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26 August 2022

IMPURÍSSIMO CHUVEIRO
Mesmo antes de ser repugnante, a defesa da suposta “pureza” de povos e culturas é absolutamente incompreensível. Seja pela via do nazi-fascismo "old-school" seja pelo seu simétrico contemporâneo que se encarniça contra a chamada “apropriação cultural” – isto é, contra toda a riquíssima história das culturas do planeta que sempre se contaminaram, cruzaram e mutuamente transformaram –, desses caldeirões de tribalismo, territorialidade e xenofobia apenas poderiam resultar monstruosidades endogâmicas geradas num "pool" genético empobrecido. Espreitando do outro lado da questão, tudo é, obviamente, diferente: o mundo é gloriosamente mestiço, bastardo e impuro e, para o que agora importa, Giant Palm, de Naima Bock, é, no que à música respeita, um dos seus mais vibrantes exemplos recentes. Nascida em Glastonbury de pai brasileiro e mãe grega, viveu a infância no Brasil e. no regresso ao Reino Unido, alistou-se nas Goat Girl, quarteto feminino de "art-punk" que, na véspera do dia em que assinaria contrato com a Rough Trade, assistiria enraivecido à vitória do Brexit (“I honestly do think that someone spiked their drinks, how can an entire country be so fucking thick? Hold tight to your pale ales, bite off your nationalist nails”, cantariam elas em "Scum"’, prefácio ao óptimo album de estreia de 2018). (daqui; segue para aqui)

31 December 2018

2018 - Videoclips

Poliça + s t a r g a z e - "How Is This Happening"
 



Laurie Anderson & Kronos Quartet - "CNN Predicts a Monster Storm"





Low - "Dancing and Blood"




Anna Calvi - "Don't Beat the Girl out of My Boy"




Exit North - "Spider"
 




The Monochrome Set - "Stage Fright"
 



David Byrne - "Everybody's Coming To My House"
 



Goat Girl - "Scum"
 



Stick In The Wheel - "Abbots Bromley Horn Dance"
 



Tune-Yards - "Honesty"




Toda a colecção "Thankful Villages" (Darren Hayman)

01 May 2018

EM FÚRIA 


Na sexta-feira 24 de Junho de 2016 – o dia a seguir ao referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia que os partidários do Brexit venceram com 51.9% dos votos – Clottie Cream, L.E.D., Naima Jelly e Rosy Bones assinavam contrato nos escritórios da Rough Trade. Porém, para as quatro Goat Girl, o momento foi agridoce: a felicidade por, sem sequer um único single gravado, terem recebido a benção da histórica "indie" era amargada pela consciência do tremendo disparate político que pouco mais de metade do país, na véspera, havia cometido. Sem vontade para medir as palavras, três meses depois, publicavam "Scum" – “I honestly do think that someone spiked their drinks, how can an entire country be so fucking thick? Hold tight to your pale ales, bite off your nationalist nails, we're coming for you, please do fear, you scum aren't welcome here” –, exercício de libertação da bílis acompanhado por um video de Holly Whitaker no qual duas dezenas de pessoas, uma a uma, são alimentadas à força. Não é abusivo dizer que, sob coordenadas estéticas diferentes, as Goat Girl são o equivalente do Sul de Londres aos "east londoners", Stick In The Wheel: gente decididamente enraivecida com a História política e social recente do país e da cidade e com muito pouca vontade de se manter em silêncio. 



Mas, se o grupo de Nicola Kearey e Ian Carter prefere uma rudeza folk de recorte modernista, o álbum de estreia homónimo das Goat Girl tanto faz pensar nas Throwing Muses como nas Slits, PJ Harvey ou até na sonoridade ferruginosa de Tom Waits. Elas, quando interrogadas, referem os Silver Jews, The Fall, Patti Smith, Billie Holiday e Sonic Youth. Algures entre Peckham e Brixton, zonas por enquanto libertadas da erosão gentrificadora, numa cena cujo polo é o "pub" The Windmill e o “So Young Magazine” a central informativa, pertence ao novíssimo quarteto feminino a mais intrépida voz: em fúria contra os pequenos pulhas anónimos (“Creep on the train with his creepy gold chain, creep on the train with his dirty trouser stain, I really want to smash your head in”), amotinada contra a corja política (“Build a bonfire, put the Tories on the top, put the DUP in the middle and we’ll burn the fucking lot”) e a sua acção tóxica (“Phallic building, cyanide killing all that was clear, find an antidote for this accumulating smoke”), e capaz de transformar uma canção do "musical" Bugsy Malone (1976) em palavra de ordem: “I was born to be a dancer, I won't take no for an answer”.