Os goblins são diminutos seres grotescos de bastante mau feitio, habitantes de zonas subterrâneas que terão emergido na cultura popular europeia durante a Idade Média, deixando-se avistar ainda hoje em filmes como Labirinto (1986), Spider Man (2002) ou nos diversos episódios das sagas de Harry Potter e O Senhor Dos Anéis. Deles, a britânica Goblin Band herdou uma certa tendência para o culto da marginalidade deliberada optando por apresentar-se exclusivamente em espaços favoráveis à sua dupla qualidade de jovens músicos folk e cidadãos queer. Alice Beadle (violino e flauta de bisel), Gwena Harman (órgão de fole e bateria), Sonny Brazil (acordeão e concertina) e Rowan Gatherer (sanfona, e flauta de bisel), descobriram-se num percurso que, da música antiga e medieval, passando por John Playford e o Compleat Dancing Master, os conduziria a uma série de educativas epifanias tais que Martin Simpson, a Albion Band, os Watersons ou Martin Carthy (que, fã instantâneo, deles diria “Eles sabem tocar, sabem cantar e são destemidos. Atiram-se a versões que nós éramos demasiado pedantes para tocar e transformam-nas em furiosas desbundas"). (daqui; segue para aqui)
"Paul's Steeple" (John Playford's English Dancing Master)
Kitgut Quartet
Les Witches
16 July 2013
Les Witches - Nobody's Jig / Mr. Lane's Magott / Black and Grey
(John Playford's English Dancing Master)
27 December 2012
MATÉRIA NEGRA
Scott Walker - Bish Bosch
No English Dancing Master – uma recolha de "country dances" do século XVII organizada por John Playford –, pelo meio de uma série de títulos, genericamente, joviais e divertidos, surge, inesperadamente, uma melodia repetitiva e arrastada, bastante fora de carácter com o resto da colecção: "An Old Man Is A Bed Full Of Bones". Scott Walker, "an old man" à beira dos 70 anos, poderia, facilmente, tê-la apadrinhado, embora, de certeza, fizesse questão de lhe modificar o nome para "A Man Is A Bed Full Of Bones". E, muito provavelmente, não veria grande problema em fazer dele o carimbo para a trilogia infecta iniciada, em Tilt(1995), continuada com The Drift (2006), e concluída, agora, em Bish Bosch.
Acerca da atmosfera que nestes três álbuns se respira, Walker explicou, há tempos que “desde Tilt, a música que faço pretende ser uma versão auditiva dos desenhos de H.R. Giger para Alien”. E, indo por aí, de imediato, seríamos conduzidos a entrever as silhuetas de um pesadelo claustrofóbico, habitado por gigantescos predadores de anatomia biomecânica, cegas criaturas ávidas de morte e extermínio.
Porém, como em quase tudo que a Scott Walker diz respeito, também, neste caso, se trata de um enigma que nos desafia a decifrá-lo e a ver para além da suposta (e única) aparência de "horror-sci-fi". Porque é aqui mesmo, ao nosso lado, ontem, hoje e sempre, que tudo se passa e o assombro, a repulsa e o nojo que nos provocam as imagens de Giger (inspiradas, aliás, nos Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion, de Francis Bacon, por sua vez, entre outros, decorrentes de um dos rostos em pânico na sequência das escadarias de Odessa, do Couraçado Potemkine, de Eisenstein – tudo referências obrigatórias de Walker) deverão ser dirigidos para nós próprios e para a espécie humana em geral. Bish Bosch alude a “bish” como corruptela de “bitch”, “bish bosh” é gíria para “trabalho despachado à pressa”, “Bosch” remete para o proto-surrealista Hyeronimus.
E é, justamente, à lupa, como qualquer obra do autor do Jardim das Delícias Terrenas exige ser observada para que se possam identificar os mil detalhes, que se deve escutar o que emerge da caixa (de ferramentas) de Pandora, tal como Scott Walker lhe dá uso: o espectro de cores situa-se entre o sépia e o negro opaco profundo, tudo se joga entre o mais constrangedor silêncio, a electrónica de cadeira eléctrica e o brutalismo sonoro – extraído, a sangue frio, das vísceras de Stockhausen ou Penderecki –, a emoldurar 73 minutos de vómito e desdém, num exercício (por vezes, demasiado) grotesco e autoparódico de "slapstick" esquizóide, algures entre um Kafka irremediavelmente demente, um jogo de Scrabble dadaísta e uma versão de Eraserhead em registo de farsa "cut-up". Nicolae e Elena Ceausecu são executados aos som de "Jingle Bells", Reagan, Gorbachov, Rumsfeld, Simeão, o estilita, Frank Sinatra e Átila são convocados para o "cast", e, enquanto o chão nos foge debaixo dos pés e um catálogo de crueldades e abjecções é implacavelmente recitado, ainda 23 minutos antes de todo o teatro de escatologias (em ambos os sentidos) se concluir, Scott Walker faz a avaliação do esforço: “If you’re listening to this, you must have survived”. Sim, sobrevive-se com dificuldade nos caldeirões do Inferno e, se a experiência é impossível de esquecer, também nunca se dirá que é prazer o que dela se retira. Porque, absolutamente real ou desvairadamente distorcida, a imagem que vemos no espelho que Walker nos coloca à frente não é bonita.
... aos potenciais interessados mas, parecendo que não, aí na coluna dos "links", à direita, tem vindo a somar-se uma colecção bastante jeitosa de portas de acesso a riquíssimos e diversos baús de partituras online como, por exemplo (entre milhares de outras), esse "personal favourite" da imagem acima. A saber: