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03 June 2020

A ESTÉTICA DA RAPIDINHA


“Então, também está em quarentena?...” são as primeiras palavras que Stephin Merritt me dirige, a 5 400 quilómetros de distância, algures em Nova Iorque. Quilómetros a mais, aparentemente, para a rede telefónica que, após alguns minutos de tentativas frustradas de continuar um diálogo em termos inteligíveis, obrigará a prossegui-lo via e-mail. Ainda de viva voz, explicar-me-á que, para o novo álbum dos Magnetic Fields, Quickies – 28 canções com durações entre 17” e 2’30” – o conceito de “rapidinhas” só surgiu a meio caminho: “Raramente, se é que alguma vez isso aconteceu, decido fazer um álbum sem ter pelo menos algumas canções já escritas. Na verdade, 23 das canções de 69 Love Songs eram suficientemente curtas para poderem ter sido incluídas em Quickies. Creio que já tinha escrito ‘Bathroom Quickie’ e pus-me a imaginar como poderia ser um álbum em que ela encaixasse bem ou pudesse mesmo ser a peça central”


Pergunto-lhe se a atmosfera musical de caixa de música distorcida que atravessa todo o álbum terá algo a ver com aquilo que o "press release" revela – ele terá andado a ouvir muita música barroca francesa para cravo – e, primeiro, dá-me um bom conselho (“Nunca acreditar numa só palavra do que se lê num press release”), para, a seguir, confirmar: “É verdade que, no carro, tenho escutado bastante música para cravo de Rameau e da família Couperin. É perfeita porque não se deixa abafar pelo ruído do motor. Daí ter começado também a apreciar o som de um único instrumento, não usando a força mas a persuasão, e sem precisar de exagerar nos registos graves. Mas, de facto, tenho várias caixas de música e, um dia, ainda hei-de escrever alguma coisa para elas”. E remata com uma máxima digna de Leonard Bernstein: “Suponho que sou o tipo de pessoa que gosta desse tipo de sonoridade e exprimir aquilo de que gostamos em música é o primeiro e único propósito da música”. Todas as miniaturas de Quickies são povoadas por personagens peculiares, excêntricas, bizarras... ficcionais ou inspiradas em figuras e situações reais? “A maioria é imaginária embora "When the Brat Upstairs Got a Drum Kit" siga de muito perto algo que aconteceu com a Claudia Gonson e "I Wish I Were a Prostitute Again" registe e exagere discursos que ouvi a dois amigos meus que foram trabalhadores sexuais. "The Boy In The Corner" sou eu, sem dúvida, até ao ponto em que ele é atingido por um raio. Como figura contrastante, imaginei um amigo particularmente extrovertido que sempre que entra numa sala nunca passa despercebido. E nunca foi atingido por nenhum raio”.

Mas, numa gravação em que os temas recorrentes são “a morte súbita (por vezes, em escala massiva); os alemães; cientistas que fazem coisas estranhas com animais; conspirações; e o verdadeiro amor”, algumas merecem especial atenção: a rapariga de "The Biggest Tits In History”, o cientista louco de "Castle Down a Dirty Road", a criatura fantástica de "I WishI Had Fangs And A Tail", pretextos para divagações com consequências teológicas: “Qualquer pessoa que tenha aprendido a programar um sintetizador deve ter reparado como isso é semelhante a ser um cientista louco: ficar a pé, noite fora, a mexer em botões indecifráveis para fazer algo que os meros mortais nunca entenderiam nem que isso destruísse o mundo à volta!... Os desejos em ‘I Wish I Had Fangs And A Tail’ não são necessariamente cumulativos, o bigode garboso e as garras, por exemplo, podem anular-se. Tal como as qualidades de Deus se contradizem: é impossível ser, simultaneamente, omnisciente e omnipotente. A omnisciência implica conhecer o futuro mas, se o futuro já existe, não pode ser mudado, logo, não é omnipotente”.


O que, à boleia de "I’ve Got a Date With Jesus" e "You’ve Got a Friend in Beelzebub", o autoriza a concluir: “Acho a religião uma coisa completamente idiota, não entendo como pode ser levada tão a sério. A encarnação do mal costumava ser uma serpente mas, agora, tem asas de morcego e cascos fendidos. Pobre tipo! É o que dá desejar ter garras e cauda. Ser omnipotente? Nãããooo!...” Apresente-se, então o alter-ego de Bakunin moderno de Stephin Merritt, tal como é exposto nos dois manifestos radicais "The Day The Politicians Died" (todos! sem excepção!) e o feminista "Kill a Man A Week". São para levar à letra? “O desejo da eliminação dos políticos não é porque pense que devam ser destruidos individualmente por um raio de Zeus, ainda que isso fosse agradável. Mas não deveriam existir enquanto classe. As relações de poder entre pais e filhos são um mal necessário que, apenas décadas depois, pode ser vingado. Todas as outras relações de poder são males desnecessários. ‘Kill A Man A Week’ resolveria, sem dúvida, muitos problemas embora não de um modo tão eficiente como o extermínio dos políticos. Mas não me parece que, actualmente, pudesse existir um Bakunin, as armas nucleares deram cabo dessa possibilidade”.


Problemas de índole laboral e existencial abundam, como os do protagonista de "I Wish I Were A Prostitute Again", sonhando com um El Dorado irremediavelmente perdido (“A verdade é que ele pode sempre arregaçar as mangas e voltar a trabalhar como prostituto. Muito mais tristes são os desejos irrealizáveis daquele pobre diabo que quer pertencer a um 'biker gang' e nunca será suficientemente 'cool' para o fazer”), mas que, no que à trama narrativa respeita, poderiam passar de mão em mão, entre todas as personagens: “Lola, a ornitologista, despe a bata do laboratório e revela ter garras e cauda. Mas está também na comissão de planeamento da aldeia e é atingida por um raio no momento em que se preparava para atacar o ‘rock’n’roll guy’ com as suas mamas gigantes. E pode fazer-se o mesmo com as personagens de qualquer álbum: ‘Lucy in the sky’ ‘is leaving home’, despede-se do emprego como ‘meter maid’ e junta-se à Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band que vai dar um concerto no Albert Hall (depois de taparem os buracos) porque o exército inglês acabou de vencer a guerra (como se tal coisa fosse possível! é sempre a marinha que ganha)”.

Ainda que todas brevíssimas, canções como "Bathroom Quickie", "Song Of The Ant", "Death Pact", "She Says Hello" e "Castles Of America", com um segundo a menos de respiração, evaporar-se-iam. O objectivo último é inventar o haiku pop? “Bem, elas rimam, para haikus, são ainda grandes demais, e falta-lhes uma relação entre a natureza e as estações do ano. Não diria que não a essa ideia mas alguém já o deve ter feito (e não me apetece ir procurar ao Google)”. Para o imprevisível futuro dos outros alter-egos de Merritt - The 6ths, Gothic Archies e Future Bible Heroes –, porém, é necessário que estejam reunidas algumas condições: “Ainda só passaram 7 anos desde o último álbum dos Future Bible Heroes. Da última vez, foram 12 o que é uma frequência tipo Kraftwerk ou Kate Bush. Os 6ths andam mais por um interregno à escala dos My Bloody Valentine, é melhor começar a pensar em gravar qualquer coisa. Os Gothic Archies deram há pouco um concerto o que significa que, mais década, menos década, haverá um álbum. Estamos à espera que a situação mundial se torne muito, muito negra. Ainda não está suficientemente negra”. Não há-de tardar muito.

09 March 2017

A VIDA EM DUAS HORAS E MEIA 




50 canções. Uma por (e sobre) cada ano de vida, iniciada em 1965, até ao meio século comemorado a 19 de Fevereiro de há dois anos, mas só agora amplamente celebrado através da publicação de 50 Song Memoir. Foi o desafio autobiográfico lançado pelo presidente da Nonesuch Records a Stephin Merritt – ele dos Magnetic Fields, Gothic Archies, Future Bible Heroes e 6ths e “a pessoa menos autobiográfica que alguma vez conhecerão” – que, surpreendentemente, o aceitou. E, retomando a veia das obras de grande fôlego, ultrapassou o inesgotável triplo de 1999, 69 Love Songs, convertendo as suas memórias num portentoso quíntuplo álbum. 

    Decidiu-se a deitar mãos a este projecto porque o presidente da Nonesuch, há dois anos, lho sugeriu como forma de comemorar o seu 50º aniversário. Por iniciativa sua, nunca o faria? 
    Não, se não me tivessem desafiado para o fazer nunca me teria passado pela cabeça a ideia de escrever 50 canções acerca de mim. 

    No entanto, desde 69 Love Songs, i, Songs From A-Z ou o livro que publicou com Roz Chast, 101 Two-Letter Words...
    ...  A-Z foi uma forma de estruturar um concerto, 26 canções, uma para cada letra do alfabeto. Um espectáculo, não um álbum. 

    Mas essa forma de organização temática/conceptual de discos, concertos e livros parece ser algo muito do seu agrado... 
    Não é do agrado de toda a gente?... Se calhar, então, vou chamar ao próximo álbum Another Record... (risos) No fundo, é como o Frank Sinatra intitular um álbum Songs For Swingin' Lovers! Ele tinha uma banda de swing e gravou um álbum de canções de amor. Daí ter-lhe chamado Songs For Swingin' Lovers!, nada de muito complicado. De um modo geral, gosto que o título descreva aquilo que o álbum contém. Por exemplo, o título Distortion era uma espécie de alerta para que, se não gostassem de música com distorção, não iriam apreciar aquele disco. Ninguém teria motivo para reclamar: estava bem visível na capa. 



    50 Song Memoir foi-lhe mais fácil ou mais difícil de criar do que 69 Love Songs? Sempre foram menos 19 canções... 
    Na verdade, foi mais difícil porque tive de me assegurar de que, sendo autobiográfico, tudo aquilo que dizia era verdade. O que torna muito mais complicado encontrar as rimas... 

    Mas também já confessou que “uma autobiografia não tem de ser sinónímo de verdade”... 
    Se estivesse num tribunal e tivesse de contar a história da minha vida em duas horas e meia seria muito diferente daquela que conto através das canções. Seriam ambas verdadeiras mas editadas de modo completamente diferente. Num tribunal, nunca falaria da minha vida amorosa (a não ser que fosse obrigado a fazê-lo) mas, num álbum, isso pode perfeitamente constar da minha biografia. 

    Quer isso dizer que, quando, em "They’re Killing Children Over There", conta que foi a um concerto dos Jefferson Airplane, em 1970, devemos encarar isso como um ‘facto alternativo’, uma liberdade poética ou aconteceu mesmo? Nessa altura, tinha cinco anos... 
    É verdade, fui ver os Jefferson Airplane com a minha mãe! Ela tinha o Surrealistic Pillow [segundo álbum dos Jefferson Airplane de 1967] que eu adorava. Por isso, aos cinco anos, eu já era um fã da banda quando fomos vê-los. 

    Proavelmente, eles nem sonhavam que tinham fãs com cinco anos...
    Havia imensas crianças em Woodstock!... Mas não foi em Woodstock que os vimos. Tentámos ir a Woodstock mas foi impossível, o trânsito estava um pesadelo! Conto isso, aliás, na canção antes dessa, "Judy Garland". 


    Nos espectáculos em que apresentou este álbum, surge como uma personagem no interior do cenário criado por José Zayas – uma espécie de casa de bonecas recheada de objectos fortemente simbólicos que foi coleccionando ao longo dos anos – que vai, canção a canção, ano a ano, contando a história da sua vida... 
    Claro que me vejo como uma personagem. É uma versão editada de mim próprio que apresento. Mas não é mais personagem do que aquela que poderia surgir numa festa onde fosse explicar quem sou, numa versão que as pessoas poderiam reconhecer. Quando, em 2010, fizeram um documentário sobre mim, Strange Powers, fiquei com a ideia de que mostrava uma visão extremamente selectiva da minha vida, de acordo com o ponto de vista das realizadoras [Kerthy Fix e Gail O’Hara]. Não mencionaram o facto de eu ter escrito três musicais durante o período em que filmavam porque não tinham sido autorizadas a filmar os actores. Por isso, essa parte da minha vida não surgiu no documentário. Na altura, isso deixou-me um bocadinho irritado mas, agora, compreendo que qualquer biografia será sempre, inevitavelmente, selectiva, em função do meio que é utilizado e da conveniência do biógrafo. 

    Mesmo quando se trata de uma autobiografia? 
    Sim. No documentário, há muitas sequências de outras pessoas que fazem depoimentos acerca de mim. Numa autobiografia – pelo menos, em todas as que li –, não é habitual ocorrer ao autor a ideia de pedir testemunhos sobre si mesmo. E, neste álbum, eu também não entrevistei ninguém para falar sobre mim. 

    É verdade que, para este disco, foi repescar canções com mais de 30 anos e outras que escreveu quando ainda era adolescente? 
    Sim, algumas. Cerca de metade de "At The Pyramid", por exemplo, fui recuperar a uma gravação dos anos 80 que descobri. Ou "Ethan Frome" que data da época que descreve [1989]. Assim de repente, são aquelas de que me recordo. 



    Pode ser só ainda uma primeira impressão mas, ao escutar 50 Song Memoir, tive a sensação de que tinha convocado, em simultâneo, para a gravação todos os seus alter-egos: Magnetic Fields, Gothic Archies, Future Bible Heroes, 6ths... 
    Não é que, conscientemente, eu tenho pretendido fazer isso mas, se calhar, quem sabe?... Terei, de certeza, de voltar a escutá-lo com essa ideia presente para poder chegar a uma opinião mais segura.

    Voltando ainda a "They’re Killing Children", a determinado passo diz: “Now that everyone is fat and complacent, I haven't heard a protest in years”. Quer parecer-lhe que, agora, após a eleição para a presidência do Agent Orange, tudo continuará a ser assim? 
    O que pretendi dizer é que há muitos anos não se escutam canções de protesto. Acerca das guerras em que nos envolvemos. Na semana passada, um raide aéreo no Yemen aprovado por Trump matou uma miúda de 8 anos cujo irmão de 16 anos tinha também sido morto, meses antes, noutro raide aprovado por Obama. Continuam a ser mortas crianças naquela guerra e não estou à espera que deixem de o fazer tão cedo. Mas já não há uns Jefferson Airplane para escreverem canções sobre isso. Existe protesto no hip hop mas nunca me dei conta que falassem sobre vítimas infantis de raides aéreos.

23 August 2013

CHAMPANHE & SATANÁS 


Até 1999, Stephin Merritt já tinha publicado seis álbuns com os Magnetic Fields, dois com os Gothic Archies, um com os Future Bible Heroes, e outro via The 6ths. Era uma discografia importante, variada e respeitável – Obscurities, colecção de “sobras” do período 1994-99, editada há dois anos, é assaz esclarecedora acerca da riqueza dos fundos de baú de Merritt – mas seria apenas à beira da viragem do milénio, com o triplo 69 Love Songs, dos Magnetic Fields, que o mundo "indie" (e uma mais alargada periferia) ajoelharia, por fim, perante o indiscutível génio do extremoso dono do chihuahua Irving (Berlin). Foi um caso exemplar de bênção que se transforma rapidamente em maldição: daí para a frente, tudo, literalmente tudo, o que Stephin Merritt gravaria através das suas diversas personae haveria de ser fatalmente comparado com o inesgotável tríptico e, só muito improvavelmente, de modo favorável. O que, à excepção de Distortion (2008) – abstruso ensaio de fusão molecular entre o arame farpado de Psychocandy e o "songwriting" segundo Merritt – nunca andou demasiado longe da pura injustiça: para ficarmos apenas pela nata, Hyacinths and Thistles (2000, dos 6ths), i (2004) e Realism (2010), ambos dos Magnetic Fields, e, sobretudo, The Tragic Treasury: Songs from A Series of Unfortunate Events (2006, dos Gothic Archies), magnificamente perversa colecção de canções infantis escrita a meias com Lemony Snicket/Daniel Handler, são o género de matéria apontada directamente ao cânone pop pela qual muitos abdicariam de bom grado de uma parte da sua anatomia. 


Segundo parece, o espectro-69 já começou também a pairar sobre Partygoing, recente terceiro tomo dos Future Bible Heroes, essa bizarra associação musical com Chris Ewen (e Claudia Gonson incluída) surgida da comum devoção por Yma Sumac, John Cage e a arte Tiki da Polinésia. Poderá, certamente, discutir-se se a inclusão no panteão atrás referido é aceitável mas isso obrigará a reparar que, nesta recolha de levíssimas bolhas de sarcasmo niilista, se incluem pérolas como "Let’s Go To Sleep (And Never Come Back)" (“I'll wear silk pajamas and sleeping mask in black, and you will wear a muumuu a la Roberta Flack, leaving no note, just candles and incense, we'll overdose on smack, no need to weep, let's go to sleep and never come back”), invocações a Satanás (“Angel of light, prince of peace, I am your soldier but don’t let me get too much older”) e, especialmente, aquelas que Claudia Gonson designa como “instructional songs”: a que aconselha "Keep Your Children In A Coma", enquanto forma expedita de evitar as aflições da infância (“You can't let them go to school for fear of bullying little beasts and you can't take them to church for fear of priests, you can never really know, ma, if their motives remain pure, keep your children in a coma and be sure”) ou a outra, que, sob o alto patrocínio de Cristo clonado a partir do sudário de Turim (com assessoria de David Bowie e Aleister Crowley), recomenda "Drink Nothing But Champagne" (“It makes life shorter than drinking water”). E não duvidemos que Merritt está coberto de razão quando afirma que Presley chamaria um figo a "All I Care About Is You".

24 January 2010

COISAS POUCAS E BOAS



The Magnetic Fields - Realism

Não tínhamos reparado mas, aparentemente, nos domínios da canção tal como Stephin Merritt a pratica, estava em curso uma trilogia. Mais exactamente, uma "no synth trilogy". Após o trimonumental 69 Love Songs (1999), ter-se-á alojado na cabeça do diminuto génio uma ideia de – com modulações diversas – declinar a antiquíssima pequena forma de "words & music" sem recorrer às maquinetas de teclados portáteis, das quais, tanto nos Magnetic Fields como nos Gothic Archies, Future Bible Heroes ou The 6ths, ele fizera generoso uso. Tudo terá começado, sorrateiramente, com i (2004), um belo tomo do cânone-Merritt que, não anunciando a coisa como bíblica separação de águas, varria os sintetizadores para baixo do tapete. Distortion, de 2008, passou só como exercício de estilo dedicado a submeter o requintado songwriting à trituradora sonora que os Jesus & Mary Chain haviam convertido ao dogma-pop em Psychocandy. É, agora, com Realism, que ele revela o objectivo último da conspiração estética:



"Pensei em Distortion e Realism como um par de álbuns complementares. Quis que um se chamasse 'True' e, o outro, 'False'. Mas nunca consegui decidir qual seria o verdadeiro e o falso. Ambos têm a ver com a noção de verdade e falsidade no que respeita à gravação e à música. Não particularmente no que se relaciona com os textos mas com a produção. Distortion foi tão longe quanto era possível na direcção de um noise-pop estilizado, o que é, possivelmente, o limite da estilização do rock, antes de se transformar em outra coisa qualquer. Realism é folk, apesar de nunca ter tido muita paciência para o folk. Não aturo o som de uma guitarra acústica mais do que três minutos de cada vez”. Os modelos foram, então, o "variety folk", mais ou menos psicadélico, de Judy Collins e Judy Henske, "sem nenhuma ideia do que virá a seguir, como eu gosto numa programação de rádio. Sem grandes proclamações. Tenho dificuldade em ouvir Beethoven. Prefiro coisas pequenas, subtis, nada de épicos e obras-primas". Realism, então, é isso mesmo: ínfimos momentos de magnífica maldade ("I want you crawling back to me, down on your knees, like an appendectomy sans anaesthesia" ou "I could say I want you, that would be a bore, maybe in a font you've never seen before") colados a miniaturas esqueleticamente acústicas de ukulele, guitarra harpa, tuba, dulcimers, piano de brinquedo, banjo, bandolim, cordas de câmara e outras falsas ingenuidades avulsas, de salão de baile pobre e, educada e perversamente, à beira do abimo. Coisas poucas e boas.

(2010)

17 January 2010