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05 July 2026

A MEMÓRIA E O MITO
Vestido como um detective de film noir - longo sobretudo cinzento e chapéu de feltro -, o "Record Officer" (na realidade, o actor George MacKay) chega a um centro de arquivos. Está nas instalações do Ministério do Não Esquecimento — uma instituição cinematográfica imaginária e vagamente orwelliana, onde a memória e a mitologia se atropelam. Aí irá conduzir uma entrevista com Marianne Faithfull, na qual lhe mostrará imagens dela própria num monitor e lhe fará diversas perguntas. Na verdade, uma apenas bastaria para a situar: "Acha que precisava assim tanto das trevas para ter sido uma grande artista?", pergunta ele à baronesa Erisso von Sacher-Masoch - da ilustre linhagem dos Habsburgos e sobrinha bisneta de Leopold von Sacher-Masoch - que alcançou a fama como uma angelical estrela pop loira de 17 anos e sofreu um rápido declínio para o alcoolismo, a dependência da heroína e a vida nas ruas pelos seus 20 anos. "Fuck, no!..", replica muito energicamente Faithfull. "Mas é um bom gancho para se pendurar as coisas, não acha?", acrescenta ela. (daqui; segue para aqui)

21 May 2021

O MAIS BELO ÁLBUM

Quando, no final de Abril do ano passado, após 22 dias de internamento por Covid-19, Marianne Faithfull leu a papelada da alta hospitalar, apercebeu-se que, em dado momento, a equipa médica que se ocupava dela a havia recomendado “apenas para cuidados paliativos”. As probabilidades de, aos 73 anos, sobreviver eram ínfimas: tinha entrado de urgência para cuidados intensivos, a situação agravara-se vertiginosamente e ninguém parecia acreditar que o final pudesse ser feliz. Na verdade – como se confirmaria –, isso não era senão menosprezar Marianne Evelyn Gabriel Faithfull, aliás, a baronesa Erisso Von Sacher-Masoch, sobrinha-bisneta do infame Leopold: quem, ao longo da vida, já sobrevivera a uma prolongada dependência de heroína – que a lançara para a rua, sem abrigo –, à bulimia, ao alcoolismo, a diversas tentativas de suicídio, a um cancro da mama, à hepatite C e a uma fractura da anca com infecção pós-operatória, não haveria de ser um qualquer SARS-CoV-2 que a iria derrotar. Até porque a doença ocorrera a meio da gravação de um álbum que, por motivo algum, poderia deixar de ser concluído. A memória de curto prazo ficara severamente afectada (“É incrível tudo aquilo que não recordo. Não tenho memória de ter adoecido nem de ter dado entrada no hospital. Apenas sei que era um lugar terrivelmente escuro. Presumo que seria a morte”, contou ao “Guardian”), a fadiga fácil permanecia, e as dificuldades respiratórias continuavam a exigir a administração de oxigénio mas, com Warren Ellis ao lado, She Walks In Beauty – 21º álbum de estúdio – seria terminado. (daqui; segue para aqui)

12 October 2017

CATARSE

  
Poderíamos supor que, meio século após a publicação de The Velvet Underground & Nico, já saberíamos tudo acerca da banda de Lou Reed, John Cale, Christa Päffgen/Nico, Sterling Morrison e Maureen Tucker, da trajectória posterior de cada um deles e da influência que, nas décadas posteriores, exerceriam sobre incontáveis discípulos. E, no entanto, resta sempre um ou outro pormenor ainda por descobrir. Por exemplo, aquele que, na semana passada, o indispensável blog “Dangerous Minds” – baú de preciosidades insólitas e obscuras da cultura pop – recuperou do esquecimento: em 1993, vá lá saber-se porquê, a Dunlop Tyres (subsidiária da Goodyear) achou apropriado ilustrar musicalmente um filme publicitário destinado a promover os seus pneus “tested for the unexpected” com "Venus In Furs", dos Velvets. Exactamente: a canção de Lou Reed inspirada no clássico literário homónimo (1869) de Leopold Ritter von Sacher-Masoch (que, 17 anos depois, conduziria o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, em Psychopathia Sexualis, a propôr o conceito de “masoquismo”) como banda sonora de um minuto de imagens delirantemente surreais assinadas por Tony Kaye. 



Bastante menos anedótica será a gravação dos concertos de John Cale, a 6 de Março de 1983, em Bochum, e 14 de Outubro de 1984, em Essen, na Alemanha, para o Rockpalast, programa da rede de televisão WDR. Não sendo propriamente um segredo só acessível a círculos restritos de iniciados – vários excertos foram entrando e saindo do YouTube e conhecera já edição alemã em 2010 –, só agora, com esta caixa de 2 CD + 2 DVD, poderá, contudo, passar a gozar do estatuto de peça maior no cânone de Cale. O avassalador Music For a New Society havia sido publicado em 1982 e, acerca dele, confessaria mais tarde que “não era preciso sofrer tanto para gravar um disco, não era necessário partir as pernas para voltar a aprender a andar. Possuo dor que baste dentro de mim para não ter necessidade de a ampliar daquele modo“. Live At Rockpalast apanhá-lo-ia nessa altura em que cada concerto era um instante de violenta catarse sempre insuficiente, um aterrador psicodrama individual exibido em público. Nada nestas 37 faixas é tranquilizador mas o pesadelo da versão de “Heartbreak Hotel“ – após uma interpretação sonâmbula, Cale, aparentemente, sucumbindo a um surto psicótico, arranca a cobertura do chão do palco – dificilmente se esquece.

03 April 2010

OFERENDAS PASCAIS (II): UM MIMINHO - O CILÍCIO


"A cilice was originally a garment or undergarment made of coarse cloth or animal hair (a hairshirt). In more recent times the word has come to refer not to a hairshirt, but to a spiked metal belt or chain worn strapped tight around the upper thigh. Many religious orders within the Roman Catholic Church have used the cilice as a form of "corporal mortification," but in recent years it has become known as a practice of numeraries (celibate lay people) of Opus Dei, a personal prelature of the Roman Catholic Church".



"Practiced for centuries, use of the cilice has been commonplace in the lives of the saints, for example: St Francis of Assisi, St Thomas More, St Therese of Lisieux, Pope Paul VI, St Padre Pio and Mother Teresa of Calcutta. * The motivation behind these voluntary mortifications is to imitate Christ and to join him in his redemptive sacrifice (cf. Matthew 16:24), and they can also be a way to suffer in solidarity with the many poor and deprived people in the world".


"Among other items, Cilice.co.uk offers a range of cilice belts, from traditional full length and half length chains produced by Italian nuns, to specialist belts crafted by our own blacksmith from various metals of different gauge and weight. We also supply traditional goatskin hairshirts and goatskin cilice belts. They are shipped in discreet packaging (All prices shown include shipping worldwide) and confidentiality is assured". (daqui: "how luminous is darkness"; outros piedosos serviços com reportagem aqui)

* ... & "kinky Wojtyla".

(2010)

28 January 2010

TASTE THE WHIP, TOTUS TUUS


The Crystals - "He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)"

He hit me and it felt like a kiss
He hit me but it didn't hurt me
He couldn't stand to hear me say
That I'd been with someone new


Hole - "He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)"

And when I told him I had been untrue
He hit me and it felt like a kiss
He hit me and I knew he loved me
Cause if he didn't care for me
I could have never made him mad


Grizzly Bear - "He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)"

He hit me and I was glad
Baby won't you stay...
He hit me and it felt like a kiss
He hit me and I knew I loved him
Cause when he took me in his arms
With all the tenderness there is
He hit me and he made me feel
Baby won't you stay...

(2010)
E O EXEMPLO DE WOJTYLA NÃO PÁRA DE NOS ILUMINAR


Britney Spears - "(Hit Me Baby) One More Time"

Oh baby, baby
How was I supposed to know
That something wasn't right here
Oh baby, baby
I shouldn't have let you go
And now you're out of sight, yeah
Show me how you want it to be
Tell me baby 'cause I need to know now, oh because

My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time


Oh baby, baby
The reason I breathe is you
Boy you got me blinded
Oh pretty baby
There's nothing that I wouldn't do
It's not the way I planned it
Show me how you want it to be

Tell me baby 'cause I need to know now, oh because

My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time


Oh baby, baby how was I supposed to know
Oh pretty baby, I shouldn't have let you go
I must confess, that my loneliness is killing me now
Don't you know I still believe
That you will be here
And give me a sign
Hit me baby one more time


My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time


(2010)
E MAIS UMA PARA ST. KAROL "KINKY" WOJTYLA
(vezes três, com o textinho da oração para recitar)


The Velvet Underground - "Venus In Furs"

Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Clubs and bells, your servant, don’t forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart

Downy sins of streetlight fancies
Chase the costumes she shall wear
Ermine furs adorn the imperious
Severin, Severin awaits you there


John Cale - "Venus In Furs"

I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears

Kiss the boot of shiny, shiny leather
Shiny leather in the dark
Tongue of thongs, the belt that does await you
Strike, dear mistress, and cure his heart


Lou Reed - "Venus In Furs"

Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me

I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears

Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please don’t forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart

(2010)

27 January 2010

OH, BABY, YOU'RE SOOO VICIOUS!...


"Quem privou com o Papa [João Paulo II] na Polónia e no Vaticano, sabe que se autoflagelava com um cinto, guardado no armário entre a roupa, e companheiro das deslocações do pontífice, revela o livro baseado em 114 testemunhos. Alguns dos colaboradores conseguiam ouvir quando ele se flagelava no Vaticano e inclusive durante uma viagem à Polónia" (aqui)



Vicious
You hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby, you're so vicious

Vicious
You want me to hit you with a stick
But all I've got is a guitar pick
Huh, baby, you're so vicious

When I watch you come
Baby, I just want to run far away
You're not the kind of person around I
Want to stay

When I see you walking down the street
I step on your hands and I mangle your feet
You're not the kind of person that I want to meet
Oh, baby, you're so vicious
You're just so vicious

Vicious
Hey, you hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby you're so vicious

Vicious
Hey, why don't you swallow razor blades
You must think that I'm some kind of gay blade
But baby, you're so vicious

When I see you coming
I just have to run
You're not good and you certainly aren't
Very much fun

When I see you walking down the street
I step on your hand and I mangle your feet
You're not the kind of person that I'd even want to meet

'Cause you're so vicious
Baby, you're so vicious
Vicious, vicious
Vicious, vicious
Vicious, vicious
Vicious, vicious

(2010)

17 March 2008

VENUS IN FURS



Marianne Faithfull - Come My Way

Acabadinha de sair do regaço das freiras da St Joseph’s Convent School, a muito jovem baronesa Erisso von Sacher-Masoch – da ilustre linhagem dos Habsburgos e sobrinha bisneta de Leopold von Sacher-Masoch, aquele cavalheiro a quem os apreciadores de umas boas chibatadas devem a caução estética e literária para os seus prazeres peculiares –, seguindo as pisadas artísticas da mãe (bailarina, trabalhou com Brecht e Weill), em 1965, transformara-se em Marianne Faithfull, cantora pop com um sucesso no currículo, “As Tears Go By”, assinado Jagger/Richards.



Mas, apesar dos dezoito anos, a quem transporta nos genes o hábito de mandar e a arte da sedução, não seria demasiado difícil convencer uma editora a editar-lhe, no mesmo ano do primeiro álbum pop, um outro de temas folk. Come My Way só ficou para a história porque Marianne, sendo Marianne, o assinou (antes, durante e depois, a folk já recebera e receberia muito melhor tratamento do que apenas as carícias de uma voz cristalina) e, nesta reedição, porque inclui “Sister Morphine”, negra antevisão dos longos anos em que a doce Lolita aristocrática se deixou abraçar por essa e outras irmãs menos recomendáveis.

(2008)