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20 May 2025

PROXIMIDADE, NÃO

A 15 de Maio de 2013, Michael Hann publicou no "Guardian" o relato daquilo a chamou o seu "professional horror show", e cujo título era "Meeting Ginger Baker: an experience to forget". Mais adiante explicaria que o que era suposto ter sido uma amena troca de opiniões entre ele, Baker e o público presente no cinema Curzon, no Soho, a propósito do documentário de Jay Bulger "Beware of Mr. Baker" (2012), se transformara numa escancarada demonstração da personalidade absolutamente impalatável do ruivo percussionista londrino. Ninguém alguma vez ousara sequer pôr em causa o elevado estatuto de Baker no "ranking" dos "greatest drummers of all time": não é, decerto, fruto do acaso ele ter sido - em conjunto com Eric Clapton e Jack Bruce - 1/3 dos Cream, bem como frações diversas dos Blind Faith, Ginger Baker's Air Force ou Public Image Ltd. Mas, como ao longo do documentário, inúmeros colegas e familiares sublinham, ser um dos mais impressionantes músicos que a Grã Bretanha deu à luz não impediu que estar próximo dele não fosse decididamente um prazer. (daqui; segue para aqui)

("Ramblin", Ornette Coleman, Live in Frankfurt 1995)

28 March 2023

 
(sequência daqui) No que respeita a Songs Of Surrender, também nem tudo é coerente. Concebido como guia de audição complementar da leitura da autobiografia de Bono – 40 faixas do reportório da banda revistas em modo quase-"unplugged" para outros tantos capítulos do livro –, na verdade, apenas 28 canções são comuns a livro e disco mas, à excepção de October (1981), No Line On the Horizon (2009), e Original Soundtracks 1 (1995), toda a discografia dos U2 está representada. Num dos capítulos do livro, Bono conta que “Durante o confinamento, tivemos oportunidade para reimaginar cerca de 40 canções o que me permitiu viver no interior delas enquanto escrevia estas memórias. E também me possibilitou lidar com uma coisa que me irritava há muito: os textos de algumas delas nunca me pareceram verdadeiramente acabados”. Dave “The Edge” Evans, o "guitar hero" que não queria ter nada a ver com "guitar heroes" e preferia Tom Verlaine, Keith Levene (PIL) e John McKay (Siouxsie & the Banshees) acrescenta: “Tínhamos curiosidade de saber como seria transportar as nossas canções antigas para o presente e dar-lhes o benefício de uma reconfiguração do século XXI. O que começou como uma experiência rapidamente se transformou numa obsessão pessoal. A intimidade substituiu a urgência pós-punk. Assim que abdicámos da reverência pelas versões originais, cada canção abriu-se a uma autêntica voz deste tempo e das pessoas que somos agora. Algumas cresceram connosco. Outras deixámo-las para trás. Uma grande canção é indestrutível. Mas a essência de todas elas permanece connosco”. (segue para aqui)

17 October 2012

ALTA INFIDELIDADE 

















The Sex Pistols - Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols (Deluxe Edition 2CD) 

Um torresmo, é um torresmo, é um torresmo. E, por muito que os paladinos da cozinha de autor se esforcem por nos demonstrar que torresmos au Riesling em cama de cenouras-bebé gratinadas, pode ser um requintado pitéu, não há como fugir à inamovível evidência de que um torresmo, é um torresmo, é um torresmo. Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols era um torresmo: valiosíssimo e, sem dúvida, esteticamente nutritivo para uma caótica insurreição urbana mas no polo oposto daquilo que constitui a matéria-prima sobre a qual audiófilos e revistas de hi-fi coreografam espasmos de sofisticado deleite. Porque o álbum era causa e efeito do turbilhão punk e, como escrevia Greil Marcus em Lipstick Traces, “Os punks eram feios. Sem quaisquer mediações. Um alfinete-de-ama de 25 centímetros que atravessa o lábio inferior e se cruza com uma suástica tatuada na bochecha não é uma afirmação de moda; um fã que enfia os dedos pela garganta para vomitar sobre as mãos e, depois, cospe o vómito para cima de quem se encontra em palco, está a disseminar uma doença. Uma camada espessa de maquilhagem negra era uma sugestão de morte mais do que qualquer outra coisa. (…) Eles eram gordos, anorécticos, com marcas de bexigas e de acne, gaguejavam, eram aleijados, tinham cicatrizes, eram disformes e o que os seus adereços sublinhavam era o falhanço já carimbado nos seus rostos. De certo modo, os Sex Pistols permitiram-lhes aparecer em público como seres humanos, exibindo as suas mazelas como factos sociais”. Não há edições "deluxe" para coisas destas.



Faça-se, entretanto, justiça a John(ny) “Rotten” Lydon que, confrontado com o facto consumado de esta ir ser publicada por ocasião do 35º aniversário do álbum (em 2007, comemorando o 30º, já houvera outra que, por sua vez, sucedia à de 1996...), não apenas se confessou deliberadamente “a leste” das manobras como, a propósito da operação (falhada) que, em Maio deste ano, coincidindo com o jubileu de diamante da rainha, procurou também redisparar "God Save The Queen", em direcção ao topo das tabelas de vendas, declarou: “Está tudo errado, desde o início. Não tenho paciência para idiotices ocas que pretendem inventar falsas agendas. Ser número 1? Nunca na minha vida fiz nada para ser número 1. Em que raio estão a pensar? Declaro, imediatamente, guerra. Não há nada mais ridículo. Não entendem que isto é matar o espírito da coisa? Não somos os Kiss. Mais valia que contratassem os Pil, o dinheiro dava-me jeito”. Em momento de "shock and awe" institucional pela revelação pública das "Royal Middleton boobs" e das nádegas da terceira figura na linha de sucessão ao trono, em animado convívio com as "filles de joie" de Las Vegas, o que dava, realmente, jeito era que aparecesse uma descendência contemporânea dos Pistols capaz de urrar um qualquer "Royal Tits’n’Ass" e não deixasse integralmente as despesas da missão punk actual para as – em comparação, infinitamente mais ousadas e corajosas perante o czar Putin – Pussy Riot. Sendo o mundo como é, aceitemos como ironia involuntária a reedição “que recupera as matrizes originais” de um álbum cujo autor, na devida altura, por entre interjeições menos publicáveis, afirmava “Não me interessa a música, o caos é o que importa”, com possibilidade de escolha entre "deluxe" a sério (3CD e 1 DVD) e "deluxe remediado (2CD). Como diria Raoul Vaneigem, “os revolucionários da Comuna de Paris deixaram-se matar até ao último para que também tu possas comprar uma aparelhagem Philips de alta-fidelidade”.

30 September 2010

09 July 2008

BOSSA-NOVA (II)
(sort of)



Bulllet - Torch Songs For Secret Agents




Nouvelle Vague - Nouvelle Vague

É Verão e a mente vagueia. Naquele "mood" de gin-tonic na mão e Chandler sob os olhos, não estamos propriamente virados para Wagner, Archie Shepp ou Black Flag, pois não? É, então, o momento para a descida à terra dos espíritos do über-cool (e, aqui, façam o favor de ler "cool" nos três sentidos possíveis: 1) de "hipness"; 2) de "cool", como em "cool jazz"; 3) e de "frescura"). E eles não se fazem rogados. Torch Songs For Secret Agents podia mesmo ter sido concebido como programa de animação cultural das noites tropicais de Clubs Med um bocadinho menos, digamos assim... burgueses.



E, escrevo "burgueses" no mau sentido da palavra. Porque Torch Songs é completamente burguês no melhor sentido: aqui bebe-se do fino, a atmosfera é cuidadosamente perfumada, o perigo (convém haver perigo por causa do picante) está sob controlo e a decoração humana saiu directamente das passerelles para a chaise longue. Os Bulllet pisam o terreno das canções dos Balla, a paleta jazz/hip hop/sampladelica-com-narrativa-implícita pinga em tons-James Bond sobre as telas de Gauguin e, vá-se lá saber porquê, quando acenamos preguiçosamente a pedir um "refill" é Rita Hayworth quem nos vem servir. Nada mau, hein? O cenário alternativo não é pior. Começa por jogar com sinónimos: nouvelle vague, new wave, bossa nova.



Depois, fimando "on location in Paris" sob a direcção de Marc Collin e Olivier Libaux, escolhe como protagonistas criaturas de vozes e nomes celestiais como Camille, Eloisia, Marina, Mélanie Pain, Siljia ou Daniela D'Ambrosia (podiam ser todas protagonistas ou figurantes do filme anterior) e pede-lhes para cantar "Love Will Tear Us Apart", "Just Can't Get Enough", "Guns Of Brixton", "Too Drunk To Fuck", "Making Plans For Nigel" ou "Teenage Kicks" como se os Joy Division, Depeche Mode, Clash, Dead Kennedys, XTC ou Undertones fossem frequentadores assíduos de Copacabana. Os Tuxedomoon, PIL, Sisters Of Mercy, Cure, Modern English, Killing Joke e Specials também não se ficam a rir. Mas ficam todos, de certeza, a sorrir e de muito bom humor, com a caipirinha gelada que a Rita, ela de novo, lhes vem oferecer.

(2004)