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23 August 2016

AINDA MAIS


Tenha sido o poeta Robert Browning, o pintor Ad Reinhardt, ou o arquitecto Mies Van der Rohe a criar o conceito “less is more”, a verdade é que, por muita selva – estética, política, filosófica – que o minimalismo tenha desbravado, persiste um considerável número de fortalezas que essa ideia nunca conseguiu assaltar. Uma das mais inexpugnáveis praças-fortes é, sem dúvida, a indústria discográfica. Só um exemplo: Jeff Buckley que, em vida, gravou um único álbum (Grace, 1994), entre compilações e registos ao vivo, possui, actualmente, uma discografia póstuma com dez títulos, um box-set de cinco CD e cinco DVD. Mais é sempre mais e nunca é suficiente. Exactamente aquilo que, no "booklet" indesculpavelmente... err... minimal (quinze curtas linhas laconicamente informativas) de .. It’s Too Late To Stop Now... Volumes II, III, IV & DVD, fica absolutamente explícito quando afirma que oferece “even more of Van Morrison and The Caledonia Soul Orchestra”


Para que conste, o volume I (intitulado apenas It’s Too Late To Stop Now e publicado em Fevereiro de 1974) é consensualmente considerado um dos mais memoráveis álbuns "live" de sempre: incluindo gravações de concertos do ano anterior, no Troubadour, de Los Angeles, no Santa Monica Civic Auditorium e no Rainbow, em Londres – nos quais Morrison se fez acompanhar da Caledonia Soul Orchestra, uma sobrenatural máquina de fazer música (rock, jazz, folk, blues, soul) de onze elementos –, apanha-o naquele instante supremo como intérprete de palco que o transformaria numa “religião” para Springsteen e a E-Street Band. Para trás, estavam Astral Weeks (1968), Moondance (1970), His Band and the Street Choir (1970) Tupelo Honey (1971) Saint Dominic's Preview (1972) e Hard Nose the Highway (1973) e seria daí (e do reportório dos mestres Sam Cooke, Willie Dixon, Ray Charles ou Muddy Waters) que extrairia o combustível para esta avassaladora demonstração do “inarticulate speech of the heart”. O “even more” anunciado (à excepção do DVD registado no Rainbow), consiste, então, de um eleborado jogo de tabuleiro em que os temas, todos, alegadamente, “previously unissued”, são, inevitavelmente, os mesmos embora retirados de concertos diferentes. Mas, tratando-se de Van Morrison, quem ousaria queixar-se da pequena trafulhice?

24 May 2016

Happy 75th birthday, Bob! (III)


"(...) I learned lyrics and how to write them from listening to folk songs. And I played them, and I met other people that played them, back when nobody was doing it. Sang nothing but these folk songs, and they gave me the code for everything that's fair game, that everything belongs to everyone. For three or four years, all I listened to were folk standards. I went to sleep singing folk songs. I sang them everywhere, clubs, parties, bars, coffeehouses, fields, festivals. And I met other singers along the way who did the same thing and we just learned songs from each other. I could learn one song and sing it next in an hour if I'd heard it just once. (...) 

Last thing I thought of was who cared about what song I was writing. I was just writing them. I didn't think I was doing anything different. I thought I was just extending the line. Maybe a little bit unruly, but I was just elaborating on situations. Maybe hard to pin down, but so what? A lot of people are hard to pin down and you’ve just got to bear it. In a sense everything evened itself out. (...) 

Ahmet Ertegun didn't think much of my songs, but Sam Phillips did. Ahmet founded Atlantic Records. He produced some great records: Ray Charles, Ruth Brown, LaVerne Baker, just to name a few. There were some great records in there, no doubt about it. But Sam Phillips, he recorded Elvis and Jerry Lee, Carl Perkins and Johnny Cash. Radical artists that shook the very essence of humanity. Revolutionaries with vision and foresight. Fearless and sensitive at the same time. Revolution in style and scope. Radical to the bone. Songs that cut you to the bone. Renegades in all degrees, doing songs that would never decay, and still resound to this day. Oh, yeah, I'd rather have Sam Phillips' blessing any day (...)" (Bob Dylan, MusiCares Person of the Year 2015 award's acceptance speech)

01 March 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXIII)



"Os músicos que escolhemos para The Black Rider tanto provinham da música clássica como tocavam em estações de comboio. A princípio, houve um certo conflito na orquestra. Alguns tipos não sabiam ler música e outros tinham tocado na sinfónica de Berlim; eram um bocadinho peneirentos.

(...)

"As canções são uma coisa difícil porque, se são óbvias demais, entram por um ouvido e saem pelo outro. Se não são suficientemente óbvias, nunca chegam a entrar. Ninguém ouve uma canção como se estivesse a ler um manual de instruções. Entram em nós como se alguém nos estivesse a contar um sonho. Ouvimo-la e relacionamo-la com o nosso próprio sonho.

(...)

"Liberace era o Arthur Rubinstein dos pobres. Tocava em salas de vaudeville. O seu número era 'Olhem para as minhas jóias e para as minhas peles. Com que então saíram do vosso apartamentozeco gelado para virem ao teatro? Vejam lá o que eu tenho para vos oferecer!'

(...)



"Casei-me, despedi o meu manager, e eu e a minha mulher produzimos um disco. Nunca tinha feito nada parecido antes. Ela lançou-me fogo. Nessa altura, eu estava a tentar descobrir a minha verdadeira voz. Até aí, tinha a cabeça assente sobre o corpo de um outro. Sabia do que gostava mas nunca tinha realmente aprofundado isso no que me dizia respeito. Tinha diversas influências musicais irreconciliáveis com as quais não sabia o que fazer. Gostava de Ray Charles e dos Yardbirds. O que é que se pode fazer com isto? Ela desafiou-me a ter a coragem de dizer ‘Porque é que cada canção não há-de soar um bocadinho diferente, como uma compilação?’.

(...)

"Para a maioria dos músicos, há o onstage e o backstage. Eu cresci mais ou menos em público. Tinha vinte e dois anos quando gravei o primeiro disco. Ainda andava a tropeçar pelas escadas abaixo. Não fazia ideia do que estava a fazer mas sabia que iria ser músico. Há pessoas que aparecem logo completamente formadas, como um ovo. Comigo, não aconteceu assim. Fui juntando as peças pelo caminho. Uma persona de palco é muito diferente daquilo que somos. De facto, uma persona é algo que não acreditamos ser mas que tentamos desesperadamente convencer os outros que somos.

(...)

"Sabe o que é o pior de tudo? É quando alguém diz 'Ele não morreu já?’. E, na verdade, não morreu ainda. Mas, como não ouvimos nada dele há muito tempo, assumimos que morreu. Se não publicamos um disco durante uns anos, começam a circular rumores de que temos cancro da garganta. Ou diabetes. E amputaram-nos uma perna. Ou que ficámos sem um olho numa zaragata. É espantoso o que se conjectura.

(...)

2006

(2008)

16 October 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XVII)



"Ora aqui está uma coisa que descobri na festa de anos da minha filha: friccionei o lado de fora de um balão bem cheio e obtive aquele guincho habitual que os palhaços costumam produzir quando fazem animais com balões. Se pusermos goma de farinha nas mãos e o 'tocarmos', soa muito semelhante a um solo de Eric Dolphy ou aos gritos de um macaco com o pelo a arder.

(...)

"Li recentemente acerca de um cavalheiro de Patterson, New Jersey, que, em vez de mandar o seu velho carro para a sucata, decidiu recuperar todas as componentes e convertê-las em instrumentos musicais. Retirou as janelas deixando apenas a estrutura das portas e encordoou cada uma com cordas de harpa. A capota converteu-se em caixa de ressonância que também encordoou. Resultado: a 'Hood Harp' e a 'Door Harp' e a ressureição de um velho e bem amado carro.

(...)

"Por volta de 1982, a minha mulher, Kathleen, encorajou-me a tentar cantar através de um megafone da polícia para fazer sobressair a minha voz quando integrada num conjunto de instrumentos de timbre semelhante. Claro que é possível fazer o mesmo com um equalizador, mas não há nada melhor do que o som dramático do megafone. Também é interessante explorar os megafones concebidos para crianças que criam vozes de robot, astronauta ou de monstro. Descobri que, se zumbir através de um deles, consigo um som muito proximo do da guitarra dos Blue Cheer em 'Summertime Blues'."

1996



"Parece-me que a maioria dos artistas não é lá muito normal. Desde muito cedo, sofreram quase todos um golpe qualquer, uma morte na família ou o divórcio dos pais que os lançou numa viagem onde, a certa altura, dão consigo de joelhos, em frente ao jukebox, a rezar a Ray Charles. Ou então, vão à procura do pai que abandonou a família quando tinham nove anos e de quem apenas sabem que guia uma carrinha. Sem perceber muito bem como, acabam por se tornar um grande sucesso e aparecem na capa da 'Life'. É uma espécie de desforra catártica.

(...)

"Um amigo meu que era condutor de ambulâncias, quando eu tinha 16 ou 17 anos, ofereceu-me um estetoscópio. Costumava sentar-me sozinho num quarto às escuras, retirava a membrana do estetoscópio e punha-a no buraco da guitarra. Foi esse realmente o primeiro momento em que ouvi a música assim tão de perto.

(...)



" Não ter ligado muito aos Beatles e aos grandes acontecimentos 'revolucionários' dos anos 60, tem um bocadinho a ver com a forma como decidimos apreciar as coisas. Sempre desconfiei muito de grandes grupos de pessoas que vão juntas a qualquer sítio. Um disco é apenas um disco. Se não me apetecer ouvi-lo agora, não o oiço. Oiço-o daqui a 30 anos. Descobriram-se potes de mel nos túmulos dos faraós e o mel continua tão fresco como no dia em que o puseram lá. É o mesmo com os discos. Captam um momento. A caminho daqui, ouvi 'Kicks' do Paul Revere & The Raiders e achei o maximo! E 'Wild Thing' e 'Louie Louie'... No outro dia, também ouvi 'Son Of A Preacher Man' e nem queria acreditar... aquele momento em que a Dusty Springfield canta 'the only one who could ever love me' com uma voz assim rouca e grave, que canção tão sexy! Está tudo aí para ouvirmos quando nos apetecer.

1999

(2007)

11 July 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (I)



"Na verdade, sou de San Diego. Nasci em Whittier, na California, de onde também é o presidente Nixon. Por sinal, ele ia, às vezes, à nossa igreja. Mas isso foi há muito tempo, ele já passou essa fase...

(...)

"Costumava escrever muitas canções country na KSON, a grande estação de rádio country de San Diego. Mas já não me dizem muito. Tenho um baú cheio delas mas tentei explorar outras direcções. Tocava guitarra mas, ultimamente, tenho-me dedicado mais ao piano. Muitas vezes, escreve-se a pensar noutro artista. De facto, quando escrevi 'San Diego Serenade', estava a pensar no Ray Charles".

1973

"Há ocasiões em que bebo bastante, não jogo bilhar nada mal e a minha ideia de um bocado bem passado é uma noite de terça feira no Manhattan Club de Tijuana. Agora, vivo na zona de Silver Lake, em Los Angeles, e sou um angeleno dedicado sem a mínima vontade de me mudar para uma cabana no Colorado. Gosto do nevoeiro, do trânsito, de pessoas esquisitas, de engarrafamentos, de vizinhos barulhentos, de bares cheios de gente e passo a maior parte do meu tempo no carro, a caminho do cinema".

1974



"Sei o que funciona e o que não funciona puramente por tentativa e erro. As pessoas que gostam de mim estão à espera de uma certa narrativa tipo-estou-me-a-cagar que faço há alguns anos. Tenho consciência do género de personagem que sou em palco. É aquela diferença que existe entre acendermos um cigarro no nosso quarto e fazê-lo em cima de um palco.

(...)

"Apesar de eu ter crescido no Sul da Califórnia, Jack Kerouac impressionou-me imenso. Foi em 1968. Comecei a usar óculos escuros e assinei a 'Downbeat'... já com um certo atraso. Quando Kerouac morreu em 1969, em St. Petersburg, na Florida, era um homem velho e amargo... Interessava-me mais o estilo do que todo o resto. Descobri Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti... o Ginsberg ainda faz umas coisas de vez em quando".

1975


"Tive milhares de automóveis. O primeiro foi aos catorze anos. É uma espécie de tradição americana. Tirar a carta é como o Bar-Mitzvah.

(...)

"Nasci em Los Angeles, de muito tenra idade, no banco de trás de um táxi, no parque de estacionamento do Murphy Hospital, em Whittier, na Califórnia. Desde muito cedo, tive de tomar decisões difíceis. A primeira foi ter de pagar, para aí, um dólar e oitenta e cinco cêntimos que o taxímetro marcava para poder sair. Ainda não usava calças e tinha-me esquecido do dinheiro no outro 'babygrow'. Assim que saí do táxi fui à procura de emprego. O primeiro que encontrei foi numa das enfermarias da maternidade. Acabaram por me despedir o que me desiludiu bastante com o mercado de trabalho.

1976

(2007)