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11 June 2026

"Remenanuèch"
 
(sequência daqui) Logo na faixa de abertura, “Remenanuèch”, estabelece-se a tonalidade global com uma intensidade quase punk, narrando a domesticação de um drac (dragão) metamórfico. “Adissiatz Palhassonaira” conduz o diálogo vocal do duo para um território no qual cada cantora se ocupa de melodias e textos diferentes antes de convergirem numa micro-coda translúcida. “Au Nòst’ Casalòt” intensifica ainda mais a experiência com percussão como um metrónomo de metal corroído. “Jana D’Aimet”, última faixa e clímax absoluto do disco, é uma composição monstruosamente exigente em que passagens solenes irrompem em explosões vocais extáticas. Dufau e Fraysse gargalham, murmuram e uivam como se evocassem algo antigo e perigoso sob a superfície ardente da música. Produzido em conjunto com o visionário catalão Raül Refree, as Cocanha haviam imediatamente antes publicado o álbum 4132314 em colaboração com os catalães Los Sara Fontan e Tarta Relena, no qual prestam homenagem às trabalhadoras da antiga fábrica têxtil de Barcelona, Fabra i Coats: através de padrões numéricos de tecelagem, traduziram os números em estruturas rítmicas e frases melódicas, articulando-as com canções tradicionais de trabalho. A tal actividade muito pouco apreciada no Pays de Cocagne.

25 January 2024


(sequência daqui) Se o álbum gravado com o compositor/produtor catalão Refree era, decididamente, uma obra a quatro mãos, Fado Camões apresenta-se como peça em nome próprio ainda que com um fortíssimo braço direito oferecido por Justin Adams (guitarrista e produtor, personagem da intimidade de Jah Wobble, Tinariwen, Robert Plant, Sinéad O'Connor, Brian Eno e figurões vários da "world music" afro-mediterrânica), a quem se juntaram Pedro Viana (guitarra portuguesa), John Baggott (Massive Attack, Portishead, Robert Plant) e Ianina Khmelik (violino). Aparentando buscar um ponto de equilíbrio entre o abstraccionismo radical de Lina_Raul Refree e uma abordagem mais imediatamente reconhecível do fado - "Não se tratou de olhar para trás mas de trazer aquilo que aprendi e que continua a fazer todo o sentido para mim: os espaços entre a voz e instrumentos, os silencios, a criação de maior lugar para a respiração das palavras, e o trabalho sobre todas aquelas texturas que determinam atitudes diferentes de introspecção. Voltei a beber um bocadinho dessa fonte e de tudo aquilo com que me identifiquei bastante no anterior" -, tudo se centrou, afinal, na delicadíssima tarefa de articular os poemas de Camões com a estrutura dos fados tradicionais. Com o mar Atlântico em frente dos olhos, Lina confessa que "Trazer o Camões para o fado não é propriamente uma coisa fácil. Tive uma enorme ajuda da Amélia Muge que participou no trabalho sobre os textos deste projecto e acreditou que eu seria capaz de levá-lo a bom porto. Foi uma longa jornada até ter conseguido identificar quais os poemas do Camões sobre os quais iria trabalhar musicalmente durante duas semanas em estúdio". (segue para aqui)

22 January 2024

A TERCEIRA VIDA DO FADO 

No que às origens do fado diz respeito, não é demasiado arriscado dizer-se que "no princípio era o verbo": “O fado, nos seus primórdios, representou o último estádio do romanceiro tradicional (...) o qual ao longo dos séculos, foi perdendo o carácter épico inicial e foi-se progressivamente novelizando até versar quase exclusivamente assuntos de carácter amoroso ou trágico-sentimental. (...) Esse fado popular, esse fado das ruas, de faca e alguidar, dos ceguinhos, não é outro senão o substracto novelesco do romanceiro tradicional, e o subsequente manancial das canções narrativas, afinal, o primitivo, o primacial, o originário fado, a fonte, a génese, o tronco primevo do nosso fado”, defende José Alberto Sardinha em A Origem do Fado (2010). Mas - só para citar outro exemplo -, já na 7ª edição (1878) do Dicionário de Morais, se escrevia: "Fado, poema do vulgo, de caracter narrativo, em que se narra uma história real ou imaginária de desenlace triste, ou se descrevem os males, a vida de uma certa classe, como no 'fado do marujo', da 'freira', etc. Música popular, com um ritmo e movimento particular, que se toca ordinariamente na guitarra e que tem por letra os poemas chamados 'fados'". E, agora que - quatro anos depois de, em Lina_Raul Refree, ter praticamente desmaterializado o reportório clássico de Amália - abraça a lírica de Camões, Lina, interogando-nos, segue por caminho próximo: "Quando damos espaço às palavras, elas acabam por fazer mais sentido. Se cantarmos um fado a cappela, isso não é fado? O 'Povo que Lavas no Rio', cantado a cappela, sem instrumentos, alguem poderá dizer que não é fado? Só voz e palavra não é fado? O fado vive da palavra e para eu passar a mensagem que pretendo, preciso de entender essa palavra". (daqui; segue para aqui)

"Desamor"

14 February 2021

(sequência daqui) Para o produzir, escolheram o catalão Raül Refree, o mesmo que, temperado nas colaborações com Lee Ranaldo (Sonic Youth), Josh Rouse, Sílvia Pérez Cruz e Rosalia, no ano passado, ao lado de Lina, reimaginou o fado como nunca antes o ouvíramos. Aqui, sem cerimónias, vira do avesso estes “cants polifonics a dançar” (“rondèus” gascões, “sauts” e “branles” do Béarn, “borrèias” de Rouergue, “escòtishas”, mazurkas, e valsas), como quem, em idioma occitano – exuberantemente reescrito, retalhado, inventado –, fantasia um micro-mistério das vozes búlgaras, vergastadas por "tambourins à cordes" e percussões corporais, em intrincada roda livre. Uma espécie de detalhado minimalismo vocal-instrumental avassalador, banda sonora para o que, de agora em diante, ficará obrigatoriamente conhecido como o País das Cocanha. (segue para aqui)

19 November 2019

GRAVIDADE ZERO 


Lina (aliás, Lina Rodrigues, ex-Carolina), nasceu em Hamburgo mas veio muito cedo para Bragança, de onde, aos 15 anos, seguiu para o Porto com a intenção de estudar canto no conservatório local. Porém, apesar de ter arriscado alguns passos precoces no domínio da ópera, quando a professora lhe repetia que “Os sopranos não cantam de olhos fechados”, compreendeu que aquele nunca viria a ser o lugar onde iria sentir-se feliz. Foi em Lisboa, nas casas de fado, que, com Amália como estrela polar, descobriu, enfim, o rumo certo. Raül Refree (aliás, Raül Fernandez Miró), músico, compositor e produtor catalão oriundo da cena musical alternativa de Barcelona, enquanto jovem aluno de piano, deu-se igualmente mal com os professores que lhe calharam uma vez que não conseguia adaptar-se à rígida disciplina militar das escalas e arpejos de que a pedagogia clássica não abdica. “No género popular, também se abusou da técnica e do virtuosismo. É como se lançássemos pazadas de terra sobre uma canção e a tapássemos. A minha mão movimenta-se sozinha. Toco como me sai”, diz ele, agora que, vinte e poucos anos depois de ter entrado pela primeira vez num estúdio com os Corn Flakes para gravar Ménage, conta já uma dezena de álbuns a solo, outras tantas bandas sonoras para cinema e televisão, um ilustre CV na qualidade de produtor de gente ilustre – Lee Ranaldo (Sonic Youth), Josh Rouse, Sílvia Pérez Cruz, Rosalia – e uma mão bem cheia de colaborações e prémios. 


Não era inevitável mas existiam afinidades suficientes para que, movidas as pedras necessárias, Lina e Raül viessem a cruzar-se. Seria, no entanto, bastante difícil adivinhar que, do encontro, pudesse surgir algo de tão luminoso e imponderável como Lina_Raul Refree, uma radical transfiguração do reportório de Amália Rodrigues que dir-se-ia saída das mãos de Brian Eno ou Hector Zazou: sem a sombra de uma guitarra à vista mas rodeados de sintetizadores “vintage”, Moogs, Arps, Oberheims, Rolands e piano, Refree e Lina descarnam até ao osso onze fados clássicos, numa espécie de a cappella envolta em neblina na qual, pela voz em estado de graça, vão passando a coreografia aérea de "Gaivota" em gravidade zero e debruada a teclados minimais, os ameaçadores atonalismos heréticos de "Maldição", o tempestuoso rasgão hiper-oxigenado de "Quando Eu Era Pequenina", a paralizante assombração de "Medo" ou a moldura transparente de "Sta Luzia", transportando Amália a paragens onde ela nunca sonharia chegar. (22 de Novembro – São Luíz Teatro Municipal, Lisboa; 23 de Novembro – Centro Cultural e Congressos das Caldas Da Rainha; 24 dde Bovembro Convento de S. Francisco, Coimbra; 27 de Novembro – Theatro Circo, Braga)