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18 April 2022

"A Prenda dos Amantes"

(sequência daqui) O método arquitectural-Martins? “Além da melodia, temos as quatro vozes de um côro clássico (soprano, alto, tenor e baixo/barítono). Dobradas, são sempre oito vozes que estão ali”. Adaptadas e configuradas à medida de cada canção: “O arranque de ‘O Meu Coração Emigrou’ é um acorde-pedal feito por um brinquedo, um pião, que, quando é posto a girar, emite um som, um pouco como o das taças tibetanas. ‘A Prenda dos Amantes’ é o único tema em que a Amélia está sozinha a cantar (ou quase). Electronicamente, criei duas caixas de ritmo e um xilofone. Só no refrão aparece outra voz e o violoncelo da Catarina”. Abandonadas na oficina, à espera de reparação ou do raio-Frankenstein que lhes insuflasse vida feliz, estiveram "D. Falcão" (“Este poema da Hélia Correia é um dos temas mais antigos. Esteve quase para entrar no Taco A Taco. Deixei-o em suspenso porque a melodia nunca me agradou muito, o lado instrumental também não, nunca conseguiu descolar. Retrabalhei a melodia, e introduzi-lhe algumas variações que faziam falta”), "Fica Mais Um Bocadinho" (“Foi composto pelo Michales Loukovikas para as Maria Monda que não chegaram a cantá-lo. É dos temas que mais vai ser transformado ao vivo. Dá muito mais pano para mangas, é um tema em transito”) e "Un Recuerdo" (“Há muito tempo que me apetecia fazer alguma coisa com a poesia da Alfonsina Storni. Seria possível fazer um tango só com vozes? Foi o tema mais difícil. Todas estas sílabas são dificílimas de dizer, quase desisti. Foi preciso abandoná-lo duas ou três vezes...”). E, a deixar portas abertas, há a "Versão Condensada do Nascimento dos Desertos": “Tinha este poema há muito tempo. A música foi já feita completamente dentro do espírito das vozes. É mais outra daquelas sobre as quais, em palco, vou variar imenso. Posso fazer o que quiser porque, sobre esta base, ficará sempre bem”. Ou apenas entreabertas: “Do Múgica – que era uma matriz de caminhos musicais onde estava já tudo que, depois, fui aprofundando - a Amélias, comecei com o nome de família, vou acabar com o nome próprio. Não sei se acaba mesmo ou se fecha apenas um ciclo. Não sei como vou iniciar outro. Se calhar, já não o farei”.

15 April 2022

 

"Meu Coração Emigrou"

(sequência daqui) Mas como surgiu, afinal, a ideia para um álbum no qual, à excepção de José Salgueiro (percussões e fliscorne) e Catarina Anacleto (violoncelo), apenas se escutam a(s) voz(es) de Amélia Muge sobrepostas no mil-folhas sonoro dos arranjos e cenografia electrónica de António José Martins? “Durante a pandemia quando, aparentemente, não era possível fazer nada e a própria disponibilidade mental nos obrigava a estar quase todo o dia frente à televisão a tentar perceber o que se passava. Por outro lado, parecia que a única coisa que tínhamos era a voz, só contactávamos com as outras pessoas através do telefone. Perante isto, pensei que fazer um novo trabalho era quase uma questão de sobrevivência mental. Por outro lado, o que poderia eu fazer que usasse o mínimo de recursos possivel dado que o contacto com outros músicos seria complicado? Claro que ter o António José Martins é logo possuir os recursos de uma central nuclear. Pensei, pois, no Zé mais as vozes de mim. E foi isso que aconteceu. À medida que se foi avançando com o trabalho, mais eu percebi que trabalhar apenas com esta ideia da voz não era um recurso pequeno, era um recurso enorme. Ligado a toda a experiência e a todas as memórias. Não numa atitude de 'antes era tão bonito, eu podia fazer isto, ai agora já não posso', mas como recurso a retirar de uma experiência vivida que nos permite ir um bocadinho mais além. Isso, articulado com o conhecimento que tenho do trabalho de outros músicos como a Laurie Anderson, as Zap Mama ou, mais recentemente, as Cocanha e os San Salvador. Houve sempre muita gente com quem trabalhei ou que ouvi e que iam tendo um bocadinho a ver com a minha própria experiência. Cada um ouve como pode e como sabe. Sabia que podia diversificar a minha voz em matéria de timbres, de alturas, de ressonâncias. Tinha as minhas experiencias com os outros e o conhecimento daqueles com quem nunca trabalhei mas sempre me inspiraram. Uma voz é feita de muitas vozes”. (segue para aqui)

13 April 2022


"O Tempo Arrefece"

(sequência daqui) Acerca de "O Tempo Arrefece", António José Martins acrescenta mais uma peça: “Dado o caracter estranho e vagamente fantasmagórico desta canção, pensámos ‘quais os coros cujos ambientes são mais misteriosos?...’ As Vozes Búlgaras! Este arranjo foi feito pensando um pouco que se trataria de Vozes Búlgaras numa geografia completamente diferente. Foi composta originalmente, há bastante tempo, para um cantor lírico que a cantou no Mosteiro dos Jerónimos. Agora, foi preciso esquecer totalmente o arranjo original para orquestra”. E Amélia, recordando, justamente, a colaboração, durante a Expo 98, com as búlgaras do Pirin Folk Ensemble (mas também, noutras circunstâncias, com Elena Ledda e Lucilla Galeazzi e os corais Outra Voz, Cramol, Sopa de Pedra, Segue-me à Capela e Maria Monda), completa: “A minha ideia era ter como referências todas as experiências que fui vivendo com vozes e com coros. A relação com as Vozes Búlgaras era algo que me apetecia perceber como haveria de estar presente neste trabalho. Recusei por completo a ideia de põr-me a cantar como elas. A situação é um pouco a mesma do ‘Chove Muito, Chove Tanto’: tinha uma coisa na memória e procurei construir, a partir daí, associando-lhe a recordação dos fins de tarde na Póvoa de Varzim a ver o voo das gaivotas”. (segue para aqui)

11 April 2022

UMA VOZ FEITA DE MUITAS VOZES 

Ainda procurávamos espreitar por entre as palavras (“A noite entrelaça seus riscos de sombra, e luzes no escuro são quase penumbra, são gestos de gestos, no afã do afã, parece um Pollock sonhando a manhã”) quando, como quem pensa alto, Amélia Muge deixa cair “Este disco está um bocadinho entre o canto dos Neanderthal e o HAL 9000 do 2001 Odisseia no Espaço”. Ela (e o co-autor António José Martins) já tinham esclarecido que, para um exercício de audição assistida de Amélias – 12º volume de um percurso iniciado em 1992 com Múgica –, nunca se trataria de “explicar os temas mas de falar acerca das ideias de base sobre as quais foram contruídos”. Largámos, então, o Paleolítico Superior, a "action painting" e Van Gogh, Miró e Chagall com quem já nos havíamos cruzado antes, e, entrando pelo labirinto dentro, a propósito de "Chove Muito, Chove Tanto" (com texto da irmã, Teresa Muge), os contornos tornam-se um pouco mais nítidos: “Este texto da Teresa remeteu-me muito para as minhas memórias de infância. Eu não comecei como os outros meninos. O meu universo musical não foi o do que ‘estava a dar na rádio’ mas o de gente que, em Moçambique, cantava à minha volta.



As minhas primeiras memórias do canto colectivo são, quando tinha cerca de três ou quatro anos, ter ido para um miradouro de Maputo de onde se via um mar fantástico, com as várias amas negras – umas 20 ou 30 – dos vários meninos e onde elas cantavam em lingua ronga e dansavam. É evidente que não me lembro nada do que elas faziam, isto já é uma invenção, uma pura ficção, sobre uma experiência que eu sei que vivi. Quis fazer recuando eu, como personagem, aquele tempo. Até porque, se calhar, as memórias que tenho não correspondem exactamente ao que elas faziam mas aquilo que eu, com aquela idade e sendo de outra cultura, consegui absorver como experiência sonora fortíssima”
. (daqui; segue para aqui)