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28 May 2026

 
(sequência daqui) Foi o que em Gypsy Punks: Underdog World Strike (2005), Super Taranta! (2007) ou Solidaritine (2022) aconteceu, em simultâneo com a luta (que a selvática invasão russa acentuaria e multiplicaria) contra os anos de propaganda que conduziram muitos a crer que Nikolai Gogol era um escritor russo e não ucraniano. O que, do pós-punk primordial de Clash eslavos se poderá, entretanto, ter perdido, está de regresso: "Este álbum, We Mean It, Man! reúne todas as inspirações originais dos Gogol Bordello mais do que qualquer outro: punk, hardcore, synth punk, música cigana. Nunca as vi como coisas separadas — somos polinizadores cruzados. Acredito que o novo álbum é o melhor Frankenstein que criámos desde Gypsy Punks".

25 May 2026

O MELHOR FRANKENSTEIN

Lower East Side Romani folk-punk-powerpack. Folk-punk rollercoaster. Ou, simplesmente, gypsy-punk. São as caracterizações mais frequentes para os Gogol Bordello, aquela banda multi-multi-multi-nacional (da origem, em 1999, até hoje: ucranianos, russos, israelitas, equatorianos, bielorussos, americanos, etíopes, romenos, sino-escoceses e tai-americanos) de que o ucraniano de raiz cigana, Eugene Hütz, foi montando as peças no Lower East Side de Nova Iorque. "Quando era miúdo, na Ucrânia, para ter acesso à música que procurava, tínha de apanhar o comboio para alguma floresta ou campo isolado, ou pelo menos para algum bairro suspeito onde todos os malucos se reuniam até que a polícia aparecesse", explicou Hutz ao "New Noise Magazine", sublinhando que "As três componentes essenciais – música cigana, punk e reggae – eram bastante evidentes e foram o que, na verdade, partilhámos". Desde a partida da Ucrânia para os EUA, em 1990, a ambição que, com os Gogol concretizaria, era "desafiar a noção pós-moderna de que tudo tinha já sido feito no que respeita à música. Queria trabalhar com os estilos mais modernos que tinha absorvido, juntamente com a música cigana da Ucrânia, Roménia, Hungria, Macedónia". (daqui; segue para aqui)
 

18 November 2025

Gogol Bordello - "Wonderlust King"

(ver aqui) "Gogol Bordello is an American punk rock band from the Lower East Side of Manhattan, formed in 1999 by musicians from all over the world and known for theatrical stage shows and persistent touring. Much of the band's sound is inspired by Romani and Ukrainian music mixed with punk and dub, incorporating accordion and violin (and on some albums, saxophone)" (daqui)

19 June 2022

Gogol Bordello (feat. The Cossacks) - "Teroborona"

"Teroborona is a term for Civil Defense Units formed of civilians who stood up to protect Ukraine. Many of my artist and musicians friends had to pick up arms and join Teroborona. This is a dedication to their courage and to the courage of all defenders. The song is rooted in Ukrainian traditional dance “Arkan”, one of true Ukrainian Hutzul spirit. All proceeds will go to Ukraine relief"

16 June 2017


1 - Chamar "cigano" * a alguém é um insulto porquê?

2 - Ter "aspecto" de cigano é um insulto porquê?

3 - A definição de "cigano" é alguém que "paga os favores que recebe com votos alinhados com os centralistas" (o que, tendo em conta que a totalidade da AR votou com "os centralistas", significa que Portugal tem o primeiro parlamento integralmente cigano do mundo)?

4 - Chamar "cigano" * a alguém que "não é de etnia cigana nem tem família de etnia cigana" é um insulto porquê?

5 - Chamar "cigano" * a alguém que "é de etnia cigana e tem família de etnia cigana" é um insulto porquê?

6 - Chamar "cigana" * a uma mulher que "não é de etnia cigana nem tem família de etnia cigana" é "misoginia, racismo e xenofobia" porquê?

7 - Como deveremos passar a designar os Gypsy Kings?

8 - Por que palavra deverei substituir "cigano" em tudo o que escrevi sobre os Gogol Bordello?

9 - Por muito gebo que o eurodeputado, bastante provavelmente, seja, esta contra-argumentação não é, pelo menos, tão igualmente imbecil?

10 - * ... e não se diz "chamar de cigano", aprendam de uma vez!...

28 February 2012

OLIVENCISTAS, PESSOAL DAS BANDEIRINHAS, MILITANTES DO "ORGULHO DE SER PORTUGUÊS", SUA MAJESTADE: É INICIAR JÁ A MARCHA SOBRE ESSES PORCOS RACISTAS DOS ITALIANOS E EXIGIR A ELIMINAÇÃO NOS DICIONÁRIOS DA EXPRESSÃO "FARE IL PORTOGHESE"! ESTÃO A TRATAR-NOS COMO CIGANOS OU QUÊ???!!!...


Gogol Bordello - "Pala Tute"

"O dicionário de língua portuguesa Houaiss corre o risco de ser retirado de circulação no Brasil, em função de uma acção civil pública que acusa a publicação de difundir expressões preconceituosas a respeito da etnia cigana.

«Ao ler-se num dicionário que a nomenclatura 'cigano' significa 'aquele que trapaceia, velhaco', entre outras coisas do género - ainda que deixe expresso que é uma linguagem pejorativa - fica claro o carácter discriminatório assumido pela publicação», afirma o procurador regional Cléber Eustáquio Neves, autor do processo" (aqui)

(2012)

16 September 2010

TEMPOS INTERESSANTES


Bandarra - Bandarra

Não é, de certeza, um exagero afirmar que se vivem tempos interessantes na música popular portuguesa. E, coisa que já seria muito menos previsível, tanto na área mais habitualmente bafejada pelas atenções dos media – a do pop-rock e adjacências – como naquela outra, descendente directa ou bastarda dos diversos cantautores clássicos e suas afinidades particulares, mais ou menos pronunciadas, pela tradição popular nacional. Os grandes responsáveis históricos pelo surgimento deste novíssimo filão exigem ser nomeados: por um lado, os Gaiteiros de Lisboa com a sua formidável iconoclastia e festiva erudição; por outro, a Sétima Legião que, com Sexto Sentido, desbravaram o território onde música moderna e arcaísmos remotos conviviam e se articulavam de forma natural e esteticamente consistente.



Com descendência mais ou menos interessante (dos Megafone à Naifa), é hoje que, verdadeiramente, os frutos começam a amadurecer e se pode escolher entre colher do neo-realismo pícaro dos Deolinda, do caldeirão transcultural dos OqueStrada, do folclorismo transviado dos Diabo na Cruz ou, agora também, do cocktail literalmente transatlântico dos açoreanos Bandarra. É obrigatório reconhecer que, para a estreia, dificilmente poderiam ter optado por melhores guias: Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa) e Luís Varatojo (Despe & Siga, Naifa), na qualidade de produtores, e António Pinheiro da Silva como purificador sonoro. O resultado, se não é uniformemente excelente – uma ou outra escorregadela para algum excesso de populismo poderiam ter sido evitadas –, não deixa, no entanto, de prometer feitos de maior relevo nesta entusiasmada conflagração de fado e tango, pop e ska, transpiração cigana e textos de saboroso sarcasmo ilhéu. Ponhamos, então, as coisas nestes termos: com um dois ajustes aqui e ali, poderemos muito bem estar perante um conjunto de gente capaz de vir a pisar o mesmo palco dos Gogol Bordello e não saír de lá envergonhado.

(2010)

17 June 2010

E.R.



Gogol Bordello - Trans-Continental Hustle

Os últimos concertos dos Gogol Bordello em Portugal tinham deixado crescer a suspeita que a infatigável máquina pagã produtora de ajuntamentos freneticamente orgiásticos tinha entrado em piloto automático e deixara de conhecer outros andamentos senão aqueles que, sem pausas, oscilavam apenas entre o febril e o histericamente apopléctico. Até Super Taranta (2007), esse registo funcionara sem falência sob a supervisão de produtores como Steve Albini e Jim Sclavunos mas parecia óbvio que era indispensável alterar algumas regras do jogo.



O serviço de reanimação dirigido por Rick Rubin, convocado de urgência, ter-se-à aplicado a fundo. A terapêutica, porém, sem atingir órgãos vitais, poderá ter reforçado alguma contaminação new-age (contraída, julga-se, no convívio com Madonna e agravada pelo misticismo tropical do Brasil, para onde Eugene Hütz foi viver) sem ter chegado a desencadear novos e revigorantes estímulos criativos. A situação é estacionária e o prognóstico mantém-se reservado.

(2010)

14 June 2010

CANTOS E LENDAS



Dropkick Murphys - Live on Lansdowne, Boston, Ma

Nenhum lisboeta (ou qualquer outro sábio e atento cidadão do mundo então deambulando pelas coordenadas da arábica Lishbuna), nem excessivamente novo, nem demasiado velho, é digno desse nome se, a 28 de Abril de 1989, não tiver integrado as fileiras dos que acorreram ao Coliseu dos Recreios para um concerto acerca do qual, para quem a ele compareceu, não restará a mais microscópica dúvida ter-se tratado de um daqueles que a memória do planeta deverá registar até à consumação dos tempos. Em palco, na superiormente sublime conflagração entre o catolicismo ortodoxo, o paganismo alcoólico-orgiástico irlandês – perdoem a redundância – e o punk serôdio e, por isso mesmo, mais decadentemente avassalador, os Pogues (quero dizer, Shane MacGowan e comparsas) celebravam os momentos últimos da desmedida embriaguês poética do Ocidente, disparavam para a atmosfera, em fulgurante pirotecnia, os estilhaços da felicidade impossível de todos os Dylan Thomas do mundo, amassavam campo, adro de igreja, bordel, taberna e grande cidade, e, pelo caminho, deixavam uns milhares de almas sem perceber exactamente o que se tinha passado à frente dos seus olhos e ouvidos. Reza a lenda que, horas antes, Shane terá consumido o conteúdo líquido e variado de diversos bares da cidade, sido reanimado da horizontal na calçada de uma avenida da capital à custa de anfetaminas e, em consequência relativamente directa, durante o frenesim do concerto, despojado, por algum fiel mais devoto, do anel “blessed by the Virgin Mary”, por cuja devolução, regressaria, repetidamente, à boca de cena, em angustiada súplica. Mesmo londrina e “modernamente” aculturada, era a Irlanda que ali estava.



Claro que não era. Mas também era. A Irlanda “tigre celta” e a Irlanda falida. A Irlanda das Kilrush, vilas-fantasma, e das Dublin e Sligo, dos Joyce, Wilde e Yeats. A da história muito-pior-que-portugesmente-maldita e a das Westport turísticas do pub de Matt Molloy (dos Chieftains), dos abrigos miseráveis da “fome da batata” ou da Cork à boleia pindérica das “capitais europeias da cultura”. A dos irlandeses do Manchester City e a da imensa diáspora nos EUA. Como a de Boston, com Red Sox, no baseball, Guinness na corrente sanguínea e Dropkick Murphys na música. Agora que o gypsy punk dos Gogol Bordello vacila, podem concentrar-se no Celtic-punk deles. De carreira, são três anos mais velhos mas ainda não optaram pelos aromas tropicais do Brasil. Continuam, casmurramente irlandeses, a festejar todos os St. Patrick’s Days, quais Sex Pistols com o trevo tatuado na testa e o kitsch assaz “celticamente” duvidoso de infantes e adolescentes multicoloridos a saltitarem as ceili dances, pelo meio de uma trupe de matulões tatuados, uns de uniforme negro e outros de kilt, a tocar, desvairadamente, gaita de foles, banjo, guitarras eléctricas, bateria e tin whistle. Martin Scorsese não descansou enquanto não lhes sacou ‘I’m Shipping Up To Boston’ (sobre um texto desenterrado dos arquivos de Woody Guthrie) para The Departed, Bruce Springsteen declarou-se devoto desde que um dos filhos o convenceu a assistir a um concerto e, embora em estado de consciência sempre incerto, o próprio MacGowan lhes deu a bênção.



Ouvindo e vendo o CD e DVD de Live on Lansdowne, Boston, Ma – mais uma tão arrepiante quanto contagiosa festa identitária em tons de verde-terra-de-Ériu-deusa-de-uma-tão-pobre-soberania – não é muito difícil entender porquê: aqueles tipos, apoiantes, muito possivelmente anacrónicos, do sindicalismo AFL-CIO, proletariamente democratas e entusiasmadamente populistas, cantam uma história épica e lendária que as babes loiríssimas e os moços suados que exercitam o mosh, lá em baixo, davam tudo para que, pudesse conter um átomo de verdade. A belíssima narrativa do monge cristão, Naomh Pádraig, que expulsou as serpentes pagãs da ilha esmeralda – por mais pagãos que eles, empedernidamente, continuem a ser – está-lhes demasiadamente agarrada à pele para a poderem esquecer. E, nós (que supomos ter pouco a ver com isso), ainda que convencidos que o Shane do anel da virgem era um enorme poeta demente e eles são apenas diligentes oficiantes do culto, não lhes conseguimos resistir.

(2010)

22 March 2010

TREMOÇOS E MONTESQUIEU



"Entrei como cientista político, saí como antropólogo. Em Mafra, no congresso do PSD, vi pouca política, mas vi, ao vivo e a cores, a imensa selva social que é Portugal. Às tantas, até parecia que estava no meio de um imenso e caótico casamento cigano, cheio de mulheres lindíssimas claramente overdressed (no meio destas madrinhas de casamento, aqui o escriba parecia um pedinte). Neste caos antropológico, falei de quotas partidárias enquanto bebia umas imperiais com uns senhores simpáticos, e, logo a seguir, discuti Tocqueville com umas senhoras ainda mais simpáticas (além de giras, as rangelistas são inteligentes).



A gradação de inteligência do PSD vai assim desde a epistemologia do tremoço ao debate sobre o liberalismo clássico. O PSD junta, no mesmo espaço, taberneiros profissionais e 'caixas de óculos' da teoria política. Como podem calcular, esta amplitude térmica transforma o PSD numa coisa fascinante para qualquer repórter. No próximo congresso, quando voltar a ser o David Attenborough do PSD, espero encontrar uma rangelista a ler Montesquieu e a trincar tremoços ao mesmo tempo". (Henrique Raposo, "O Microscópio Laranja", "Expresso" de 20.03.10)

(2010)

12 March 2010

AMAVELMENTE LISÉRGICO, EDUCADAMENTE ABSURDO



Ersatzmusika - Songs Unrecantable

“Ersatz” é uma palavra alemã que se internacionalizou com o sentido de “sucedâneo” ou “imitação de qualidade inferior”. Se Irina Doubrovskaja (acordionista, pianista, artista conceptual, compositora e cantora) a aplica à música que ela e a sua banda de migrantes russos residentes em Berlim criam, não somos, por isso, obrigados a levá-la à letra.



Embora, escutando Songs Unrecantable, a intenção se compreenda: nesta colecção de números de um cabaret amavelmente lisérgico e educadamente absurdo habita, indiscutivelmente, uma alma eslava mas ela não sobreviveria sem o alimento espiritual que lhe é oferecido por um colectivo de doadores benévolos (mesmo que os próprios, vivos ou nem por isso, o ignorem) onde se inclui – no desenho sonoro, na atmosfera geral, na cuidada decoração do interior de cada canção – gente tão generosa e diversa como Tom Waits, Marlene Dietrich, Nico, Françoise Hardy, Velvet Underground e até o espectro dos destroços sobreviventes do velho órgão Vox Continental que Ray Manzarek supliciava impiedosamente nos Doors. Mais uma pitada da loucura-Gogol Bordello e Irina poderá fazer História.

(2010)

14 December 2009

SUPERNATURAL ORGASMO HYSTERIA



Gogol Bordello - Live From Axis Mundi (CD + DVD)

A implacável e incansavelmente excessiva máquina de música demente, a furiosa e delirante bacanália de palco que passou pelo Optimus Alive de 2008 e pela grande convenção freak de Sines de 2007 sob a forma dos Gogol Bordello, é possível dizê-lo agora sem nenhuma hipótese de errar, era pouco mais do que uma agremiação de meninos de coro convidada para o baile de finalistas de um internato de freiras. Podemos reavivar a memória desses dois momentos através do DVD Live From Axis Mundi que documenta as duas noites de tumultuosa orgia sonora e cénica, em Julho de 2007, no Fillmore de Irving Plaza, em Nova Iorque. São eles mesmos, tal como os conhecemos, em toda a sua gloriosa e desordenada magnificência.



Mas o que, realmente, ignorávamos, era tudo aquilo que se esconde nos extras do DVD, revelando uns Gogol Bordello (anteriores à consagração global e ao momento em que foram publicamente ungidos por Madonna) que fazem, definitivamente, jus ao seu nome: em palcos diminutos onde, por vezes, a distinção entre público e banda é problemática, Evgeny Aleksandrovitch Nikolaev Simonov, aliás, Eugene Hütz, e a sua trupe ébria de saltimbancos, acordeonistas, violinistas, percussionistas, acrobatas e "femmes-de-joie" contracenam com fornos de lenha acesos, apagam cigarros nos peitorais, mergulham sobre pinos de bowling e, generalizadamente, desencadeiam o que, num momento de inspiração, Hütz define como “supernatural orgasmo hysteria”. Um CD de sessões de rádio e os videoclips dos Bordello compõem o programa perfeito para uma consoada pagã.

(2009)