidad se ampliará a dos nuevas líneas, y simultaneamente se pondrán también en marcha otras dos líneas de autobuses en Madrid, para extender después la campaña a otras ciudades.



La campaña cuenta con el apoyo de la British Humanist Association (BHA) que, con el respaldo a su vez del profesor Richard Dawkins, el conocido biólogo evolucionista autor de “El espejismo de Dios”, lanzó la campaña inicial en Londres con el objetivo de sensibilizar a los ciudadanos ateos, no creyentes y librepensadores en general sobre la necesidad de “hacerse visibles” para reivindicar los mismos derechos y libertades que se reconocen a los demás ciudadanos por el mero hecho de poseer o manifestar unas creencias religiosas. Desde entonces la campaña del “Bus Ateo” no ha dejado de extenderse por todo el mundo y, a partir de enero, finalmente llegará también a nuestro país. Los organizadores efectuarán una rueda de prensa la próxima semana en Barcelona, en el local de Ateus de Catalunya, para informar sobre el curso de la campaña. El día y hora de este acto se darán a conocer próximamente. Para más información sobre la campaña o para colaborar económicamente pueden consultarse las páginas web: www.busateo.org".




"'Why believe in a god? Just be good for goodness' sake', proclaims a new holiday ad from the American Humanist Association. Already appearing today in the New York Times and Washington Post, the message will soon be blazoned on the sides, taillights, and interiors of over 200 Washington DC Metro buses. It's the first ad campaign of its kind in the United States, and the American Humanist Association predicts it will raise public awareness of humanism as well as controversy over humanist ideas.



'Humanists have always understood that you don't need a god to be good', said Roy Speckhardt, executive director of the American Humanist Association. 'So that's the point we're making with this advertising campaign. Morality doesn't come from religion. It's a set of values embraced by individuals and society based on empathy, fairness, and experience'".


"There will be four new atheist adverts running on London’s tube network from Monday January 12, featuring quotations from famous atheists:



“I’m an atheist, and that’s it. I believe that there’s nothing we can know except that we should be kind to each other and do what we can for other people” – Katharine Hepburn




“Isn’t it enough to see that a garden is beautiful without having to believe that there are fairies at the bottom of it too?” – Douglas Adams




“I do not believe in a personal God and have never denied this but have expressed it clearly” – Albert Einstein




“That it will never come again is what makes life so sweet” – Emily Dickinson

The tube adverts were revealed today at a Central London campaign launch by Professor Dawkins, Father Ted TV writer Graham Linehan, columnist and BHA President Polly Toynbee and philosopher AC Grayling. In addition, two large LCD screens (80 square feet and 40 square feet respectively) on Oxford Street (situated opposite Bond Street tube) will display an animated version of the atheist slogan. Ariane Sherine, creator of the Atheist Bus Campaign, says: 'You wait ages for an atheist bus, then 800 come along at once. I hope they’ll brighten people’s days and make them smile on their way to work'. (...) The buses will be running in London, Manchester, Birmingham, Glasgow, Edinburgh, York, Leeds, Newcastle, Dundee, Sheffield, Coventry, Devon, Liverpool, Wolverhampton, Swansea, Newport, Rhondda, Bristol, Southampton, Newcastle and Aberdeen". (aqui)

(2009)

18 March 2007

OUTRA VEZ O TEMPO, AGORA

 

The End Of The Moon é a segunda parte de uma trilogia sem título: Laurie Anderson está sozinha em palco e encadeia as histórias que uma permanência como artista residente da NASA (e algum tempo de vida na Grécia e o 11 de Setembro e a sua cadela Lolabelle) lhe sugeriram. Como quem observa, de dentro, o mecanismo de um sonho e tenta compreendê-lo. E evitar que se transforme em pesadelo.  

The End Of The Moon aborda um dos seus temas e obsessões recorrentes: o conceito de tempo, da passagem do tempo. Porque voltou, de novo, a ele? 

À superfície, este espectáculo é o meu relatório sobre o período que passei como artista residente na NASA. E durante esse tempo a observar todos os sectores da NASA, o Hubble, o "jet propulsion lab", as actividades que mais me interessaram lidavam com grandes extensões temporais, podem levar até 10 000 anos a serem concluídas. Há a tendência para se pensar em intervalos de tempo muito curtos ou para se considerar apenas o futuro e esquecer o imenso passado que temos para trás. Interessaram-me as formas muito diversas como ali o tempo é abordado. Há tipos que estão só interessados na velocidade, em construir veículos muito, muito rápidos e outros que se dedicam a investigar o início do universo. Por outro lado, uma revista convidou-me a escrever um ensaio acerca do tempo e da beleza, "só" dois dos tópicos mais sérios que existem! Nessa altura, estava a viver em Atenas, a trabalhar em diversos projectos para os Jogos Olímpicos, e todos os dias olhava para o Parténon. Um arqueólogo responsável pela reparação do Parténon (outra tarefa que vai levar uns bons 500 anos!) ensinou-nos imensa coisa acerca da história da Grécia. Uma vez perguntei-lhe: "Foi aqui que teve lugar aquela gigantesca explosão cultural de onde nasceram a geometria, a filosofia, a arquitectura, a física, a tragédia. E, depois, tudo parece ter parado. O que aconteceu?" Respondeu-me — e eu acredito porque ele era exactamente como as imagens de Platão que conheço — que alguns dos que vinham adorar Atena, a deusa da guerra e da sabedoria, traziam para o Parténon estátuas cada vez mais belas, a ponto de ele se transformar numa espécie de museu. E muitos outros revoltavam-se contra isso por acharem que ali já não era possível orar.

  

Será que a necessidade de acreditar em algo é mais forte do que a vontade de inventar ou de conhecer? Agora que vivemos uma época terrivelmente conservadora nos EUA em que as seitas evangélicas procuram controlar a situação política e em que atravessamos a mais prolongada história de guerra do final do século XX e início deste, esta é-nos apresentada como uma série de sequelas, nunca se vê a totalidade. No espectáculo, nunca encaro isto de uma forma muito teórica. São histórias acerca da tecnologia, da guerra, outras, claro, sobre a minha cadela (risos)... contadas como se tivessem sido capturadas um instante antes de se poderem encaixar na nossa visão do mundo e de as podermos nomear e categorizar.   

Quando me apercebi que o espectáculo se chamava The End Of The Moon e pegava no conceito do tempo, associei-o imediatamente a The End Of Time, um livro de Julian Barbour (um professor de Física de Oxford), segundo o qual o tempo não existe mas apenas uma infinita sucessão de "agoras" eternos a que chama Platonia... 

É um budista! É exactamente o que um mestre budista diria. Vou já tomar nota, tenho de ler isso.

Li algures que anda a pensar em escrever um poema épico. Será algo como a Ilíada, ou a Odisseia? 

Como vê, passei tempo demais em Atenas... (risos) No meu mundo as coisas são muito curtas e apetecia-me escrever algo muito extenso. No fundo, é aquilo que estou a tentar fazer com esta trilogia de que a primeira parte foi Happiness. Ainda não sei bem como irá ser a terceira. O que não é mau. Não saber para onde vou é outro dos pontos em comum com os investigadores da NASA. Há muito mais semelhanças entre a arte e a ciência do que supunha. Einstein rejeitou algumas das suas teorias mais importantes por considerar que não eram belas. É em parte por isso que utilizo a beleza como parte deste puzzle que começa com a interrogação "Quem te ensinou o que era a beleza?". Aqui estou eu produzindo músicas, objectos de arte, mas como posso saber se se trata realmente de arte ou apenas de algo que, por acaso, naquela semana, se tornou popular em Nova Iorque? Talvez se trate apenas de um processo em que nos estamos a afastar dos próprios objectos. Desde o urinol do Duchamp, os tipos da "arte povera"... Onde irá isto parar? Talvez que a forma como vemos o mundo se transforme, ela mesma, em obra de arte, deixemos de precisar daqueles objectos de vudu que colocamos nos museus para representar a beleza e passem apenas a ser coisas que nos ensinaram a ver a beleza. Se calhar, só daqui a 10 000 anos porque nós adoramos objectos. Eu também.

   

Por outro lado, não tem a sensação de que a melhor filosofia e ficção actuais estão nas revistas de astronomia e astrofísica? 

Sem dúvida. Há coisas quase inacreditáveis nos cenários que nos apresentam. Essa ideia de que falou dos eternos "agoras" é de cortar a respiração... Uau! De certeza que poria os cabelos em pé a muita gente nos EUA... O quê, não há paraíso? Nem recompensa? Esta gente aqui adora julgamentos morais, dizer o que é certo e errado, fá-los sentir muito superiores. Aparentemente, há três milhões de budistas nos EUA. Está a tornar-se um movimento muito interessante, tem a ver com a ideia de liberdade, de não existirem figuras de autoridade. 

Uma vez disse-me que, se fosse budista, seria uma budista desconfiada... 

 (risos) Já não me sinto tanto assim. Caso fosse, seria uma budista muito curiosa.  

Concorda se disser que, nos seus espectáculos, procura fazer colidir ideias e conceitos que, supostamente, não deveriam coexistir num mesmo momento? Sim, no fundo, é um processo utilizado por todos os contadores de histórias. E é mais fácil de utilizar quando se trabalha com histórias curtas que, aparentemente, nada têm a ver umas com as outras (bom, estou a adorar acordar numa manhã de domingo e pôr-me a filosofar!...). Chamo-lhes histórias de cão vadio: vão por aqui, por acolá, viram uma esquina, dão quinze voltas ao quarteirão antes de voltarem ao presumível tema. Pode soar pretensioso mas, com todos esses "jump cuts", procuro reproduzir a forma como penso. Não se trata de realismo ou de tentar simular o funcionamento do cérebro. Mas desconfio muito do modo como as histórias habitualmente funcionam, como se a estrutura as obrigasse a um final determinado. E a maioria das coisas não o tem... Muita gente também imagina que a vida tem de ser assim, com princípio, meio e fim.  

Inventamos a nossa própria biografia a partir de fragmentos de memória de tal modo que, se um observador externo inteiramente objectivo pudesse existir, provavelmente nunca reconheceria ... A todo o instante. São as histórias que nos contamos para podermos andar para a frente. E as outras pessoas dizem-nos "Mas tu não és de todo assim, é impossível!". É como o "cartoon" do marinheiro e do gato numa ilha deserta que vêem uma sereia. O marinheiro imagina que ela tem pernas e o gato supõe que ela é toda peixe (risos). Por vezes, apercebemo-nos que não estamos a ver as coisas com clareza mas apenas a parede do fundo do nosso cérebro. Uma das coisas que mais apreciei na NASA foi esse poder da observação. Enquanto artista, tento ser um pouco como um bom jornalista: ver bem o que ali está. Ou o que poderia ali estar.

Essa espécie de itinerário mental errático está bem presente nos vários tópicos do espectáculo: os hábitos de nidificação dos pinguins gay, a imposição de Thomas Pynchon de que qualquer adaptação musical dos seus livros deveria ser feita em banjo... 

Procuro construi-lo como um sonho que, de certo modo, se vai estruturando. Gosto muito de coisas que se nos impõem mas que, ao mesmo tempo, são indefinidas, não sabemos por que nos atraem. São essas que me fascinam. E que, desta vez, tem a ver com a sensação de perda de muitos de nós, hoje, nos EUA, e com o clima muito conservador em que vivemos.   

É ainda a ressaca do 11 de Setembro... 

 Sim. A paranóia da segurança. Claro que toda a gente deseja viver em segurança, não vou brincar com isso. Nesse dia, não fazíamos ideia do que iria acontecer depois... a seguir, seriam Londres, Paris? 

E uma semana depois, estava a actuar no Town Hall de Nova Iorque... 

E, nessa mesma noite, em Chicago! Nós aqui a falarmos de viver no presente!... Naquela noite,não podíamos estar mais no presente! Tínhamos estado a ver aquelas imagens todo o dia. Adoro o trabalho que faço mas grande parte do tempo estou sozinha com o computador. Estar junto do público no interior daquele terrível sonho não é possível descrever. (2005)