Showing posts with label Nouvelles Polyphonies Corses. Show all posts
Showing posts with label Nouvelles Polyphonies Corses. Show all posts

26 April 2026

NÃO SERÁ UM ACASO

No início de 2023, aquando da publicação de Anadolu Ejderi, da turca Gaye Su Akyol, foi oportunidade para parar um pouco e reflectir sobre o imenso e maravilhoso mundo que, ao longo dos anos, fomos capazes de ir descobrindo sempre que nos demos ao trabalho de espreitar para lá dos muros do nosso quintal. Recordámos, então, a afegã Elaha Soroor, a saudita-paquistanesa Arooj Aftab e a israelo-iraniana Liraz, o - pelos piores motivos - recém-descoberto universo ucraniano (Folknery, DakhaBrakha, Torbán, Dakh Daughters, Joryj Kloc) ou o inesgotável baú das inúmeras variantes chinesas contemporâneas. Na verdade, era apenas uma actualização do que já antes, em Setembro de 2021, havia sido recenceado: preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, Les Nouvelles Polyphonies Corses, Cocanha, San Salvador, Lankum, John Francis Flynn, Lisa O'Neill e Stick In The Wheel. Podemos, pois - enquanto as occitanas Cocanha não nos revelam o seu último álbum ("Flame Folclòre") e as estonteantes napolitanas La Niña não nos oferecem uma oportunidade de, ao vivo, nos fazer levitar ao som de Furèsta -, ir abrindo uma vaga para o quarteto integralmente feminino Seera, oriundo de Riade, capital da Arábia Saudita, estado islâmico no qual a condição feminina não é propriamente exemplar. (daqui: segue para aqui)

Seera - "Shams"

12 September 2008

LUGARES DE FICÇÃO



Hector Zazou/Vários - Chansons des Mers Froides
/Songs From The Cold Seas

Em Chansons des Mers Froides, penetramos noutra realidade. Aquela que Hector Zazou (depois das Nouvelles Polyphonies Corses e Sahara Blue) "filmou" para um disco em que as tradições musicais da Sibéria, do Alasca, da Gronelândia, da Islândia, das Ilhas Hébridas, da Suécia, da Finlândia e da ilha japonesa de Hokaido propõem uma visão de outro mundo onde as vozes tradicionais de Lioudmila Khandi, Elisha Kilabuk, Värttinä, Catherine-Ann McPhee, Lena Willemark ou Tokiko Kato se equivalem às de Björk, Siouxsie Sioux, Suzanne Vega e Barbara Gogan ou às contribuições de John Cale, Harold Budd ou do Balanescu Quartet.



Com concepção gráfica de Russell Mills (revejam-no ao lado de Brian Eno ou David Sylvian), num conjunto de doze postais - um para cada tema - incluindo fotografias de Philippe Romeo e textos de Zazou, sejam bem-vindos a um universo glacial, lugar de ficção e ilusão, no qual gelo e neve se transformam numa boa definição do paraíso na terra.

(1995)

11 September 2008

UM PINHEIRO DE NATAL



Quando, em tempos, pediram a Hector Zazou a receita para um álbum como Sahara Blue, ele explicou que "no início, estavam as palavras escolhidas pelo seu ritmo e som. Depois, a música: a princípio, apenas um pano de fundo vagamente colorido. A seguir, as vozes: tubos de côr para desenhar uma linha, um quadrado, um círculo. Vai-se, então, para a tela, modifica-se o fundo, pinta-se, de novo, as formas, recorta-se os quadrados, alarga-se os círculos, quebra-se as linhas, segue-se por outras vias que obrigam a usar outros ritmos e contrastes. Pode ter de se modificar completamente o fundo e começar tudo de novo: colocar a voz de outro modo, trabalhar cada elemento como uma matéria-prima e consolidá-lo através da contribuição dos músicos". Em pessoa, Zazou exprime-se à imagem da sua música: pausadamente, medindo cada palavra, exprimindo mais dúvidas do que certezas. Enquanto levanta um pouco o véu sobre o sucessor de Sahara Blue, o novo Songs From The Cold Seas, há dois anos em preparação.

Numa entrevista, a propósito de Sahara Blue, afirmava que não se tratava de um disco de rock nem de world music. Se gravações como essa ou Les Nouvelles Polyphonies Corses, onde se cruzam músicos e sonoridades de todo o mundo, não são world music, o que é para si a world music?
O problema é saber se a world music é uma mistura ou se é música profundamente ancorada numa cultura e que se serve de outros elementos. Acerca das Nouvelles Polyphonies Corses, estou de acordo, será world music no sentido tradicional do termo. É música com identidade própria a que se acrescenta elementos exteriores. Mas pode haver outra definição: a do cruzamento de elementos de todos os países e, aí, ter-se-à algo que não é culturalmente identificável, com diversos aromas e paladares, mas de que não se pode dizer se é africano, japonês ou francês. Por isso, não existe uma resposta definitiva.

Recordo-me de uma vez ter dito que, se desenhasse um retrato de si próprio, seria uma árvore com as raízes espalhadas pelo mundo. O que me parece uma bela metáfora para um conceito de world music...
Voltei a pensar sobre isso e já posso ser mais preciso. Não estou muito certo de que a música "pura" seja menos interessante nem de que os cruzamentos sejam uma solução de futuro. Discutia isso com um amigo e dizia-lhe que uma floresta é suficientemente bela em si mesma, não ganha nada em ser domesticada. E ele respondeu-me que o que eu fazia não era uma árvore numa floresta mas um pinheiro de Natal (risos). O que é verdade: a árvore está lá, mas cheia de decorações. É uma definição que me assenta ainda melhor.



Quando entrevistei Jean-Pierre Lanfranchi, que trabalhou consigo nas Nouvelles Polyphonies Corses, ele disse-me que esse género de encontros era realmente interessante mas não afectaria em nada a tradição sobre que se exercia...
Sem dúvida. Se as tradições locais forem suficientemente fortes, isso não as abalará. É até possível que essas experiências tenham um lado um pouco "gadget".

De qualquer modo, como procede, habitualmente, nesse terreno: procura contrastes, identidades ou explorar uma linguagem comum?
Procuro uma linguagem comum. Não me interessa criar choques. Tento encontrar espaços harmoniosos onde um pianista japonês como Ryuichi Sakamoto possa entrar sem perturbação e colocar a sua cultura e sensibilidade ao serviço, por exemplo, da voz de Jean-Pierre Lanfranchi nas Nouvelles Polyphonies Corses, num diálogo que não atraiçoa um nem o outro.

Nesse disco ou no próximo Songs From The Cold Seas sobre as músicas do Norte, como actua: investiga profundamente as tradições sobre que vai trabalhar ou reage-lhes apenas instintivamente como um ouvinte exterior?
Em cada caso é diferente. Em Songs From The Cold Seas, nada sabia dessas músicas. Foi a imagem dos mares gelados que me atraiu e me fez desejar saber como seriam as músicas desses países. Durante mais de dois anos desloquei-me aos lugares, procurei discos e cassetes, contactei músicos. A pouco e pouco, construí uma imagem dessas músicas, procurei descobrir pontos de contacto. A segunda etapa foi descobrir os instrumentos que os enquadrassem. No caso da Córsega, tentei saber se aquela fortíssima tradição "a cappela" aguentava um suporte instrumental. Não existe um método global.



Quando foi publicado um dos seus discos com Bony Bikaye, a síntese da sua biografia indicava como influências os Platters, Shadows, as revoltas estudantis francesas, Satie, a ópera e Raymond Roussel. São essas, de facto, as fontes de que se alimenta?
Foram. A partir de certa altura, no entanto, essas influências começaram a dissolver-se e apareceram outras. Agora, quando me envolvo num projecto, é quase como se se tratasse de uma tese universitária. Leio imenso, escuto muita música, mergulho por inteiro nele. As revoltas estudantis influenciaram não apenas a música mas toda a minha vida. Ensinaram-me, por exemplo, que a técnica de um músico não é o mesmo que a criatividade pela qual ele afirma a sua independência perante um sistema musical. O que, se calhar, me leva a adorar agora um disco como o dos Nine Inch Nails que é o género de música que eu nunca faria mas que ousa contrariar asregras.

Em Songs From The Cold Seas, participarão Björk, Siouxsie Sioux, Jane Siberry, Suzanne Vega, Mark Isham, John Cale, Jerry Marotta, Harold Budd e muitos outros. Voltando ao princípio, pode, neste caso, falar-se de world music?
Não pretendi fazer um disco étnico. Assim, tanto é a minha visão dos mares gelados completamente inventada, como tem raízes locais. Se a Jane Siberry e a Björk cantam canções tradicionais canadianas e islandesas, no caso da Suzanne Vega e da Siouxsie é mais uma invenção romântica da minha visão dos mares do Norte. Na realidade, vão ser publicados três discos: um em que predomina essa visão mais cinematográfica em que todos os estilos se combinam um pouco, como aconteceu em Sahara Blue; outro em que eu não intervenho, totalmente "a cappela", somente com cantores (uns intervêm no primeiro, outros não, nomeadamente, as cantoras dos Hedningarna) e um terceiro, extremamente violento, apenas com xâmanes da Sibéria. Vão ser editados em sequência, muito próximo uns dos outros.

(1994)

10 September 2008

CURTO-CIRCUITOS



Hector Zazou/Vários - Sahara Blue

Entre os incontáveis tesouros da Library Of Congress, de Washington, acha-se um pouco conhecido registo do pianista Jelly Roll Morton (gravado em 1938 por Alan Lomax) onde este, muito à sua maneira, conta como "inventou" o jazz. E fá-lo explicando que ele provém de Itália (tocando o "Miserere", de Il Trovatore, em versão "hot"), de França (executando uma quadrilha swingada) e de Espanha (ensaiando uma "Paloma" em registo bluesy), necessitando apenas da visão globalizadora de um génio para eclodir. Isto é, ele mesmo, portador de um cartão de visita onde, ao lado do nome real - Ferdinand Joseph La Menthe -, se apresentava como "criador do jazz, blues e swing". Foi a propósito da audição de uma dessas gravações que, em 1971, o compositor contemporâneo Luciano Berio, num texto ("Commentaire au rock") escrito para a "Musique en Jeu", observou que, tanto o jazz como o rock (e a pop em geral), eram, essencialmente, géneros heterogéneos, nascidos no grande caldeirão da música universal e em permanente curto-circuito entre as noções de "alta" e "baixa" cultura. Por outras palavras, entidades musicais construídas sobre os detritos de outras pré-existentes (e ele enumerava-as: blues, charleston, canção ocidental, soul, sea-shanties, hinos religiosos, música isabelina, indiana, árabe...) que, no próprio processo de agregação e integração das suas componentes, desenvolveram procedimentos e estilos próprios. Era, então, relativamente cedo para que Berio pudesse medir inteiramente o alcance das suas palavras. Mas os vinte anos que se seguiram não vieram senão dar-lhe razão.



A verdade é que, pelo meio das mais diversas "fusões", cruzamentos e interferências sonoras de que a chamada "world music" é o derradeiro exemplo, esse movimento de intersecção de áreas musicais continuou a gerar sucessivos híbridos e formas mutantes para os quais é cada vez menos fácil descobrir designações adequadas. Consequência também, afinal, das próprias trajectórias imprevisíveis dos músicos que os produziram, virtualmente oriundos de todos os quadrantes do espectro musical. Sahara Blue, projecto de Hector Zazou, não poderia ser, acerca disto, mais elucidativo.


Arthur Rimbaud

Concebido em co-produção de La Grande Halle de La Villette com a Crammed Records por ocasião do centésimo aniversário da morte do poeta francês Arthur Rimbaud, comemorado há um ano, constitui quase um manifesto, um discurso de balanço sobre o estado do internacionalismo musical contemporâneo. Um pouco na sequência do notável álbum anterior de Zazou - Les Nouvelles Polyphonies Corses - onde, a pretexto da elaboração sobre a raíz da música tradicional da Córsega, convocava um verdadeiro batalhão de executantes dos quatro cantos do mundo, este, agora, toma como ponto de partida a poesia de Rimbaud e, como lema, as palavras de "L'Impossible", bandeira das almas sem pátria: "Le monde n'a pas d'âge. L'humanité se déplace simplement. Vous êtes en Occident mais libre d'habiter dans votre Orient... et d'y habiter bien. Ne soyez pas un vaincu". E é a prática activa dessa liberdade de, em qualquer local, se poder assumir como cidadão de todos os outros que define as estratégias de escolha dos integrantes deste disco, prova indiscutível de como o espírito da poesia habita os lugares e os corpos que decidiu devorar sem cuidar de fronteiras.



Chamados por Zazou compareceram Gérard Depardieu, John Cale, Cheb Khaled, Bill Laswell, Tim Simenon (Bomb The Bass), Anneli Marian Drecker (Bel Canto), David Sylvian, Ryuichi Sakamoto, Barbara Gogan (dos extintos Passions), Sammy Birnbach e Malka Spiegel (Minimal Compact), Steve Shehan, Keith Leblanc, Yuka Fujii, Nabil Khalidi, Ketema Mekonn, Richard Bohringer e ainda outros tantos. A resultante é a declinação da visão alucinada do filho de Charleville em todos os modos e idiomas, a sua projecção para a atmosfera sonora de um universo onde as palavras ressoam e se reflectem em múltiplos planos e tonalidades e "les sauvages qui dansent sans cesse la fête de la nuit" descobrem, cem anos mais tarde, outros territórios para inundar de luz. Não faz de todo sentido falar de ambientalismos, alusões "étnicas", malabarismos tecnológicos. Sahara Blue é já um novo corpo, um organismo vivo poliglota mas possuidor de uma alma única, uma ópera involuntária, interiormente ancorada na difusa biografia de uma errância de iluminações.

(1992)