Madonna - Confessions II - The Movie
Showing posts with label Arca. Show all posts
Showing posts with label Arca. Show all posts
09 June 2026
11 December 2017
À PROCURA DE CANÇÕES
Libellus vere aureus, nec minus salutaris quam festivus, de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia (“Um pequeno livro verdadeiramente dourado, não menos benéfico que divertido, sobre o melhor estado de uma república e a nova ilha Utopia"), – simplificando, a Utopia (1516) – seria o relato feito a Thomas More pelo imaginário navegador português, Rafael Hitlodeu, no qual ele descreve uma também imaginária sociedade ideal que teria descoberto numa ilha do Novo Mundo. Fundamentalmente igualitária e abominando a propriedade privada, andava, porém, longe da perfeição: cada família possuía dois escravos; as mulheres deviam confessar os seus pecados aos maridos mensalmente; a deslocação dentro da ilha só era permitida com autorização superior sob pena de escravatura, castigo igualmente aplicado em caso de adultério; e todas as religiões eram aceites mas os ateus eram mal vistos e persuadidos a corrigir o seu “erro”.
Quinhentos anos depois, pareceu a Björk ser altura de imaginar uma nova Utopia: “Se, alguma vez, ser optimista foi urgente, agora é-o mais do que nunca. Em vez de resmungarmos e nos zangarmos, há que apresentar sugestões acerca de como deverá ser o mundo onde, no futuro desejamos viver”, desabafou ao “New York Times”. E, à “Pitchfork”, acrescentou: “Nestes tempos de Trump, é necessário ter um plano, um manifesto, uma alternativa. É uma questão de vida ou de morte para a nossa espécie. Como música, posso sugerir um ângulo poético: após tantas tragédias, há que inventar, tricotar ou bordar um novo mundo”. E, candidamente, descreve a sua Utopia (e respectivo álbum em que a apresenta): “Uma cidade nas núvens, liberta da gravidade, flutuando no ar”. Ou – porque, confessa, tem andado a ler obras de ficção-científica de autoras lésbicas negras –, “uma fuga organizada para uma ilha onde só há mulheres e crianças, toda a gente anda nua e toca flauta, a violência é desconhecida, e há pássaros e plantas jamais vistos”.
Oscar Wilde estava carregado de razão quando escreveu que “Um mapa do mundo que não inclua a Utopia não merece sequer ser olhado de relance”. O problema com a Utopia de Björk é que, mesmo descontando a imensa e embaraçosa ingenuidade, é coisa perigosamente próxima dos piores pesadelos "hippie-new-age", em reprovável promiscuidade com tiradas de "coach" de auto-ajuda. O plano inclinado começara já em Vulnicura (2015) – relato psicoticamente cronológico da separação de Matthew Barney – mas, se esse foi o álbum das trevas, este pretenderia ser o da luz e da redenção. No entanto (de novo com Arca/Alejandro Ghersi enquanto co-produtor e quase co-autor), o que se oferece para escutar é uma sucessão desnecessariamente longa de texturas, efeitos, sobreposições de vozes e timbres desesperadamente à procura de canções (Björk chama-lhe “uma rebelião optimista contra a melodia narrativa normal”), uma esgotante jornada na qual, de baixo de cada pedra saltam passarinhos, flautas, harpas e coros apropriadamente “paradisíacos”, e não se descobre um único texto que não soe pateticamente ridículo.
Ele há os tântrico-esotéricos (“My sexual DNA, X-rays of my Kama Sutras, summons different bodies, compares spines and buttocks and back of necks” ou “Then my body memory kicks in, all bosoms and embraces, oral, anal entrances, enjoy the satisfaction if the other is growing”), os feministas-matriarcais (“All trapped in legal harness, Kafkaesque farce like patriarchy” e “Watch me form new nests, weave a matriarchal dome, build a musical scaffolding”) e os místico-pagãos (“As you narrate your own heart tale, you thread souls into one beam, the love you gave and have been given weave into your own dream, I trust my cells to rearchive my love historic stream (…) Tied ribbons on my ankles for you, drew orchids on my thighs for you, my spine curved erotically, we're finally vulnerable”). Na capa, Björk mostra um implante vulvar na testa, orifícios de flauta no pescoço e trompas de Falópio no lugar das sobrancelhas. A distopia anatómica?
Labels:
Arca,
ateismo,
Björk,
dildo/vibrador,
go down,
identidade,
Kafka,
la pipe,
lesbos,
literatura,
livros,
Matthew Barney,
objectos/body parts,
Oscar Wilde,
política,
Renascimento,
sci-fi,
Thomas More,
videoclips
27 August 2015
M3LL155X
Quando, a 6 de Agosto do ano passado, foi publicado LP1, já os anteriores EP1 (2012) e EP2 (2013) nos tinham obrigado a arregalar olhos e ouvidos perante a magnífica e sufocante estranheza das imagens e sons que FKA twigs – com Arca/Alejandro Ghersi e Jesse Kanda à ilharga – nos lançava à cara, coisa oriunda de Interzone sideral, definitivamente o género de estimulante de que a música contemporânea precisa como um afogado necessita de oxigénio. O álbum de estreia foi, assim, somente a fulgurante confirmação da suspeita de termos, enfim, a possibilidade de escutar música que não se limita a perseguir, incessantemente, a própria cauda e não vive exclusivamente do gesto de mirar, à socapa, o espelho retrovisor da História. A brigada de catalogadores não descansou enquanto não a capturou no interior de fronteiras minimamente reconhecíveis – por exemplo, a jaula do “R&B futurista” ou “alternativo” – o que conduziu twigs/Tahliah Barnett a, justissimamente, desafiar: “Não se trata de eu não querer ser classificada como R&B, mas há, igualmente muitas outras coisas. Falemos, então, de tudo!”
Tudo é, precisamente. o que, 12 meses depois, volta a descobrir-se no EP de cinco faixas, M3LL155X, ler MELLISSA, a ninfa que alimentou Zeus com mel e, na versão de twigs, o nome da sua energia feminina primordial. Veneno new age à vista? Não nos preocupemos (por enquanto): o conteúdo mais subliminarmente esotérico em que poderemos tropeçar são assaz explícitos farrapos de mensagens - “Teach me how to lead with my middle finger”, “Love me rough, I'm your doll”, “Shut your eyes and feel the rush, will you fuck me while I stare at the sun?” –, argumento mínimo para um vídeo de cerca de 17 minutos por ela realizado, no qual, por entre vertiginosas reconfigurações de “vogueing”, jorros de líquido amniótico multicoloridos, aparições da lendária musa-"evil witch" tatuada franco-argelina, Michèle Lamy, e sobreposições do rosto de Tahliah ao corpo de uma boneca insuflável, vítima ambiguamente submissa de violação, se lê um guia labirinticamente feminista do que, confundindo género, vulnerabilidade, explorações sonoras terminais e radical abstraccionismo digital, só poderia ter lugar num clube onde ninguém, na verdade, dança mas imagina o que poderia ser dançar.
28 March 2015
CONTRA-NATURA
Não foi, de todo, imerecidamente que a má reputação dos "singer-songwriters" da década de 70 – em particular, os que tinham selo de origem em Laurel Canyon – se lhes colou à pele: o estereótipo era o da lamúria confessional a propósito das inúmeras desventuras e catástrofes sentimentais, acerca das quais era fácil imaginar os lacrimejantes autores hesitando entre aplicar a lâmina da barba à artéria radial ou tomar notas, pegar na guitarra e encarar o infortúnio como belíssima matéria-prima para o próximo álbum. Esmagadoramente, a segunda hipótese prevalecia e não será por se tratar de um estereótipo que anda demasiado longe da verdade. Nos últimos 40 anos, a epidemia foi controlada mas não definitivamente debelada; tanto assim que continua a fazer vítimas junto de quem se suporia mais inexpugnavelmente imune. Tomemos, então, conhecimento de que o matrimónio de mais de uma década de Björk Guðmundsdóttir com o artista e cineasta Matthew Barney chegou ao fim e que ela fez questão de registar exaustivamente todo o processo em Vulnicura – sobreposição do latim, vulnus (ferida), e cura –, anunciando logo na primeira faixa, com determinação de arquivista, “I’d better document this”.
O método é cronologicamente obsessivo (as canções são datadas pelo número de meses antes da separação) mas, acima de tudo, obriga-nos a uma atitude absurdamente contra-natura: se desejamos, verdadeiramente, desfrutar da óptima música que o disco oferece, há que ser obstinadamente surdo aos textos. Sim, os riquissimamente texturados tapetes sonoros do U Strings Ensemble, dinamizados ou dilacerados pela sobrenatural máquina de "beats" de Arca/Alejandro Ghersi e adensados pela patine de The Haxan Cloak/Bobby Krlic (Michael Pärt, filho de Arvo, enquanto "recording supervisor", terá tido também alguma palavra a dizer), convivem mal, muito mal, com o que se assemelha demasiado a embaraçosos extractos de ficha clínica de gabinete de psicologia ou de diário de adolescente problemático (“Every single fuck we had together is in a wondrous time lapse, with us here at this moment”, “I have emotional needs, I wish to synchronize our feelings”, “Family was always our sacred mutual mission which you abandoned, you have nothing to give, your heart is hollow”...). Ignoremo-los. Nunca existiram.
21 January 2015
O ASSOMBRO E O PÂNICO
“Vivemos numa era pós-moderna em que é extraordinariamente difícil inventar coisas fundamentalmente novas. Tudo explodiu lá atrás – John Cage destruiu um piano e Jimi Hendrix lançou fogo à guitarra muito antes de a Annie ter nascido. Há sempre alguém capaz de tocar mais rápido, mais forte, com mais distorção. Só nos resta mergulhar em nós mesmos, descobrir quem somos, apenas nisso será possível acreditar”, dizia, há cerca de um ano, à “Pitchfork”, Tucker Andress, virtuoso e quase anónimo guitarrista, acerca da sobrinha, Annie Clark/St. Vincent. Há-de ter sido por via equivalente, embora completamente distinta, que caminharam os outros dois nomes que começam a desocultar os contornos do mundo audiovisual (e do imenso outro) ainda por nascer: Arca/Alejandro Ghersi e Jesse Kanda. Não é, de modo algum, um acaso que o magnífico LP1 (e anteriores EP) de FKA twigs tenham fortíssima marca de ambos e que, Björk, essa outra impenitente "shapeshifter", haja recrutado Ghersi na qualidade de co-produtor do próximo opus (enquanto Kanda sonha em voz alta com a hipótese de se ocupar dos vídeos).
É, na verdade, de um vertiginoso mergulho interior que se trata nos sons e nas imagens de "Thievery" (algo como a insolente coreografia de uma robótica strip dancer, andrógina e esteatopígica, descendente bastarda da Vénus de Willendorf e do "Rubber Johnny" de Chris Cunningham e Aphex Twin), "Now You Know" ("city ghosts" projectados sobre uma aurora boreal nos céus de Saturno), no abstraccionismo entomológico de "Held Apart" – todos de Xen, alter-ego compulsivo e título do álbum de estreia de Arca –, nos desfigurados e infernais bebés e no pesadelo oro-faríngeo de “Trauma 1 & 2”, ou na liquefacção da anatomia humana de "Fluid Silhouettes", gémea de "Water Me" e "How’s That", de twigs. Espécie de colisão suave entre antiquíssimo romantismo radicalmente digital e projecto científico orientado para a identificação dos processos pelos quais, do infinitamente grande ao invisível plano sub atómico, o assombro e o pânico se instalam, há nesta enorme estranheza de um Eraserhead que tivesse sido filmado por Kubrick segundos depois de ter devorado Cronenberg, muito mais do que os 2263 caracteres deste texto seriam capazes de começar sequer a descrever.
01 January 2015
MÚSICA 2014 - INTERNACIONAL (III)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 25)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
26 December 2014
Subscribe to:
Posts (Atom)




.png)




