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23 June 2020

MARCA ELECTRIC PRUNES


Os Electric Prunes nunca foram exactamente uma banda mas, mais propriamente, uma marca. Desde o início, quando o produtor Dave Hassinger entendeu que os, então, Jim And The Lords deveriam chamar-se The Electric Prunes e os convenceu a interpretar canções das "songwriters" Annette Tucker e Nancie Mantz (ainda que, caridosamente, os autorizasse a gravar um ou outro tema próprio), as regras ficaram estabelecidas: Hassinger punha e dispunha e o vai-e-vem contínuo de músicos (mais de duas dezenas) que iam constituindo o “grupo” obedecia. Se os dois primeiros álbuns – The Electric Prunes e Underground, ambos de 1967 – revelaram aquilo que o vocalista James Lowe designava por "free-form garage music" (guitarras carregadas de efeitos, distorção e tempestade "fuzz" em permanência) e proporcionaram os modestos êxitos de "I Had Too Much To Dream (Last Night)" e "Get Me To The World On Time", seria no terceiro que o longo braço do produtor não deixaria margem para qualquer manobra.


"Kol Nidre" (álbum integral aqui

Um ano antes de os britânicos Spooky Tooth, com o compositor francês de "musique concrète" e electrónica, Pierre Henry, conceberem a sua versão da liturgia de uma missa cristã, Ceremony (1969), os californianos Prunes deveriam ocupar-se de Mass In F Minor, obra de David Axelrod, criatura todo-o-terreno, do jazz, ao rock e à soul. Como as sessões de estúdio fossem dificultadas pela pouca destreza da banda a decifrar partituras, Hassinger despediu os pobres moços e substituiu-os por músicos de estúdio vários que gravariam a quase totalidade de um peculiar álbum de psicadelismo mock-gregoriano cuja coroa de glória seria ver "Kyrie Eleison" seleccionada para a banda sonora de Easy Rider (1969), de Dennis Hopper. O que restava dos Prunes extinguiu-se mas Hassinger & Axelrod voltariam a usar o nome da banda em Release Of An Oath (1968) – agora reeditado –, novo "opus" religioso, desta vez, de inspiração judaica, que, em modo rock-orquestral-sinfónico, é francamente mais valioso do que todos os Days Of Future Passed e pretensiosos mamarrachos afins.

15 June 2020

VINTAGE (DXXIII)

The Electric Prunes - Mass In F Minor

(álbum integral)

Promo

"Kyrie eleison" (BSO de Easy Rider, real. Dennis Hopper, 1969)

01 January 2019

UM MUNDO EM FUGA


Beneficiando do poderoso impulso do annus mirabilis anterior, em 1968 o pop/rock continuou a ampliar limites e a fazer explodir fronteiras: White Light/White Heat (Velvet Underground), The United States of America (da banda homónima, de Joseph Byrd), A Saucerful Of Secrets (Pink Floyd), Anthem of The Sun (Grateful Dead), Odessey And Oracle (The Zombies), Mass In F Minor (The Electric Prunes), Electric Ladyland (Jimi Hendrix) e o sublime Astral Weeks (Van Morrison), foram todos publicados durante esses 12 meses em que a música manteve o ímpeto adquirido de voar sempre mais alto e mais longe. Justamente o momento escolhido por Ray Davies e os Kinks para se entregarem à confecção de um ciclo de canções dedicado à celebração nostálgica de uma Olde England paroquial, proletária e acossada pelo mundo moderno, The Kinks Are The Village Green Preservation Society. “Não vi o futuro mas suspeitava do que iria acontecer. Era acerca do tempo que fugia para a nossa sociedade e para um modo de vida que estava a chegar ao fim. Nesse momento da nossa triunfante entrada na Europa, apercebi-me de que algo iria acabar”, diz, hoje, Ray Davies à “Record Collector”, a propósito de "Time Song", uma canção concebida para Village Green – e agora incluída na reedição em "deluxe" e "super deluxe box" – mas que só seria estreada em Janeiro de 73, num concerto no Theatre Royal de Drury Lane, festejando a entrada do Reino Unido no Mercado Comum.  



Village Green era sobre uma Grã Bretanha que recusava despir-se do velho colonialismo. Foram necessárias mais algumas décadas para que se desmoronasse. Até chegarmos ao ponto em que estamos, uma altura muito apropriada para republicar o álbum”. Na verdade, nada melhor do que o desorientado UK do Brexit para reavaliar estes instantâneos de um mundo em extinção que Davies – qual Tati britânico – vinha registando desde "Autumn Almanac", "Dead End Street" ou "A Well Respected Man". Lá fora, "the times" poderiam estar "a-changin’" mas, almofadado pelas belíssimas melodias de Ray, o que se descobria era um manifesto em defesa do passado (“God save strawberry jam and all the different varieties (…) We are the Office Block Persecution Affinity, God save little shops, china cups, and virginity, God save tudor houses, antique tables and billiards”), uma colecção de instantâneos desbotados que, na última linha da última faixa ("People Take Pictures Of Each Other”), suplica “How I love things as they used to be, don't show me no more, please”.