John Cale & Guests - The Velvet Underground & Nico (Paris 2016)
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20 February 2023
09 February 2023
(sequência daqui) Agora que, à beira de completar 81 anos, publica Mercy (17º álbum a solo e o primeiro numa década), na companhia de Weyes Blood, Animal Collective, Sylvan Esso, Fat White Family e Laurel Halo, um coro de louvores fez-se ouvir, oriundo de diversos quadrantes e gerações.“Se fossemos apenas o produtor que ele é e foi, teríamos lugar garantido na História. Se apenas tivéssemos sido parte dos Velvet Underground, teríamos um livre trânsito para o paraíso do rock’n’roll. Mas, depois, ainda há todos os álbuns a solo para a Island, a colaboração com Brian Eno e Songs For Drella!... Aborda as coisas sempre numa perspectiva de ‘O que é que, neste momento, me parece interessante?’ em vez de o fazer numa atitude carreirista. Canções criadas assim persistem de um modo muito diferente porque foram pensadas com respeito” diria James Murphy, dos LCD Soundsystem, esquecendo-se, porém, de dar o mui devido destaque ao sobrenatural Music For a New Society (1982) que, Cale sendo Cale, em M:FANS (2016), metodicamente demoliria; “Considero uma enorme honra poder observar cada uma das pequenas decisões que ele toma. Atira-nos duas ou três frases para explicar aquilo que pretende e isso tem um significado imenso”, adianta Brian Weitz/Geologist, dos Animal Collective; “De certo modo, ele podia ser muito formal – muito erudito e clássico. Mas era também capaz de ser tão selvagem como qualquer um de nós”, acrescenta Patti Smith, de quem – numa lista que inclui igualmente os Stooges, Nico, Modern Lovers, Happy Mondays, Siouxsie & The Banshees – ele produziu o álbum de estreia, Horses (1975). (segue para aqui)
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29 April 2020
OS BRAVOS DE DOKKUM
A Frísia situa-se no extremo norte da Holanda e Dokkum no extremo norte da Frísia. Sobre a Frísia podemos saber que o idioma local é a língua continental mais próxima do Old English medieval e que foi nela que a holandesa Nynke Laverman – natural de Leeuwarden, na Frísia – gravou dois álbuns de fado. Acerca de Dokkum, é esta a altura certa para travarmos conhecimento com os prodigiosos Elias Elgersma (guitarra), Jaap Van der Velde (baixo) e Erik Woudwijk (bateria), aliás, The Homesick, três dos 12 500 habitantes da cidade onde São Bonifácio, no século VIII, após ter tentado em vão converter os frísios ao cristianismo, por mais que, segundo a lenda, se defendesse brandindo uma Bíblia, não evitou ser assassinado. Seria infinitamente justo que, a partir de agora, o mundo, em vez do bonifacial episódio, passasse a recordar-se de Dokkum pelos bravos feitos de Elgersma, Van der Velde e Woudwijk: The Big Exercise – segundo álbum do trio depois da estreia, Youth Hunt (2017) – é o tipo de proeza musical ao alcance de muito poucos.
Eles juram que não seriam o que são se não tivessem escutado Meredith Monk e Joan La Barbara e encaram o título do disco, retirado de uma passagem da biografia de Scott Walker, Deep Shade Of Blue, como uma vénia perante o mestre. Mas a verdade é que, neles, tudo soa muito mais a reinvenção e enérgica dilatação da veia sonora antes explorada pelos XTC, Wire, Animal Collective e Field Music: o microscópico trabalho de relojoaria das guinadas harmónicas, rítmicas e melódicas, o enlace e desenlace de nós cegos, da estridência para o pós-punk de câmara, as piruetas dos hoquetus vocais para os vertiginosos riffs em movimento circular, o pano de fundo tão barrocamente exuberante quanto disciplinadamente austero, o incansável dínamo da bateria de Woudwijk, tudo aponta nesse sentido. Ou, então, como eles dizem, será apenas uma questão de conduzir o experimentalismo tão longe quanto possível, camuflado sob a aparência de subordinação aos protocolos pop. Que continuem a fazê-lo por muito tempo.
26 September 2017
PREVARICAR
Há divórcios (mais ou menos) felizes. Não sabemos ainda como será o quarto álbum dos Vampire Weekend – repetidamente anunciado desde o início deste ano – após a partida, em Janeiro de 2016, do multi-instrumentista, compositor, arranjador e produtor Rostam Batmanglij mas podemos já escutar Half-Light, o primeiro álbum dele a solo. E, porque a separação foi amigável, permanece aberta a possibilidade de continuar a trabalhar em regime de "outsourcing" com a banda de origem. Não que esta tenha sido a sua primeira aventura extra-“matrimonial”: já antes com Frank Ocean, Solange, Hamilton Leithauser, ou Wes Miles (Ra Ra Riot), no intrigante projecto Discovery, ele prevaricara. Mas, desta vez, no ponto de partida, havia um plano verdadeiramente ambicioso: “Tentar compor a música mais complexa sobre a qual alguém poderia cantar. Há uma quantidade de regras que desejo quebrar, tenho um impulso incontrolável para quebrar regras. Quis fazer um disco no qual não se possa exactamente dizer o que é a canção e o que é o arranjo de cordas. Um pouco aquela combinação entre a música clássica e o idioma da canção que ouvimos na pop francesa, nos Beatles ou no Tropicalismo brasileiro”.
A primeira faixa, "Sumer", estabelece, imediatamente o tom: algo semelhante a uma versão de "Three Blind Mice" em registo transtornadamente coral "à la" Animal Collective. Mas tudo o que virá a seguir deixará bem assente a ideia de que nada do que pingue na paleta de Rostam deixará de ser utilizado: "Bike Dream" é um exuberante exercício de experimentação texturada sobre a estrutura pop tradicional, "When" desliza da "rêverie" vocal ("When you know something how do you know that you know it?”) para uma fantasmagoria "spoken word" acerca da distribuição da riqueza e o complexo militar-industrial norte-americano, "Rudy" preguiça encostada a um reggae com implante de sopros "free form" que se dissolvem em pura transpiração sonora e "Warning Intruders" é um cristal flutuante de transparências digitais. São, porém, "Wood" (quase 6 minutos de um beat construido em torno de samples de tabla e sitar, uma guitarra de 12 cordas afinada como um "tar" persa e vertiginosas cordas bollywoodianas) e "Gwan" (a vitória da Penguin Cafe Orchestra perante os avanços de uma percussão marcial) que praticamente garantem que, da dissolução da parceria Koenig/Batmanglij não resultará catástrofe idêntica à que aconteceu com Lennon & McCartney.
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21 December 2016
MÚSICA 2016 - INTERNACIONAL (I)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 26)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
09 June 2016
É oficial: aos 37 anos, o cidadão neo-lisboeta, Noah Lennox, sente-se um ancião pop. E, embora não tendo perdido o gosto pela experimentação e pela exploração de abordagens diferentes para a música que, com o neo-angeleno, David Portner, e o neo-washingtoniano, Brian Weitz, cria nos Animal Collective, já lhe sobra pouca paciência para a rotina de gravação-promoção-concertos que o modus operandi da indústria discográfica impõe. Até porque, pelo meio disso, ainda se vê obrigado a lidar com o "hype" e as fantasias dos media, capazes de ficcionar vários universos a partir de um humilde átomo. Nada, porém que o impeça de ter publicado Painting With, o décimo álbum da banda – para além de peças em nome individual –, e de embarcar no carrocel de uma extensa tournée que passará pelo Primavera Sound, do Porto.
Um décimo álbum parece um óptimo pretexto para uma reflexão sobre a trajectória dos Animal Collective...
Essencialmente, tenho-me apercebido de como o passado permite ver o presente com outras cores e também como é cada vez mais difícil não nos repetirmos e continuar a fazer coisas novas. Temos de nos forçar a descobrir outros espaços. É um desafio de que gosto mas não deixa de ser um desafio.
Têm uma noção do lastro que foram deixando para trás e daquilo que ganharam?
A percepção que temos das coisas muda. A ideia que fazemos de um álbum e a de quem o escuta vai transformando-se muito. Quando Strawberry Jam saiu, a reacção do público foi um bocado morna. Agora, parece ser um dos preferidos. Claro que com a Internet tudo mudou mas, talvez, passados vinte ou trinta anos, possa avaliar-se um disco da forma mais objectiva possível, com o mínimo de ruído à volta.
Centipede Hz, de há quatro anos, parece ter-se tornado a vossa ovelha negra...
Ou mesmo também este último. Foi a primeira vez que sentimos que tínhamos detractores. Não porque pensássemos que havíamos feito algo errado mas por nos darmos conta de que não estávamos alinhados com as expectativas que existiam em relação a nós. Sendo uma banda que não vive para agradar facilmente ao público, pomo-nos um bocado a jeito para estas reacções. Mas vamo-nos habituando.
Painting With é o primeiro álbum a não ter sido tocado ao vivo antes de irem para estúdio. Foi uma mudança deliberada ou aconteceu assim devido à dispersão geográfica dos elementos do grupo?
Uma das razões foi, precisamente, porque nunca o tínhamos feito antes e estávamos com curiosidade de ver o que resultava. Mas, como vimos de uma cultura que cultiva a partilha de gravações de concertos, muitas vezes, a versão das canções que predominava era a de palco e o que registávamos em estúdio era apenas um reflexo pálido disso. Apeteceu-nos, por isso, inverter o processo, tornar a versão de estúdio na primeira impressão e na imagem ideal que se tem das canções.
Acerca da gravação do álbum proliferaram as “lendas” de projecções psicadélicas de imagens de dinossauros em estúdio, "FloriDada" puxou associações dadaístas...
É um típico caso de os media inventarem uma história a partir de coisa nenhuma. É interessante verificar o que, por exemplo, numa entrevista, se selecciona como destaque. Aquilo que, para nós, foi apenas o desejo de criar um ambiente divertido para trabalhar e não teve qualquer impacto na música, foi convertido numa coisa importantíssima!
Também foi sublinhado o facto de terem ido gravar nos EastWest Studios onde Pet Sounds nasceu...
Foi só uma coincidência e um recurso de última hora. Os estúdios para os quais planeáramos ir, por um equívoco de datas, não estavam disponíveis e tivemos de ir para esses. Claro que foi óptimo estarmos ali, como se visitássemos um museu onde o Marvin Gaye e o Frank Sinatra trabalharam. Mas o mais importante é que o que ali se grava soa maravilhosamente. Foi um contratempo que teve excelentes consequências.
Em Painting With o jogo da sua voz com a do David Portner funciona como um elemento fundamental... como desenvolveram essa técnica de pergunta e resposta, por vezes, silabicamente, que aplicaram aqui?
Quando começamos a compor, temos sempre imensas ideias acerca de que equipamento usar, que tipo de abordagem escolher... no final, só cinco ou seis acabam por sobreviver. É um processo de selecção natural. Desta vez, uma dessas foi a intenção de criarmos música para duas vozes, em contraponto, em plano de igualdade. De tal modo que, se retirássemos uma delas, alteraria por completo a canção. Não é, de todo uma ideia nova, o "hoquetus" já era utilizado na música medieval embora não exactamente da forma como o fazemos.
A escolha do aeroporto de Baltimore para o lançamento do disco foi uma vénia à Music For Airports, do Brian Eno?
(risos) Não. Actualmente, é praticamente impossível descobrir um local onde, quando um disco sai, toda a gente possa escutá-lo ao mesmo tempo. Queríamos apresentá-lo de um modo especial, num sítio onde ninguém estivesse à espera de ouvir aquela música: pensámos fazê-lo num centro comercial, durante um jogo de futebol mas o aeroporto acabou por ser a solução logisticamente mais fácil.
A participação de John Cale ocorreu por procurarem algo específico que só ele poderia trazer ou tratou-se de uma homenagem a ele e aos Velvet Underground?
Somos todos fãs da música de John Cale e dos Velvets mas, na realidade, a razão foi um pouco mais funcional. Em "Hocus Pocus", o Brian tinha utilizado um "sample" de cordas cuja sonoridade não nos satisfazia. Sabíamos que o John Cale vive em Los Angeles e que a Abby, irmã do Dave, tinha trabalhado com ele. Pensámos, então, em pedir-lhe que tocasse viola de arco nesse tema. Não foi isso que, finalmente, aconteceu mas ele trouxe uma enorme quantidade de equipamento electrónico. Passámos mais de meio dia a experimentá-lo!
O que sente quando a "Pitchfork" vos qualifica como “avant pop institution”?
O que me sinto é velho... (risos) Tenho 37 anos. Vejo-me a fazer música até morrer mas não sei quanto mais tempo serei capaz de aguentar o circuito de gravações, entrevistas, um ou dois anos de concertos... há um prazo de validade para isso.
05 April 2016
POR ONDE COMEÇAR
Se costuma acreditar em tudo o que lê, é bem possível que tenha ficado convencido que, no último álbum, Painting With, os Animal Collective tenham optado por um matrimónio peculiar entre a variedade de psicadelismo que praticam e uma estirpe contemporânea do dadaísmo. No ano em que se comemora o centenário da inauguração, em Zurique, do Cabaret Voltaire (não confundir, por Zeus!, com a homónima banda britânica), e do primeiro Manifesto Dada, de Tristan Tzara, era um anzol que estava mesmo a pedir para ser engolido. A verdade é que, caso o tema lhe interesse, ficará bem melhor servido se ler Dada – Histoire d’une Subversion (de Henri Béhar e Michel Carassou, recentemente traduzido pela Antígona). Porque, no disco de Noah Lennox, David Portner e Brian Weitz – tal como não é a inclusão da frase “Le tout début d’une histoire est plus beau qu’un urinoir de Marcel Duchamp” que faz de Quinze Chansons, de Vincent Delerm, um espécime neo-dadaísta –, a única relação com “o jogo louco do vazio” de Hugo Ball, Picabia e Hans Arp, é o título da primeira canção, "FloriDada". Só isso.
E a também vastamente referida associação à estética-Ramones (a propósito: “Gabba gabba hey” será uma interjeição dada?) não foi senão a expressão do desejo de se imporem regras de brevidade e concisão, uma estratégia de estimular a criatividade através da aceitação de restrições. Para concluir a demolição do "hype" fabricado pelos media mais preguiçosos, acrescente-se ainda que, sim, Painting With foi gravado nos mesmos EastWest Studios onde decorreu a gestação de Pet Sounds, dos Beach Boys, mas tal só aconteceu porque outras alternativas não foram possíveis e não porque o trio sonhasse com a invocação da musa criativa de Brian Wilson. O que, neste particular, não impediu que – em linha evolutiva mais ou menos previsível – boa parte do disco soe ao que poderia resultar de uma sessão de estúdio dos Beach Boys sequestrados no interior de um jogo de vídeo e sob a influência simultânea de um generoso sortido de químicos e do hoquetus vocal medieval. Sob as condições ideais de temperatura e pressão, o que resulta é luminoso e multicolorido. Acerca do que sobra, a palavra a Portner: “I don’t even know where to begin, or how should I start these days”.
26 January 2016
11 March 2013
EM PRIMEIRO GRAU
Reptar - Body Faucet
E porque, nestas práticas de adesão a um clube, é quase inevitável escolher a camisola do atleta mais famoso, os moços com nome de dinossauro de uma série televisiva de animação, não hesitaram e decidiram adquirir e envergar a dos Vampire Weekend. É verdade que estes – como toda a gente, aliás – não são musicalmente amnésicos e alimentaram-se avidamente do caldeirão "world" que Paul Simon e Peter Gabriel haviam, previamente, aquecido. Mas não só a vampirização implica a transformação em nova matéria pop, como o fazem com as devidas distância e ironia (“This feels so unnatural, Peter Gabriel too”, da autoexplicativa "Cape Cod Kwassa Kwassa"). Com os Reptar, porém, tudo acontece em primeiro grau: açorda de poliritmia "afrobeat" e guitarras "highlife" via-Vampire, pano de fundo psicadélico à la Animal Collective de braço dado com Yeasayer, e uma imensa aspiração fracassada ao QI de David Longstreth (Dirty Projectors). Claro que a voz de Mickey Mouse esterilizado de Graham Ulicny também não ajuda muito.
Reptar - Body Faucet
Primeiro, as boas notícias: está anunciado para este ano (algures pela Primavera) o sucessor de Contra (2010), dos Vampire Weekend. Depois, o trabalho sujo que ninguém deseja mas alguém deverá fazer: é oficial que não estamos já condenados a enfrentar apenas as hordas de gente que, com o cérebro engatado em marcha atrás na direcção dos sessentas, setentas e oitentas do século passado, avança pelo território pop adentro. Conheçam, pois, os Reptar, banda de Athens, na Georgia, que, ao contrário do que se poderia prever (e seria igualmente reprovável), não se dedica a mimetizar os conterrâneos R.E.M. mas prefere optar por uma espécie de "digest" dos últimos cinco anos da cena "indie" norte-americana, em particular, a que, por maior facilidade de arrumação, ficou conhecida como “de Brooklyn”.
E porque, nestas práticas de adesão a um clube, é quase inevitável escolher a camisola do atleta mais famoso, os moços com nome de dinossauro de uma série televisiva de animação, não hesitaram e decidiram adquirir e envergar a dos Vampire Weekend. É verdade que estes – como toda a gente, aliás – não são musicalmente amnésicos e alimentaram-se avidamente do caldeirão "world" que Paul Simon e Peter Gabriel haviam, previamente, aquecido. Mas não só a vampirização implica a transformação em nova matéria pop, como o fazem com as devidas distância e ironia (“This feels so unnatural, Peter Gabriel too”, da autoexplicativa "Cape Cod Kwassa Kwassa"). Com os Reptar, porém, tudo acontece em primeiro grau: açorda de poliritmia "afrobeat" e guitarras "highlife" via-Vampire, pano de fundo psicadélico à la Animal Collective de braço dado com Yeasayer, e uma imensa aspiração fracassada ao QI de David Longstreth (Dirty Projectors). Claro que a voz de Mickey Mouse esterilizado de Graham Ulicny também não ajuda muito.
04 November 2012
DIGESTÃO DIFÍCIL
Ariel Pink’s Haunted Graffiti - Mature Themes
Não é preciso apertar muito com ele. Ariel Marcus Rosenberg (aliás, Ariel Pink) confessa logo tudo de bom grado: “Quando se gosta da música dos anos 60, vivemos dentro dela para sempre. Vivemos num momento em que aqueles que estamos a escutar deixavam crescer o cabelo pela primeira vez. Olhamos para as imagens e sentimos que podíamos, de facto, viver ali. A minha geração [Ariel tem 34 anos] nem sequer existia ainda. Mas ‘vivemos lá’. Não temos nenhum conceito do tempo”. A sua obsessão é “preservar algo que se está extinguir” e assegura que aprendeu tudo o que sabe desde os 5 anos, grudado à MTV, a sua verdadeira "baby-sitter". E, mesmo hoje, pelo meio das ocasionais birras em palco, jura que se recusa a ouvir música nova, só sai do apartamento por obrigação e não quer saber do que, por aí, se escreve. Estaríamos, então, perante um exemplo típico de eremita antissocial irremediavelmente engatado em marcha-atrás, daqueles que encheram as páginas de Retromania, de Simon Reynolds, se não se desse o caso de Reynolds, embora, naturalmente, embaraçado, se ter deixado embalar pelo seu suposto tempero “retrolicious” (“retro” + “delicious”): qualquer coisa como o ingénuo fascínio infantil, sem preconceitos, perante um brinquedo colorido com o qual os pais e os avós já se divertiram mil vezes mas que aparenta ser sempre novo ou, noutro registo, uma tentativa de diálogo, à beira do psicótico, com o passado.
Na realidade, a ementa de Ariel Pink não é assim tão restritiva: tanto se serve do psicadelismo sessentista como do prog e do glam dos 70s, não diz que não ao synthpop xunga de 80 e, vendo bem, qualquer pedaço de lixo que lhe passe por perto é bem-vindo. Mature Themes – segundo volume da discografia para a 4AD após Before Today (2010) que o transformou em "next big whatever", e um par de publicações domésticas na Paw Tracks, dos Animal Collective – documenta-o bem: dos Byrds ("Only In My Dreams") a Rod Stewart ("Pink Slime"), de Bowie enrolado com o Julian Cope da fase mais neurologicamente problemática ("Kinski Assassin"), aos Devo ("Is This The Best Spot?"), aos Neu! ("Nostradamus & Me") ou aos Visage ("Symphony Of The Nymph") – tudo em variante de karaoke baratucho onde o imitador de outro imitador procura recordar-se de como seria o original –, nenhum se escapa a picar o ponto no reportório. A digestão, já de si difícil, do objecto (há uma diferença entre a irreprimível atracção de alguém pelo lixo e prostrarmo-nos em êxtase perante a flatulência provocada pela sua deglutição) complica-se por via do, chamemos-lhe assim, imaginário poético do artista, matéria de fixação "teen" em “testicle bombs”, “blowjobs of death”, pontos G (“G spot! H bomb! Let’s go!”) e arrebatamentos líricos do género de “The bad breath of a cross-eyed goat eating children for a Monday morning”. O golpe de misericórdia, porém, é desferido pelo próprio, numa entrevista ao “Guardian”: quando interrogado porque usava o cabelo pintado de cor-de-rosa, candidamente, respondeu “Dirijo-me a adolescentes, tenho de me resignar a isso. Não posso parecer um avozinho resmungão”. E lá se vai o tolinho da aldeia "naïf" deslumbrado com a memória pop...
18 April 2011
SINAIS EXTERIORES DE RIQUEZA
Panda Bear - Tomboy
Parecendo que não, o Direito Fiscal tem duas ou três liçõezinhas importantes para ensinar a teóricos, práticos e críticos da coisa-pop. Por exemplo, naquilo que diz respeito ao que deverá ser considerado como sinais exteriores de riqueza. O que – socorrendo-nos das bíblias do assunto – ocorre quando, “apresentando manifestações de fortuna desproporcionadas em relação aos seus rendimentos, o contribuinte não apresente a sua declaração de rendimentos ou, apresentando-a, os rendimentos declarados mostrem uma desproporção superior a 50%, para menos, em relação ao rendimento padrão fixado”. Que é como quem diz, declarar o salário mínimo e (continuando a citar as Sagradas Escrituras) ser o felicíssimo proprietário de “barcos de recreio de valor igual ou superior a 25.000 euros, aeronaves de turismo ou automóveis ligeiros de passageiros de valor igual ou superior a 50.000 euros e motociclos de valor igual ou superior a 10.000 euros” cheira a esturro e convida “a administração tributária a proceder à avaliação indirecta do rendimento tributável”.
Ora, acontece que, escutando Tomboy, de Noah Lennox (aliás, o Panda Bear do pequeno zoológico internacionalmente conhecido como Animal Collective), levantam-se seriíssimas suspeitas de que existe uma desproporção claramente superior a 50% relativamente aquilo que ele declara como legitimamente seu em contraste com os ostensivos sinais exteriores de riqueza estética que exibe, fazendo pensar que aqui se configura um evidente caso de enriquecimento musical ilícito. Observemos mais de perto: o processo de acumulação primitiva de capital iniciado em Baltimore, há década e meia, com um pequeno negócio de vão-de-escada designado como Automine (comercialização de contrafacções artesanais de Syd Barrett, Can, Silver Apples e Penderecki), após diversos "spin-offs" e paralelos "mergers", criou as condições para que, finalmente, em 2009, Merriweather Post Pavilion consagrasse o já florescente emprendimento Animal Collective (anteriormente deslocalizado para Nova Iorque) como uma das mais promissoras "brands" da pop-indie norte-americana. O "core business" centrava-se numa cornucópia sonora neo-psicadélica, então já claramente rendida à sedução dos mecanismos da canção tal como a conhecemos. Na altura, ele próprio também relocalizado em Lisboa, Lennox mantinha actividade enquanto empresário em nome individual que deu origem a Person Pitch (2007), produto mediterrânico e solar, e, agora, ao caso em análise, Tomboy.
Apresentado como modesto e rudimentar projecto de cave sustentado por "overdubs" vocais e guitarras processadas em sintetizadores de loja-do-chinês, quando escutado atentamente, revela, porém, uma impressionante riqueza não declarada que se traduz no luxo asiático de iridiscentes leques corais (dir-se-iam três ou quatro compassos subtraídos fraudulentamente ao património de Brian Wilson e infinitamente distendidos e ampliados para a dimensão de quase-madrigais) submetidos à lógica matemática e à abstracção ambiental como Terry Riley as definiu, e densamente texturados por um Phil Spector renascentista para melhor ressoarem em catedrais digitais, tudo convenientemente maquilhado pela contabilidade criativa de Peter Kember/Sonic Boom (Spacemen 3) para iludir os incautos e os atordoar com esta espécie de beatitude sonora intra-uterina. Nada, contudo, que uma cuidadosa avaliação da matéria colectável com recurso ao método indirecto não seja capaz de desmascarar facilmente, fazendo uso, se necessário, do levantamento do sigilo estético.
(2011)
08 April 2011
PEGADAS
Aquaparque - Pintura Moderna
Abandonar o centro para, após o ter relocalizado noutro lugar geométrico, o voltar a ocupar. Não é estratégia nova nem sequer extraordinariamente distante daquela outra que, há várias décadas, Bryan & Brian raptaram para o perímetro pop e designaram como "Re-Make/Re-Model". É, aliás, sintomático que Brian (Eno) apareça no ramalhete de alusões estéticas que acompanha a publicação de Pintura Moderna, ao lado de tão diversa gente quanto Stock, Aitken & Waterman, Trevor Horn, Jellybean Benitez, Vince Clarke e Bill Laswell. E costuma ser também o procedimento através do qual sucessivas gerações pop mudam de pele - tal como no embrulho-manifesto se alega - acercando-se dos velhos materiais para reproduzir-lhes os códigos, trocando-lhes a lógica.
Pedro Magina (voz, Casio Tonebank, Yamaha DS55, harmónica, percussão) e André Abel (voz, programações, guitarra), gente de Santo Tirso com percursos paralelos e anteriores (enquanto Aquaparque haviam já editado, em 2009, É Isso Aí), redescobrem, então, as pegadas que, em outros anos, levaram Pop Del’Arte ou Mler Ife Dada a desenhar um distinto perfil para a música moderna lusa (e que, sob diferentes ângulos e iluminações, inspiraram também o eixo FlorCaveira/Amor Fúria), manipulam, desfiguram, realinham e fragmentam abstracções digitais, enovelam melodias, perplexidades e distorção, e, um pouco à maneira rigorosamente caótica de uns Animal Collective, inventam um privado e luminoso labirinto sonoro onde já começa a ser perigosamente apetecível perder-se. É diamante ainda em bruto de cuja lapidação – a ser realizada com precaução mas não exagerado desejo de perfeição – bem poderá resultar mais uma jóia da coroa.
(2011)
29 November 2010
A HERANÇA E OS HERDEIROS

Magic Kids - Memphis

All Delighted People - Sufjan Stevens
No “Guardian”, Paul Lester apresenta a questão de forma absolutamente clara: “Quem prefeririam ver – os três membros sobreviventes dos Beach Boys, de 68 anos, com um elenco de familiares, amigos e o leiteiro de passagem, a cantar canções que escreveram há quase meio século sobre miúdas adolescentes chamadas Wendy e proezas que nem por essa altura seriam capazes de realizar, ou um grupo de putos de vinte e poucos anos que oferece uma versão de baixo orçamento do mesmo?” A pergunta não é retórica porque as duas opções, de facto, existem: para o próximo ano – momento em que se comemora o 50º aniversário dos Beach Boys – Mike Love anunciou já a reunião dos elementos ainda vivos do grupo; e, como, logo um parágrafo abaixo, Lester afirma, os Magic Kids são os Beach Boys de Memphis entregues à missão de recompor até ao mais ínfimo pormenor a música dos dias de glória da banda de Brian Wilson “antes de o aventureirismo e os desconcertantes jogos de palavras de Van Dyke Parks lhe terem virado a cabeça do avesso”.
Sejamos justos: nos oceanos surfados por Wilson, irmãos & associados, já inúmeros outros – mais ou menos recentemente, mais ou menos explicitamente – igualmente navegaram, dos Concretes, Camera Obscura, Beach House, She & Him, Grizzly Bear, Animal Collective ou Fleet Foxes aos vetustos Big Star e Association ou aos oficiosamente reconhecidos Wondermints, cujo perito em assuntos-BB, Darian Sahanaja, actuou, em 2004, como braço direito (e, eventualmente também, esquerdo...) de Brian Wilson na reconstituição do lendário Smile. Por outro lado, nem é indispensável ouvir Memphis com demasiada atenção para se reparar como a ementa dos moços é algo mais variada do que uma exclusiva monodieta californiana: eles também escutaram os Seekers (olha o ostinato de piano de "Georgy Girl" em "Hey Boy"!), os Herman’s Hermits ("I’m Into Something Good" a espreitar à transparência de "Phone"), os ELO, os Turtles, as Ronettes e os Lovin’ Spoonful, têm um fraquinho por Jack Nitzsche e não dizem que não a uns saldos catitas de Phil Spector. Sim, nada de novo debaixo dos céus, mas um fresquíssimo aperitivo confeccionado com matérias-primas de boa qualidade.
Sejamos ainda mais justos: herdeiro verdadeiramente legítimo de Brian Wilson, actualmente, existe apenas um e chama-se Sufjan Stevens. E "herdeiro" no mais desejável sentido de quem, sem lhe macaquear os tiques, continua e enriquece uma peculiar visão musical da América, trabalha sobre os mesmos planos de complexidade vocal e orquestral e, higienicamente, presta bastante pouca atenção às tendências do momento. Colocado para "download" no seu site da Net, All Delighted People é um EP (de 60 minutos!) que Sufjan descreve enquanto “homenagem dramática ao Apocalipse, ao 'ennui' existencial e a 'Sounds Of Silence’ de Paul Simon” e destinado a ocupar os fãs até ao próximo álbum – The Age Of Adz, gravado no estúdio dos National. Mas que – mesmo admitindo que se trata de objecto lateral e circunstancial – não deixa de ser um tanto problemático nas suas épicas e extensas incursões por opulentas orquestrações, massas corais e intermináveis deambulações de guitarra eléctrica. Aceite-se que não é de digestão fácil, dê-se-lhe o tempo necessário de maturação, mas, pelo sim, pelo não, acenda-se um sinal de alarme.
(2010)

Magic Kids - Memphis

All Delighted People - Sufjan Stevens
No “Guardian”, Paul Lester apresenta a questão de forma absolutamente clara: “Quem prefeririam ver – os três membros sobreviventes dos Beach Boys, de 68 anos, com um elenco de familiares, amigos e o leiteiro de passagem, a cantar canções que escreveram há quase meio século sobre miúdas adolescentes chamadas Wendy e proezas que nem por essa altura seriam capazes de realizar, ou um grupo de putos de vinte e poucos anos que oferece uma versão de baixo orçamento do mesmo?” A pergunta não é retórica porque as duas opções, de facto, existem: para o próximo ano – momento em que se comemora o 50º aniversário dos Beach Boys – Mike Love anunciou já a reunião dos elementos ainda vivos do grupo; e, como, logo um parágrafo abaixo, Lester afirma, os Magic Kids são os Beach Boys de Memphis entregues à missão de recompor até ao mais ínfimo pormenor a música dos dias de glória da banda de Brian Wilson “antes de o aventureirismo e os desconcertantes jogos de palavras de Van Dyke Parks lhe terem virado a cabeça do avesso”.
Sejamos justos: nos oceanos surfados por Wilson, irmãos & associados, já inúmeros outros – mais ou menos recentemente, mais ou menos explicitamente – igualmente navegaram, dos Concretes, Camera Obscura, Beach House, She & Him, Grizzly Bear, Animal Collective ou Fleet Foxes aos vetustos Big Star e Association ou aos oficiosamente reconhecidos Wondermints, cujo perito em assuntos-BB, Darian Sahanaja, actuou, em 2004, como braço direito (e, eventualmente também, esquerdo...) de Brian Wilson na reconstituição do lendário Smile. Por outro lado, nem é indispensável ouvir Memphis com demasiada atenção para se reparar como a ementa dos moços é algo mais variada do que uma exclusiva monodieta californiana: eles também escutaram os Seekers (olha o ostinato de piano de "Georgy Girl" em "Hey Boy"!), os Herman’s Hermits ("I’m Into Something Good" a espreitar à transparência de "Phone"), os ELO, os Turtles, as Ronettes e os Lovin’ Spoonful, têm um fraquinho por Jack Nitzsche e não dizem que não a uns saldos catitas de Phil Spector. Sim, nada de novo debaixo dos céus, mas um fresquíssimo aperitivo confeccionado com matérias-primas de boa qualidade.
Sejamos ainda mais justos: herdeiro verdadeiramente legítimo de Brian Wilson, actualmente, existe apenas um e chama-se Sufjan Stevens. E "herdeiro" no mais desejável sentido de quem, sem lhe macaquear os tiques, continua e enriquece uma peculiar visão musical da América, trabalha sobre os mesmos planos de complexidade vocal e orquestral e, higienicamente, presta bastante pouca atenção às tendências do momento. Colocado para "download" no seu site da Net, All Delighted People é um EP (de 60 minutos!) que Sufjan descreve enquanto “homenagem dramática ao Apocalipse, ao 'ennui' existencial e a 'Sounds Of Silence’ de Paul Simon” e destinado a ocupar os fãs até ao próximo álbum – The Age Of Adz, gravado no estúdio dos National. Mas que – mesmo admitindo que se trata de objecto lateral e circunstancial – não deixa de ser um tanto problemático nas suas épicas e extensas incursões por opulentas orquestrações, massas corais e intermináveis deambulações de guitarra eléctrica. Aceite-se que não é de digestão fácil, dê-se-lhe o tempo necessário de maturação, mas, pelo sim, pelo não, acenda-se um sinal de alarme.
(2010)
06 October 2010
LATE NEXT BIG THING

Wavves - King Of The Beach
O "lo-fi" (ou, na sua forma mais extremista, o "no-fi") decorre apenas de duas opções: uma questão estética e/ou ética de recusa do polimento de estúdio a favor da espontaneidade tosca e rude do artista, em versão romântica, exibindo-se nu e cru, “tal como é”; na justificação mais prosaica, uma mera questão de ausência de saldo na conta bancária. Os Wavves – isto é, Nathan Williams – partiram da última e, ao terceiro álbum, decidiram que já era tempo de não se contentarem com as possibilidades do laptop e recorrer a um estúdio como deve ser e a um produtor (Dennis Herring) com currículo forjado à ilharga dos Modest Mouse. Provavelmente, a acidentada biografia recente de Nathan exigi-lo-ia: do estatuto de "next big thing" de há dois anos, a candidato à dupla vaga de Kurt Cobain/Courtney Love (sessões de pancadaria em bares, tristíssimas figuras pedradas no palco do festival Primavera Sound, de Barcelona, em Maio passado), havia que inventar algo capaz de reanimar, a tempo, uma daquelas carreiras que, pelo prazo de validade na era da Internet, se arriscava a terminar antes de ter começado. Naturalmente, dá sempre um pouco de jeito haver canções. E isso, por mais que se procure, é coisa que em King Of The Beach não é fácil descobrir: se, antes, o desmazelo sonoro podia alegar o alibi "no-fi", agora, este composto de Beach Boys de Toys 'R' Us, Animal Collective reduzido à expressão mais iletrada e Ramones surfistas, não é, propriamente, programa que se recomende. Atenuante há só uma: repetindo os Devo de Something For Everybody que confessavam “What we do is what we do, it’s all the same, there’s nothing new”, Nathan Williams, com idêntica candura, desabafa “I hate my writing, it’s all the same”.
(2010)

Wavves - King Of The Beach
O "lo-fi" (ou, na sua forma mais extremista, o "no-fi") decorre apenas de duas opções: uma questão estética e/ou ética de recusa do polimento de estúdio a favor da espontaneidade tosca e rude do artista, em versão romântica, exibindo-se nu e cru, “tal como é”; na justificação mais prosaica, uma mera questão de ausência de saldo na conta bancária. Os Wavves – isto é, Nathan Williams – partiram da última e, ao terceiro álbum, decidiram que já era tempo de não se contentarem com as possibilidades do laptop e recorrer a um estúdio como deve ser e a um produtor (Dennis Herring) com currículo forjado à ilharga dos Modest Mouse. Provavelmente, a acidentada biografia recente de Nathan exigi-lo-ia: do estatuto de "next big thing" de há dois anos, a candidato à dupla vaga de Kurt Cobain/Courtney Love (sessões de pancadaria em bares, tristíssimas figuras pedradas no palco do festival Primavera Sound, de Barcelona, em Maio passado), havia que inventar algo capaz de reanimar, a tempo, uma daquelas carreiras que, pelo prazo de validade na era da Internet, se arriscava a terminar antes de ter começado. Naturalmente, dá sempre um pouco de jeito haver canções. E isso, por mais que se procure, é coisa que em King Of The Beach não é fácil descobrir: se, antes, o desmazelo sonoro podia alegar o alibi "no-fi", agora, este composto de Beach Boys de Toys 'R' Us, Animal Collective reduzido à expressão mais iletrada e Ramones surfistas, não é, propriamente, programa que se recomende. Atenuante há só uma: repetindo os Devo de Something For Everybody que confessavam “What we do is what we do, it’s all the same, there’s nothing new”, Nathan Williams, com idêntica candura, desabafa “I hate my writing, it’s all the same”.
(2010)
10 March 2010
SE O ROCK-FM, XUNGA E OLEOSO,
PERMANECE VIVO (SORT OF) DEVE
ENVIAR OS AGRADECIMENTOS AOS
TITTY-BARS DA AMÉRICA PROFUNDA

... mas Bubbles Burbujas, uma stripper com pinta que teoriza sobre o facto de o "rawk" ter sido "the music of the titty bar for 30 years, and someone is going to keep making it. It's the music of good times! and bar fights! And male bonding through the homoerotic experience of the stripper-proxy lapdancing for your friend!", também vê potencial na música dos Yeah Yeah Yeahs, Neko Case, Animal Collective e The Knife. (daqui)
(2010)
PERMANECE VIVO (SORT OF) DEVE
ENVIAR OS AGRADECIMENTOS AOS
TITTY-BARS DA AMÉRICA PROFUNDA

... mas Bubbles Burbujas, uma stripper com pinta que teoriza sobre o facto de o "rawk" ter sido "the music of the titty bar for 30 years, and someone is going to keep making it. It's the music of good times! and bar fights! And male bonding through the homoerotic experience of the stripper-proxy lapdancing for your friend!", também vê potencial na música dos Yeah Yeah Yeahs, Neko Case, Animal Collective e The Knife. (daqui)
(2010)
11 January 2010
DEFINITIVAMENTE SEM LUVAS

Vampire Weekend - Contra
Desde o início da década de 80, momento de erupção do pós-punk, do mítico “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths) e do experimentalismo “industrial” de Sheffield (Cabaret Voltaire, Clock DVA, The Human League), que não emergia nada com a semelhança de uma “scene”, incluindo o melhor que, quando autênticas, elas possuem: energia, diversidade, espírito de aventura e pouca vontade de se resignar aos padrões de criação e consumo dos "mainstreams" das várias épocas. O grunge de Seattle, o frenesim dançante de Madchester, a saturnidade de Bristol poderão ter tido, na origem, um código genético fértil mas demasiado rapidamente, de vítimas/cúmplices do hype, se converteram em marcas registadas, facilmente esterilizadas e normalizadas pelas cadeias de montagem da indústria discográfica. Não espanta, assim, que, quando os primeiros rumores acerca do surgimento de uma “Brooklyn scene” começaram a fazer cócegas nos ouvidos, a atitude sensata fosse ficar de pé atrás: outra???!!!...
Pois bem, dois anos e tal após os zunzuns, pode confirmar-se: sim, ela existe, é musicalmente rica como poucas, o espírito de rebanho parece encontrar-se higienicamente ausente e, realmente de comum – para além da localização geográfica no "borough" mais populoso de Nova Iorque – a músicos e bandas como St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens, Joan Wasser, My Brightest Diamond, Grizzly Bear, Dirty Projectors, The National ou High Places, apenas há o desejo de individualidade criativa sem mimetismos tribais. Ah!... e não esqueçamos os Vampire Weekend, com os National, talvez os casos de maior relevo de uma cena indie que – outra diferença – não se acanha excessivamente com a ideia de poder ser popular. E de ostentar currículos académicos. E de (ao contrário dos Strokes que levavam a mal o facto de serem encarados como punks betos) lhes carimbarem na testa o selo de – falo dos Vampire – "Columbia-rich-kid-afro-indie-pioneers". Eles são, sem dúvida, tudo isso e é para o lado que dormem melhor.
Em Janeiro de 2008, Vampire Weekend despia o último par de cerimoniosas luvas com que a pop – de Paul Simon a Peter Gabriel ou mesmo David Byrne – sempre manuseara a coisa “étnica”, dita "world music": uma serpentina de guitarras da Orchestra Baobab é tão respeitável quanto a hiperactividade dos Feelies, o "soukous" congolês não é incompatível com literatas ironias sobre intimidades chiques do Upper West Side e uma sequência de arpejos mozartianos não tem que se sentir incomodada por se descobrir reclinada sobre uma rede rítmica de "highlife". O álbum de estreia da banda de Ezra Koenig, Chris Tomson, Chris Baio e Rostam Batmanglij era impuríssima matéria-pop em permanente celebração da inteligência, da "nonchalance" sofisticada e da urgência de inventar música, e adubou o terreno para que, mal surgiram, em Setembro passado, os primeiros indícios de que o segundo tomo estava para breve, meia Internet tenha uivado apelos a que, nas habituais esquinas mal frequentadas, algum dealer mais expedito permitisse que se espreitasse o tesouro. Uma semana antes da data oficial de publicação, porém, os próprios Vampire o colocaram, integralmente, em "streaming" na sua página do MySpace. Diga-se, então, que Contra refina esplendorosamente os sabores e aromas da investida inicial, em dois ou três instantes ("White Sky", "Diplomat’s Son", "I Think Ur A Contra"), viaja umas boas léguas adiante do que Paul Simon sonhou em Graceland e, na trovoada percussiva aspirada por túneis digitais de "Giving Up The Gun", deixa-o mesmo a perder de vista. Só isso já seria óptimo. Mas há ainda que reparar nos delirantes zigzags da arquitectura sonora, nas alusões barrocas, nos subtilíssimos reichianismos, nos divertimentos electro que Rostam carreou de Discovery ou na adrenalina ska-punk que borbulha, aqui e ali. Haveria melhor forma de inaugurar 2010?
(2019)

Vampire Weekend - Contra
Desde o início da década de 80, momento de erupção do pós-punk, do mítico “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths) e do experimentalismo “industrial” de Sheffield (Cabaret Voltaire, Clock DVA, The Human League), que não emergia nada com a semelhança de uma “scene”, incluindo o melhor que, quando autênticas, elas possuem: energia, diversidade, espírito de aventura e pouca vontade de se resignar aos padrões de criação e consumo dos "mainstreams" das várias épocas. O grunge de Seattle, o frenesim dançante de Madchester, a saturnidade de Bristol poderão ter tido, na origem, um código genético fértil mas demasiado rapidamente, de vítimas/cúmplices do hype, se converteram em marcas registadas, facilmente esterilizadas e normalizadas pelas cadeias de montagem da indústria discográfica. Não espanta, assim, que, quando os primeiros rumores acerca do surgimento de uma “Brooklyn scene” começaram a fazer cócegas nos ouvidos, a atitude sensata fosse ficar de pé atrás: outra???!!!...
Pois bem, dois anos e tal após os zunzuns, pode confirmar-se: sim, ela existe, é musicalmente rica como poucas, o espírito de rebanho parece encontrar-se higienicamente ausente e, realmente de comum – para além da localização geográfica no "borough" mais populoso de Nova Iorque – a músicos e bandas como St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens, Joan Wasser, My Brightest Diamond, Grizzly Bear, Dirty Projectors, The National ou High Places, apenas há o desejo de individualidade criativa sem mimetismos tribais. Ah!... e não esqueçamos os Vampire Weekend, com os National, talvez os casos de maior relevo de uma cena indie que – outra diferença – não se acanha excessivamente com a ideia de poder ser popular. E de ostentar currículos académicos. E de (ao contrário dos Strokes que levavam a mal o facto de serem encarados como punks betos) lhes carimbarem na testa o selo de – falo dos Vampire – "Columbia-rich-kid-afro-indie-pioneers". Eles são, sem dúvida, tudo isso e é para o lado que dormem melhor.
Em Janeiro de 2008, Vampire Weekend despia o último par de cerimoniosas luvas com que a pop – de Paul Simon a Peter Gabriel ou mesmo David Byrne – sempre manuseara a coisa “étnica”, dita "world music": uma serpentina de guitarras da Orchestra Baobab é tão respeitável quanto a hiperactividade dos Feelies, o "soukous" congolês não é incompatível com literatas ironias sobre intimidades chiques do Upper West Side e uma sequência de arpejos mozartianos não tem que se sentir incomodada por se descobrir reclinada sobre uma rede rítmica de "highlife". O álbum de estreia da banda de Ezra Koenig, Chris Tomson, Chris Baio e Rostam Batmanglij era impuríssima matéria-pop em permanente celebração da inteligência, da "nonchalance" sofisticada e da urgência de inventar música, e adubou o terreno para que, mal surgiram, em Setembro passado, os primeiros indícios de que o segundo tomo estava para breve, meia Internet tenha uivado apelos a que, nas habituais esquinas mal frequentadas, algum dealer mais expedito permitisse que se espreitasse o tesouro. Uma semana antes da data oficial de publicação, porém, os próprios Vampire o colocaram, integralmente, em "streaming" na sua página do MySpace. Diga-se, então, que Contra refina esplendorosamente os sabores e aromas da investida inicial, em dois ou três instantes ("White Sky", "Diplomat’s Son", "I Think Ur A Contra"), viaja umas boas léguas adiante do que Paul Simon sonhou em Graceland e, na trovoada percussiva aspirada por túneis digitais de "Giving Up The Gun", deixa-o mesmo a perder de vista. Só isso já seria óptimo. Mas há ainda que reparar nos delirantes zigzags da arquitectura sonora, nas alusões barrocas, nos subtilíssimos reichianismos, nos divertimentos electro que Rostam carreou de Discovery ou na adrenalina ska-punk que borbulha, aqui e ali. Haveria melhor forma de inaugurar 2010?
(2019)
01 January 2010
MÚSICA 2009 - INTERNACIONAL (III)
TOP 10

Andrew Bird - Noble Beast
The Unthanks - Here’s The Tender Coming
Grizzly Bear – Veckatimest
Tom Waits - Glitter And Doom Live
God Help The Girl - God Help The Girl
Noah & The Whale - The First Days Of Spring
St. Vincent – Actor
Sufjan Stevens - The BQE
Animal Collective - Merriweather Post Pavillion
Regina Spektor – Far
Se, durante a década de 80, o refrão-de-serviço rezava que “já não se fazia música como nos 60s”, agora, dificilmente se atura a lenga-lenga segundo a qual “os eighties é que eram”. Claro que, para uma indústria de tanga, a rentabilização da nostalgia será sempre um dos últimos cartuchos a disparar. Mas, mesmo sem convulsões estéticas no horizonte, é impossível não reparar que – como sempre aconteceu – se publicou óptima música e que, para além do top-10 obrigatório, pelo menos o dobro, entre “velhos e “novos” (de Springsteen a Vincent Delerm, Alela Diane, Hanne Hukkelberg, Neko Case, Camera Obscura, Flat Earth Society, The Phantom Band, Christina Courtin, Elvis Costello, Gogol Bordello, Dylan ou Prefab Sprout), poderia, facilmente, figurar numa lista paralela e não menos ilustre.
(2010)
TOP 10

Andrew Bird - Noble Beast
The Unthanks - Here’s The Tender Coming
Grizzly Bear – Veckatimest
Tom Waits - Glitter And Doom Live
God Help The Girl - God Help The Girl
Noah & The Whale - The First Days Of Spring
St. Vincent – Actor
Sufjan Stevens - The BQE
Animal Collective - Merriweather Post Pavillion
Regina Spektor – Far
Se, durante a década de 80, o refrão-de-serviço rezava que “já não se fazia música como nos 60s”, agora, dificilmente se atura a lenga-lenga segundo a qual “os eighties é que eram”. Claro que, para uma indústria de tanga, a rentabilização da nostalgia será sempre um dos últimos cartuchos a disparar. Mas, mesmo sem convulsões estéticas no horizonte, é impossível não reparar que – como sempre aconteceu – se publicou óptima música e que, para além do top-10 obrigatório, pelo menos o dobro, entre “velhos e “novos” (de Springsteen a Vincent Delerm, Alela Diane, Hanne Hukkelberg, Neko Case, Camera Obscura, Flat Earth Society, The Phantom Band, Christina Courtin, Elvis Costello, Gogol Bordello, Dylan ou Prefab Sprout), poderia, facilmente, figurar numa lista paralela e não menos ilustre.
(2010)
23 July 2009
HOMICÍDIO POR TÉDIO AGRAVADO

Gomo - Nosy
Nada contra a pop descartável. Capítulos inteiros (e não dos menos ilustres) da história da música popular se escreveram (e deixaram descendência) à custa de "one-hit wonders", melodias-agrafo de meia dúzia de compassos e profundidades literárias do género “awopbopaloobopalopbamboom”. Nem todos os dias e a todas as horas estamos no mood apropriado para cortar as veias enquanto escutamos Leonard Cohen ou para nos entregarmos à decifração dos mil-folhas sonoros dos Animal Collective. Mas convém que a pop-chiclete, acima de tudo, fuja do pecado capital de, à segunda faixa de um álbum, se tornar monótona, repetitiva e aborrecida. Gomo (aliás, Paulo Gouveia), aprecia dizer coisas absurdas como “para mim não faz sentido nenhum cantar em português, apesar de agora estar novamente na moda” e, enquanto versão frívola e saltitante de um David Fonseca-dos-pobres, incorre, de forma contumaz, no ilícito de homicídio voluntário por tédio agravado. Embora pareça que a intenção fosse exactamente a oposta.
(2009)

Gomo - Nosy
Nada contra a pop descartável. Capítulos inteiros (e não dos menos ilustres) da história da música popular se escreveram (e deixaram descendência) à custa de "one-hit wonders", melodias-agrafo de meia dúzia de compassos e profundidades literárias do género “awopbopaloobopalopbamboom”. Nem todos os dias e a todas as horas estamos no mood apropriado para cortar as veias enquanto escutamos Leonard Cohen ou para nos entregarmos à decifração dos mil-folhas sonoros dos Animal Collective. Mas convém que a pop-chiclete, acima de tudo, fuja do pecado capital de, à segunda faixa de um álbum, se tornar monótona, repetitiva e aborrecida. Gomo (aliás, Paulo Gouveia), aprecia dizer coisas absurdas como “para mim não faz sentido nenhum cantar em português, apesar de agora estar novamente na moda” e, enquanto versão frívola e saltitante de um David Fonseca-dos-pobres, incorre, de forma contumaz, no ilícito de homicídio voluntário por tédio agravado. Embora pareça que a intenção fosse exactamente a oposta.
(2009)
21 June 2009
SER DE BROOKLYN
Aquilo que de, provavelmente, melhor a chamada "Brooklyn scene" tem é o facto de, em comum com as habituais "scenes", apenas partilhar, na realidade, o território geográfico do município de Nova Iorque baptizado a partir da cidade holandesa de Breukelen. Tirando isso – o "ser de Broolyn" ou viver lá – pouco mais se poderá encontrar de semelhante em bandas e músicos como Vampire Weekend, High Places, St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens ou My Brightest Diamond. Ou, agora, Grizzly Bear e Dirty Projectors.
Veckatimest – nomeado a partir de uma minúscula ilha deserta próxima de Cape Cod... pronto, estabeleçam, se assim o desejarem, a ligação com os Vampire a partir daqui –, terceiro álbum da banda de Daniel Rossen, Ed Droste, Chris Taylor e Christopher Bear, é uma pequena jóia de pop detalhadamente burilada que talvez possa ser mais facilmente circunscrita se se falar das afinidades que suscita. A saber, personalidades musicais tão diversas como Paul Simon ou os Radiohead que já declararam publicamente a sua devoção. Não seria impossível desenhar um ponto de intersecção entre as músicas de ambos – raíz folk sofisticadamente academizada e complexidade pop-rock – e, por aí, descobrir o território onde os Bear se sentem confortáveis, na companhia dos arranjos de cordas subliminarmente precisos de Nico Muhly e das imponderabilidades corais herdadas dos Beach Boys.
O fã ilustre de serviço dos Dirty Projectors é David Byrne mas, se a referência Talking Heads não é, de todo, despropositada, a formidável música da banda do diplomado em composição por Yale, Dave Longstreth, é algo de bastante menos definível, num bizarro polígono entre o aracnídeo "high-life" africano, Jimmy Page, as "disco car ad harmonies" das sereias Angel Deradoorian e Amber Coffman (pensem Nigéria em Bollywood) e, sim, acreditem, Nico.
(2009)
25 March 2009
RAPTURE IS THE TRUE RUPTURE

Simon Reynolds
If you had tracked you music listening in 2008, what bands would we see in your top 10?
(...) If it was by band, Vampire Weekend would win by a long distance. But they are a band whose music has an intense playability to it, you can just listen to it over and over, day after day. There are other groups who are very impressive and have a powerful effect on you but are harder to integrate into everyday life. I really liked the Portishead album and admired it tremendously but it’s a little too heavy and intense for that kind of heavy rotation listening. You have to be in a certain mood. (...) There’s a cluster of energy in Brooklyn, kind of “ecstatic/experimental” is my shorthand for it — Animal Collective, Gang Gang Dance, High Places — groups that are all quite distinctive but have certain things in common, a ritualistic, tribal, often percussive aspect; an interest in combining folksiness or ethnic-ness with technology and modern dance rhythms...
Animal Collective - "My Girls"
I really enjoyed the Gang Gang Dance and High Places records from last year, and the new AC is lovely. But Gang Gang Dance are on their sixth album or something and AC have been going since about 2001 if not before and are on their, what, ninth? So it’s not exactly “new”. (...) “New” is not such a stringent or strident concern of mine these days. I don’t know if anyone really knows what “new” would look like these days. I will settle for rapture! Bliss and delight. Accordingly my favorite record from last year was Vampire Weekend. Although I actually think their sound is “new”, it just doesn’t correspond to any of our existing stereotypes of “new”, it’s not extreme. But extreme is old hat and predictable and meaningless, really. “Extreme” only signifies if something has an intense aesthetic or emotional effect you. And often the softest, gentlest, most euphonious music can do that. Nothing could be more extreme than being brought to tears or made to feel like you’re about to swoon, and most “extreme” music fails in that area. Rapture is the true rupture. (Simon Reynolds ao The Dumbing Of America)
(2009)

Simon Reynolds
If you had tracked you music listening in 2008, what bands would we see in your top 10?
(...) If it was by band, Vampire Weekend would win by a long distance. But they are a band whose music has an intense playability to it, you can just listen to it over and over, day after day. There are other groups who are very impressive and have a powerful effect on you but are harder to integrate into everyday life. I really liked the Portishead album and admired it tremendously but it’s a little too heavy and intense for that kind of heavy rotation listening. You have to be in a certain mood. (...) There’s a cluster of energy in Brooklyn, kind of “ecstatic/experimental” is my shorthand for it — Animal Collective, Gang Gang Dance, High Places — groups that are all quite distinctive but have certain things in common, a ritualistic, tribal, often percussive aspect; an interest in combining folksiness or ethnic-ness with technology and modern dance rhythms...
Animal Collective - "My Girls"
I really enjoyed the Gang Gang Dance and High Places records from last year, and the new AC is lovely. But Gang Gang Dance are on their sixth album or something and AC have been going since about 2001 if not before and are on their, what, ninth? So it’s not exactly “new”. (...) “New” is not such a stringent or strident concern of mine these days. I don’t know if anyone really knows what “new” would look like these days. I will settle for rapture! Bliss and delight. Accordingly my favorite record from last year was Vampire Weekend. Although I actually think their sound is “new”, it just doesn’t correspond to any of our existing stereotypes of “new”, it’s not extreme. But extreme is old hat and predictable and meaningless, really. “Extreme” only signifies if something has an intense aesthetic or emotional effect you. And often the softest, gentlest, most euphonious music can do that. Nothing could be more extreme than being brought to tears or made to feel like you’re about to swoon, and most “extreme” music fails in that area. Rapture is the true rupture. (Simon Reynolds ao The Dumbing Of America)
(2009)
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