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21 July 2023
05 December 2007
STREET ART, GRAFFITI & ETC (VI)

(todas as fotos deste post: Berlim, Alemanha, 1994)
Confesso que nunca tinha ouvido falar na "teoria da janela quebrada" dos sociólogos de Palo Alto, na Califórnia. Mas, segundo William Bratton, ex-comandante da polícia de Nova Iorque — que, de acordo com o "Expresso" da semana passada, "aplicou na cidade a política de Tolerância Zero lançada pelo 'mayor' republicano Rudolph Giulianni" e que, nas palavras do "Público" (aqui podem rir-se), "quase eliminou a prostituição e o tráfico de droga" — numa conferência na Escola Superior de Polícia de Lisboa, ela assenta na ideia segundo a qual "ao deixar uma janela partida num prédio ou num carro abandonado, isso será apenas o início da degradação posterior desse local". Daí decorre necessariamente a muito perspicaz atitude de "dar tanta importância às pequenas infracções como aos grandes crimes", de não contemporizar com "mendigos agressivos, bêbedos, passadores de droga e prostitutas de rua" e (leiam e acreditem, ele disse-o mesmo) "uma das primeiras prioridades das polícias, o combate aos graffiti".
Porquê? Não chegam lá sózinhos? Então eu reproduzo as palavras do sábio: "Se os jovens não aprendem a respeitar a propriedade alheia, vão respeitá-la mais tarde? Não. Hoje fazem um graffiti, amanhã apetece-lhes e roubam um carro". Para esse efeito foi, pois, criada uma brigada especial (supõe-se que constituida por grafologistas) com o objectivo de "identificar as assinaturas dos desenhos, estabelecendo nexos de causalidade entre os autores e as obras" sendo os graffiteiros detidos "sem que haja a necessidade legal de os apanhar em flagrante delito".
William Bratton não tem dúvidas ("Encaramos o graffiti como outro crime qualquer"), dá conselhos à polícia portuguesa ("Isto já se transformou numa subcultura resistente. O que é preciso é dar sinal de que não se vai tolerá-los. E tratar quem os faz como um simples criminoso") e não hesita em brindar-nos com as suas originalíssimas opiniões sobre arte mural: "O graffiti é apenas mais uma forma de vandalismo urbano de alguém que não quer dizer mais nada a não ser 'Eu estive aqui'. É egoista, não é artístico. Os vossos graffiti de hoje também não se comparam com as inscrições políticas do pós-1974".
Longe de mim a pretensão de discutir estética com a bófia. Em particular com um representante da espécie que, surpreendentemente, parece preferir o realismo-socialista dos murais do PREC às inscrições da cultura hip-hop e foi buscar, sabe-se lá onde, a tese de que a "verdadeira arte" nunca será uma manifestação egoísta. Mas já me parece que devíamos ficar um bocadinho inquietos com as potenciais extensões da "teoria da janela quebrada": ou não será que dela se poderá naturalmente inferir que quem se esquece sistematicamente de tapar a pasta de dentes, mais dia menos dia, está a pôr bombas no Pentágono? E que, portanto, é uma indiscutível questão de segurança nacional a vigilância apertada de todas as actividades domésticas privadas? Não, não se trata de ficção científica "à la Big Brother" mas de algo inteiramente possível num país onde, em certos estados, a homosexualidade, mesmo praticada entre "consenting adults" na privacidade da própria casa, pode ser considerada crime.
Contudo, já que é de arte mural urbana que se trata, talvez fosse também de ilustrar os nossos agentes da ordem sedentos de cultura e de conhecimentos com mais umas conferências e colóquiozinhos sobre Keith Haring ou Basquiat (erudita literatura de apoio não falta), dar-lhes a escutar alguma da música que constitui a complementar banda sonora dos grafitti (ambos, de facto, manifestações de uma "subcultura resistente" que não lhes ficaria mal compreender e apreciar) e explicar-lhes a enorme sorte que tiveram o Miguel Ângelo da Capela Sistina, os autores dos horrivelmente "obscenos" frescos de Pompeia, os "vulgares criminosos" da obra colectiva que foi o muro de Berlim ou os outros, nossos antepassados de Foz Côa, por o tal de Bratton não andar lá por perto. Pela parte que me toca, podem contar já com a cedência da minha preciosa e numerosa colecção de fotografias de graffiti tiradas um pouco por toda a parte. Nomeadamente, naqueles sítios civilizados onde alguns poderes públicos e privados os estimulam e encorajam. (2000)
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