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03 May 2012

QUEM NÃO ESQUECEMOS


Sétima Legião - Memória

Nos idos de 80, quando o pop/rock luso, pareceu, por momentos, ir dispor de um futuro farto e próspero, para além de um pequeno enxame de frenéticas abelhas – umas desabridamente mercenárias, outras ferozmente "independentes" e "alternativas" – que a História apenas estatisticamente registará, os campos dividiram-se de modo razoavelmente claro: de um lado, a frente aventureira-experimental dos Mler Ife Dada e Pop Dell’Arte; do outro, a pop mais ou menos literário-conceptual dos Heróis do Mar e GNR; no centro, a oficina roqueira dos Xutos & Pontapés; por fim, sozinha no seu universo privado, a Sétima Legião. Sim, é simplificação, mas bastante menos abusiva do que possa parecer. E, agora que se celebram os trinta anos da fundação da banda de assombrosa estreia em álbum com A Um Deus Desconhecido (1984), mais óbvio se torna o espaço absolutamente singular (e fértil) que ela ocupou.



Com o ADN da Factory nos genes mas rapidamente mestiçada pelo contágio com as tradições populares portuguesas, galegas, irlandesas (mais pelo eixo-Pogues do que por outros), tão “nacionalista” e “trágico-marítima” quanto os Heróis mas muito menos caricatural, não só deixou uma imaculada discografia de estúdio em seis volumes (obrigatórios: o primeiro e o último, Sexto Sentido, 1999) como dela, em diversas direcções, e com vário sucesso estético, emergiriam os Madredeus, Gaiteiros de Lisboa e, a solo, Rodrigo Leão. Como todas as colectâneas, esta persegue a síntese impossível mas, no caso da Sétima, particularmente dificultada pela uniformemente superior qualidade da obra. Tudo o que aqui está é muito bom, tudo o que ficou de fora também. E o DVD que regista o concerto no Pavilhão Carlos Lopes, de 29 de Dezembro de 1990 (mais 8 videoclips), é o diamante na coroa. (amanhã, no Coliseu de Lisboa, às 21.30)

17 August 2009

UMA QUESTÃO CADA VEZ MAIS DOCUMENTADA CONTEMPORANEAMENTE
 

Madredeus & A Banda Cósmica - A Nova Aurora

Os mais optimistas de entre nós acreditavam que, no processo de involução dos Madredeus, Metafonia – primeira encarnação da dupla entidade Madredeus & A Banda Cósmica – teria sido o tombo derradeiro no fundíssimo poço da liquefação new-age, o ponto de não-regresso definitivo. É no que dá ser optimista... afinal, o fundo do poço é elástico e consegue descer sempre um pouco mais: A Nova Aurora apresenta como único mérito o facto de ter descoberto o lugar geométrico onde o easy-listening de Holiday Inn se cruza com a metafísica de papelão à la Paulo Coelho e ambos caminham em filinha sorridente para o estatuto de hino de campanha das Laurindas deste mundo. Confessadamente “dedicado a cantar a maravilha da evolução espiritual da Humanidade, à medida que vai descobrindo a dimensão do Universo físico em que se encontra o Sistema Solar”, aspira à condição de “cantata popular” acerca do “Homem na sua escala de ser vivo e consciente, recentíssimo episódio da história do planeta e da sua origem, uma questão cada vez mais documentada contemporaneamente”. Derrama-se, então, sobre os ouvidos incautos, uma ânfora inteira de xarope melódico em ponto de pérola (temperado com “plins” mais ou menos “espaciais”, mais ou menos “étnicos”), por onde sobrenadam nacos de profético enlevo (“Sós, não estamos sós, há-de haver outros além de nós, eles hão-de vir e tudo há-de ser normal, quer-me parecer que se vierem tudo há-de ser normal”), perplexidades de Twilight Zone (“olho-me ao espelho e vejo, não é o presente momento, mas outro momento qualquer, estou noutra dimensão”), existencialismos galácticos (“As naves cruzam o espaço frio, os homens lutam contra o vazio”), proclamações de misticismo visionário (“Da noite profunda nasceu uma nova aurora e a esperança de novo alvorecer”), elucubrações de astronomia esotérica (“O planeta gira sozinho, volta não volta, anda tudo a girar, o cometa roda num círculo, volta não volta, acabamos de acordar”) e, acima de todos, o manifesto em "spoken word" sobre eco de vozes-do-Além, "A Trajectória do Afastamento", sobre o Big-Bang, as partículas cósmicas, os colegas, os pais, os filhos, o “Ritual” e os “Laços do Amor”. Nos quatro meses que ainda restam tudo é possível. Mas não é fácil imaginar que algum competidor à altura se consiga intrometer entre Amália Hoje e A Nova Aurora na assanhada disputa pelo título de pior álbum do ano.

(2009)

10 November 2008

PIMBA CHIQUE

 

Madredeus & A Banda Cósmica - Metafonia

Quando Pedro Ayres de Magalhães inventou os Madredeus, os ingredientes conceptuais incluíam uma certa visão diluída de meia dúzia de estereótipos da “portugalidade” que costumam figurar nos folhetos turísticos (a melancolia indígena, a inevitável “saudade”, as sofridas mulheres de negro, o tremendo e épico mar e uma pitada de “folclorismo” urbano/rural sobre o pano de fundo de um “ersatz” do fado), concentravam-se num formato de ensemble acústico e, essencialmente, na voz de Teresa Salgueiro. Dando de barato que, de tal esquematismo concebido a régua e esquadro, dificilmente poderia resultar algo musicalmente muito interessante, é forçoso reconhecer que o que essa fórmula tinha para dar se esgotou nos dois primeiros álbuns, Os Dias da Madredeus (1987) e Existir (1990): cançonetas ligeiras e ingenuamente melodiosas, uma visão de Portugal retirada dos antigos livros da instrução primária e uma banda sonora que não incomodava nem os jantares pequeno-burgueses nem as recepções das embaixadas. O potencial “de mercado” era evidente, tanto entre fronteiras como, bem mais importante, “lá fora”. E o potencial concretizou-se e ampliou-se, mesmo que as publicações seguintes fossem já só uma penosa repetição da receita, esticada até às margens da “new age” menos potável. Com o abandono final de Teresa Salgueiro (restando, da formação original, apenas Pedro Ayres), a opção por uma dupla de cantoras e a inclusão de bateria, guitarra eléctrica, harpa e violino, o “produto Madredeus” afocinhou em plena indigência pimba-chique: a música é massacrantemente rudimentar (o que a longa duração da maioria das faixas ainda evidencia mais), os textos, confrangedores, dir-se-iam escritos por pré-adolescentes fraquinhos a Português (só dois exemplos: “Pedi uma muamba e já vou na segunda, se voltar a Luanda também tomo mais uma” e “Vozes em comoção, terra que não se faz, vozes que não se dão, não atingem a paz, tratam-se mal e sem razão, tornam mortal a situação”) e a Mariana Abrunheiro – uma belíssima intérprete que não merecia que lhe fizessem isto – e Rita Damásio pede-se apenas que mimetizem Teresa Salgueiro. O nadir absoluto.

(2008)

20 June 2007

O NOME E A COISA


Às vezes, o nome nasce primeiro do que a coisa. Há vinte anos, sem estarem muito conscientes disso, cerca de três dezenas de representantes de editoras independentes, promotores de concertos e jornalistas inventavam um novo género musical começando por lhe dar o nome. Até aí, sem grande unanimidade, chamava-se-lhe "folk", "tradicional", "roots". Porém, naquela noite do Verão de 87, no "Empress Of Russia" (um pub do norte de Londres), após viva discussão, chegou-se a acordo acerca da designação "world music". Era uma forma simples e eficaz de caracterizar toda aquela incerta área "não pop/não rock", capaz, ao mesmo tempo, de convencer os responsáveis pelas lojas de discos a aceitar e arrumar de modo uniforme um contingente musical heterogéneo para o qual não existia até aí uma identidade única.

Elvis Presley: musica étnica aka world music
 
Ficava resolvido o problema da nomeação e, simultaneamente, nascia todo um campo de possibilidades para o que, invisivelmente, estava já em gestação: uma música com as raizes disseminadas pelas tradições do planeta mas sempre disposta a todos os cruzamentos transculturais e transcontinentais, apostada em contrariar a maldição de Babel. Pouco tempo depois, porém, o termo "world music" não só passava a incluir todas as experiências de fusão de linguagens planetárias e respectivas expressões locais como, quase de contrabando, por momentos, chegou a abrigar sob o mesmo guarda-chuva a própria "música antiga" (medieval e renascentista) e um sem número de géneros até então dispersos.

Mozart: musica étnica aka world music

Numa tentativa de dissipar o nevoeiro, houve quem, em vez de "world music", preferisse a formulação alternativa de "étnica". O que, esquecendo (inocentemente ou nem tanto) que Mozart, Elvis Presley ou a "paella" são tão étnicos como Ravi Shankar, Miriam Makeba ou o "chop suey", acaba por ser uma eficaz manobra de exclusão e virtual desclassificação de toda a produção exterior à etnia que decide sobre o que é ou não "étnico". Situação exemplarmente ilustrada por uma extraordinária informação extramusical surgida por altura do Campeonato do Mundo de Futebol de 1994, nos EUA: aí, o futebol é considerado um desporto "étnico". Isto porque, apesar de praticado por europeus, sul-americanos, africanos, árabes e asiáticos, é tudo menos norte-americano. Logo, "étnico". Portanto, mal amado.


Chirgilchin: musica étnica aka world music

Nada disto ultrapassaria a condição de mera discussão académica se não tivesse como consequência despejar para um ghetto "world/étnico" toda e qualquer expressão musical que não caiba na produção anglo-americana corrente. Para que conste, na FNAC de Paris ou na Virgin Megastore de Londres, Pedro Abrunhosa, Madredeus, Amália ou a cantora de jazz Maria João serão sempre irremediavelmente arrumados no expositor da música..."étnica". William Burroughs gostava de dizer que "language is a virus from outer space" e nunca lhe prestaremos demasiada atenção. (2007)