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21 May 2023


(sequência daqui) Com apoio externo das duas primeiras páginas do Frankenstein, de Mary Shelley, tirado ao acaso de uma prateleira (“O livro começa com a narrativa de um viajante próximo do Círculo Polar Ártico e essa imagem de alguém à deriva ajudou-me a escrever sobre a sensação de estar isolado, perdido e sem objectivos”, justifica-se Matt) e dos convidados Taylor Swift, Phoebe Bridgers e Sufjan Stevens, tratar-se-á, então, como assegura Aaron Dessner, de “uma obra maior, à altura de Alligator (2005), Boxer (2007) ou Sleep Well Beast (2017) dos quais se escutam referências aqui”? Relativamente a este último, é possível que tenha razão: foi exactamente aí que teve início o processo de lenta implosão da banda, um exercício, deliberado ou não, de poupança energética, no qual o som e a fúria de Alligator e – mais que perfeitamente controlados – de Boxer, sem se acharem extintos, actuavam essencialmente como memória em segundo plano.
 
 
Mas o mais exacto paralelismo que deve estabelecer-se é com I Am Easy To Find: tal como nesse álbum, o desenvolvimento das canções é quase processionalmente moroso, os arranjos orquestrais limitam-se a simular crescendos e a procurar acolchoar o muito espaço deixado vago por melodias preguiçosamente monossilábicas, e a tonalidade geral é de queixosa resignação. Naturalmente, poderemos sempre contar com os textos de Berninger para nos obrigar a parar tudo e voltar a escutar (“I get myself twisted in threads to meet you at The Alcott, I go to the corner in the back where you'd always be, and there you are sitting as usual with your golden notebook writing something about someone who used to be me”, de "The Alcott", um dueto com Taylor Swift que é, inesperadamente, a melhor canção do disco) ou fazer-nos ver um momento como se lá tivéssemos estado presentes (“I keep what I can of you, split second glimpses and snapshots and sounds, you in my New Order t-shirt, holding a cat and a glass of beer, I flicker through, I carry them with me like drugs in a pocket, you in a Kentucky aquarium talking to a shark in a corner”, de "New Order T-Shirt"). Mas já vimos lâminas bem mais afiadas acercando-se da artéria radial.

13 May 2023

"Your Mind Is Not Your Friend" (feat. Phoebe Bridgers)

(sequência daqui) Na realidade, porém, não foi tudo assim tão fácil. Agora que (quatro anos após I Am Easy To Find), First Two Pages Of Frankenstein, o novo álbum da banda, é publicado, Matt confessa que, mais do que em qualquer outro momento anterior, o fim dos National esteve prestes a acontecer: “Mesmo que, sempre que estamos a trabalhar num álbum haja discussões e muita ansiedade, esta foi a primeira vez que sentimos que as coisas poderiam ter chegado irremediavelmente ao fim. Estava num buraco muito negro, não era capaz de escrever uma letra nem de criar uma melodia. Foi assim durante um ano”. E, à “Uncut”, em modo cirurgia de coração aberto, contaria tudo sobre aquele momento “em que o comboio descarrilou”: "Habitualmente, quando atravesso períodos conturbados, consigo lidar com isso, escrevo uma canção sobre o que me perturba o que contribui muito para resolver o problema. Mas, desta vez, eu não queria fazê-lo. Tinha perdido o interesse pela minha própria dor e pelos meus problemas. Sentia-me até, se calhar, envergonhado por causa deles. E quanto mais tempo passava sem exercitar aquela parte de mim responsável pela escrita, mais difícil se tornava reestabelecer a ligação com ela”. (segue para aqui)