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20 March 2023

REFEIÇÃO PESADA

Bono não é, nem muito remotamente, Bob Dylan. Nem sequer Elvis Costello, Bruce Springsteen ou até Morrissey. Mas, se o Nobel da Literatura de 2016 publicou as óptimas Chronicles Volume One (2004) – e, no ano passado, The Philosophy Of Modern Song –, e os outros se autobiografaram em Unfaithful Music & Disappearing Ink (2015), Born To Run (2016) e Autobiography (2013), o moço de Dublin também conhecido como Paul Hewson nunca se perdoaria se não adicionasse o nome à lista da elite pop/rock com ambições literárias. A sua contribuição intitula-se Surrender: 40 Songs, One Story e, conta quem a leu, nas cerca de 600 páginas, detalham-se todos os incidentes e polémicas que ocorreram desde o momento em que, há 46 anos, Larry Mullen colocou no placard de mensagens da Mount Temple Comprehensive School de Dublin um anúncio no qual escrevinhara “Baterista procura músicos para formar uma banda” e, daí, germinariam os Feedback, depois Hype, e, enfim, na Primavera de 1978, os U2. (daqui; segue para aqui)

"Pride (In The Name Of Love)"

01 April 2022

 
(sequência daqui) Passaria também por Jacques Brel (“Ouvimos uma canção como ‘Jackie’ e pensamos ‘Que diabo! Isto é um filme condensado em três minutos e meio!’ Tentei escrever canções assim e, obviamente, falhei. Mas, ao falhar, cheguei a outros lugares que eram igualmente importantes”), Noel Coward, Bacharach/Hal David, Gershwin, Cole Porter e, avançando vertiginosamente no calendário, Jarvis Cocker (“Foi uma grande influência no que faço. Tinha alguma inveja de como a escrita dele era tão fantasticamente intensa. Não se alimentava dos lugares comuns habituais na composição de canções pop e era tão divertido como tenebroso”). Mas também pelo cinema e pela literatura: "The Booklovers" (de Promenade, 1994) inicia-se com um sample de Audrey Hepburn enquanto expedita e erudita livreira, no filme Funny Face (Stanley Donen, 1957) e prossegue com a enumeração de 73 autores literários; "Bernice Bobs Her Hair" é a transmutação pop de uma "short story" de F. Scott Fitzgerald; e "Lucy" (de Liberation, 1993) é um mil-folhas confeccionado a partir de três poemas de Wordsworth. “Naturalmente, sou uma espécie de pega, tanto em termos musicais como literários. Suponho que havia um certo fascínio nos livros que andava a ler e que não via reflectido na música que escutava, à excepção, talvez, do Morrissey, com os Smiths. E tive a sorte de nunca virem a correr atrás de mim por causa dos direitos de autor!” Mas há um método? Ao fim de três décadas, existe alguma espécie de modus operandi estabelecido? “Raramente escrevo com a intenção de construir um álbum. Eles apenas vão acontecendo. Às tantas, reparo que existe uma certa quantidade de canções que parecem convergir numa determinada atmosfera. Por isso, nunca penso em álbuns mas eles acabam por aparecer. É realmente incrível que eu ainda ande por cá. Mesmo com todas as bizarrias, a minha única intenção foi sempre apenas gravar discos pop”.

19 December 2017

ISRAEL, OS MEDIA E SEXO ORAL 


Há muitas luas, escrevendo sobre um "songwriter" estimável mas que a História só em rodapé registará, ousei compará-lo (favoravelmente) ao Bob Dylan de então. E, para eterna vergonha e infinda penitência futura, afirmava, convicto: “Não consegue entender-se muito bem por que motivo uma geração inteira, há anos, persiste em convencer-se e em tentar convencer as seguintes de que Bob Dylan, do ponto de vista criativo, não se encontra definitivamente empalhado”. É verdade que estava ainda muito próxima a idade das trevas-"born again" do futuro Nobel da Literatura que, agora, no 13º volume da "Bootleg Series", a Columbia pretende reabilitar. Fraca atenuante, porém, face ao arrasador desmentido que toda a obra imediatamente posterior de Dylan se encarregaria de fazer. Funcionaria, contudo, no longo prazo, como vacina (relativamente) eficaz contra juízos demasiado apressados. Mas, no que diz respeito ao Morrissey actual, é bem provável que nem um reforço da primeira dose evitará que lhe supliquemos que pare de emporcalhar a memória dos Smiths e, sejamos justos, de uma parcela importante da sua discografia a solo. 



O impulso incontrolável para o disparate é, nele, lendário. Se, em matéria de panfletarismo vegan, apontar as malas de Beyoncé como causa para o risco de extinção do rinoceronte poderá ser só tolice, acusar o povo chinês de ser “uma sub-espécie” em virtude dos seus hábitos alimentares ou relativizar o terrível massacre de 2011, na Noruega, perante “o que acontece, todos dias, nos McDonald's”, já é, francamente, mais grave. E verdadeiramente indesculpáveis são declarações tais que “Estou convencido que brancos e negros nunca se darão bem nem gostarão uns dos outros” ou “Quanto maior é a imigração, mais rapidamente a identidade britânica desaparece”. Tudo isto desajeitadamente contrabalançado por indignados protestos – “Abomino o racismo, a opressão e crueldade de todos os tipos” - e objectivamente contrariado pela muito especial relação de mútua paixão com a comunidade “latina” de Los Angeles, à qual dedicou a canção "Mexico" (“In Mexico I went for a walk to inhale the tranquil, cool, lover's air, but I could sense the hate, from the Lone Star state… it seems if you're rich and you're white, you'll be alright”) e a quem, durante a campanha presidencial norte-americana, incitava a não votar em Donald Trump.



Aparentemente, Morrissey é incapaz de viver sem isto: agora mesmo, num concerto de ante-estreia na BBC6 de Low In High School, pareceu-lhe apropriado insinuar, totalmente a despropósito, o apoio a Anne Marie Waters, candidata ferozmente anti-islâmica à direcção do já desmedidamente xenófobo UKIP. Realmente desastroso é que se, embora com imensa dificuldade, ainda ia sendo possível separar os dislates-“bigmouth” da obra gravada, desta vez, eles invadem e apoucam as canções de forma irremediável. Num álbum em que dir-se-ia existirem apenas três temas – Israel, os media e sexo oral -, as hostilidades abrem-se em modo de "glam" artriticamente pesadíssimo com a portentosa proclamação... err... trumpiana, “Teach your kids to recognize and to despise all the propaganda filtered down by the dead echelons mainstream media”. Um pouco mais adiante, naquilo que até poderia ser uma sedutora variação de Debord/Vaneigem sobre O Elogio da Preguiça” (“Spent the day in bed, very happy I did, yes I spent the day in bed, as the workers stay enslaved (...) Oh time, do as I wish, time, do as I wish (…) And no bus, no boss, no rain, no train”), de súbito, regressa a obsessão: “Stop watching the news! Because the news contrives to frighten you, to make you feel small and alone, to make you feel that your mind isn't your own”. O que, convenhamos, combina mal com a rudimentar retórica tablóide da morosa "Israel" (“they who reign abuse upon you, they are jealous of you”), tema que, no tango de casino de "The Girl From Tel-Aviv Who Wouldn't Kneel", desenvolve com uma argúcia política de taxista (“What do you think all these conflicts are for? It's just because the land weeps oil”).


Em memória do saudoso "Margaret On The Guillotine", há gestos de simpatia – o “Axe the monarchy” da imagem da capa, a paráfrase anti-militarista sobre "Universal Soldier”, de Buffy Sainte-Marie, em "I Bury The Living" (“You can’t blame me, I'm just an innocent soldier, (…) Give me an order! I'll blow up a border, give me an order and I'll blow up your daughter”) – mas, de um modo geral, com dois ou três momentos de contacto oro-genital para criar o clima adequado, tudo se resume a um serôdio "flower power" de Twitter: “They say presidents come, presidents go, but all the young people they must fall in love”. Para lavar os ouvidos, nada melhor do que optar pela reedição de The Queen is Dead (1986), estojo de algumas das máximas preciosidades Morrissey/Marr ("The Boy With The Thorn In His Side", "Bigmouth Strikes Again", "There’s A Light That Never Goes Out"…). Com todos os bónus, raridades e "lives" de rigor, Alain Delon baleado, na capa, título subtraído a Hubert Selby Jr., e video de 13 minutos de Derek Jarman. Mas, sobretudo, com Morrissey ainda vivo.

20 September 2017



Spent the day in bed 
Very happy I did, 
Yes I spent the day in bed 
As the workers stay enslaved 
I spent the day in bed 

 (...) 

And I recommend that you 
Stop watching the news! 
Because the news contrives to frighten you 
To make you feel small and alone 
To make you feel that your mind isn't your own

(...)

Oh time, do as I wish 
Time, do as I wish 
Oh time, do as I wish 
Time, do as I wish 
Oh time, do as I wish 
Time, do as I wish 
Oh time, do as I wish 
Do as I wish

(...)

Life ends in death 
So, there's nothing wrong with 
Being good to yourself 
Be good to yourself for once!

And no bus, no boss, 
No rain, no train 
No bus, no boss, 
No rain, no train 
No bus, no boss, 
No rain, no train 

No emasculation, no castration 
No highway, freeway, motorway

No bus, no boss, 
No rain, no train 
No bus, no boss, 
No rain, no train 
No bus, no boss, 
No rain, no train

13 October 2016

27 August 2016

24 February 2016

VIVA MOZ ANGELES!


Na edição de 2006 do IndieLisboa, foi exibido o documentário de William E. Jones, Is It Really So Strange?, que retratava uma peculiaríssima subcultura dos subúrbios da zona leste de Los Angeles: a transbordante devoção pelos Smiths (e por Morrissey, em particular), concretizada em noites temáticas nos clubes locais, frequentadas e organizadas por milhares de jovens oriundos da comunidade “latina” de LA (cerca de metade dos 10 milhões de angelenos), sobretudo, mexicanos, que adoptaram como um dos seus o contraditório britânico de Manchester aí expatriado, criatura melancólica, ácida, petulante, desmedidamente romântica e, paradoxalmente, alegado racista "borderline". Informalmente designada como “Moz Angeles” ou “Mozlandia”, era (e continua a ser) um fluido território social e mental colectivo de simbólica cidadania transcultural, para o qual convergem marginais, excluídos, ilegais, gays, párias, alvo privilegiado de diversas agressões legislativas anti-emigração, recentemente, convertido em "bête noire" do bovino Donald Trump. 



Se o filho de proletários irlandeses emigrados em Inglaterra se reinvindica de "Irish Blood, English Heart", os seus seguidores chicanos das várias Moz Krews arvoram o "Mexican Blood, American Heart" nas t-shirts que envergam durante os concertos dos Sweet And Tender Hooligans – a "tribute band" que mimetiza ao milímetro a discografia e os tiques dos Smiths –, acorrem em massa às Smiths/Morrissey Conventions e criaram o Teatro Moz, um festival de teatro inspirado pela obra de Morrissey. O amor é mútuo: Moz dedica-lhes "Mexico" (“In Mexico I went for a walk to inhale the tranquil, cool, lover's air, but I could sense the hate, from the Lone Star state… It seems if you're rich and you're white, you'll be alright”), desfralda a bandeira mexicana em palco, intitula as apresentações em LA “homecoming concerts”, incita a que ninguém vote em Trump e declara “I wish I was born Mexican”. Mexrrissey, banda de notabilidades da música popular do México, e No Manchester, álbum, eram inevitáveis: incluindo sete temas de Morrissey (dos quais, cinco são retomados "live", no registo de um concerto na Brooklyn Academy of Music), nada se perde e algo se ganha nesta exuberante conversão ao idioma dos "corridos", "mariachis" e "rancheras".

27 January 2016

11 December 2015

EVERYDAY I WRITE THE BOOK 


Comecemos, então, pelo princípio. Isto é, pelo capítulo 6, "London’s Brilliant Parade": “Nasci no mesmo hospital em que Alexander Fleming descobriu a penicilina. Peço, antecipadamente, desculpa por não ter sido uma dádiva equivalente à humanidade. Há muitos lugares em Londres que oferecem a sensação de lhes pertencermos: Camden, Stepney, Hampstead, Brixton, até Shepherd’s Bush. Paddington não é um deles, a menos que se seja um urso de ficção. É um lugar de passagem, uma estação no tabuleiro do Monopólio”. Em epígrafe, “From the gates of St. Mary’s, there were horses in Olympia and a troley bus in Fulham Broadway, the lions and the tigers in Regent’s Park couldn’t pay their way, and now they’re not the only ones”. É um mapa instantâneo das origens de Declan Patrick MacManus, aliás, Elvis Costello: o hospital de St. Mary’s, à beira de Paddington e das competições equestres do Olympia Horse Show. Há uma prova do feliz acontecimento na página 406 de Unfaithful Music & Disappearing Ink: a reprodução de um minúsculo recorte de 6 linhas do “New Musical Express” de Agosto de 1954 em que o semanário “dá os parabéns a Ross MacManus, trompetista-vocalista da Arthur Rowberry Band, cuja mulher, Lillian, o presenteou com um filho na passada terça-feira. O bebé chamar-se-á Declan Patrick”.



Não é tudo rigorosamente verdade – 25 de Agosto de 1954 foi uma quarta-feira – mas isso não deverá incomodar demasiado Costello que, não sendo um efabulador compulsivo como Tom Waits, nas 670 páginas destas suas "memoirs", não se esquiva a confessar episódios nos quais, sem cerimónias, reconfigura os factos em função das circunstâncias. Por exemplo, aquele, acontecido na Casa Branca, em 2010, aquando da entrega a Paul McCartney do Gershwin Prize for Popular Song. Integrando o grupo de músicos que actuariam perante o homenageado, Barack Obama e a corte de convidados, coube-lhe interpretar "Penny Lane" que apresentou evocando quão importante tinha sido para um miúdo de 13 anos escutar no rádio, “ao lado do meu pai, da minha mãe e do gato”, uma canção “tão fantástica acerca de uma anónima rua suburbana, muito próxima daquela onde, em criança, a minha mãe vivera”. Na realidade, não havia gato algum e, por essa altura, os pais estavam já separados...



É também indispensável não contar com uma narração cronologicamente ordenada. Da vaga recente de autobiografias e memórias de medalhados estadistas do pop/rock – o primeiro volume das Chronicles, de Dylan, a Autobiography, de Morrissey, Girl In a Band, de Kim Gordon –, Costello tende mais para o estilo-Dylan: ora está a justificar a sua má reputação inicial por culpa do maldito diastema (“parece que o espaço entre os meus dois dentes incisivos, que fizeram Jane Birkin, Ray Davies e Jerry Lewis tão atraentes, teve o efeito de fazer soar metade do que digo como uma provocação ou um insulto”); ora salta para o meio da década de 80 e, ele que se reivindica perito em “sentimentos de culpa católicos”, faz público acto de contrição acerca da sua condição de predador sentimental (“Escrevi cartas, seduzindo raparigas diferentes, levando-as a acreditar fosse no que fosse que desejassem acreditar (...) Depois, escrevi canções tentando convencer-me que o fazia em busca do amor e não apenas das boas e velhas luxúria e cobiça e de mais dois ou três dos restantes pecados mortais”); ora, ao longo de 20 assombrosas páginas faz desfilar uma História viva da Irlanda-Reino Unido-EUA iniciadas com o bisavô, John MacManus (“que, como muitos irlandeses nascidos nos anos da Grande Fome, se safaram da Irlanda mal tiveram idade para isso”), continuadas com o avô, Patrick – entre as carnificinas da primeira guerra mundial e da guerra de independência da Índia, e a carreira como executante de trompa que, a bordo do White Star Liner, terá conhecido Duke Ellington – e, depois com as perturbadas evocações do pai, já doente de Parkinson, sobre os anos da Grande Depressão, quando “muitas coisas tiveram de ser cortadas ao meio: a força de trabalho, o salário, o pão”.

Mom, dad, Declan & no cat
 
Dispersas um pouco por todo o livro, há elucubrações teóricas sobre o que distingue bandas inglesas e americanas (“As melhores bandas inglesas preocupam-se mais com ‘como começamos?’ do que com ‘como acabamos?’”); inventários detalhados de onde e a quem foram surripiados arranjos, melodias, riffs, introduções; desabafos como o de nunca ter conseguido convencer nenhum dos seus primeiros comparsas a escutar um álbum de David Ackles; as cumplicidades diversas com Dylan, Robert Wyatt, Allen Toussaint, Bacharach, Chet Baker, Johnny Cash, Diana Krall, T Bone Burnett; as dementes digressões com os Attractions através da América; a figura sempre presente e ausente do pai – perdido à procura de uma estrofe para "This House Is Empty Now", de Painted From Memory, sintetiza o espírito de Unfaithful Music & Disappearing Ink em duas frases: “Tinha, agora, de encontrar ainda mais palavras. O meu pai entrou no meu quarto quando eu tinha oito anos e ofereceu-mas”.


Poderia ser um momento cinematográfico como são, aliás, inúmeros outros no decurso dos 36 capítulos. Até porque ele cuidou de que, para eles, existisse a banda sonora adequada: um duplo álbum (quase) homónimo com outros tantos temas da sua discografia mais dois inéditos – "April 5th", com Rosanne Cash e Kris Kristofferson, e "I Can’t Turn It Off", relíquia dos primórdios assinada por D. P. Costello. Afinal, exactamente o mesmo tipo que escreveu “I'm a man with a mission in two or three editions, and I'm giving you a longing look, everyday, everyday, everyday I write the book”.

07 May 2015

MEMÓRIAS DE NOVA IORQUE

  
Mais ou menos a meio de Girl In A Band, na página 148, Kim Gordon, num aparte não demasiado significativo, conta que, em conversa para a “Interview” com o ilustrador Raymond Pettibon – autor da capa de Goo, dos Sonic Youth, bem como de várias outras de álbuns dos Black Flag e da editora SST –, ambos concordaram que, quando se trata de discutir algum assunto com um músico, é conveniente não elevar demasiado a complexidade do tema. “Não porque não sejam inteligentes, apenas não intelectualizam as coisas da mesma forma que os artistas”. E Kim reforça a ideia, confessando “Sinto que não há muita gente com quem possa falar sobre o que me vai na cabeça... isto não quer dizer que os menospreze”. Poderá, talvez, situar-se aí a razão porque a literatura – autobiográfica ou não – assinada por músicos é tão escassa e, na maioria dos casos, assaz desinteressante. A memoráveis excepções como Chronicles Vol. I, de Bob Dylan, Autobiography, de Morrissey, os quatro romances de Willy Vlautin (Richmond Fontaine/Delines), a recolha de poemas de David Berman (Silver Jews), Actual Air, ou a quase dezena de publicações de David Byrne (Leonard Cohen, exactamente o caso oposto – poeta e romancista tornado songwriter –, não conta) adicione-se, agora, Girl In A Band – A Memoir, de Kim Gordon.



Guitarrista, baixista, compositora e cantora dos Sonic Youth (e, igualmente, dos Free Kitten, Body/Head e participante em inúmeras colaborações) mas também artista plástica, "fashion designer", actriz, crítica e jornalista de arte, Gordon possui o perfil exactamente adequado para não ceder (demasiado) à "petite histoire" de circunstância e desenhar, com nervo e energia, a trajectória de uma "California girl" de classe média, nascida no início dos anos 50 e transplantada para a cena musical e artística da Nova Iorque, de fins de 70 até à actualidade. A visão panorâmica é povoada por um "who’s who" de todo o período abrangido (mas com figuras de carne e osso e não em mero exercício de "name dropping"), em permanente viagem entre auto-análise e observação/comentário de situações e personagens, painel estético/histórico e diário pessoal, o precioso bloco-notas de uma testemunha-participante activa das vibrantes ascensões e perturbantes quedas da capital do mundo.

25 February 2015

O PEQUENO MILAGRE

  
Há semanas, no espanhol “El Confidencial”, Carlos Prieto escrevia: “Chegou 2015, o ano em que tudo ou nada poderia mudar para sempre, e ocorreu um pequeno milagre cultural: os economistas convertidos em ícones pop”. Exemplificava, a seguir, com a visita recente de Thomas Piketty, autor de “O Capital No Século XXI” – coisa “próxima da ‘beatlemania’” –, e com o aparecimento do novo ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, sublinhando “a sua pinta mais de estrela do rock que de economista”, “o seu aspecto de quem acaba de sair de um concerto”, bem como o facto de ser casado com a notória artista plástica, Danae Stratou, e de, acima de tudo, impor-se instantaneamente “na qualidade de "sex-symbol", algo que não abunda na esquerda europeia”. Será, porventura, apressado traduzir já a velha categoria de "groupie" para "varoufuckie" – elas, contudo, existem e não se escondem – mas o fulgurante “pequeno milagre cultural” tornar-se-á mais evidente se repararmos, por exemplo, na contrastante história de uma banda como os Wave Pictures: década e meia de actividade à média de um álbum por ano, mais cerca de duas dezenas de álbuns “de homenagem”, colaborações e compilações e outros tantos singles e EP, e onde chegaram eles?


Não muito mais longe do que ao estatuto do velho economista manga-de-alpaca, popular entre os colegas da empresa e anónimo para o resto do universo. Canções e álbuns óptimos como Long Black Cars (2012), Beer In The Breakers (2011) ou If You Leave It Alone (2009) não têm escasseado mas, dificilmente, David Tattersall, Franic Rozycki e Jonny Helm se verão alguma vez assediados por multidões de "varoufuckies". Great Big Flamingo Burning Moon é tão excelente e peculiar quanto os anteriores – a canção-título fala do flamingo que Tattersall viu desenhado “sobre uma enorme lua em fogo, suspensa sobre o céu de Portugal” –, com o bónus de ter sido gravado em parceria com o lendário figurão-poeta-artista-fotógrafo-punk-agitador-lunático, Billy Childish. Reivindica como seus os Who, Troggs, Creedence Clearwater (dos quais interpreta "Sinister Purpose" e "Green River") e Modern Lovers mas não faz segredo de que ambiciona as cátedras de Morrissey e Jarvis Cocker. Bom trabalho lá no escritório, rapazes!

13 August 2014

A LEI DO MENOR ESFORÇO 


Morrissey meteu-se num enorme sarilho com a publicação da sua Autobiografia em Outubro do ano passado. Já tínhamos todos, evidentemente, a noção de que, em matéria de autores de canções capazes de lidarem virtuosa e eruditamente com a linguagem, no perímetro pop, não havia assim tantos capazes de se elevarem ao nível do fundador dos Smiths. O problema é que, desde aquele volume editado pela “Penguin Classics” que o colocou na companhia de Virgílio, Homero, Sterne, Borges e Pessoa, a fasquia elevou-se de tal modo que, a partir daí, só muito dificilmente poderiam tolerar-se passos em falso. Sim, enquanto literatura pura e dura, as "memoirs" eram boas demais para que não se estabelecessem, de imediato, novos parâmetros de avaliação. É verdade que, como toda a recente discografia de Morrissey, também a Autobiografia não era, integralmente, ouro de lei: a uma primeira parte absolutamente assombrosa de autêntica e vertiginosa espeleologia do passado seguia-se um venenoso e desnecessariamente extenso ajuste de contas com o universo em geral. 


E é, justamente, isso que obriga a reparar, como, por exemplo, na faixa-título de World Peace Is None Of Your Business, é embaraçoso escutar-se rimas adolescentes do género “Brazil and Bahrain, oh Egypt, Ukraine, so many people in pain” ou, em "The Bullfighter Dies", “Mad in Madrid, ill in Seville (...), gaga in Malaga, no mercy in Murcia, mental in Valencia”. Cinco anos depois de Years Of Refusal, o que incomoda não são as já previsíveis “inconveniências” de Morrissey – caso, aqui, da idiota misoginia de "Kick The Bride Down The Aisle", da “ciência política” de taxista de “each time you vote you support the process” ou do ridículo vegetarianismo de panfleto de “wolf down t-bone steak, cancer of the prostate” – mas sim a raridade de verdadeiras pérolas e o desleixo como, no plano de textos e música (entre um rock de mão muito pesada e a persistente tendência para o turismo sonoro no perímetro arábico-ibérico), ele parece ter-se rendido à lei do menor esforço. Com romance de estreia anunciado para breve, dir-se-ia que a escrita de canções passou a ser assunto menor. Para nos consolar, fica pouco mais do que a quase larkiniana "Oboe Concerto": “The older generation have tried, sighed & died, which pushes me to their place in the queue”.