Showing posts with label Modest Mouse. Show all posts
Showing posts with label Modest Mouse. Show all posts

06 October 2010

LATE NEXT BIG THING



Wavves - King Of The Beach

O "lo-fi" (ou, na sua forma mais extremista, o "no-fi") decorre apenas de duas opções: uma questão estética e/ou ética de recusa do polimento de estúdio a favor da espontaneidade tosca e rude do artista, em versão romântica, exibindo-se nu e cru, “tal como é”; na justificação mais prosaica, uma mera questão de ausência de saldo na conta bancária. Os Wavves – isto é, Nathan Williams – partiram da última e, ao terceiro álbum, decidiram que já era tempo de não se contentarem com as possibilidades do laptop e recorrer a um estúdio como deve ser e a um produtor (Dennis Herring) com currículo forjado à ilharga dos Modest Mouse. Provavelmente, a acidentada biografia recente de Nathan exigi-lo-ia: do estatuto de "next big thing" de há dois anos, a candidato à dupla vaga de Kurt Cobain/Courtney Love (sessões de pancadaria em bares, tristíssimas figuras pedradas no palco do festival Primavera Sound, de Barcelona, em Maio passado), havia que inventar algo capaz de reanimar, a tempo, uma daquelas carreiras que, pelo prazo de validade na era da Internet, se arriscava a terminar antes de ter começado. Naturalmente, dá sempre um pouco de jeito haver canções. E isso, por mais que se procure, é coisa que em King Of The Beach não é fácil descobrir: se, antes, o desmazelo sonoro podia alegar o alibi "no-fi", agora, este composto de Beach Boys de Toys 'R' Us, Animal Collective reduzido à expressão mais iletrada e Ramones surfistas, não é, propriamente, programa que se recomende. Atenuante há só uma: repetindo os Devo de Something For Everybody que confessavam “What we do is what we do, it’s all the same, there’s nothing new”, Nathan Williams, com idêntica candura, desabafa “I hate my writing, it’s all the same”.

(2010)

12 August 2008

INVERSÃO DE SENTIDO



Beck - Modern Guilt

Após os óptimos Midnite Vultures e Sea Change (mas, agora, Beck faz questão de afirmar que “não se sente especialmente orgulhoso” de várias canções de Vultures e não interpreta um único tema desse álbum em palco), a trajectória de Beck iniciou um notório plano inclinado, com níveis sucessivamente inferiores em Guero e The Information. Se fôssemos a tomar essas duas gravações como termo de comparação para os rituais ocultistas em que se decide a atribuição de estrelas, Modern Guilt, provavelmente, mereceria três. Demonstremos, no entanto, um pouco mais de respeito por quem, sem dúvida, o merece, e, perante o melhor da sua obra, fiquemo-nos pelas duas.



Estes breves trinta e três minutos de música – co-produzida por Danger Mouse aka Brian Burton – invertem, é verdade, o sentido da curva recorrendo ao cruzamento da psicadélia sessentista com sintetizadores atmosféricos, beatboxes virtuosas, colagens e tapeçarias de loops, Beck elocubra eloquentemente sobre teorias da conspiração, invectiva Deus ("If I wake up and see my maker coming with all of his crimson and his iron desire, we'll drag the streets with the baggage of longing, to be loved or destroyed, from a void to a grain of sand in your hand") e desenha círculos de perplexidade existencial mas não são ainda material “vintage” do autor de Odelay.

(2008)