Estão a pensar, no Ministério da Cultura e no estádio do Algarve pensa-se muito... (e, certamente, hão-de encharcar-se de empatia por quem investe "energia em arte positiva e com sentido: música, roupa, design e outras novas ideias para ajudar o mundo")
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15 April 2026
05 March 2019
A CHAMA NUNCA SE EXTINGUIU
“Quando era miúdo e pedia dinheiro ao meu pai para ir comprar guloseimas na loja da esquina, ele dizia-me para procurar trocos nos bolsos do casaco. Invariavelmente, descobria um bloco de notas enquanto lhe vasculhava os bolsos. Mais tarde, se lhe pedia fósforos ou um isqueiro, nas gavetas, encontrava pilhas de papel e blocos de notas. Uma vez, perguntei-lhe se tinha 'tequilla' e disse-me para ir ver ao congelador onde dei também com um bloco de notas extraviado. Na verdade, conhecer o meu pai era (entre muitas outras coisas maravilhosas) conhecer um homem com papéis, blocos de notas, guardanapos – primorosamente manuscritos – espalhados (cuidadosamente) por todo o lado. Vinham de noites dormidas em hotéis ou de lojas de conveniência; os que eram dourados, de pele, vistosos ou mais sofisticados, nunca lhes dava uso. O meu pai preferia utensílios modestos. (...) Escrever era a sua razão de ser. Era o fogo de que cuidava, a chama mais intensa que alimentava. Nunca se extinguiu”, escreve Adam Cohen no prefácio de The Flame, recolha póstuma de textos do pai, Leonard.
Dividido em três partes – na primeira, 63 poemas inéditos escolhidos pelo próprio Leonard Cohen de um espólio de várias décadas; na segunda, os textos dos últimos três álbuns (Old Ideas, 2012, Popular Problems, 2014, You Want It Darker, 2016) e de Blue Alert, de Anjani Thomas (2006), para o qual também escreveu os textos; na terceira, uma recolha da vastíssima colecção de entradas dos "notebooks" –, o poema de abertura ("Happens To The Heart", 24 de Junho de 2016) é, de certo modo, a antecipação de tudo o que preencherá as cerca de 300 páginas: “I was always working steady/But I never called it art/I was funding my depression/Meeting Jesus reading Marx/Sure it failed my little fire/But it’s bright the dying spark/Go tell the young messiah/What happens to the heart”. Outras tantas páginas seriam necessárias para reflectir como se deve sobre estas canções a que apenas falta (mas se pressente) a melodia, a estes impulsos de sarcasmo e provocação (“Kanye West is not Picasso/I am Picasso/Kanye West is not Edison/I am Edison/I am Tesla/Jay-Z is not the Dylan of anything/I am the Dylan of anything/I am the Kanye West of Kanye West”), e de poético absurdo (“My lawyer tells me not to worry/Says that junk has killed the revolution/Leads me to the penthouse window/Tells me of his plan/ To counterfeit the moon”). Não serão 300 mas ficar por aqui seria imperdoável.
19 August 2012
ÁGUA E AZEITE
Dirty Projectors - Swing
Lo Magellan
David Longstreth é o tipo que, como quem
fala do tempo, explica que a súbita aparição orquestral a meio de "Dance For
You" é apenas ele “a tentar compreender como raio o Ligeti, em Atmosphères,
conseguiu extrair aquelas texturas insanas e futuristas de uma orquestra
igualzinha às do século XIX”. E que, a seguir, revela que vê na ponte de "About To Die" “uma pobre filha
bastarda de Verklärte Nacht, do Schoenberg”, através da qual procurou atingir
a mesma sensação “macabra, mórbida e aterradora” para que também Monster, de
Kanye West, e Thriller, de Michael Jackson, contribuiram enquanto
catalizadores. Ah, e ainda em "Dance For You", a guitarra e as cordas têm uma
dívida a pagar a "Mambo Sun", dos T. Rex. Para não falar da conta calada que
deverão somar os empréstimos pedidos aos Run DMC, NWA ("Gun Has No Trigger"),
Nirvana e Lil Wayne ("Offspring Are Blank"), Peter, Paul & Mary ("Just From Chevron") e Neil Young ("Irresponsible Tune"). Estamos,
então, perante o quase perfeito protótipo de banda retromaníaca de que falava
Simon Reynolds?
Errado. Erradíssimo. Embora de forma
completamente diferente, poderá tratar-se, sim, de caso idêntico ao dos Field
Music: outro exemplo acabado de que a aventura prog não devia, inevitavelmente, ter acabado em tragédia. Só mais uma
espreitadela pelo buraco da fechadura do cérebro de Longstreth: em Abril
passado, na página online da Brown
University, de Providence, descobria-se que, a pedido de David Longstreth,
Willis Monroe e Zack Wainer, estudantes de Assiriologia, se haviam dedicado a
traduzir "Gun Has No Trigger" para acadiano, tendo Monroe gravado o texto em
escrita cuneiforme. Qual a razão? Exactamente a mesma que para o "cameo" de Ligeti em "Dance For You":
“Tenho uma enorme curiosidade em relação a imensas coisas. Sou um estudante. E
intriga-me o problema e a dificuldade da tradução para idiomas que não existiam
há milhares de anos”.
Chegámos ao ponto: aquilo de que a música
dos Dirty Projectors se ocupa é de, sob um ângulo que tem tanto de calculado
como de "stream of consciousness" – nas
melodias, nos textos, nos arranjos, na instrumentação –, traduzir para uma
linguagem ainda sem nome, inúmeros fragmentos da história sonora (mais ou
menos) recente, apostando tudo no que, por aí, se ganha e se perde, autorizando
e encorajando uma estratégia de construir edifícios aparentemente destinados ao
colapso. Como quem insiste em misturar água e azeite... e consegue. Poderia ser
outra qualquer mas a pérola "See What She Seeing" é assaz esclarecedora:
burburinho rítmico de "drum’n’bass" de
vão de escada (na verdade, caixa de guitarra acústica percutida) para um lado,
voz solista e coros daquele recorte “africano” que Paul Simon e os Vampire
Weekend preferem para outro, riff curvo para cima, secção de cordas para baixo,
e, algures, ninguém será capaz de garantir exactamente onde, aparece uma
canção. Sem esforço evidente, o fulano que escutava os álbuns dos Beatles,
primeiro, na coluna direita e, depois, na esquerda, e mais óbvio candidato a
Zappa contemporâneo com sensibilidade pop (não excluir, à cautela, a hipótese tUnE-yArDs),
salta do "high life" para o
psicadelismo à la Jefferson Airplane,
de "Strawberry Fields" para “the kind of silence that can swallow sound”, do
esgotamento nervoso sónico para erráticas canções-origami e, no processo
comandado por uma ideia – “You’d see a million colours if you really looked” –,
após o já magnífico Bitte Orca (2009), inventa
música como nunca antes a havíamos ouvido.
Labels:
Dirty Projectors,
Field Music,
Grace Slick/Jefferson Airplane,
Kanye West,
Kurt Cobain,
Ligeti,
linguagem,
Michael Jackson,
Paul Simon,
Schoenberg,
Simon Reynolds,
T. Rex,
Tune Yards,
Vampire Weekend,
Zappa
01 September 2011
DA VIDA DA MÚSICA E DAS IMAGENS

The Suburbs - Arcade Fire & Spike Jonze (CD + DVD)
As excepções à norma são inúmeras. Mas o que sugere a epígrafe de Keats que Claudia Gorbman colocou no inicio de Unheard Melodies – Narrative Film Music (“Heard melodies are sweet, but those unheard are sweeter”, de “Ode On A Grecian Urn”) e que, ao longo das cerca de duzentas páginas de uma das “bíblias” dedicadas ao estudo e investigação da música para cinema, desenvolve, é a ideia segundo a qual uma banda sonora será tanto mais eficaz quanto mais subconsciente e subliminarmente concretizar a sua missão de sublinhar, enfatizar ou contrariar o sentido daquilo que a imagem, por si só, não seria capaz de transmitir. Em meia dúzia de linhas: “a música actua como um dispositivo de sutura, auxiliando no processo de transformar a enunciação em ficção, diminuindo a consciência da natureza tecnológica do discurso fílmico. (...) Eu oiço (não muito conscientemente) esta música que as personagens não ouvem, eu existo neste banho de emoções, esta é a minha história, a minha fantasia, que se desenrola perante mim e para mim no ecrã (e das colunas de amplificação para fora)”.

Um outro peculiar efeito colateral da coabitação entre cinema e música encontra-se no modo como sonoridades pouco ou nada "mainstream" podem ser incluídas, sem desconforto, num filme comercial (quem, fora do ecrã, estaria disposto, em 1956, a consumir a quase hora e meia das "electronic tonalities", de Louis e Bebe Barron, para Forbidden Planet?) ou no efeito de transfiguração exercido sobre espécimes musicais esteticamente desfavorecidos devido ao facto de terem coexistido com aquela narrativa visual (a filmografia integral de Tarantino). Mas, verdadeiramente interessante é assistir, em directo, à forma como todos estes pontos de vista são confirmados em Scenes From The Suburbs, o filme de cerca de meia hora que Spike Jonze realizou, inspirado no último álbum dos Arcade Fire.
Abundantemente premiado e avidamente consumido, The Suburbs não era, contudo, senão mais um exemplo daquela variedade de pop/rock messiânico e pomposo (ainda que assaz derivativo da era "prog" e dos épicos "à la" Springsteen) que a banda canadiana registou como marca própria e que apenas teve de aguardar o tempo necessário para cumprir a previsível trajectória de minoritário produto "indie" até à recepção em glória pelas massas. Já seria suficientemente interessante que, daí, pudesse ter resultado um argumento de perturbadas memórias de adolescência, encenadas em cenário distópico de sci-fi, no pesadelo climatizado de uns imaginários subúrbios de Austin, sob lei marcial (a inspiração, segundo Win Butler – co-argumentista com Jonze e o irmão, William – terá vindo tanto dos filmes de Terry Gilliam, quanto de Red Dawn, de John Milius, ainda que Virgin Suicides, de Sofia Coppola, também pudesse ser convocado a depor).
Verdadeiramente notável, porém, é a dupla transformação que, neste novo contexto, as canções dos Arcade Fire sofrem: constrangidas a um obrigatório segundo plano, cumprem plenamente o objectivo de actuarem como discreta e indispensável fonte de alimentação narrativa complementar; mas, potenciadas pelo fluxo fragmentário das sequências, ganham um sentido infinitamente mais denso e rico do que quando se encontravam exclusivamente entregues a si próprias, na superfície cega do CD. A fechar o círculo, não é menos curioso que o videoclip criado para "The Suburbs" (também de Spike Jonze, para além da obra cinematográfica – Being John Malkovich, Adaptation, Where The Wild Things Are –, com já vasto currículo na matéria, dos Sonic Youth a Björk, R.E.M ou Kanye West), ao inverter os papéis e voltar a atribuir, naturalmente, o primeiro plano à música, deixando às imagens (uma montagem/trailer do próprio filme) um desígnio meramente ilustrativo, o empobrecimento de sentido seja absolutamente notório e drástico. Tudo pesado, uma reedição de The Suburbs que vale, sem dúvida a pena.
(2011)

The Suburbs - Arcade Fire & Spike Jonze (CD + DVD)
As excepções à norma são inúmeras. Mas o que sugere a epígrafe de Keats que Claudia Gorbman colocou no inicio de Unheard Melodies – Narrative Film Music (“Heard melodies are sweet, but those unheard are sweeter”, de “Ode On A Grecian Urn”) e que, ao longo das cerca de duzentas páginas de uma das “bíblias” dedicadas ao estudo e investigação da música para cinema, desenvolve, é a ideia segundo a qual uma banda sonora será tanto mais eficaz quanto mais subconsciente e subliminarmente concretizar a sua missão de sublinhar, enfatizar ou contrariar o sentido daquilo que a imagem, por si só, não seria capaz de transmitir. Em meia dúzia de linhas: “a música actua como um dispositivo de sutura, auxiliando no processo de transformar a enunciação em ficção, diminuindo a consciência da natureza tecnológica do discurso fílmico. (...) Eu oiço (não muito conscientemente) esta música que as personagens não ouvem, eu existo neste banho de emoções, esta é a minha história, a minha fantasia, que se desenrola perante mim e para mim no ecrã (e das colunas de amplificação para fora)”.

Um outro peculiar efeito colateral da coabitação entre cinema e música encontra-se no modo como sonoridades pouco ou nada "mainstream" podem ser incluídas, sem desconforto, num filme comercial (quem, fora do ecrã, estaria disposto, em 1956, a consumir a quase hora e meia das "electronic tonalities", de Louis e Bebe Barron, para Forbidden Planet?) ou no efeito de transfiguração exercido sobre espécimes musicais esteticamente desfavorecidos devido ao facto de terem coexistido com aquela narrativa visual (a filmografia integral de Tarantino). Mas, verdadeiramente interessante é assistir, em directo, à forma como todos estes pontos de vista são confirmados em Scenes From The Suburbs, o filme de cerca de meia hora que Spike Jonze realizou, inspirado no último álbum dos Arcade Fire.
Abundantemente premiado e avidamente consumido, The Suburbs não era, contudo, senão mais um exemplo daquela variedade de pop/rock messiânico e pomposo (ainda que assaz derivativo da era "prog" e dos épicos "à la" Springsteen) que a banda canadiana registou como marca própria e que apenas teve de aguardar o tempo necessário para cumprir a previsível trajectória de minoritário produto "indie" até à recepção em glória pelas massas. Já seria suficientemente interessante que, daí, pudesse ter resultado um argumento de perturbadas memórias de adolescência, encenadas em cenário distópico de sci-fi, no pesadelo climatizado de uns imaginários subúrbios de Austin, sob lei marcial (a inspiração, segundo Win Butler – co-argumentista com Jonze e o irmão, William – terá vindo tanto dos filmes de Terry Gilliam, quanto de Red Dawn, de John Milius, ainda que Virgin Suicides, de Sofia Coppola, também pudesse ser convocado a depor).
Verdadeiramente notável, porém, é a dupla transformação que, neste novo contexto, as canções dos Arcade Fire sofrem: constrangidas a um obrigatório segundo plano, cumprem plenamente o objectivo de actuarem como discreta e indispensável fonte de alimentação narrativa complementar; mas, potenciadas pelo fluxo fragmentário das sequências, ganham um sentido infinitamente mais denso e rico do que quando se encontravam exclusivamente entregues a si próprias, na superfície cega do CD. A fechar o círculo, não é menos curioso que o videoclip criado para "The Suburbs" (também de Spike Jonze, para além da obra cinematográfica – Being John Malkovich, Adaptation, Where The Wild Things Are –, com já vasto currículo na matéria, dos Sonic Youth a Björk, R.E.M ou Kanye West), ao inverter os papéis e voltar a atribuir, naturalmente, o primeiro plano à música, deixando às imagens (uma montagem/trailer do próprio filme) um desígnio meramente ilustrativo, o empobrecimento de sentido seja absolutamente notório e drástico. Tudo pesado, uma reedição de The Suburbs que vale, sem dúvida a pena.
(2011)
Labels:
Arcade Fire,
Björk,
cinema,
Claudia Gorbman,
Forbidden Planet,
Kanye West,
Louis e Bebe Barron,
R.E.M.,
sci-fi,
Sofia Coppola,
Sonic Youth,
Spike Jonze,
Springsteen,
Tarantino,
videoclips
01 August 2011
PATCHWORK
Bon Iver - Bon Iver
O tipo que, há três anos, procedendo de acordo com o manual de instruções do bom hippie, se recolheu à proverbial cabana no bosque e aí sublimou desastres sentimentais em acordes de guitarra acústica e melodias entoadas por uma voz de querubim castrado (assim o escutámos em For Emma, Forever Ago), já não existe. Esclareça-se: Justin Vernon/Bon Iver continua vivo e, como se imaginaria, facialmente hirsuto, mas aquilo que se descobre no homónimo segundo álbum não poderia situar-se mais longe da folk que rima com riachos e adejar de colibris. Acompanhar Kanye West em My Beautiful Dark Twisted Fantasy deve ter-lhe arejado as ideias de tal modo que, em comparação com For Emma, Bon Iver soa quase... wagneriano.
O incomodativo "falsetto" permanece mas, integrado como, agora, se acha numa muito mais rica paleta de timbres e enquadramentos sonoros – cada canção, como que, concretizando, em miniatura, o projecto dos cinquenta estados de Sufjan Stevens, ostenta o nome de uma cidade, real ou imaginária, e respectivo cenário musical –, actua como apenas mais um recurso quase instrumental nesta colecção de amáveis experimentalismos de câmara. Das frágeis fantasmagorias electrónicas de "Hinnom, TX" e "Lisbon, OH", à pop cripto-byrdsiana de "Towers", às sinfonias de bolso de "Wash." e "Michicant" (percursos improváveis entre cordas, orgão litúrgico, valsa de carrossel em câmara lenta e micro-improviso "free form" liquefeito), ao simulacro de Peter Gabriel de "Calgary" ou ao francamente óptimo mosaico de "Perth", o "free-folk" poderá ter perdido um dos seus profetas mas a pop (na ausência de qualificação mais apropriada) é bem capaz de ter ganho um novo artesão particularmente talentoso no domínio do "patchwork".
(2011)
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