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23 August 2014

INFÂNCIA 


Nas quase quinhentas páginas de Retromania, Simon Reynolds não poderia ter argumentado mais convincentemente do que o fez acerca da patológica dependência da cultura pop contemporânea em relação ao(s) seu(s) passado(s). Às vezes, contudo, acaba por apanhar-se melhor os traços do quadro clínico dando a palavra aos próprios pacientes. É o caso da entrevista de Gonçalo Frota aos novíssimos britânicos Childhood, no “Ípsilon”. Com a candura própria da designação que escolheram para si, “esta gente com a cabeça trancada nos anos 80 e 90 do seu país musical” conta que nunca tinha sequer tentado escrever uma canção mas, no desfecho de uma noite alcoolicamente generosa, pensou primeiro no nome da banda e, só a seguir, na música que haveria de criar. Porque, no fundo, o que importava era descobrir uma alternativa ao risco de “entrar em estado comatoso de tanto se aborrecer com o curso de História de Arte” na universidade de Nottingham. 


Aparentemente, nada de novo, "business as usual" no quintal pop: continua a não ser obrigatória a exigência de formação musical académica para fundar uma banda e muitas germinaram no rico caldo resultante da dissolução do tédio em destilados espirituosos vários. Acontece, porém, que olhar todos os dias o mundo como se fosse a primeira vez pode ser uma frase que não fica mal em postais "new age" mas, como combustível estético, conduz, desnecessária e infantilmente, a reinventar interminavelmente a roda e, supondo-se genial, a produzir infinitas réplicas de genialidades prévias devidamente registadas. É que, não sendo indispensável devorar cordilheiras de enciclopédias nem escutar a integral da pop, década por década, ter a noção de que não vale a pena voltar a compor a obra dos Beatles ou de Jimi Hendrix dá imenso jeito – e um comazinho ligeiro de História de Arte (música incluída) até pode ajudar bastante. Lacunas desse género só por raríssimo acaso levam a destino recomendável e a Lacuna exibida como título do álbum de estreia dos rapazes da terra de Robin Hood é daquelas gigantescas através das quais nos é permitido enxergar um vasto passado (e só um vasto passado): J&MC mas também Stone Roses, puídos cortinados "shoegaze" e abundantes resíduos de psicadelismo multiplamente reciclados. Voltem lá para as aulas, moços! 

18 May 2010

O FILHO DO BISPO ENCONTRA-SE BEM



The Divine Comedy - Bang Goes The Knighthood

Neste álbum, em "Can You Stand Upon One Leg", Neil Hannon sustenta, em falsetto, um sol durante exactamente 28.9 segundos. "Neapolitan Girl", num registo quase-National Geographic, aborda o tema da, alegadamente, mais antiga profissão do mundo e a canção-título desenvolve-o em variante BDSM. Em "At The Indie Disco", num total de vinte e um versos, consegue alojar referências aos Cure, Morrissey, Soft Cell, Blur, New Order, My Bloody Valentine, Pixies, Stone Roses e Wannadies (e, nas imagens do respectivo videoclip, adicionem-lhe duas ou três vezes isso). "I Like" opta pelo estilo de versejar de que “I like the way you make me laugh, I like your brain both left and right half, I like the songs you sing when you’re bathing, I like the dog when he’s behaving” é um exemplo esclarecedor e, se googlarmos a frase “maybe this recession is a blessing in disguise” (de "The Complete Banker"), descobriremos que ela apareceu em dezenas de artigos sobre o último fim do mundo tal como o conhecemos. Na capa, de chapéu de coco, cachimbo, papillon e cálice na mão, Hannon, na banheira, toma um banho de espuma acompanhado pelo tal cão que, às vezes, se porta bem (o que, na circunstância, até parece ser o caso). Será que o filho do bispo de Clogher ensandeceu? Não necessariamente. Mais importante do que isso: de tão destrambelhado cocktail, resulta alguma coisa com a qual valha a pena perder tempo? Resulta, sim.



Coloquemos, então, a questão segundo um ponto de vista darwiniano: na origem das espécies-pop por meio da selecção natural, Neil Hannon foi o Paul McCartney que correu bem. Ambos têm o mesmo ouvido abençoado para detectar uma boa melodia à distância e não a deixar escapar, mas se, seis em cada dez vezes, McCartney a converte em xarope de melaço, Hannon poderá não construir nenhuma catedral de Chartres a partir dela mas também nunca a obrigará a passar vergonhas. O ex-Beatle tem armários atravancados de "Ob-la-di Ob-la-das" e "All Together Nows" mas, nas prateleiras do nano-irlandês, o pior que se descobre é Frank Lampard escondido atrás de uma rima de "The Lost Art Of Conversation". Um, após enviuvar da banda-mãe, imaginou-se o elo perdido entre a tradição sinfónica clássica e o pub da esquina, o outro nunca sonhou mais alto nem mais baixo do que com Scott Walker (e, vá lá, Jacques Brel, Chekhov, Scott Fitzgerald e o festival da Eurovisão).



É por isso que embora, de Promenade a Casanova ou Fin de Siècle, se possam degustar iguarias músico-literárias de finíssimo paladar, caso se tropece num qualquer Bang Goes The Knighthood ou Victory For The Comic Muse (o último, de 2006), poderemos não ter mesa de banquete real garantida mas nunca haverá motivo para receios de desastre irremediável. À nossa espera, estarão sempre um "Down In The Street Below" ou "When A Man Cries" de recorte impecavelmente clássico e (lá está) walkeriano, outro "Have You Ever Been In Love" a seguir o caminho das pedrinhas lançadas por Burt Bacharach, o perverso "jeu de massacre" em vestes de valse-musette de "Bang Goes The Knighthood" ou o sarcástico exercício de investigação sociológica vaudevillizada em "Assume The Perpendicular", para compensar das duas ou três ligeirezas frívolas com que o seriíssimo cavalheiro que faz questão de nos recomendar Graham Greene, Paolo Conte, a Penguin Café Orchestra, as esculturas de Botero ou a série Cosmos, de Carl Sagan, por vezes, insiste em se divertir. Tranquilizai-vos, nada a temer: não há sequer aqui a vaga sombra de um "We All Stand Together".

(2010)

16 November 2007

MANCHESTER NUNCA EXISTIU



24 Hour Party People - realização de Michael Winterbottom

Manchester, como se sabe, não existe. E o mesmo se passa, evidentemente, com Bristol, Seattle, Berlim, Glasgow ou Reikjavik. Quero dizer, enquanto "centros produtores" e "origem" de "um som" ou de "uma cena", todas elas foram criações dos media e da indústria discográfica, sempre ávidos de desencantar a novidade seguinte e de a impôr através da estratégia de marketing ("o som de") mais rápida e mais rapidamente rentável. Não é preciso ser bruxo para adivinhar que os músicos de Bristol não soam todos como, um dia, a meio dos anos 90, os Portishead sonharam ou que todas as bandas de Seattle não juram pela matriz dos Nirvana. E em Manchester — tanto na versão "early eighties"/Joy Division/Durutti Column/A Certain Ratio como na posterior Madchester/Happy Mondays/Stone Roses — também não há nada de peculiar na água que ponha todos os seus músicos a tocar os dós, os rés e os mis da mesma forma. Simplesmente, aqui e ali, um ou outro caçador de talentos, produtor ou responsável editorial mais astuto detectou a tempo a diferença emergente e a máfia do "hype" tratou do resto.



24 Hour Party People conta a história de como isso aconteceu em Manchester sob os auspícios de Tony Wilson, da sua editora Factory e do clube Haçienda mas fá-lo de uma forma tal que — caso se desconheça a história real — deixa imaginar que tudo aquilo decorreu numa região geográfica isolada do restante universo onde aqueles que o filme apresenta, não coexistiriam, ao mesmo tempo, por exemplo, com os Echo & The Bunnymen, Sound, Comsat Angels, Bush Tetras, Rip Rig & Panic, Theoretical Girls, Cabaret Voltaire, Gang Of Four, Talking Heads, This Heat, ou The Feelies: segundo a versão de Michael Winterbottom, Manchester só começou a existir no final da década de 70 e só voltou a reemergir no final da seguinte, tudo se deveu a Tony Wilson e à Factory e o resto do mundo (o próprio resto do Reino Unido...) assistiu deslumbrado e sem qualquer espécie de contribuição. Talvez um pouco mais tolo ainda é que todo o desenrolar da narrativa se fique pelos "fait divers", pelos lugares mais comuns e pela anedota da época: Joy Division e New Order seriam ou não alusões nazis, Shaun Ryder e os Mondays conseguiam, sozinhos, esgotar o stock de dez farmácias (e as drogas, não é verdade? dão cabo de tudo), Martin Hannett não batia bem, se não fossem os Sex Pistols nada disto tinha acontecido e, na boa e velha tradição rock'n'roll, as mulheres são "a good shag", troféus de caça ou, pura e simplesmente, putas que podem acumular ou não essa função com a de "backing singers". Com mais ou menos ironia e distanciamento "pós-modernos" (e como isso já soa irremediavelmente datado e francamente metido a martelo!), saber o que representou a música de Ian Curtis, de Vini Reilly, dos Magazine, The Fall ou A Certain Ratio no panorama da pop britânica e mundial seria pedir claramente demais ao filme de Michael Winterbottom. Ele só quer contar umas piadas "cool" e, às vezes (mas só às vezes...), até tem graça. (2002)