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10 March 2013
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20 February 2012
ELOGIO DA DISLEXIA

Camille - Ilo Veyou
Tal como certas personagens que adoramos odiar, Camille Dalmais inscreveu-se em Sciences-Po, em Paris. Mas rapidamente se apercebeu do seu tremendo erro, arrepiou caminho e – ao contrário de outros – decidiu reinserir-se socialmente, optando pela música. Conhecemo-la através dos Nouvelle Vague, esse divertimento de "easy-listening" chique entregue à missão de tropicalizar e reconfigurar para o "french-touch" algum reportório punk e new wave que se punha mais a jeito. Era dela a voz que escutámos a amaciar insolentemente "In A Manner Of Speaking" (Tuxedomoon), "Guns Of Brixton" (Clash), "Too Drunk To Fuck" (Dead Kennedys) e "Making Plans For Nigel" (XTC). Não foi a única pérola a ser gerada no interior da ostra-NV: devemos-lhe, igualmente, a óptima Phoebe Killdeer (& The Short Straws) de Weather’s Coming.
Camille, entretanto, gravou Le Sac des Filles (2002), Le Fil (2005) e Music Hole (2008), etapas preparatórias onde aqueceu os motores da experimentação vocal e da contenção instrumental – com tirocínio por peças de Benjamin Britten e presença na banda sonora de Ratatouille – que haveriam de desembocar neste magnífico Ilo Veyou, espécie de dislexização de “I Love You”. É fácil imaginá-la como uma Björk com os pés um pouco mais assentes na terra (mesmo que do ponto de vista do marciano que, em "Mars Is No Fun", prefere abandonar o seu planeta e “wander all afternoon in the shopping mall of Milton Keynes”), dedicada a "lullabies" imponderáveis, deliciosas paródias de patrioteirismo-Piaf (“La Suisse attire les comptes en banque, les anglais ont un humour exquis, le Nicaragua produit la cocaïne et la revend au meilleur prix, la France, la France des photocopies”), pseudo-exotismos minimalistas, bizarrias de "kindergarten" surreal. Mas Camille é única e irrepetível.
(2012)

Camille - Ilo Veyou
Tal como certas personagens que adoramos odiar, Camille Dalmais inscreveu-se em Sciences-Po, em Paris. Mas rapidamente se apercebeu do seu tremendo erro, arrepiou caminho e – ao contrário de outros – decidiu reinserir-se socialmente, optando pela música. Conhecemo-la através dos Nouvelle Vague, esse divertimento de "easy-listening" chique entregue à missão de tropicalizar e reconfigurar para o "french-touch" algum reportório punk e new wave que se punha mais a jeito. Era dela a voz que escutámos a amaciar insolentemente "In A Manner Of Speaking" (Tuxedomoon), "Guns Of Brixton" (Clash), "Too Drunk To Fuck" (Dead Kennedys) e "Making Plans For Nigel" (XTC). Não foi a única pérola a ser gerada no interior da ostra-NV: devemos-lhe, igualmente, a óptima Phoebe Killdeer (& The Short Straws) de Weather’s Coming.
Camille, entretanto, gravou Le Sac des Filles (2002), Le Fil (2005) e Music Hole (2008), etapas preparatórias onde aqueceu os motores da experimentação vocal e da contenção instrumental – com tirocínio por peças de Benjamin Britten e presença na banda sonora de Ratatouille – que haveriam de desembocar neste magnífico Ilo Veyou, espécie de dislexização de “I Love You”. É fácil imaginá-la como uma Björk com os pés um pouco mais assentes na terra (mesmo que do ponto de vista do marciano que, em "Mars Is No Fun", prefere abandonar o seu planeta e “wander all afternoon in the shopping mall of Milton Keynes”), dedicada a "lullabies" imponderáveis, deliciosas paródias de patrioteirismo-Piaf (“La Suisse attire les comptes en banque, les anglais ont un humour exquis, le Nicaragua produit la cocaïne et la revend au meilleur prix, la France, la France des photocopies”), pseudo-exotismos minimalistas, bizarrias de "kindergarten" surreal. Mas Camille é única e irrepetível.
(2012)
11 July 2008
O REGRESSO
Hoje, o segundo dia do "Oeiras Alive" não será tão ricamente preenchido como ontem – quando actuaram os Gogol Bordello (o delírio coisocigano em "overdrive"), The National (quase perfeição - a perfeição mesmo foi na Aula Magna) ou Vampire Weekend (óptimo concerto, som miserável) – mas, num programa em que figuram os Nouvelle Vague, a folia luso-balcânica da Kumpania Algazarra ou o kuduro dos Buraka Som Sistema, as atenções deverão concentrar-se sobre o (sempre imprevisível) momento em que Bob Dylan subirá ao palco. Veterano combatente da brigada grisalha que, este ano, se faz generosamente representar no Verão musical português (para além dele, virão também Lou Reed, Neil Young e Leonard Cohen), só nos seus anos de ouro da década de 60/início de 70 terá conhecido notoriedade idêntica aquela de que, agora, desfruta. Tudo começou verdadeiramente, há três anos, com a publicação do primeiro volume das suas Chronicles, uma evocação cronologicamente godardiana (isto é, com princípio, meio e fim, mas não necessariamente por essa ordem) e deliberadamente lacunar das três décadas que decorreram entre a sua chegada a Nova Iorque enquanto jovem “would-be” Woody Guthrie e a reentrada no número dos vivos, em 1989, com Oh Mercy. Seguir-se-iam o magnífico documentário de Martin Scorsese, No Direction Home, a reedição, em DVD, do outro, pioneiro, de D. A. Pennebaker, Dont Look Back, o álbum de fotos e memorabilia vária, The Bob Dylan Scrapbook 1956-1966, o ensaio essencial de Greil Marcus, Like A Rolling Stone – Bob Dylan at The Crossroads, o seu próprio e, novamente, excelente álbum, Modern Times e, para coroar a mais gloriosa ressurreição de um ícone da cultura pop americana, o puzzle audiovisual de Todd Haynes, I’m Not There. O Dylan-político parece também estar de regresso. Numa entrevista ao “Times” de 6 de Junho passado, declarou: “A América vive um período de convulsão. A pobreza é desesperante. Não podemos exigir que as pessoas exibam virtudes de pureza quando são pobres. Barack Obama procura redefinir a natureza da política, de alto a baixo. Tenho esperança que algumas coisas mudem. Porque só poderão mesmo ter de mudar”.
(2008)
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09 July 2008
EM ALTA-FELICIDADE
Algures em 2004, Marc Colin e Olivier Libaux tiveram a visão de uma jovem brasileira a cantar "Love Will Tear Us Apart", dos Joy Division, à beira do mar de Copacabana, nos anos 60. A visão autojustificou-se através de uma engenhosa sequência de sinónimos (bossa-nova = new-wave = nouvelle-vague) e, entoada no sotaque de Jean-Luc Godard e com o balanço de Jobim, pudemos escutar uma mão-cheia de canções dos Depeche Mode, Clash, Dead Kennedys, XTC, Undertones, Tuxedomoon, PIL, Sisters Of Mercy, Cure, Modern English, Killing Joke, Specials (e, claro, dos Joy Division), pelas vozes tépidas de Camille, Eloisia, Marina, Mélanie Pain, Siljia e Daniela D'Ambrosia. O género de néctar tipicamente estival que, não só teve o mérito de demonstrar como a expressão "música dos anos 80" (para além da referência cronológica) não significa rigorosamente nada, como se converteu no termoregulador de eleição dos momentos mais abrasadores de 2004.
Nouvelle Vague - "Dance With Me"
(Lords Of The New Church) + Bande à Part
(real. Jean Luc Godard):
poderia perfeitamente figurar aqui
Agora, quando o pesadelo "vaga de calor do norte de África" ameaça reentrar no vocabulário, a segunda investida dos Nouvelle Vague chega (não, certamente, por acaso) na altura exacta e — acreditemos no "remake" da ficção original — por via de uma outra revelação: um moço jamaicano, dedilhando à guitarra, na sua "township" de Kingston, "Heart Of Glass", dos Blondie. Reforçando a associação de conceitos inicial, o título (Bande à Part, já antes surripiado para o nome da produtora de Quentin Tarantino) é ostensivamente tomado de empréstimo a um Godard de 1964 mas a prateleira dos condimentos alarga-se para, além da bossa, incluir também a salsa, o calipso, o ska, o rocksteady e, naturalmente, o reggae.
Judiciosa e criteriosamente aplicados a "Killing Moon", dos Echo & The Bunnymen, "Ever Fallen In Love", dos Buzzcocks, "Bela Lugosi's Dead", dos Bauhaus, "Blue Monday", dos New Order, e a vários outros menos previsíveis dos Lords Of The New Church, Yazoo, Billy Idol, The Wake, Cramps, Sound, Heaven 17, Visage e Blancmange. Virou fórmula sazonal destinada a ser posta em prática, todos os anos, por esta altura? Com o aquecimento global a ajudar, é provável que sim. Mas, no capítulo das coisas fáceis, leves e frívolas, concebidas para serem exclusivamente escutadas em aparelhagens de Alta-Felicidade, há que reconhecer que não existe poção muito melhor.
Uma rápida revisão da matéria, no entanto, faz-nos descobrir que a receita foi inventada
já há um bom par de décadas, em Camino Del Sol, das Antena, La Varieté, dos Weekend, e considerável descendência jazz-cool-pop-bossa que, dessas sementes, decorreu. Pelo que se pode dizer que não faltará autoridade e legitimidade histórica ao "come back" de Toujours Du Soleil ("14 chansons bossa/samba/electro avec percussions latines et Moog tropicalia"), embora faça lembrar demasiado e com um atraso um tanto ou quanto embaraçoso, o "cocktail-jazz" de Sade e discípulos afins, por parte de quem (Isabelle Powaga/Antena) deveria, sim, reivindicar os pergaminhos de
fundadora do género. As reedições de The Prince Of Wales, Cardiffians, Tidal Blues e The Shady Tree (de Alison Statton com Ian Devine e Mark "Spike" Williams), por outro lado, ajudam a reconstituir o percurso de Statton pós-Young Marble Giants e pós-Weekend, entre a pop mais leve que o ar, as quase "nursery-rymes" de jardim infantil, uma ou outra partícula de vapor tropical, os bordados acústicos, a grelha minimal, a aguarela sonora impressionista e (em The Shady Tree) as especulações esotérico-matemáticas. Para a temível canícula que se avizinha, recomendam-se, muito especialmente, os dois primeiros.
(2006)
Algures em 2004, Marc Colin e Olivier Libaux tiveram a visão de uma jovem brasileira a cantar "Love Will Tear Us Apart", dos Joy Division, à beira do mar de Copacabana, nos anos 60. A visão autojustificou-se através de uma engenhosa sequência de sinónimos (bossa-nova = new-wave = nouvelle-vague) e, entoada no sotaque de Jean-Luc Godard e com o balanço de Jobim, pudemos escutar uma mão-cheia de canções dos Depeche Mode, Clash, Dead Kennedys, XTC, Undertones, Tuxedomoon, PIL, Sisters Of Mercy, Cure, Modern English, Killing Joke, Specials (e, claro, dos Joy Division), pelas vozes tépidas de Camille, Eloisia, Marina, Mélanie Pain, Siljia e Daniela D'Ambrosia. O género de néctar tipicamente estival que, não só teve o mérito de demonstrar como a expressão "música dos anos 80" (para além da referência cronológica) não significa rigorosamente nada, como se converteu no termoregulador de eleição dos momentos mais abrasadores de 2004. Nouvelle Vague - "Dance With Me"
(Lords Of The New Church) + Bande à Part
(real. Jean Luc Godard):
poderia perfeitamente figurar aqui
Agora, quando o pesadelo "vaga de calor do norte de África" ameaça reentrar no vocabulário, a segunda investida dos Nouvelle Vague chega (não, certamente, por acaso) na altura exacta e — acreditemos no "remake" da ficção original — por via de uma outra revelação: um moço jamaicano, dedilhando à guitarra, na sua "township" de Kingston, "Heart Of Glass", dos Blondie. Reforçando a associação de conceitos inicial, o título (Bande à Part, já antes surripiado para o nome da produtora de Quentin Tarantino) é ostensivamente tomado de empréstimo a um Godard de 1964 mas a prateleira dos condimentos alarga-se para, além da bossa, incluir também a salsa, o calipso, o ska, o rocksteady e, naturalmente, o reggae.
Judiciosa e criteriosamente aplicados a "Killing Moon", dos Echo & The Bunnymen, "Ever Fallen In Love", dos Buzzcocks, "Bela Lugosi's Dead", dos Bauhaus, "Blue Monday", dos New Order, e a vários outros menos previsíveis dos Lords Of The New Church, Yazoo, Billy Idol, The Wake, Cramps, Sound, Heaven 17, Visage e Blancmange. Virou fórmula sazonal destinada a ser posta em prática, todos os anos, por esta altura? Com o aquecimento global a ajudar, é provável que sim. Mas, no capítulo das coisas fáceis, leves e frívolas, concebidas para serem exclusivamente escutadas em aparelhagens de Alta-Felicidade, há que reconhecer que não existe poção muito melhor.
Uma rápida revisão da matéria, no entanto, faz-nos descobrir que a receita foi inventada
já há um bom par de décadas, em Camino Del Sol, das Antena, La Varieté, dos Weekend, e considerável descendência jazz-cool-pop-bossa que, dessas sementes, decorreu. Pelo que se pode dizer que não faltará autoridade e legitimidade histórica ao "come back" de Toujours Du Soleil ("14 chansons bossa/samba/electro avec percussions latines et Moog tropicalia"), embora faça lembrar demasiado e com um atraso um tanto ou quanto embaraçoso, o "cocktail-jazz" de Sade e discípulos afins, por parte de quem (Isabelle Powaga/Antena) deveria, sim, reivindicar os pergaminhos de
fundadora do género. As reedições de The Prince Of Wales, Cardiffians, Tidal Blues e The Shady Tree (de Alison Statton com Ian Devine e Mark "Spike" Williams), por outro lado, ajudam a reconstituir o percurso de Statton pós-Young Marble Giants e pós-Weekend, entre a pop mais leve que o ar, as quase "nursery-rymes" de jardim infantil, uma ou outra partícula de vapor tropical, os bordados acústicos, a grelha minimal, a aguarela sonora impressionista e (em The Shady Tree) as especulações esotérico-matemáticas. Para a temível canícula que se avizinha, recomendam-se, muito especialmente, os dois primeiros.(2006)
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BOSSA-NOVA (II)
(sort of)

Bulllet - Torch Songs For Secret Agents

Nouvelle Vague - Nouvelle Vague
É Verão e a mente vagueia. Naquele "mood" de gin-tonic na mão e Chandler sob os olhos, não estamos propriamente virados para Wagner, Archie Shepp ou Black Flag, pois não? É, então, o momento para a descida à terra dos espíritos do über-cool (e, aqui, façam o favor de ler "cool" nos três sentidos possíveis: 1) de "hipness"; 2) de "cool", como em "cool jazz"; 3) e de "frescura"). E eles não se fazem rogados. Torch Songs For Secret Agents podia mesmo ter sido concebido como programa de animação cultural das noites tropicais de Clubs Med um bocadinho menos, digamos assim... burgueses.
E, escrevo "burgueses" no mau sentido da palavra. Porque Torch Songs é completamente burguês no melhor sentido: aqui bebe-se do fino, a atmosfera é cuidadosamente perfumada, o perigo (convém haver perigo por causa do picante) está sob controlo e a decoração humana saiu directamente das passerelles para a chaise longue. Os Bulllet pisam o terreno das canções dos Balla, a paleta jazz/hip hop/sampladelica-com-narrativa-implícita pinga em tons-James Bond sobre as telas de Gauguin e, vá-se lá saber porquê, quando acenamos preguiçosamente a pedir um "refill" é Rita Hayworth quem nos vem servir. Nada mau, hein? O cenário alternativo não é pior. Começa por jogar com sinónimos: nouvelle vague, new wave, bossa nova.
Depois, fimando "on location in Paris" sob a direcção de Marc Collin e Olivier Libaux, escolhe como protagonistas criaturas de vozes e nomes celestiais como Camille, Eloisia, Marina, Mélanie Pain, Siljia ou Daniela D'Ambrosia (podiam ser todas protagonistas ou figurantes do filme anterior) e pede-lhes para cantar "Love Will Tear Us Apart", "Just Can't Get Enough", "Guns Of Brixton", "Too Drunk To Fuck", "Making Plans For Nigel" ou "Teenage Kicks" como se os Joy Division, Depeche Mode, Clash, Dead Kennedys, XTC ou Undertones fossem frequentadores assíduos de Copacabana. Os Tuxedomoon, PIL, Sisters Of Mercy, Cure, Modern English, Killing Joke e Specials também não se ficam a rir. Mas ficam todos, de certeza, a sorrir e de muito bom humor, com a caipirinha gelada que a Rita, ela de novo, lhes vem oferecer.
(2004)
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Bulllet - Torch Songs For Secret Agents

Nouvelle Vague - Nouvelle Vague
É Verão e a mente vagueia. Naquele "mood" de gin-tonic na mão e Chandler sob os olhos, não estamos propriamente virados para Wagner, Archie Shepp ou Black Flag, pois não? É, então, o momento para a descida à terra dos espíritos do über-cool (e, aqui, façam o favor de ler "cool" nos três sentidos possíveis: 1) de "hipness"; 2) de "cool", como em "cool jazz"; 3) e de "frescura"). E eles não se fazem rogados. Torch Songs For Secret Agents podia mesmo ter sido concebido como programa de animação cultural das noites tropicais de Clubs Med um bocadinho menos, digamos assim... burgueses.
E, escrevo "burgueses" no mau sentido da palavra. Porque Torch Songs é completamente burguês no melhor sentido: aqui bebe-se do fino, a atmosfera é cuidadosamente perfumada, o perigo (convém haver perigo por causa do picante) está sob controlo e a decoração humana saiu directamente das passerelles para a chaise longue. Os Bulllet pisam o terreno das canções dos Balla, a paleta jazz/hip hop/sampladelica-com-narrativa-implícita pinga em tons-James Bond sobre as telas de Gauguin e, vá-se lá saber porquê, quando acenamos preguiçosamente a pedir um "refill" é Rita Hayworth quem nos vem servir. Nada mau, hein? O cenário alternativo não é pior. Começa por jogar com sinónimos: nouvelle vague, new wave, bossa nova.
Depois, fimando "on location in Paris" sob a direcção de Marc Collin e Olivier Libaux, escolhe como protagonistas criaturas de vozes e nomes celestiais como Camille, Eloisia, Marina, Mélanie Pain, Siljia ou Daniela D'Ambrosia (podiam ser todas protagonistas ou figurantes do filme anterior) e pede-lhes para cantar "Love Will Tear Us Apart", "Just Can't Get Enough", "Guns Of Brixton", "Too Drunk To Fuck", "Making Plans For Nigel" ou "Teenage Kicks" como se os Joy Division, Depeche Mode, Clash, Dead Kennedys, XTC ou Undertones fossem frequentadores assíduos de Copacabana. Os Tuxedomoon, PIL, Sisters Of Mercy, Cure, Modern English, Killing Joke e Specials também não se ficam a rir. Mas ficam todos, de certeza, a sorrir e de muito bom humor, com a caipirinha gelada que a Rita, ela de novo, lhes vem oferecer.
(2004)
08 June 2008
OSSADAS E FANTASMAS
Phoebe Killdeer & The Short Straws - Weather’s Coming
Quantos “songwriters” conhecem capazes de declarar sem pestanejar que são fãs da música de Tom Waits desde... os oito anos? Phoebe Killdeer afirma-o e sobram as razões para a admirarmos por isso. Em primeiro lugar, porque, em situação idêntica – publicação de um álbum de estreia que transpira Waits por todos os poros –, o reflexo industrialmente condicionado da maioria seria negar a pés juntos que alguma vez lhe tivesse passado pelos tímpanos a música de tal personagem. Ou, no máximo, que “sim, é uma influência entre outras mas nada do outro mundo”.
Depois, e mais importante, porque sendo esse, obviamente, o modelo, ninguém, até hoje, conseguiu fazê-lo literalmente seu de uma forma tão entranhadamente individual. Weather’s Coming, após os primeiros ensaios com os Basement Jaxx e Nouvelle Vague, é, seguramente, a mais assombrosa estreia musical de 2008 do que, em rigor, se deverá descrever como PJ Harvey incorporando a alma de Tom Waits e levando de arrasto os também reivindicados Nick Cave, Carmen McRae e Yma Sumac: canções como desmazeladas teias de aranha que capturaram um ou dois despojos de ossadas rítmicas, meia dúzia de fantasmas de jazz esquartejado e cacos sortidos de banjos, tubas, ondas Martenot, vibrafones e guitarras epilépticas. Mais, já!

(2008)
23 January 2008
DOS MILAGRES
Susanna And The Magical Orchestra - Melody Mountain
Não se deixem iludir pela aparência de Nouvelle Vague-em-formato-escandinavo: Susanna Karolina Wallumrød e o ex-Jaga Jazzist, Morten Qvenild, podem ter gravado um álbum de versões de "clássicos" (e outros nem tanto) mas, daqui, não esperem frivolidades estivais a condizer com a margarita gelada. Melody Mountain é uma pequena preciosidade onde as canções são despidas de absolutamente tudo que não o essencial e, faixa a faixa, os milagres se sucedem:
"It's a Long Way To The Top" (dos AC/DC), apenas cravo, orgão e voz, e "Crazy, Crazy Nights" (Kiss), voz e electrocardiografia electrónica, passariam bem por Linda e Richard Thompson, "Condition Of The Heart" (Prince) é um "lied" em renda de Flandres, "Don't Think Twice" (Dylan) desfila por uma passerelle entre sepulcros, "Fotheringay" (Sandy Denny) é Nico "lost in space", "Love Will Tear Us Apart" (Joy Division) faria o próprio Ian Curtis desfazer-se em pranto e "Hallelujah" (Leonard Cohen) acede, finalmente, à condição de salmo a que sempre aspirou. Scott Walker ("It's Raining Today"), Matt Burt ("These Days") e Depeche Mode ("Enjoy The Silence") fecham um círculo de incondicional rendição. (2006)
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