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23 August 2022

 
 
 
(sequência daqui) Descendente oblíqua do retrofuturismo dos Broadcast ou Stereolab e adepta do neopaganismo anarco-feminista de Monica Sjöö, neste novo manifesto (nove canções em "cornish" e uma em galês), Gwenno tanto recorre aos sinos de Santa Maria Della Salute, em Veneza, ou à sonoridade de um vetusto piano de cauda de um hotel de Viena como invoca Morricone, Agnés Varda, Maya Deren, Jodorowsky, Fellini e Sergei Parajanov. Com uma intenção que não poderia ser mais clara: “É como se fosse um livro de recortes, com coisas que vêm de todo o lado. Estou realmente obcecada pela Europa, num desespero por fazer parte dela. Não é porque desejemos ser insulares que exploramos a nossa cultura, fazemo-lo porque queremos fazer parte do mundo!”.

21 February 2022

AFINAL, O QUE É UMA HISTÓRIA?
 
Laurie Anderson parece já ter feito tudo mas tem sempre alguma coisa por fazer. Após mais de uma dezena de álbuns (e o dobro disso em colaborações com outros artistas – William Burroughs, John Giorno, Peter Gabriel, Lou Reed, Marisa Monte, John Zorn, Kronos Quartet...) e outros tantos filmes, videos e "audiobooks", a criação de espectáculos de música/"spoken word"/"performance art" e exposições, a participação enquanto curadora (e em inúmeros júris) de festivais de cinema, e a criação de instrumentos (o "tape-bow violin" e o "talking stick"), em 2003, aceitou ser a primeira (e, até agora, única) artista residente da NASA, de que resultaria o espectáculo The End Of The Moon: “À superfície, é o meu relatório sobre o período que lá passei. As actividades que mais me interessaram lidavam com grandes extensões temporais, podem levar até 10 000 anos a serem concluídas. Há a tendência para se pensar em intervalos de tempo muito curtos ou para se considerar apenas o futuro e esquecer o imenso passado que temos para trás. Interessaram-me as formas muito diversas como ali o tempo é abordado”, explicou-nos, na altura. Quase duas décadas depois, o Charles Eliot Norton Professorship of Poetry da Universidade de Harvard, convidou-a a ser a responsável de 2021 pelas Norton Lectures, uma iniciativa anual sobre “poesia no sentido mais amplo”, na qual ela iria acrescentar o nome a tão ilustres antecessores como T. S. Eliot, Robert Frost, Igor Stravinsky, Jorge Luis Borges, Leonard Bernstein, Umberto Eco, Luciano Berio ou Agnés Varda. (segue para aqui)

09 March 2021

(sequência daqui) A resposta é não, não pode. “Of all the many things that you may ask of me, don’t ask me for indifference” diz ela, no nono capítulo desta averbação – ampliada, reflectida, redobrada – do divórcio entre a espécie humana e a Terra, etapa mais recente de um percurso com rumo bem definido: “Escrevo canções acerca de coisas que existem. É uma forma de combater aquela música que é, frequentemente, sobre fantasias. Prefiro concentrar-me na realidade e em verdades mais profundas e que passam despercebidas”, lê-se na biografia do Bandcamp. É, justamente, por esse lado que entram Varda e a enigmática personagem dos espelhos: “A câmara pretende convencer-nos que sabe tudo mas não sabe. Quis apenas abrir um pequeno portal para que as pessoas pudessem compreender que há mais coisas para ver. A ideia era atrair o olhar e devolvê-lo imediatamente. Como se eu fosse invisível. E também uma metáfora visual para como nos sentimos quando actuamos: para o bem e para o mal, as pessoas projectam-se em nós e esperam que lhes enviemos um reflexo”, explicou à “Pitchfork”.

 

O grande tema, mesmo quando isso não é aparente, é a arrasadora devastação a que o planeta tem sido submetido às mãos da ignorância politicamente motivada. Mas sem nunca recorrer a palavras de ordem nem agitar bandeiras para que se entenda que “the robber” personifica a avidez capitalista legalizada (e até sedutora: “When I was young, I learned how to make love to the robber, to wring from his hand the touch of a lover”) ou que "Wear" (“I tried to wear the world like some kinda jacket, it does not keep me warm, I cannot еver seem to fasten it“) não tenha sido inspirado por desfiles de moda. “Esse tipo de linguagem panfletária, musicalmente, nunca resulta, a menos que estejamos a escrever uma canção de protesto. Já tentei fazê-lo e falhei sempre. Escrever uma canção de protesto é a coisa mais difícil em que se pode pensar”. (segue para aqui)

07 March 2021

COMO SE FOSSE INVISÌVEL

A câmara desce da copa das árvores sobre o corpo de uma mulher que, no meio da floresta, observada de forma apática, quase sonâmbula, por meia dúzia de pessoas, dança. Num lento "travelling", desassossegado pela pontuação tensa das percussões e rasgado por golpes orquestrais, aproxima-se de Tamara Linden que, olhando-nos desconfiadamente, canta: “I never believed in the robber, I never saw nobody climb over my fence, no black bag, no gloved hand, I never believed in the robber”. Sem aviso, fala para um microfone que lhe é dirigido e, logo a seguir, à frente de duas agitadas baterias e envergando casaco e calças forrados de espelhos, qual Beth Gibbons suavemente exaltada pelas avalanches de cordas, proclama: “No, the robber don't hate you, he had permission, permission by words, permission of thanks, permission by laws, permission of banks, white table cloth dinners, convention centers, it was all done real carefully.” É o video de "Robber", primeira canção de Ignorance, último álbum de The Weather Station ("nom de plume" de Tamara). Nessa altura, ainda não o suspeitamos mas todo o programa que nas restantes nove faixas irá desenvolver-se acaba de ser-nos apresentado.

"Robber"

Numa "newsletter" do ano passado dirigida aos fãs, Lindeman escrevia acerca do seu conhecimento tardio da obra da cineasta belga Agnés Varda, desaparecida em 2019. E descrevia-a como uma artista “desprovida de ego que, através da objetiva, ampliava, mudava e renovava tudo. O seu olhar cinematográfico é sempre o da restauração e da generosidade. Coisa tão rara!” A afinidade era natural: a própria Varda confessara que o que mais desejava não era mostrar mas “suscitar nas pessoas o desejo de ver”. Para alcançar o mesmo, em Ignorance, Tamara Lindeman não se limita a retomar a proposta que Lou Reed colocara na voz de Nico — "I’ll Be Your Mirror" — mas, qual caleidoscópio, cobre-se literalmente de espelhos.

"Tried To Tell You"

Em "Tried To Tell You", no seu "traje de luces" mágico, é uma “lady in the lake” medieval que emerge das águas para, dissipando a névoa — “Some days there might be nothing you encounter, to stand behind the fragile idea that anything matters, I feel as useless as a tree in a city park, standing as a symbol of what we have blown apart” —, conduzir uma solitária personagem e extrair flores da boca e imaginá-las a desabrochar em terreno árido, e "Atlantic" vê-a transformar-se de ponto de luz desfocado em “mirror ball” humana que, na escuridão noturna de um bosque, exclama “My god, what a sunset!” e logo se interroga: “Thinking I should get all this dying off of my mind/ I should really know better than to read the headlines, does it matter if I see it? No really, can I not just cover my eyes?” (daqui; segue para aqui)

30 December 2018

2018 - Cinema, televisão
ou lá o que é


Três Cartazes à Beira da Estrada - Martin McDonagh



Escape At Dannemora - Ben Stiller (TV)



BlacKkKlansman - Spike Lee



 Gatos/Kedi - Ceyda Torun



Olhares/Lugares  - Agnès Varda e JR



No Intenso Agora - João Moreira Salles



Castle Rock - Sam Shaw e Dustin Thomason (TV)



  A Morte de Estaline  - Armando Iannucci



Condor - Todd Katzburg, Jason Smilovic e Ken Robinson (TV)



Unité 42 - Julie Bertrand, Annie Carels e Charlotte Joulia (TV)



Farenheit 11/9 - Michael Moore



A Livraria - Isabel Coixet