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23 October 2023

(Franks Wild Years, na íntegra aqui)

(sequência daqui) Ao longo de Rain Dogs (1985), Franks Wild Years (1987) Bone Machine (1992) e The Black Rider (1993), Waits montaria, peça a peça, uma improvável escultura sonora feita dos escombros de Kurt Weill, Harry Partch, Captain Beefheart, aromas de New Orleans, folk irlandesa, blues, tango e rascunhos de Tin Pan Alley, em busca do essencial: "É verdade que a minha música se tem tornado cada vez mais despojada. Até se reduzir quase só a uma frase. Sinto necessidade de qualquer coisa rudimentar, fundamental. Actualmente, prefiro escrever sem nenhum instrumento, só com a minha voz. E estalando os dedos. Isso liberta-me da tirania do teclado ou da escala da guitarra. Repare na pop: actualmente, parece o Exército de Salvação, uma troca de trapos velhos. O que faz falta são canções. O que é superficial desaparecerá. No hip-hop, uma bateria e um órgão podem chegar. São simétricos, satisfatórios. E quais são as raízes do hip-hop? Os blues". (segue para aqui)


22 June 2016

AFINAL, NÃO É ESTRANHO

  
Primeiro, escuta-se uma "bent note" tocada no "gopichand" – um instrumento asiático de uma só corda – que, sem que nos apercebamos, se transforma em uivo de lobo. Após dez segundos de uma intrincada teia de universos rítmicos sobrepostos (que persistirá e se adensará até ao final), a voz canta: “Milwaukee man led a fairly decent life, made a fairly decent living, had a fairly decent wife, she killed him… ahhh, sushi knife, now they’re shopping for a fairly decent afterlife... the werewolf is coming”. E, alçada nessa metáfora do lobisomem, enquanto sopros, percussões e electrónica se preparam para ceder o lugar aos acordes de um orgão de "horror movie", mostra-nos o fim do mundo: “Life is a lottery, a lot of people lose, and the winners, the grinners, with money-colored eyes, eat all the nuggets, then they order extra fries (...) You’d better stock up on water, canned-goods off the shelves, and loot some for the old folks, can’t loot for themselves”. Acabámos de escutar o tipo que, há quase meio século, escreveu “Can you imagine us, years from today, sharing a park bench quietly? How terribly strange to be seventy”


Afinal, não tem nada de estranho e, à beira dos 75 anos, Paul Simon (ele, perante quem Andrew Bird, Vampire Weekend, Dirty Projectors e Merrill Garbus/tUnE-yArDs ajoelham), muito longe de enganar as horas em bancos de jardim, ocupou-se a criar um dos mais ricos e audaciosos álbuns da sua discografia. A companhia (Nico Muhly, yMusic, Jack DeJohnette, Vincent Nguini, Cristiano Crisci/Clap! Clap!) foi inspiradora e as fontes de alimentação (Harry Partch, Laurie Anderson, a história e a política americanas) suficientemente estimulantes para que Stranger To Stranger se deixasse construir enquanto assombroso objecto multifacetado que tanto devora um "sample" do Golden Gate Quartet e compõe em torno dele como autoriza que uma balada sofisticadamente simoniana seja amavelmente trespassada pelos "cloud chamber bowls", "chromelodeons" e "zoomoozophones" de Partch. Apontado à terra (“The riots started slowly with the homeless and the lowly, then they spread into the heartland”) ou ao imaginário Além (“God goes fishing, and we are the fishes, he baits his lines with prayers and wishes”) mas com destinatários bem identificados: “I make my verse for the universe and my rhyme for the universities”.

24 December 2012

OITO (+ QUATRO) ACHAS PARA A FOGUEIRA (III)



Tom Waits - Swordfishtrombones

Em Tom Waits, existe, indiscutivelmente, um a.S. (antes de Swordfishtrombones) e um d.S. (depois de Swordfishtrombones). Se, na primeira fase, ele representava o papel de jovem herdeiro do legado "beatnik", eterno habitante das "small hours", com um copo de "bourbon" sempre pronto para dar de beber a um piano alcoólico, na segunda, à boleia dos blues, de Captain Beefheart, Harry Partch e Kurt Weill, partiu em demanda da América “surrural” e descobriu-a reflectida num espelho deformante (“Agora, o meu ponto mais forte é pegar numa coisa, combiná-la com outra com que não tenha nada a ver e conseguir que isso faça sentido. Digamos que procuro formas diversas de usar um guarda-chuva. A maior parte dos instrumentos são quadrados mas a música é sempre redonda e a verdade é que não gosto de linhas rectas”). Escancarando a nova era, estava o magnífico Swordfishtrombones.

24 July 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (VII)



"A música pop é como uma grande festa, dá muito mais gozo entrar à sucapa do que ser convidado. Uma vez por outra, um tipo com a fralda da camisa de fora, baton e chapéu de côco lá tem a sua oportunidade de falar. Sempre tive medo de ter de ficar a dar palmadinhas nas costas do mundo durante vinte anos e, quando ele finalmente se virasse para trás, eu já me tivesse esquecido do que queria dizer. Sempre tive medo de gravar qualquer coisa que detestasse e que ela se tornasse um grande sucesso. Sou um bocado neurótico com essas coisas.

(...)

"Harry Partch foi um inovador. Construía os seus próprios instrumentos e aproveitou a experiência de vagabundo americano para conceber instrumentos a partir de ideias que foi reunindo durante as suas viagens através dos EUA, nos anos trinta e quarenta. Usava um orgão de fole e garrafas de água industriais, criou umas marimbas enormes. Morreu no início dos anos setenta mas o Harry Partch Ensemble ainda se apresenta em festivais. É um pouco arrogante dizer que existe uma relação entre o trabalho dele e o meu. Trabalho de uma forma muito básica mas uso coisas que ouvimos à nossa volta a toda a hora, instrumentos construídos e 'encontrados' — coisas que não são habitualmente vistas como instrumentos: uma cadeira arrastada pelo chão, umas boas pancadas num cofre, sinos, megafones, instrumentos defeituosos. É mais interessante. A verdade é que eu não gosto de linhas rectas. O problema é que a maior parte dos instrumentos são quadrados e a música é sempre redonda.

(...)

"Para mim, as coisas estão a ficar um bocado mais étnicas e psicadélicas. Presto mais atenção aquela parte da música que vem da minha memória. Por exemplo, escutar Los Tres Aces no Continental Club com o meu pai, quando ainda era miúdo.

(...)



"Parece-me que, quando os filhos escolhem uma carreira diferente de uma vida no mundo do crime, os pais encorajam-nos sempre. Quando era puto, a música andava sempre por ali mas não havia muito 'encorajamento' — o que me permitiu descobrir o meu próprio nicho. Quando somos jovens, temos também uma grande insegurança. Quando comecei, não sabia muito bem o que estava a fazer.

(...)

"É preciso reconhecer que tudo aquilo a que chamamos 'dias santos' eram originalmente celebrações rituais pagãs. Não quero pôr-me a divagar mas o cristianismo é exactamente como a cerveja Budweiser: chegaram, observaram o que os indígenas faziam e disseram, 'Nós autorizamo-vos a fazer os vossos batuques todos os anos naqueles dias especiais. Mas agora ficam a trabalhar para a Bud. Não vai mudar nada. A letra das canções pode ser que seja um bocadinho diferente mas vocês vão habituar-se. Têm é de passar a vestir calças e casaco, não podem continuar a andar de tanga. Vão ver que é mais confortável'.

(...)

"Continuo a ter pesadelos em que a multidão avança na minha direcção, as teclas saltam para fora do piano, a cortina se rasga e fico sem um sapato quando estou a fugir para os bastidores, com o povo a insultar-me. Já toquei em feiras de pecuária, rodeos, recintos desportivos e arenas de hóquei sobre o gelo. Estas não são más em Agosto mas são fodidas em Fevereiro. Também nunca se deve levar a carteira para o palco. Não se pode tocar piano com dinheiro no bolso. Há que tocar como se se precisasse do dinheiro.

(...)

"Havia pessoas que me costumavam pagar duzentos dólares para estrear os sapatos delas. Usava-os durante dois meses, depois devolvia-os, não queriam outra coisa.

1987

(2007)