11 April 2021
24 March 2021
01 December 2020
DE BEM VIVA VOZ
Após 38 anos sem gravar um disco, a primeiríssima dama da folk britânica, Shirley Collins, regressou, inesperadamente, em 2016, com o belíssimo Lodestar. A disfonia que a afectara aparentemente vencida, reincide, agora, com Heart’s Ease, outra pérola do reportório folk que, aos 85 anos nos oferece, não demasiadamente desconfortável com o confinamento (“Desde há muito que vivo sozinha, já estou habituada”) mas tremendamente furiosa com o rumo que o Reino Unido tomou: “Boris Johnson, que homem horrível! Como é que a Inglaterra pode ter chegado a este ponto! Eu sou europeia!...”
Em Electric Eden, Rob Young cita-a: “Sempre soube que esta música tinha nascido em mim. Sabia como cantá-la e nunca me iria afastar daí”. Foi, de facto, assim?
Durante a 2º guerra mundial, era eu ainda criança, vivíamos em Hastings, na costa Sul de Inglaterra. Havia, frequentemente, raides aéreos e tínhamos de correr a refugiar-nos em abrigos onde os meus avós cantavam para mim e para a minha irmã, Dolly. Só mais tarde percebi que o que nos cantavam eram canções folk, música tradicional. Canções que eles, naturalmente, cantavam e que faziam parte da vida diária. Creio que começou tudo aí: adorava os meus avós, sentia-me segura junto deles, muito cedo essas músicas entraram em mim e nunca mais sairam.
No início do folk revival, havia aquela atitude militante de recolha e preservação da “música do povo”, levada extremamente a sério por gente como Alan Lomax (com quem viajou aos EUA numa expedição de recolha) ou Ewan MacColl... Como lidava com isso?
Até certo ponto, compreendo-a uma vez que se trata de algo importante que deve ser preservado. Mas é uma forma um bocado agressiva de lidar com a música. Prefiro que as pessoas se sintam livres para fazer o que gostam sem necessitarem de regras estabelecidas por outros. O Ewan MacColl foi o pior de todos nessa atitude de ditar aquilo que podia e não podia ser cantado.* Não gostava nada dele, por isso também não liguei muito ao que dizia. Pareceu-me sempre um bocado falso, não era genuíno. Já o Alan Lomax era diferente, tinha consciência da importância de salvar do esquecimento a música tradicional de todos os países e do orgulho que as pessoas deveriam sentir na sua herança musical.
Mas essas tradições musicais estavam, realmente, moribundas e necessitavam de ser preservadas?
Era necessário mantê-las vivas porque estavam a ser exterminadas pela grande máquina da indústria musical que nos atira a mesma música para cima, seja qual for o lugar do mundo onde nos encontremos. Claro que também produz música óptima mas, no seu caminho, esmaga tudo, nada resta das músicas originais que fazem parte da História e das tradições dos povos. É terrível mas não tenciono deixar de lutar.
Na viagem aos EUA, com Alan Lomax, sentiu-se um pouco como um Colombo “ao contrário”, indo descobrir na América aquilo que já conhecia em Inglaterra?
(risos) Sim, sobretudo nas montanhas Apalaches e Ozark, no Kentucky e no Arkansas, onde encontrámos canções originalmente inglesas, irlandesas e escocesas. Era fascinante escutar, em versão americana, canções que eu conhecia das colecções do Cecil Sharp. Evidentemente, ao longo dos anos tinham-se transformado gradualmente. E pude cantar algumas das versões que conhecia que as pessoas de lá receberam com a alegria de constatarem que, como diziam, “back in the old country”, ainda eram conhecidas.
Aos seus olhos, Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, foram bem-vindos?
Foi fantástico, de um modo geral, foi muito bom. A música era muito bem tocada, eram todos músicos que conheciam bem aquilo com que estavam a lidar, não era uma moda de que, mais tarde, se iriam arrepender. Acreditavam no que estavam a fazer. Era claro que, por exemplo, os álbuns de "morris dances", nunca iriam ser populares. Mas era uma questão de manter viva aquela música, de uma forma fresca e que não a rebaixava nem insultava.
Como foi a experiência de, com a sua irmã Dolly, colaborar com David Munrow e o Early Music Consort em Anthems In Eden (1969) e Love, Death And The Lady (1970)?
Devem ter sido os momentos mais emocionantes da minha vida musical! Para além de, como já lhe contei, os meus avós nos ensinarem canções tradicionais, o meu tio Fred fazia-nos ouvir muitos discos de Monteverdi. Aprendi, assim, a adorar também a música antiga. Conheci o David Munrow em Londres, com a Dolly. Fomos ter com ele ao Early Music Center porque adorávamos o trabalho dele, cheio de vida e energia. Passado algum tempo, surgiu a possibilidade de gravarmos Anthems In Eden e o David aceitou interpretar os arranjos da Dolly com o Early Music Consort. Ele era imensamente entusiástico, estar ao pé dele era como estar ligado a uma central eléctrica. Não duvidava que esta música deveria ser tocada e interpretada de uma forma rigorosa. Mas era tão gentil, o género de pessoa com quem nos apetece estar sempre... Eu não lia música (e continuo a não ler), o que, ao entrar para estúdio, me deixou um bocado nervosa. A Dolly tinha partituras para todos e, quando ele me disse que a minha entrada era no sexto compasso, tive de lhe confessar que não lia música. Respondeu-me: “Não há problema. Durante muito tempo, eu também não li música e, quando andei pela América Central, fui apanhando tudo de ouvido!” Era um músico extraordinário e foi o grande responsável da redescoberta e do interesse pela música antiga. A verdade é que tenho tido muita sorte com todos os extraordinários músicos com que me fui cruzando.
Também teve sorte por ter conseguido recuperar a voz...
É verdade. O David Tibet, dos Current 93, veio visitar-me durante o período em que eu tinha deixado de cantar e disse-me que adorava os meus álbuns e que gostava que eu cantasse uma ou duas coisas num álbum dele. Ao fim de anos a tentar convencer-me, falou-me de um concerto que iria dar na Union Chapel de Londres e, depois de tanto tempo a dizer não, disse que sim!... E cantei mesmo.
Surpreendeu-se ao descobrir, em Shirley Inspired, que tinha tantos novos fãs como Lee Ranaldo, Meg Baird, Rozi Plain, Bonnie 'Prince' Billy?...
Sim!...Foi uma grande surpresa ver aquela enorme variedade de músicos pegarem nas minhas canções. Não é uma questão de falsa modéstia mas tenho consciência que a música que faço se destina a um pequeno nicho.
Qual a sua opinião sobre gente recente como as Unthanks, Stick In The Wheel?...
Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária! – e o Alasdair Roberts.;
Tanto em Lodestar como em Heart’s Ease, o processo de selecção do reportório foi o que sempre utilizou?
Sim, e não foi difícil encontrar as canções. Poderia gravar mais 20 álbuns se fosse necessário. O essencial é que os arranjos nunca se sobreponham â canção. Os músicos com que tenho trabalhado são perfeitos para mim, comprendem instantaneamente o que cada canção pede. São pessoas inteligentes, divertidas... e lêem livros! (risos) Já agora, tenho de dizer-lhe que a minha filha deu-me a conhecer a obra do José Saramago. Comecei por A Jangada de Pedra e, agora, estou a ler o Manual de Pintura e Caligrafia. É extraordinário!
27 November 2020
15 January 2020
"The spacecraft will be encountered and the record played only if there are advanced space-faring civilizations in interstellar space, but the launching of this 'bottle' into the cosmic 'ocean' says something very hopeful about life on this planet" (Carl Sagan)
09 January 2020
13 September 2018
31 May 2017
29 November 2016
09 July 2015
Retirada desde 1978 quando começou a sofrer de disfonia, isso não impediu que se mantivesse activíssima enquanto "folk scholar" nem que tenha sido, regularmente, “redescoberta” por músicos de gerações posteriores. Shirley Inspired..., álbum triplo, comprova-o mais uma vez: destinado a financiar um documentário sobre Collins – The Ballad Of Shirley Collins –, reúne 45 músicos e bandas dedicados a reinterpretar parte substancial do seu reportório e, como seria inevitável em tamanho baú, nem tudo são pedras preciosas. Mas, na impossibilidade de referir todas, há que puxar devidamente o lustro aos contributos de Lee Ranaldo, Meg Baird, Sally Timms &The Mini Mekons, Rozi Plain e Bonnie Prince Billy, exemplos superiores da arte da desconfiguração, fazer vénia perante os melhores alunos da turma, Trembling Bells, Owl Service, Ulver, Johnny Flynn e Graham Coxon, e recordar as palavras de Shirley ao “Guardian”: “Cantar estas canções é-me tão essencial como caminhar pela paisagem do Sussex onde as pegadas dos nossos antepassados estão por todo o lado. São a história indiscutivelmente bela e poderosa de uma comunidade”.
01 October 2014
28 November 2013
Nada de novo: o p.o.v.o. – da tasca à academia, em todos os continentes –, quer tenha “estado lá” ou tenha só ouvido falar, adora reviver o passado. Garantia, pois, de que a indústria da nostalgia (tal como, talvez apenas, a indústria funerária) possui um inesgotável e risonho futuro. Tão mais brilhante quanto a ruminação a que se entrega, nas múltiplas variantes “pós”, “neo” ou “retro”, se enriqueça de pormenores. Importante é recriar “a época” – invariavelmente designada por “os anos de oiro de...” –, os instrumentos, tiques, maneirismos, ornamentações, adereços, guarda-roupa, futurismos, primitivismos, falhas técnicas, todo um ersatz de “autenticidade” ressuscitada para ouvidos, olhos, salas e contextos nunca exactamente iguais aos dos respectivos pontos de partida. Da respeitabilíssima "early music" dos Munrow, Leonhardt, Savall, Clemencic, Harnoncourt e posterior descendência, às assumidamente miméticas "tribute bands" (incluindo delirantes casos híbridos como o dos Beatallica: canções dos Beatles interpretadas do modo que os Metallica o poderiam fazer), às diversas estirpes retromaníacas do "dad rock" e/ou "record collection rock" e a todos os Tame Impala deste mundo, com maior, menor ou nenhum distanciamento irónico (a reactivação do género “musical”, no cinema, nos exemplos mais valiosos – Dancer In The Dark, Moulin Rouge, Everybody Says I Love You, 8 Femmes, On Connait La Chanson –, nunca se esquivou a exibir, bem visível na lapela, a inocência irremediavelmente perdida e a explicita referência aos ilustres antepassados), a tecla do "rewind" não poderia estar mais gasta.
Mas, por muito que se tenha consciência disso, dificilmente poderíamos estar preparados para, por entre "zappings" e informação avulsa, tomarmos, de súbito, conhecimento da existência da personagem Liliane Marise: qual Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen (uff!... finalmente em Lisboa), salta da ficção televisiva xunga para a “realidade” e, em vertiginosa aceleração hiper-pós-modernissima, de um só golpe e com prazo de validade anunciado, recria o pelintra e pindericamente glorioso "glamour" pimba (oximoro absoluto, escusam de apontar). É verdade que tal zona demarcada, após os precursores Marco Paulo, Quim Barreiros, Dino Meira e José Malhoa e anos de existência "underground" em feiras e arraiais, a seguir à trepidante emergência em "prime-time", a meio dos anos 90 – que nos ofereceu a constelação das Ágatas, Mónicas Sintra, Ruths Marlene, Micaelas, Romanas e outros Iran Costa, ou o propriamente pimba-Emanuel – nunca verdadeiramente se extinguiu. Ofereceu ao universo o seu Sinatra-de-piquenicão, generosamente reconhecido e recompensado pela pátria (procure-se por “Tony Carreira” em http://www.base.gov.pt/ e confirme-se), mas o escol acima enumerado bem como "starlets menores" (já teremos esquecido a pós-feminista Claudisabel de "Preciso de um Herói"?) tiveram de se resignar ao purgatório dos programas de manhã e tarde da televisão, preciosa estação “de serviço público” incluída. Por um breve instante no tempo, Liliane Marise (disco de ouro, 14 semanas no top da AFP) veio alterar isso tudo. O passado remoto é, cada vez mais, ontem à noite.
19 June 2013
27 April 2009
(2009)


















