(sequência daqui) Mas, talvez, a mais rica e diversificada tenha sido a que, na década de 80 ficou conhecida como "renascença do rock americano", dos R.E.M., Dream Syndicate, Violent Femmes, Green On Red e Los Lobos, aos Jason & The Scorchers, Blasters ou Rain Parade e inúmeros outros. Entre os quais, os Lone Justice, praticantes de "country/cowpunk" de apenas dois álbuns mas que revelaram ao mundo a tremenda voz da então ainda adolescente, Maria McKee. Se, dela, na trajectória a solo que se seguiu à implosão da banda, nunca poderemos, pelo menos, esquecer o magnífico La Vita Nuova (2020), Viva Lone Justice - operação de limpeza, restauro e recontrução de fitas de gravações informais dos primórdios da banda - transporta-nos para aquele muito particular universo no qual a energia frenética de "Rattlesnake Mama", "Nothing Can Stop My Loving You" e, sobretudo, "Teenage Kicks" (dos Undertones), coexiste facilmente com o romantismo de câmara de "You Possess Me" e com o tradicionalismo de "Wade In The Water".
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28 December 2024
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19 May 2020
SEM REGRAS
The Days Of Wine And Roses (1982) e Medicine Show (1984) – juntamente com contributos dos R.E.M., Violent Femmes, Green On Red, Los Lobos, Lone Justice e uma mão bem cheia de outros contemporâneos – tinham ficado para a história do penúltimo fôlego do rock norte-americano, numa elegante e acerada diagonal entre Neil Young, Velvet Underground e Television, desenhada a quatro mãos pelas guitarras altamente inflamáveis de Steve Wynn e do genial Karl Precoda. No entanto, após dois álbuns menos notáveis, a banda que o baterista Dennis Duck baptizara em homenagem ao colectivo experimental que reunira La Monte Young, John Cale, Tony Conrad e Jon Hassell, em 1989, separou-se. Vários projectos individuais e colaborações mais tarde, só em 2012 ensaiariam uma reunião e, em 2017 e 2019, voltariam a atiçar o lume com How Did I Find Myself Here? e These Times.
Foi numa das sessões de gravação deste último que, pelas 11 da noite, depois de 12 horas contínuas em estúdio, quando se preparavam para uma cerveja comunitária final, apareceu Stephen McCarthy, dos Long Ryders, de sitar na mão. “O engenheiro de som e o produtor ainda não se tinham ido embora, levámos as cervejas para dentro, lígámos a aparelhagem e, durante 80 minutos, mergulhámos numa fantástica jam session. Não dissemos uma palavra, ninguém deu quaisquer instruções, nada estava escrito, não havia regras de jogo estabelecidas. Apenas uma espécie de desafio implícito: ‘Não quero ser o primeiro a parar’. Só houve um pequeno intervalo quando o Mark Walton pousou o baixo e foi buscar shots de tequilla para todos. Mesmo assim, continuámos a tocar”. Nos meses seguintes, Wynn regressaria a essa alucinatória quase hora e meia, retalhá-la-ia, sobrepor-lhe-ia as percussões de Johnny Hott, o sax de Marcus Tenney e, aqui e ali, os seus textos recortadamente burroughsianos. Os 20 minutos iniciais de "The Regulator" apresentam-se como “uma viagem psicadélica, panorâmica, política e sonâmbula através de Nova Iorque” e, nas restantes (e extensas) quatro de The Universe Inside, o Miles Davis eléctrico, Hendrix, Soft Machine, Neu! e Ornette Coleman, pairam sobre esta “psychedelic, avant-jazz, freak-out, weirdo band we were always meant to be”. Parece que só terão posto fim à lendária jam inspirados pelo que Miles terá respondido a Coltrane quando este lhe confessou que, por vezes, não sabia como acabar um solo: “Basta tirar o sax da boca”.
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26 May 2015
15 March 2009
A CAPELA SISTINA PINTADA A METRALHADORA

Neko Case - Middle Cyclone
Há que ser absolutamente honesto e reconhecer que, se Neko Case se agrafou ao imaginário do bom povo indie, deve-o tanto à sobreexcelência da sua música como a duas ou três sessões fotográficas – nomeadamente, uma particularmente interessante onde, de forma assaz persuasiva, fazia uma convincente demonstração da sua destreza diante de uma mesa de snooker. Iconografia à parte, a designação country-noir deverá ter sido criada de propósito para ela. Ou, na verdade, por ela, em Blacklisted (2002) e Fox Confessor Brings the Flood (2006), dois tornados de pesadelos lynchianos em tonalidade "american-gothic" eléctrica vermelho-sangue.
Middle Cyclone representa-a, agora, na capa, em pose de valquíria, de sabre em punho, cavalgando um Ford Mustang, e derrama sobre nós o imenso deleite de a ouvir expelir tições em brasa como “She is the centrifuge that throws the spires from the Sun, the Sistine Chapel painted with a Gatling gun” ou “I lie across the path waiting just for the chance to be a spiderweb caught in your lashes”, por entre um batalhão de seis pianos resgatados para o seu celeiro do Vermont, versões de Harry Nilsson ("Don't Forget Me") e dos Sparks ("Never Turn Your Back On Mother Earth"), um coral de 30 minutos de criaturas silvestres (“Marais La Nuit”, a última faixa), gente amiga como M Ward, Garth Hudson, e "old acquaintances" dos Calexico, Giant Sand, Los Lobos e New Pornographers.
(2009)

Neko Case - Middle Cyclone
Há que ser absolutamente honesto e reconhecer que, se Neko Case se agrafou ao imaginário do bom povo indie, deve-o tanto à sobreexcelência da sua música como a duas ou três sessões fotográficas – nomeadamente, uma particularmente interessante onde, de forma assaz persuasiva, fazia uma convincente demonstração da sua destreza diante de uma mesa de snooker. Iconografia à parte, a designação country-noir deverá ter sido criada de propósito para ela. Ou, na verdade, por ela, em Blacklisted (2002) e Fox Confessor Brings the Flood (2006), dois tornados de pesadelos lynchianos em tonalidade "american-gothic" eléctrica vermelho-sangue.
Middle Cyclone representa-a, agora, na capa, em pose de valquíria, de sabre em punho, cavalgando um Ford Mustang, e derrama sobre nós o imenso deleite de a ouvir expelir tições em brasa como “She is the centrifuge that throws the spires from the Sun, the Sistine Chapel painted with a Gatling gun” ou “I lie across the path waiting just for the chance to be a spiderweb caught in your lashes”, por entre um batalhão de seis pianos resgatados para o seu celeiro do Vermont, versões de Harry Nilsson ("Don't Forget Me") e dos Sparks ("Never Turn Your Back On Mother Earth"), um coral de 30 minutos de criaturas silvestres (“Marais La Nuit”, a última faixa), gente amiga como M Ward, Garth Hudson, e "old acquaintances" dos Calexico, Giant Sand, Los Lobos e New Pornographers.
(2009)
04 July 2008
DESENCONTRO

T-Bone Burnett - Tooth Of Crime
T-Bone Burnett tem um daqueles currículos capazes de colocar instantaneamente em sentido o mais pintado: companheiro de Bob Dylan na “Rolling Thunder Revue”, criou, depois, a óptima Alpha Band e publicou diversos álbuns a solo; enquanto produtor, foi responsável por gravações de Los Lobos, Elvis Costello, Gillian Welch, Leo Kotke, Joe Henry, Roy Orbison, Jackson Browne, Joseph Arthur, Tony Bennett, k. d. lang, Cassandra Wilson, Peter Case, Emmylou Harris, todos os álbuns da ex-mulher, Sam Phillips, e pelas bandas sonoras de The Big Lebowski, O Brother Where Art Thou? e The Ladykillers (dos irmãos Coen). Tooth of Crime, por outro lado, parecia alinhar do modo mais favorável todas as peças no tabuleiro: criado a partir de canções escritas para a peça homónima de Sam Shepard (descrita como “high noon at the OK Corral in a jukebox universe”), contava com as participações de Marc Ribot, Jim Keltner, Jon Brion e Sam Phillips. A desesperante verdade, porém, é que todo o álbum parece um constante desencontro perfidamente planificado de vozes, textos, ritmos, melodias e harmonias, sob um alinhamento astral particularmente nefasto.
(2006)

T-Bone Burnett - Tooth Of Crime
T-Bone Burnett tem um daqueles currículos capazes de colocar instantaneamente em sentido o mais pintado: companheiro de Bob Dylan na “Rolling Thunder Revue”, criou, depois, a óptima Alpha Band e publicou diversos álbuns a solo; enquanto produtor, foi responsável por gravações de Los Lobos, Elvis Costello, Gillian Welch, Leo Kotke, Joe Henry, Roy Orbison, Jackson Browne, Joseph Arthur, Tony Bennett, k. d. lang, Cassandra Wilson, Peter Case, Emmylou Harris, todos os álbuns da ex-mulher, Sam Phillips, e pelas bandas sonoras de The Big Lebowski, O Brother Where Art Thou? e The Ladykillers (dos irmãos Coen). Tooth of Crime, por outro lado, parecia alinhar do modo mais favorável todas as peças no tabuleiro: criado a partir de canções escritas para a peça homónima de Sam Shepard (descrita como “high noon at the OK Corral in a jukebox universe”), contava com as participações de Marc Ribot, Jim Keltner, Jon Brion e Sam Phillips. A desesperante verdade, porém, é que todo o álbum parece um constante desencontro perfidamente planificado de vozes, textos, ritmos, melodias e harmonias, sob um alinhamento astral particularmente nefasto.
(2006)
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