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20 September 2022

GUERRILHA

 
 
Em Agosto de 2020, Nicola Kearey e Ian Carter (os Stick In The Wheel) publicaram um video no YouTube no qual se deixavam ver espiolhando prateleiras e gavetas dos arquivos da Cecil Sharp House, sede da English Folk Dance and Song Society. Algures pelo meio, perante um daqueles “instantãneos de uma época”As Close As Can Be, de Peta Webb e Ken Hall –, Nicola recorda-se de como, ao escutá-lo pela primeira vez, se deu verdadeiramente conta de que ”se tratava de pessoas que tinham vivido uma vida ali presente nas suas vozes e isso fez-me pensar que seria capaz de encontrar uma via para lidar com este tipo de música e torná-la relevante para mim”. Exactamente a mesma Nicola Kearey que, há 4 anos, por altura da publicação de Follow Them True, confessara “I hate folk music” e que, agora, à “Tradfolk”, reforça esse ponto de vista: “Não mudei de opinião. Na verdade, tê-la-ei até endurecido. Penso que muito do cânone da música tradicional inglesa dos recolectores vitorianos é extremamente problemático. O que me interessa nesse passado e nas pessoas que o habitaram é encara-lo como um contínuo até ao presente, compreender por que motivos sobreviveu tanto tempo e aquilo que, enquanto humanos, nos faz ver acerca de nós mesmos”. (daqui; segue para aqui)

"The Milkmaid" (c/ Nabihah Iqbal)

01 July 2021

Polly Paulusma - Invisible Music live launch show, 23 April 2021  
(Cecil Sharp House)

22 February 2021

A ANTIGA RESSONÂNCIA
 

Cecil Sharp estava de visita ao amigo Charles Marson, em Somerset, quando se deu conta de uma voz que, ali perto, cantava. Era o jardineiro da casa paroquial (para tudo o que se seguiria, convenientemente chamado John England) que entoava uma melodia tradicional, "The Seeds Of Love". Sharp puxou imediatamente do bloco de notas e transcreveu a canção que, na mesma noite, a discípula Mattie Kay interpretaria, acompanhada por ele ao piano. Seria a partir desse momento, em 1903, que Sharp se transformaria na mais importante figura do "folk revival", enquanto recolector, divulgador e arquivista.

 
Muito justamente reintitulada "The Garden Of England (Seeds Of Love)" – John, o jardineiro, merecia a homenagem – é a canção que abre Old Wow, o terceiro e magnífico álbum do polivalente Sam Lee: ambientalista em inúmeras plataformas (ao lado da “Extinction Rebellion”, em Abril de 2019, inundou a Berkeley Square, de Londres, com o canto de rouxinóis), autor de programas de rádio na BBC, recolector, compositor e cantor folk, em demanda da “antiga ressonância, aquela vibração que se apossa das canções folk”. (daqui; segue para aqui)

29 September 2020

Stick in the Wheel go Archive Digging at Cecil Sharp House (sugerido nesta caixa de comentários)
 

12 November 2019



 
Morris On - "Old Woman, Shepherds' Hey and Trunkles"





UMA ESTRADA MUITO NEGRA

  
Se, no século XIX, a homeopatia e a psicanálise puderam passar por ciência, não haveria motivo nenhum para que o mesmo não acontecesse ao “folclore” – termo utilizado pela primeira vez em 1846, numa carta de um tal W. J. Thomas para a revista “Athenaeum” – que o britânico Lawrence Gomme, fundador da Folk-Lore Society, definiria enquanto “ciência que lida com a sobrevivência nos tempos modernos das crenças e costumes arcaicos”. A intenção com que essa sobrevivência seria estimulada é que obedeceria a convicções irremediavelmente políticas. No indispensável Electric Eden – Unearthing Britain’s Visionary Music (2011), Rob Young explica que onde compositores e folcloristas como Vaughan Williams e Cecil Sharp “viam a música de um povo (i.e., de uma nação, de uma raça), para outros, mais jovens, tratava-se da música do povo. (...) Empunhando uma foice e um martelo, o cantor e folclorista A. L. Lloyd pôs os pontos nos 'i' no seu monumental estudo sobre a folk song [Folk Song in England, 1967]: ‘A mãe do folclore é a pobreza’

 

Tudo isto não poderia estar mais ardentemente presente no avassalador The Livelong Day, dos irlandeses Lankum: na aflitiva miséria de "Hunting The Wren" – acerca das comunidades de prostitutas sem abrigo, alcoólicas, ex-presidiárias, vagabundas, desempregadas, que, escorraçadas das vilas e cidades durante as grandes fomes do século XIX, viviam, no campo, em “tocas” de tojo –, na igualmente humilhada "Katie Cruel" (aprendida de Karen Dalton), ou no enforcado de "The Young People". Mas – e é isso que torna os Lankum, ex-Lynched, num caso absolutamente singular – sem investir no registo da “canção de protesto” ou, na “topical song” da velha matriz folk. E, embora em tempos tenham declarado que “folk is more punk than punk”, também não é exactamente por aí que seguem. Socorrendo-se de uma imponente bateria instrumental (violino, viola de arco, contrabaixo, harpa, guitarra, banjo, piano, Hammond, Wurlitzer, mellotron, vibrafone, "uilleann pipes", "tin whistle", concertina, "bayan" e harmonium), do timbre imperial de Radie Peat (algures entre Nico e Norma Waterson), e das sobrenaturais polifonias a quatro vozes, a banda que venera Robert Wyatt, Neu!, Can, SunnO))) e manuseia os "drones" como tela de projecção, não apenas assegura a “sobrevivência nos tempos modernos das crenças e costumes arcaicos” mas, também, os trespassa com a denúncia da “estrada muito negra a que governantes e igreja católica nos conduziram nos últimos 100 anos”.

23 August 2017

PÉRIPLO


Em Maplebeck, no Nottinghamshire, Darren Hayman ouviu contar a história do dono de um pub que, no final da noite, deixava o porco de estimação beber a cerveja que restava no fundo dos barris e encontrou-se com Judith que limpava as lápides do cemitério local com uma escova de dentes. Em Shapwick, Somerset, descobriu folhas de árvores presas aos troncos com pioneses coloridos. À entrada de Cromwell, um local saudou-o: “I’m Dennis, but they all call me Bill”. Num banco de jardim de Norton Le Clay, no Yorkshire, viu inscrito o nome de uma refugiada belga que para lá emigrara durante a guerra e, sobre ela, escreveu uma canção (“Come all you refugees and strays, come all you immigrants and waifs, come to our house and stay, you’re welcome”). Há aldeias tão pequenas que, mal se entra, já se está sair. Mas, em Tellisford, à beira de uma represa sobre o rio Frome, deu com um piquenique de jovens, que se banhavam no rio. Gravou-lhes as gargalhadas, o correr das águas e os mergulhos. East Norton parecia habitada por fantasmas e, no pub de Nether Kellet, havia a fotografia de uma equipa de futebol feminino do tempo da guerra. 

Viajou com Judy Dyble – a antecessora de Sandy Denny nos Fairport Convention – e a cadela Molly até Upper Slaughter, no Gloucestershire, e, após a sopa comunitária da tarde, na margem do Eye, escutou-a a dedilhar na auto-harpa um devaneio sobre a passagem do tempo. Wooley e Stretton En Le Field fizeram-no pensar em canções do espólio da English Folk and Dance Society que já tinha encontrado na Cecil Sharp House. No abrigo de uma paragem de camionetas, em Woodend (em cujo céu três aviões colidiram durante a segunda guerra mundial), alinhavou uma música que quase o fez reencarnar na pele de Ray Davies. Olhou para Chantry e teve a sensação de que era a aldeia que o observava a ele. É o "trailer" possível de Thankful Villages Vol. 2, segundo painel do tríptico de Darren Hayman iniciado no ano passado, dedicado a um périplo pelas 54 aldeias inglesas nas quais todos os homens que partiram para as trincheiras na guerra de 14/18 regressaram vivos à terra. Mais belíssimo documentário de rádio (e colecção de videos) com sonoplastia ficcionalmente sofisticada do que propriamente um convencional álbum de canções, as dezoito "thankful villages" que faltam ficam prometidas para o terceiro volume, no próximo ano.

12 March 2015

CAVALGAR O AR


Entre Camden e o Regent’s Park, no norte de Londres, fica a Cecil Sharp House, sede da English Folk and Dance Society e porto de abrigo para 80,000 manuscritos com o registo de canções, danças e costumes tradicionais das ilhas britânicas. Foi aí que Becky Unthank descobriu um farrapo de melodia e texto (“I'll mount the air on swallow's wings to find my dearest dear, and if I lose my labour and cannot find him there, I quickly will become a fish to search the roaring sea, I love my love because I know my lover he loves me”), confiado por uma Mrs Crawford, de West Milton, ao Dorset Book of Folk Songs, publicado em 1958. Um ano depois, entre 1959 e 1960, Miles Davis e Gil Evans gravavam Sketches Of Spain, essencialmente, uma transfiguração jazzística do adagio do Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo, acerca do qual Davis dizia “quanto mais suavemente o tocamos, mais intenso se torna”.



Adrian McNally – teclista, percussionista, compositor e arranjador de The Unthanks e Mr. Rachel Unthank "himself" –, quando colocado perante "I'll Mount the Air on Swallow's Wings [The Loyal Lover]", recordou-se que, por altura da edição de Last (2011), alguém na “Uncut” havia escrito que a banda “encarava a folk music do mesmo modo que Miles Davis via o jazz: como um trampolim para a exploração de possibilidades mais vastas”. Com o modelo de Sketches Of Spain à mão, os parcos dezasseis compassos de "The Loyal Lover", deixaram-se, elegantissimamente, ampliar para uma espantosa suite orquestral de 10 minutos: as vozes de Rachel e Becky flutuam alheias à gravidade e o trompete de Tom Arthurs, criatura de excepção que se declara tão devedor de Ligeti como dos pigmeus da África Central, de Tarkovsky, Godard ou dos "chefs" Ferran Adrià e Heston Blumenthal, opera prodígios. Há vários outros em Mount The Air, coisas que fazem lembrar (e rapidamente esquecer) Björk, Sandy Denny, Portishead (Adrian Utley também andou por aqui), June Tabor, Nico, Robert Wyatt, Van Morrison até. Sim, são dessa ordem de grandeza a infernal "nursery rhyme", "Magpie" (“Devil, devil, I defy thee”), a hipnótica imponderabilidade de "Flutter", o gélido pavor dickensiano de "Foundling", o cinemático "courtly love" de "Madam" dissolvendo-se em "Died For Love"... Álbum do ano, já?