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11 March 2024

Cabane - "Melodies Of Love" (feat. Kate Stables, strings arrangement by Sean O'Hagan)

07 March 2024

 

"Today" 

(sequência daqui) No conjunto, uma belíssima demonstração da rica plasticidade da música de Henri, aliás, Cabane. O mesmo exercício poderia fazer-se com as quatro variantes de "Today" - especial atenção para aquela cujo video, provavelmente inspirado no filme Smoke (1995), de Wayne Wang/Paul Auster, se constrói na rápida sucessão de 365 fotografias tiradas diariamente, entre 9 de Janeiro de 2022 e 9 de Janeiro de 2023, no mesmo ponto da Place Poelaert, em Bruxelas - e com o próprio álbum, Brulée, segundo tomo da trilogia iniciada em 2020 com Grande Est La Maison. Kate Stables e O’Hagan regressam e Bonnie ‘Prince’ Billy é substituido por Sam Genders (Tunng) mas a atmosfera buckleyanamente "happy sad" de folk de câmara impressionista permanece, se possível ainda mais e mais purificada, a milímetros da rarefacção.

05 March 2024

 RAREFACÇÃO
 
 
Sentados na relva de um parque onde humanos e cães se passeiam preguiçosamente, Thomas Jean Henri e Claire Vailler esperam 20 segundos até que o ruído de um avião que sobrevoa a zona se dissipe. Nos 4 minutos seguintes, apenas a voz, quase só um suspiro, de Claire e o dedilhado da guitarra acústica de Thomas pairam à beira da inexistência, cerzindo palavras ("For ever and ever we toil in love, to push the waves aside, for ever and ever we dance, fearlessly") sobre a coreografia transparente de "Melodies Of Love". No segundo vídeo, gravado num estúdio de rádio de Bruxelas, Thomas e Kate Stables (This is the Kit) ocupam-se da mesma canção: ele, sentado ao piano, no qual apenas desenha uma introdução e coda minimais e, no resto, alimentando na guitarra a delicada voz luminosa de Kate que se apropria inteiramente da canção. O terceiro é um "lyric video" sobre uma paisagem de montanha, a preto e branco, ainda uma outra abordagem de "Melodies Of Love" envolvida pelo sinuoso e labiríntico arranjo para cordas de Sean O’Hagan (Microdisney, Stereolab e High Llamas). (daqui; segue para aqui)
 
"Melodies Of Love" (feat. Kate Stables)

26 July 2021

 UM NOVO FÔLEGO
 
 
O lendário DJ britânico John Peel, admirador incondicional dos Microdisney, dizia que a voz de Cathal Coughlan – com Sean O’Hagan, o motor criativo da banda – era de tal modo sedutora que o ouviria com prazer cantar a lista telefónica (num tempo em que as listas telefónicas ainda existiam). E, citando Napoleão, definia a música do grupo irlandês como “um punho de aço dentro de uma luva de veludo”. O aço não terá sido suficientemente forte ou o veludo tão macio quanto necessário para evitar que, após 5 notáveis álbuns – especialmente, The Clock Comes Down The Stairs (1985) –, em 1988, os Microdisney se tivessem separado. O’Hagan fundaria os High Llamas, e Coughlan, durante meia década, daria vida aos Fatima Mansions. Mas as proverbiais disputas contratuais iriam impedi-lo de voltar a gravar até 2000, quando publicaria o primeiro álbum a solo, Black River Falls. O quarto e último, Rancho Tetrahedron, datava já de há 11 anos, pelo que pode dizer-se que Song of Co-Aklan é, na verdade, um novo fôlego, sob a máscara de Co-Aklan (Coughlan em escrita fonética), um avatar embrionário. (daqui; segue para aqui)

24 February 2021

Cabane - "Wooden Home" (feat. Bonnie "Prince" Billy & Kate Stables)
 
 (daqui)
 
"O Thomas ocupou-se sozinho de tudo. Pôs todo o seu corpo e alma neste projecto. Não é o género de pessoa disposta a fazer cedências por isso, muitas vezes, passa abaixo dos radares. Foi um prazer trabalhar com ele, tem um talento enorme e é um grande amigo meu. Já agora, esteja atento: há-de ser publicado um outro álbum com versões de outros músicos das canções de Cabane" (Kate Stables, caída ao chão na sala de montagem)

02 February 2021

Cabane - "Take Me Home Pt.2" 
(feat. Bonnie "Prince" Billy & Bostgehio)
(ver também aqui)
 
(sequência daqui) Em 35 minutos e 10 aguarelas pontilhistas, todos desmontam a armadilha preferida da perfeição que consiste em fazer-nos crer na sua impossibilidade de existir – ela está aqui, pronta a ser descoberta a cada capítulo desta sucessão de haikus envoltos em névoa que pairam sobre uma cabana-grande-como-uma-casa, “um lugar temporário onde nos abrigamos das intempéries”, concebido “como um espelho, como imagens que se reflectem, se opõem e se respondem”, nas vozes sobrenaturalmente complementares de Will Oldham e Kate Stables. Construída laboriosamente ao longo de 5 anos (“Tinha ficheiros verdes, vermelhos e amarelos no meu computador e, à medida que os trabalhava, esperava que alguns se elevassem à cor superior. Por vezes, voltava ao dossier vermelho na esperança de poder salvar algum e temia que algum verde tivesse sido despromovido a vermelho”, conta Thomas a respeito do seu semáforo criativo), é uma delicada peça de folk de câmara para interiores – desdobrada em componentes de video e fotografia – de um frágil impressionismo luminoso e detalhado que, para se nos colar à pele, não precisa que se diga quanto, aqui e ali, faz pensar em Paul Simon ou no olhar de Robert Kirby sobre Nick Drake.

22 December 2020

GEOMETRIA VARIÁVEL


“Will Oldham (Bonnie ‘Prince’ Billy), é o fantasma, a escuridão, a morte, a perda, as memórias. Kate Stables (This Is The Kit) é a luz, a benignidade, o calor. A soma dos dois é Cabane”, sintetiza o belga Thomas Jean Henri, quando fala acerca do seu álbum Grande Est La Maison. Mas, nesse esforço de síntese, deixa de fora vários outros elementos essenciais dessa “experiência colectiva de geometria variável” tão simples de imaginar que custa a acreditar nunca ninguém ter pensado nela antes: os arranjos de Sean O’Hagan (o futurista de antiquário que já distribuiu cores pelas paletas dos Microdisney, Stereolab e High Llamas) para quarteto de cordas, vibrafone, piano eléctrico Wurlitzer, a episódica "drum machine" de Andy Ramsay (Stereolab), as cinco vozes das Bostgehio e a colaboração nos textos de Caroline Gabard e Sam Genders. (...). (daqui; segue para aqui)

"Sangokaku" feat. Bonnie Prince Billy & Kate Stables (ver aqui)

02 December 2019

FUTURISMO DE ANTIQUÁRIO

  
Uma das melhores qualidades do maravilhoso e aleatoriamente promíscuo mundo "online", é a possibilidade de, andando em busca de uma coisa, se descobrir mil outras que nem sonhávamos existirem, por vezes, francamente mais interessantes do que o alvo de pesquisa original. Por exemplo, a propósito de Radum Calls, Radum Calls, de Sean O’Hagan, após a constatação do quase confidencial número de navegantes que acharam interessante prestar-lhe alguns segundos de atenção, tropeçarmos, no YouTube, numa extensa conversa por Skype, entre O’Hagan e Van Dyke Parks e, logo a seguir, saltitando de link em link, desenterrar das catacumbas da Net, a página de um ignoto Clay The Scribe que começa por explicar que soube da existência dos High Llamas através de uma entrevista com Pharrell Williams em que este nomeava como sua “favourite fellatio song”, "The Flower Called Nowhere", dos Stereolab (juntando os pontinhos para quem não esteja, imediatamente, a associar os nomes às pessoas: O’Hagan, ex-membro dos miseravelmente esquecidos Microdisney e fundador dos High Llamas, é também elemento volante dos Stereolab). 



E, aí mesmo, encontrarmos uma bem saborosa troca de ideias na qual Sean fala da necessidade que, nos anos 90, sentiu de criar música que não celebrasse apenas os Beach Boys mas também Ornette Coleman, Robert Wyatt, John Cale, Kevin Ayers, e o minimalismo de John Adams, da veneração por Villa Lobos, Rogério Duprat, Wally Scott (arranjador de Scott Walker) e Jean-Claude Vannier (orquestrador de Serge Gainsbourg), e do seu modus operandi composicional: primeiro, fragmentos rabiscados em cassetes, "minidiscs" ou iPads, depois, trabalho de estúdio sobre a ideia quase em bruto e, por fim, as vozes. Um utilíssimo "briefing" para o que iremos escutar no seu segundo álbum a solo desde há 29 anos: uma quase ofensiva superabundância de ideias e pistas de decifração que, traduzida para uma orquestra de câmara de sintetizadores analógicos, caixas de ritmos, orgãos Bontempi, cravo, clavas, sopros, a harpa de Serafina Steer e secções de cordas de finíssimo veludo, dá origem a uma espécie de amável futurismo de antiquário que tanto faz pensar nuns XTC de libré, como num Tom Jobim contratado pela Disney para substituir Henry Mancini na banda sonora de uma história serenamente psicadélica acerca de fantasmas nostálgicos dos anos de ouro de Covent Garden, lavadores de janelas de Nova Iorque e donzelas iranianas em fuga da revolução islâmica. E, sim, faz tudo sentido.