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23 March 2026

Boston Camerata (dir. Joel Cohen) - "Fauvel Cogita"
(de Le Roman de Fauvel, na íntegra aqui

(sequência daqui) O incerto autor terá sido Gervais du Bus, notário da chancelaria real de França mas, poucos anos depois, Chaillou de Pestain, expandiu o texto original com seis poemas políticos de Geoffrey de Paris e outras interpolações. O Romance de Fauvel, monumental Singspiel, tornar-se-ia assim uma importante fonte de música medieval e um dos primeiros exemplos da "Ars Nova", bem como um exemplo pioneiro de arte políticamente interventiva. Desconhece-se quem acerca dele pudesse ter ousado afirmar "Temos de ficar fora da política porque, se fizermos obras que sejam declaradamente políticas, entraremos no campo da política. Nós somos o oposto da política”, como, assaz inexplicavelmente, 700 anos depois, diria Wim Wenders enquanto presidente do júri do Festival de cinema de Berlim. (segue)

29 June 2023

ASSIMETRIA, MAGIA
Jim Jarmusch. Cineasta, realizador de Stranger Than Paradise (1984), Down by Law (1986), Mystery Train (1989), Night On Earth (1991), Ghost Dog (1999), Coffee and Cigarettes (2003), Paterson (2016), The Dead Don't Die (2019) e umas quantas outras preciosas singularidades do cinema independente norte-americano. Associar-lhe a condição de músico é que já não estará na ponta da língua da maioria. E, contudo, como há semanas confessaria ao "Guardian", "A música esteve sempre presente. Desde a adolescência, a música foi sempre algo que deu forma à minha vida e às decisões que fui tendo de tomar". E, a propósito, recordaria um dia em que Tom Waits se sentou ao piano para lhe fazer ouvir uma canção que acabara de compor: "Cantou-a, ela elevou-se no ar e pelo éter e... desapareceu. Só pensava 'Ando eu a trabalhar num filme e vão ser precisos dois anos até conseguir começar a exprimir o que procuro dizer...'" Na verdade, no final dos anos 70/início de 80 do século passado, faria parte da cena "no wave" novaiorquina e integraria os Del-Byzanteens que, em 1982, publicariam um único álbum, o nada menor Lies To Live By. (daqui; segue para aqui)

"Berlin '87"

17 June 2022

STREET ART, GRAFFITI & ETC (CCCV)

Brejnev e Erich Honecker (Dmitri Vrubel, Berlim, 1991)
 
 

Zelensky e Putin (Andrea Villa, Turim, 2022 - via DT)

17 November 2021


(sequência daqui) O método anterior de criação a partir de "samples" de documentários do British Film Institute e materiais educacionais e de propaganda que tinham sido a coluna vertebral de Inform-Educate-Entertain (2013), The Race For Space (2015) e do óptimo Every Valley (2017) foi, agora, substituído por jornadas de captura de sonoridades de rua, destinadas a serem articuladas em modo Bowie/Eno/Krautrock com as contribuições de Blixa Bargeld, Andreya Casablanca e da norueguesa EERA, no lendário Hansa Tonstudio. Todos os anjos e demónios que habitam a Meistersaal desceram sobre Bright Magic.

14 November 2021

OUTRO FILME PARA OS OUVIDOS


A "city symphony", um género cinematográfico experimental surgido nos anos 20 do século passado, pretendia, através do ritmo de uma montagem fragmentada e caleidoscópica, mostrar a vibração das grandes cidades, não como cenário ou pano de fundo mas enquanto personagem principal. Documentários poéticos de uma quase abstracção animada pela câmara, Man With A Movie Camera (1929), de Dziga Vertov, Manhatta (1921), de Paul Strand e Charles Sheeler, Douro, Faina Fluvial (1931), de Manoel de Oliveira, ou Berlin: Die Sinfonie der Großstadt (1927), de Walter Ruttmann, eram registos vertiginosos de “a day in the life” convertidos em música visual. Ruttmann, figura importante da vanguarda artística alemã da época, seria também o autor de Wochenende (1930), colagem de sons recolhidos pelas ruas de Berlim que anteciparia a “musique concrète” e que ele descreveria como “uma sinfonia de sons, fragmentos de fala e silêncio tecidos num poema”, algo como um “filme para os ouvidos”, isto é, o oposto das "city symphonies". Quase um século depois, foi no rasto de Ruttmann – e de David Bowie, Marlene Dietrich, e Anita Berber, actriz, bailarina, “Deusa da Noite” e “Princesa do Deboche” da República de Weimar (e do seu ácido cronista Kurt Tucholsky) – que J Wilgoose, Esq., motor criativo dos Public Service Broadcasting, se mudou para Berlim durante nove meses. (daqui; segue para aqui)
 
"Der Rhythmus der Maschinen" [ft. Blixa Bargeld]

28 October 2021

 
"I Dreamed I Was Awake for a Very Long Time"
 
(sequência daqui) Nascido de uma expedição de "field recording" “em busca de fantasmas”, armadas de um gravador Tascam, “coleccionámos gravações, retirámo-las do contexto e construimos mundos em torno delas; pode dizer-se que o álbum é uma exploração miniatural do som na sua relação com a memória”. Lado a lado e meticulosamente cerzidos, um piano decrépito, uma mesa operatória, uma casa em ruinas, uma única nota de trompete, um "bunker" abandonado em Berlim. Antes, tinham imaginado uma banda sonora para Buster Keaton, trabalhado com os Public Service Broadcasting e inventado contrapontos para música e focos de luz. Agora, fazem pensar numa Virginia Astley dedicada à poética da arqueologia urbana.

23 March 2021

 
(sequência daqui) Deve dizer-se, realmente, “faixa” e não “canção”. Porque, à excepção do tema-título – e prolongando os cenários cripto-"new age" de Ghosteen, desta vez, frequentemente virados do avesso para um lado de pavor sobrenatural quase "giallo" –., não existem aqui canções mas apenas desnorteados labirintos de "ostinati" massacrantes, pelo meio de uivos estrangulados de guitarra, pesados cortinados de orgãos catedralícios e crescendos corais, entre um gospel passado a ferro e a festa de catequese, à deriva sobre farrapos de melodias entrevadas e arpejos de teclas rudimentares. Tudo isto generosamente recheado de abundantes “A time is coming, a time is nigh, for the kingdom in the sky”, “The hand of God coming from the sky”, e “Lavender fields that reach high beyond the sky”, abrasados por um previsível “biblical sun” e, aqui e ali, um surrealismozinho de algibeira (“I am a Boticelli Venus with a penis”), paredes meias com rimas embaraçosas (“Sometimes I see a pale bird, wheeling in the sky, but that is just a feeling, a feeling when you die”) e lirismos comprometedores (“The moon is a girl with tears in her eyes”). Não será, decerto, a primeira nem a última vítima do lema “first thought, best thought”, mas é muito provável que, na comunidade dos seus vizinhos de Brighton & Hove – segunda cidade mais ateia (42.4% ), do Reino Unido, logo, logo a seguir a Norwich (42.5%), vice-campeâ europeia da modalidade, embora a considerável distância de Berlim (60%) –, não venha a ser o disco mais popular do ano.

21 February 2021

Se, do passado, pode retirar-se alguma previsão do futuro, este projecto de superstição partilhada está destinado a um enorme sucesso
 

21 January 2020

DILETANTES GENIAIS

  
Faltava ainda quase uma década para que a Alemanha deixasse de estar dividida em Leste e Oeste mas, no início dos anos 80, com polos em Dusseldorf, Hamburgo, Colónia, Hagen e, naturalmente, Berlim, um desassossego subcultural agitava músicos, artistas, gente do cinema, da fotografia, da moda e do design, oxigenada pelas correntes de ar fresco que sopravam do pós-punk novaiorquino e britânico. Foi por essa altura – pouco depois de David Bowie ter gravado a “trilogia de Berlim” e em simultâneo com a chegada à cidade do Spree de Nick Cave e dos Birthday Party – que travámos conhecimento com Einstürzende Neubauten, Die Tödliche Doris, Sprung Aus Den Wolken, Der Plan, Freiwillige Selbstkontrolle (F.S.K.), Palais Schaumburg, Ornament & Verbrechen, e Deutsch Amerikanische Freundschaft (D.A.F.), praticantes de abalos sonoros que tanto se alimentavam do futurismo, dadaismo e situacionismo como dos Cabaret Voltaire, Throbbing Gristle, Glenn Branca e William Burroughs. 



O seu momento histórico ocorreria a 4 de Setembro de 1981, quando, no Tempodrom de Berlim Ocidental, teve lugar o festival “Geniale Dilletanten” (Diletantes Geniais), ponto de encontro de radicais livres, agitadores e provocadores vários e futura designação geracional do informal movimento. No interior dele, Gudrun Gut, Bettina Koster, Beate Bartel, Christine Hahn, Manon P. Duursma e Susanne Kuhnke, aliás, Malaria!, oriundas de incubadoras artísticas diversas mas absolutamente enxutas de qualquer sarro académico, foram um colectivo feminino de relativamente curta duração em cujo acelerador de partículas colidiam desgovernadamente o punk, techno, jazz, Kurt Weill, batida motorik, Bowie, disco e Nico. Compiled 2.0/Full Emotion – reeditado em vinil duplo – é uma preciosidade a (re)descobrir.

11 October 2019

Peter Handke - "Song of Childhood" 
 (As Asas do Desejo - real. Wim Wenders, 1987)