(sequência daqui) Descendente oblíqua do retrofuturismo dos Broadcast ou Stereolab e adepta do neopaganismo anarco-feminista de Monica Sjöö, neste novo manifesto (nove canções em "cornish" e uma em galês), Gwenno tanto recorre aos sinos de Santa Maria Della Salute, em Veneza, ou à sonoridade de um vetusto piano de cauda de um hotel de Viena como invoca Morricone, Agnés Varda, Maya Deren, Jodorowsky, Fellini e Sergei Parajanov. Com uma intenção que não poderia ser mais clara: “É como se fosse um livro de recortes, com coisas que vêm de todo o lado. Estou realmente obcecada pela Europa, num desespero por fazer parte dela. Não é porque desejemos ser insulares que exploramos a nossa cultura, fazemo-lo porque queremos fazer parte do mundo!”.
Showing posts with label Alejandro Jodorowsky. Show all posts
Showing posts with label Alejandro Jodorowsky. Show all posts
23 August 2022
Labels:
Agnès Varda,
Alejandro Jodorowsky,
Broadcast,
cinema,
Fellini,
Gwenno,
identidade,
linguagem,
Maya Deren,
Monica Sjöö,
Morricone,
política,
radicais livres,
Sergei Parajanov,
Stereolab,
videoclips
10 September 2015
15 April 2015
BRAVA ELEGÂNCIA
Um dia destes, ainda teremos de prestar a devida homenagem a Sir Charles William Somerset Marling, 5º baronete de Marling: se já lhe devíamos o facto de ter sido ele, mal a filha, Laura, tinha completado 6 anos, a ensinar-lhe o essencial da técnica da guitarra acústica na bucólica atmosfera de Eversley, no Hampshire, agora, caso os tempos fossem outros, poderia ser considerado responsável por um novo momento-Dylan-Judas. Sim, a Laura dos vários Petrarcas da suposta "nu folk scene" londrina de há pouco menos de dez anos, (ou)viu a luz de uma guitarra eléctrica e a culpa disso deverá ser atribuída, outra vez, a Sir Charles que entendeu oferecer-lhe uma Gibson 335 vermelha, neta eventual da Lucille, de BB King. Na realidade, nem a "nu folk" era fundamentalistamente folk (ou, sequer, especialmente folk...) nem poderá dizer-se que Short Movie determine algum tipo de corte radical com a discografia anterior de Laura Marling.
Tudo decorreu, afinal, de, após a publicação de Once I Was An Eagle (2013), Dame Laura, Btss, aos 23 anos, ter atravessado uma precocíssima "midlife crisis" que a conduziu a vaguear pelos EUA, conviver com criaturas perigosamente hippie/new age, sobreviver ao temível Hurricane Sandy, em Nova Iorque, e – tal como já acontecera com Annie Clarck/St. Vincent no último álbum – a desenvolver um preocupante interesse pela obra do cineasta/guru chileno, Alejandro Jodorowsky. Adicione-se a este último ingrediente o do potencialmente explosivo George Gurdjieff, gabiru místico/esotérico da primeira metade do século passado, e teremos "Gurdjieff's Daughter", lista de recomendações do género “Never give orders,
just to be obeyed” que, soando a um improvável encontro de Suzanne Vega com os Dire Straits... é surpreendentemente boa. Bem mais electricamente cortantes são "False Hope", "Don’t Let Me Bring You Down" e "Short Movie" – aqui e ali, recordando a PJ Harvey menos recente – mas, em tudo o que sobra, nunca se afasta demasiado da belíssima matriz da Marling descendente (desejavelmente) oblíqua de Joni Mitchell, em moldura folk/bluesy, na qual palavras como “I can’t be your horse anymore, you’re not the warrior I’ve been looking for” assentam com a brava elegância de uma declaração de guerra.
26 February 2014
TRIVIALIDADES
A vicentina Annie Erin Clark só nos fala de coisas comuns. A banalidade do dia-a-dia (“Oh what an ordinary day, take out the garbage, masturbate”); o susto de, ao passear nua pelo deserto do Texas, tropeçar numa cascavel que escava buracos na areia “as if Seurat painted the Rio Grande” (quem nunca tiver pensado em pintores impressionistas quando, no estado de natureza, caminha por entre dunas e répteis, que atire a primeira pedra); a conversa nocturna com o fantasma do Black Panther, Huey Newton, provocada por uma dose legal de tartarato de zolpidem tomada em brava luta contra o jet-lag (acusem-na aqueles que jamais foram vítimas das imidazopiridinas); as mais que sensatas opções teológicas decididas sob o estado de paixão (“I prefer your love to Jesus”), por muito que Theodore Twombly, do Her, de Spike Jonze, insista que “falling in love is a crazy thing to do, It’s kind of like a form of socially acceptable insanity”; a universal culturinha digital voyeurista-exibicionista (“Digital witnesses, what's the point of even sleeping? If I can't show it, you can't see me”); a pura trivialidade, até, de atribuir o título St. Vincent ao álbum de alguém que assina com o "nom de plume" St. Vincent.
O que torna tudo um pouco mais esquinado, contudo, é descobrir como isso é suposto acomodar-se no interior de uma gravação que se propõe como “a party record that could be played at a funeral” e onde o método de resolução de problemas se aplica na criação de objectos singulares e coerentes a partir de uma matéria-prima que pode começar em Bowie ou Stravinsky e prolongar-se por Prince, os Pantera, a tradição turca de Selda Bağcan e os Meters. O ponto de chegada – contornando, pelo caminho, os alçapões perigosamente próximos do prog-rock – haverá de ser aquela bissectriz equidistante da “acessible pop music and the lunatic fringe” que muito melhor do que quaisquer elucubrações, o videoclip de "Digital Witness" traduz visualmente: em cenário distópico construído de peças soltas da Metropolis, de Fritz Lang, e da Tativille, de Playtime, uma inquietante personagem (St Vincent), sonâmbula e robótica, inspirada em El Topo, de Jodorowsky, comanda, à distância, os movimentos sincronizados de um pequeno exército de "Untermenschen". “This is no time for confessing, I want all of your mind”, invectiva-os. Mas os riffs de sopros, irremediavelmente funky, proíbem a imobilidade da cintura para baixo.
Subscribe to:
Posts (Atom)

