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19 June 2024

FILIGRANA E LABAREDAS

No passado dia 30 de Abril, contaram-se 50 anos sobre a publicação de I Want To See The Bright Lights Tonight, de Richard e Linda Thompson, eterno (e justíssimo) candidato a figurar nas listas dos melhores álbuns de sempre. Por essa altura, Richard tinha no currículo "apenas" 5 álbuns com os Fairport Convention - entre os quais a trilogia de ouro de 1969, What We Did On Our Holidays, Unhalfbricking e Liege & Leaf -, o primeiro álbum a solo, Henry The Human Fly (1972), No Roses (1971), com Shirley Collins e a Albion Country Band, Rock On (1972), integrado em The Bunch, selecção de notáveis do emergente folk-rock na hora do recreio à volta de canções de (entre outros) Elvis Presley, Buddy Holly e Everly Brothers, e Morris On (1972), espécie de derivação do anterior com a tradição das "morris dances" como eixo. Faltava, porém, ainda muito (nunca menos do que brilhante) caminho até se atingir o bonito total actual de 24 álbuns a solo, 18 "live" (a solo e com os Fairports), 10 compilações, 5 bandas sonoras para televisão e cinema, e dispersas pelas esquinas do universo sonoro, literalmente incontáveis colaborações mais ou menos notórias. Mas, desde o agora cinquentenário, a atmosfera na qual tudo o que viria a seguir se instalaria ficava definitivamente estabelecida na canção de embalar "The End Of The Rainbow" dedicada a Muna, a filha recém-nascida: "I feel for you, you little horror, safe at your mother's breast, no lucky break for you around the corner, 'cos your father is a bully and he thinks that you're a pest, and your sister, she's no better than a whore, life seems so rosy in the cradle, but I'll be a friend I'll tell you what's in store, there's nothing at the end of the rainbow, there's nothing to grow up for anymore". (daqui; segue para aqui)


01 June 2024

Richard & Linda Thompson - I Want To See The Bright Lights Tonight

"When I Get To The Border" (álbum na íntegra aqui; ver também aqui)

25 November 2022

APENAS "MÚSICA LINDÍSSIMA"

Há 12 anos, preparavam-se Rachel e Becky Unthank para actuar no Olga Cadaval, em Sintra, pareceu-me urgente anunciar a verdadeira dimensão do que iríamos testemunhar: “Desde a era dos Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, Richard & Linda Thompson e das irmãs Collins – ainda que com valiosíssimos porta-estandartes como June Tabor durante o interregno –, não surgia nenhum grupo na cena folk inglesa capaz de deixar absolutamente clara a ideia de que, no idioma popular tradicional, circulava ainda sangue suficientemente oxigenado e pronto a garantir que ‘os anos de ouro’ nunca seriam apenas uma antiga e saudosa memória. The Unthanks, em três magníficos álbuns – Cruel Sister (2005), The Bairns (2007) e Here’s The Tender Coming (2009) –, mudaram tudo”. Desde então, vários outros notáveis - Kinnaris Quintet, Lankum, Stick In The Wheel, Mànran, Sam Lee – se lhes juntaram. (daqui; segue para aqui)
 
"The Old News"

30 June 2020

Albums That Should Exist (II): Richard & Linda Thompson - The Bottom Line, New York City, 5-18-1982 (Early & Late Shows)


19 November 2014

OLHAR AS TREVAS 


Numa entrevista de há um ano ao blog Ace Hotel, Bonnie ‘Prince’ Billy (aliás, Will Oldham), debatendo-se com a eterna questão de saber se a obra é, inevitavelmente, um reflexo mais ou menos autobiográfico do criador, lateralizando a resposta, afirmava: “Ser alguém que apresenta aquilo que cria como uma completa extensão de si mesmo foi sempre o meu sonho. (...) Compreendemos isto muito bem se escutarmos um músico como Richard Thompson a fazer um solo. Está sentado em palco e a canção que ele interpreta ganha verdadeiramente vida no instante em que se atira a um solo. Durante esse momento de generosidade, nós somos Richard Thompson. É uma dádiva esse tipo de relação com o seu talento, como se ele se apossasse do nosso cérebro”. Já deveríamos ter-nos apercebido de que, entre Oldham e Thompson, há algo mais do que a mera admiração de um discípulo pelo mestre. A inclusão de “The Calvary Cross”, segunda faixa de I Want To See The Bright Lights Tonight (estreia de Richard & Linda Thompson, 1974) em The Brave And The Bold, o álbum de versões – de Milton Nascimento aos Devo e Springsteen – gravado com os Tortoise e publicado em 2006, poderia ter sido um alerta.



Mas, lá mais para trás, em 1999, estávamos, de certeza indesculpavelmente distraídos quando, em I See A Darkness, não identificámos os ecos de Watching The Dark, título da compilação de Thompson de 1993, retirado de "Shoot Out The Lights" (1982): “Keep the blind down on the window, keep the pain on the inside, just watching the dark”. E aquele instante com Dawn McCarthy, em "Breakdown", de What The Brothers Sang (2013)...  Singer’s Grave – A Sea Of Tongues varre, definitivamente, todas as dúvidas que pudessem ainda restar: incluindo onze canções de que a maioria são inesperadas revisitações do bem recente Wolfroy Goes To Town (2011), é impossível não detectar nas guitarras (acústicas e eléctricas), nas inflexões vocais, nos coros das McCrary Sisters, no assentamento dos acordes sobre a curva das melodias, claríssimamente audível, quase um roteiro da trajectória de Thompson, dos Fairport Convention até hoje. Que não se trata de rasteiro trabalho de copista garante-o o facto de ter sido necessário tanto tempo para decifrar o enigma. Mas respondam sem pensar: quem escreveu “Nothing is better, nothing is best, we are unhappy, we are unblessed”

03 September 2014

OUTRA VERDADE

  
Por trás do conceito de álbuns (ou concertos) "unplugged", existiu sempre a ideia de que, ao privarmos uma canção da utilização de instrumentos eléctricos bem como de todas as possibilidades de modelação e de introdução de um maior nível de complexidade que a utilização dos recursos de um estúdio possibilita, se conseguiria, enfim, revelar a sua natureza profunda, a essência última que, ocultada sob esses “artifícios”, nunca teríamos podido, seguramente, apreender. Um exercício militante de “autenticidade” que, do mesmo modo, nos poderia conduzir a defender que, para desvendar, em definitivo, o enigma do sorriso de Lisa Gherardini, bem mais útil do que a tela de Leonardo, teria sido uma radiografia da jovem esposa de Francesco del Giocondo. Ou, voltando à música, que só escutando Kontakte, de Stockhausen, numa versão para cavaquinho e didgeridu, teríamos a noção da importância dessa peça. Na realidade – à excepção de 4’33”, de Cage, única obra sobre a qual as mais desvairadas versões nunca interferirão com o original –, nada haverá de ser considerado, a priori, heresia ou profanação, reservando-se o veredicto para o que da reinterpretação resultar. 


Para Acoustic Classics, Richard Thompson possui, além do mais, uma óptima justificação: o anterior álbum, de Fevereiro de 2013, não só se intitulava Electric como fazia inteiramente jus ao nome. Daí que, equilibrar o yang de um com o yin do outro faça algum sentido, até porque, na sua extensa discografia “oficial”, desde Small Town Romance (1984), não existia outro exemplo do género. Thompson é "songwriter" da estirpe dos maiores (anunciar que se trata de “classics” não é imodéstia, constata apenas um facto) e guitarrista, eléctrico e acústico, residente no Olimpo das seis cordas. Por outras palavras, ouvi-lo revisitar 14 das suas canções exclusivamente com voz e guitarra será sempre uma bênção. O único senão reside no facto de quase metade serem oriundas de I Want To See The Bright Lights Tonight (1974), Pour Down Like Silver (1975) e Shoot Out The Lights (1982), álbuns concebidos para a articulação das vozes de Richard e Linda Thompson e destas com uma riquíssima variedade de instrumentos executados pela "crème de la crème" do folk-rock britânico da época. Assim, despidas, não deixam ver uma verdade maior. Quando muito, outra verdade.

20 December 2013

LIGAÇÃO INSTANTÂNEA

   
"Paddy’s Lamentation" é uma canção tradicional irlandesa que fala das tragédias da emigração para os EUA, no século XIX, quando os recém-chegados ao Novo Mundo – miseráveis, iletrados e imaginando que as portas do paraíso lhes seriam escancaradas – se descobriam recrutados, à força, para combater na Guerra Civil (“Here's to you boys, now take my advice, to America I'll have ye's not be going, there is nothing here but war, where the murderin' cannons roar, and I wish I was at home in dear old Dublin”). Gangs Of New York (2002), de Martin Scorsese, situa-se exactamente nessa época, pelo que a sua banda sonora, muito para além das contribuições de Howard Shore, Peter Gabriel ou dos U2, inclui uma extensa colecção de temas populares tradicionais. Entre eles, encontra-se, justamente, "Paddy’s Lamentation", interpretado por Linda Thompson. E, conta esta nas "liner notes" do recentíssimo Won’t Be Long Now, no momento em que Hal Willner, produtor musical do filme, lhe sugeriu essa possibilidade, Scorsese terá perguntado: “Mas... ela ainda é viva?” Linda – na altura, senhora de 50 e picos anos – comenta, agora: “Martin Scorsese supor que eu já tinha morrido foi o pico da minha fama”


Não era necessária tanta modéstia. Linda Thompson não é Madonna mas, pelo menos, os anos (1974 a 1982) em que cantou e viveu ao lado de Richard Thompson e, oferecendo a voz a clássicos absolutos como I Want To See The Bright Lights Tonight (1974), Pour Down Like Silver (1975) ou Shoot Out The Lights (1982), disputou com Sandy Denny o titulo de "first lady of british folk-rock" – cantaram juntas uma única vez, em "When Will I Be Loved", dos Everley Brothers, no álbum-divertimento-de-"covers", Rock On (1972) da nata folk-rock inglesa, dissimulada sob o nome The Bunch – bastariam para que não precisasse da baralhação de Scorsese a fim de ser recordada. É certo que, nas três décadas pós-Richard & Linda Thompson, apenas gravou três álbuns a solo e nenhum deles particularmente impressionante.


Mas, se isso for indispensável, Won’t Be Long Now tratará imediatamente de repor a justiça: parte assunto de família (os três filhos músicos, Teddy, Kamila e Muna, o neto-idem, Zak, e Richard Thompson a dar uma mão), parte reunião de sábios da cena folk (Martin e Eliza Carthy, John Kirkpatrick, Dave Swarbrick e Gerry Conway), é o género de disco que estabelece ligação instantânea com o melhor dela que guardávamos na memória. "Love’s For Babies And Fools" (“My father is a traveller, he has a cuckold's luck, my mother is a queen, but her hands are tied with blood, I have a brother in the graveyard, my sister has the blues, I care only for myself, love's for babies and fools”), parece destilada no mesmo alambique de fel da velha "The End Of The Rainbow", "Never The Bride" (“At sixteen I fell for Billy, he was a tall and bonny youth, a friend to every pretty girl but a stranger to the truth”) transporta os Fairports para o século XXI, e, por entre outras nove jóias – a exuberante "Mr. Tams", a gélida a cappella, "Blue Bleezin Blind Drunk"… –, também "Paddy’s Lamentation", só voz e guitarra, em levitação sobre o tempo.

08 December 2013

VINTAGE (CLXX)

Richard & Linda Thompson - "We Sing Hallelujah"



A man, he's like a rusty wheel
On a rusty cart
He sings his song as he rattles along
And then he falls apart

 
And we'll sing hallelujah
At the turning of the year
And we work all day in the old fashioned way
'Til the shining star appears

 
A man, he's like a briar
He covers himself with thorns
He laughs like a clown when his fortune's down
And his clothes are ragged and torn


And we'll sing hallelujah...


A man, he's like a three string fiddle
Hanging upon the wall
He plays when somebody scrapes on the bow
Or he can't play at all


And we'll sing hallelujah...


A man, he's like his father
Wishes he never was born
He longs for the time when the clock will chime
And he's dead for evermore


And we'll sing hallelujah...

11 May 2013

LADO B


Logo ao princípio, fica-se na dúvida: será Sandy Denny ou Linda Thompson? Mas, imediatamente a seguir, na primeira entrada do refrão, com a totalidade do "ensemble" intrumental e as harmonias corais, tudo parece indicar que se trate de Richard & Linda Thompson. Embora, escutando melhor, também não seria impossível estarmos a ouvir os Fairport Convention, numa versão alternativa de "Meet on The Ledge". Ou algo próximo disso. A verdade é que a canção que Bonnie ‘Prince’ Billy e Dawn McCarthy interpretam é "Breakdown", quinta faixa daquele álbum de Kris Kristofferson (The Silver Tongued Devil and I, 1971) que, em Taxi Driver, Travis Bickle/Robert de Niro oferece a Betsy/Cybill Shepherd depois de ela o ter descrito através de uma frase de outra canção ("The Pilgrim, Chapter 33") desse disco: “He's a prophet, he's a pusher, partly truth and partly fiction, a walking contradiction”. Mais à frente, dir-se-ia claramente termos sintonizado os Jefferson Airplane, por volta de 1967, aplicando a "Somebody Help Me" – tema do jamaicano Jackie Edwards a que, um ano antes, o Spencer Davis Group também se havia atirado – o mesmo tratamento que daria origem a "Somebody To Love". E, pouco antes do fim, os primeiros 60 segundos de "Poems, Prayers and Promises", de John Denver, são puros Simon & Garfunkel do tempo em que Paul e Art tinham desistido de se chamar Tom & Jerry, sua adolescente encarnação inicial sob a magna inspiração dos Everly Brothers.



O que vem imensamente a propósito uma vez que What The Brothers Sang, terceiro capítulo da colaboração de Bonnie ‘Prince’ com a cantora e compositora dos sobreexcelentes Faun Fables (urgência máxima para a escuta de Family Album, 2004, The Transit Rider, 2006, e Light Of A Vaster Dark, 2010) após The Letting Go (2006) e Wai Notes (2007), reúne a sua dupla visão de treze temas de Phil e Don Everly, anunciada no final do ano passado pelo single "Christmas Eve Can Kill You" (instantâneo tudo menos tradicionalmente feliz da noite de 24 de Dezembro). Correcção: como o título, de facto, aponta, estas são algumas das canções que os irmãos Everly cantavam porque só raramente eram eles os autores do próprio reportório. O que concedeu a Will Oldham e Dawn McCarthy a total liberdade (de que mui liberalmente tiraram partido) para relerem as composições dos atrás referidos e ainda de Felice e Boudleaux Bryant, Karl Davis, Goffin/King, Tony Romeo e vários outros artífices da indústria musical de maior ou menor relevo, sem se sentirem excessivamente obrigados a manter no radar a característica sonoridade pop/folk/rock/country + harmonias vocais em terceiras paralelas dos Everly Brothers. Fazendo ainda questão de não optar pelo modelo revisão de "greatest hits": escusam de procurar que não encontrarão aqui "All I Have To Do Is Dream", "Bye Bye Love" ou "Wake Up Little Susie". Mas, em contrapartida, numa espécie de rememoração da história evolutiva da música popular dos últimos 60 anos com desvios, mutações genéticas e hibridações inesperadas – este não é mais um caso clínico de “retromania” – permite-nos espreitar para o lado B dos Everly Brothers e vê-lo como nunca imaginámos. 

21 January 2013

OITO (+ QUATRO) ACHAS PARA A FOGUEIRA (X)

+ 4 (II)

Richard & Linda Thompson – I Want To See The Bright Lights Tonight


07 June 2011

UMA TARTE DE MAÇÃ



Alela Diane & Wild Divine - Alela Diane & Wild Divine




Fleet Foxes - Helplessness Blues

Dois dias antes do 70º aniversário de Bob Dylan – celebrado no passado 24 de Maio –, o “Observer” decidiu inquirir uma série notáveis da música e outras artes acerca de qual o presente que achariam mais apropriado para lhe oferecer. As propostas foram, previsivelmente, assaz diversas: Martin Carthy (recordando um episódio ocorrido no Inverno de 1962 entre ambos) sugeriu um piano e uma espada de samurai para despedaçar o piano e o usar como lenha para a lareira nas noites frias; Isobel Campbell pensou numa camisa de seda e num par de sapatos italianos; Chrissie Hynde lembrou-se de um jogo de dardos (“por nenhuma razão especial: suponho que ele gostaria”); e Alela Diane, imaginando sensatamente que ele poderá comprar tudo aquilo que quiser, optou pelos valores básicos e seguros: uma tarte de maçã que confeccionaria segundo a infalível receita da mãe. E explicou-se: “A música folk, na sua essência mais profunda, foi criada para as pessoas conviverem à sombra do alpendre e eu associo a tarte de maçã a esse tipo de comportamento. Suponho que a vida do Bob Dylan, nestes últimos tempos, se tenha tornado muito mais simples e que, no dia de anos, lhe saiba bem sentar-se no alpendre e fazer o que lhe apetecer. Como companhia, uma tarte de maçã será tudo o que precisa”.



A música que emergiu do que foi baptizado como "new weird America" (padrinho do baptismo: David Keenan, no número de Agosto de 2003 da “Wire”), "free-folk", "psych-folk" ou "freak-folk" não foi, assim, senão um ensaio do regresso da boa velha tarte, mais ou menos condimentada com temperos psicotrópicos, e preparada de acordo com uma interpretação livre dos antiquíssimos preceitos recuperados das tradições britânica e norte-americana. Que, agora, quase dez anos depois, e após a poeira ter assentado suficientemente, permite distinguir com maior facilidade os folqueiros de fim-de-semana (aqueles que apreciavam travestir-se de descendentes híbridos de Jesse James e feiticeiros comanches com uma costela de bardo celta) dos outros que, verdadeiramente, reinventavam e retomavam o fio da história no ponto em que – sem nunca, de facto, ter sido interrompida –, há trinta e tal anos, ficara suspensa. Por motivos de proximidade geracional e geográfica, inicialmente, Alela Diane foi associada a algumas das cintilações da seita neo-hippie, caso, por exemplo, de Joanna Newsom.



Mas, com The Pirate’s Gospel (2006) e To Be Still (2009), tudo ficaria devidamente esclarecido: a ascendência poderia ter ramos comuns mas o que dela resultava era, afinal, uma novíssima e valiosa voz de songwriter bem mais afim de Neko Case ou Jolie Holland (ou, recuando até às origens, Sandy Denny) do que de míticas lambisgóias “celtas”. Alela Diane & Wild Divine (a saber: ela e banda acompanhante que, em registo de "family affair", inclui o pai e o marido), sem exibir tremendas alterações no perfil musical reconhecível, encorpa sensivelmente a sonoridade das óptimas canções – o produtor Scott Litt, com CV ao lado dos R.E.M., Nirvana e Patti Smith, terá modificado dois ou três parâmetros – e aproxima-as dos igualmente recomendáveis padrões de Neil Young ou Richard & Linda Thompson, povoadas de inquietantes recados como “death is a hard act to follow” ou “we are hopeful, we are scattered, we are dust”.



Genuína emanação da cena "freak-folk", os Fleet Foxes, pelo seu lado, mantém inalterada a faceta menos digerível da genealogia – a da chinela “poética” que os obriga a, sem se rirem, formularem portentosas interrogações do gènero de “why is the Earth moving around the sun? why is life made only for it to end?” – mas como, muito mais do que canções, o que eles criam são majestosas catedrais de remoinhos corais que ampliam desmedidamente a matriz Beach Boys-CSN&Y-Simon & Garfunkel, “Helplessness Blues” não deixa de ser uma tentadora peça de dulcíssima massagem auditiva.

(2011)

24 April 2011

VINTAGE (XXXIX)

Richard & Linda Thompson - "The Little Beggar Girl"



I'm just a little beggar girl and Sally is my name
You can call me a skiver and I'll call you the same
You can show me you're sorry if you think it's a shame
That I'm only a poor little beggar girl
Yes I'm only a poor little beggar girl
You can show me you're sorry if you think it's a shame
That I'm only a poor little beggar girl

I'll dance with my peg leg a-wiggling at the knee
I'll play on the accordion my father gave to me
For it's well worth it all to please a gent such as thee
For I'm only a poor little beggar girl
Yes I'm only a poor little beggar girl
And it's well worth it all to please a gent such as thee
For I'm only a poor little beggar girl

I've been down to London, I've been up to Crewe
I travel far and wide to do the work that I do
'Cause I love taking money off a snob like you
For I'm only a poor little beggar girl
Yes I'm only a poor little beggar girl
And I love taking money off a snob like you
For I'm only a poor little beggar girl

Oh the poor they will be rich and the rich they will be poor
That's according to Saul when he wrote down the law
And I'd much rather be rich after than before
For I'm only a poor little beggar girl
Yes I'm only a poor little beggar girl
And I'd much rather be rich after than before
For I'm only a poor little beggar girl

If the words of my song do your conscience alarm
Just remember generosity is like a lucky charm
If you give me your money, it'll do you no harm
For I'm only a poor little beggar girl
Yes I'm only a poor little beggar girl
If you give me your money, it'll do you no harm
For I'm only a poor little beggar girl


(2011)

28 February 2011

MIMETISMO



















The Decemberists - The King Is Dead

Segundos iniciais de "Don’t Carry It All", a primeira faixa, e somos atingidos de frente pelo gemido de uma harmónica dylaniana enquanto dobradiça da porta de entrada para uma canção que, certamente por distracção, os Fairport Convention não terão incluído num dos seus primeiros álbuns. A obediência aos preceitos do folk-rock britânico permanece lá mas nada sequer de remotamente semelhante aos épicos prog-trágico-marítimos em quatro partes, sobre criaturas da floresta, entidades mitológicas e diáfanas donzelas por que os Decemberists, até agora, foram amados e execrados em partes iguais. Segunda canção, "Calamity Song", e oh felicidade!... é, afinal, "Talk About The Passion", dos R.E.M., quase nota por nota, com Peter Buck na tripulação e tudo.



Buck aparece mais duas vezes: em "Down By The Water" – abertura springsteeniana deslizando para uma melodia desenhada à transparência sobre "The One I Love", tal como Richard e Linda Thompson a interpretariam, mas com Gillian Welch no lugar de Linda – e, ao banjo, no tema de abertura. Nenhum Rolling Stone assina o ponto mas "All Arise" é "Honky Tonk Women" em versão Fairports-meets-The Band e, mesmo sem a comparência de Morrissey ou Johnny Marr, “This Is Why We Fight" teria entrada instantânea num Best Of dos Smiths.



Semeiem por aí meia dúzia de pinceladas das paletas de Neil Young, Wilco e Gram Parsons, Springsteen mais umas quantas vezes, entretenham-se a decidir se "Rox In The Box" puxa mais para Richard & Linda, para os Steeleye Span ou para Young com Nicolette Larson, se "January Hymn" contém maior quantidade de material genético de Donovan ou de Simon & Garfunkel e, sem fazer batota, experimentem descobrir qual a faixa em que Laura Veirs se ouve lá ao fundo. O juízo final até é simples: em formato aparado e escanhoado, quanto mais Colin Meloy e cúmplices se despersonalizam e cultivam o mimetismo, melhor é a sua música.

(2011)

10 May 2010

VEIAS E OSSOS DO NORDESTE



Simplifiquemos um pouco mas não exageradamente: desde a era dos Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, Richard & Linda Thompson e das irmãs Collins – ainda que com valiosíssimos porta-estandartes como June Tabor durante o interregno –, que não surgia nenhum grupo na cena folk inglesa capaz de deixar absolutamente clara a ideia de que, no idioma popular tradicional, circulava ainda sangue suficientemente oxigenado e pronto a garantir que “os anos de ouro” nunca seriam apenas uma antiga e saudosa memória. Rachel Unthank & The Winterset (actualmente, The Unthanks), em três magníficos álbuns – Cruel Sister (2005), The Bairns (2007) e Here’s The Tender Coming (2009) –, mudaram tudo e, hoje, Rachel Unthank também já não duvida disso: “Aparentemente, os media voltaram a interessar-se pela palavra 'folk', deixou de ser um palavrão. Poderá ter acontecido devido a alguma frustração com a pop produzida em massa ou à vontade de descobrir qualquer coisa mais autêntica. Não estou certa que este novo 'revival' possa ter a mesma dimensão do dos anos sessenta, quando praticamente todos os jovens frequentavam os clubes de folk. Mas há, seguramente, um interesse renovado”.



A genealogia das irmãs Becky e Rachel, filhas mui legítimas do que já foi caracterizado como “a república espiritual de Northumberland”, também ajudou: “É verdade, os nossos pais estiveram envolvidos no primeiro 'folk-revival', sempre os vimos a cantar e a dançar músicas tradicionais e, desde miúdas, participávamos também; aprendemos o 'clog-dancing', íamos a festivais, cantávamos em clubes de folk, aprendemos imensas canções. Eram as histórias que as canções contavam que a mim e à minha irmã nos atraía. Foi, realmente, um ambiente óptimo para nós crescermos. Todo o Nordeste de Inglaterra tem um sentido de identidade extremamente forte, há um orgulho regional muito intenso, apesar de ser uma zona que atravessou tempos bem difíceis. E coisas como as indústrias mineira e naval – sempre com gente a chegar e a partir – ou o facto de estarmos encostados à Escócia, com todas as guerras que aqui foram travadas, tudo isso alimentou a tradição e as canções que dela surgiram”. Naturalmente, este é um caldo de cultura que, como adiante na conversa se compreenderá, facilmente afia facas de dois gumes. Ou mais.


Por um lado, pode exaltar ânimos “puristas” perante a “heresia” de alguns arranjos e a opção por temas de Robert Wyatt ou Bonnie Prince Billy. Mas, com isso, as Unthanks lidam bem: “Seja qual for o tipo de música que façamos, haverá sempre quem goste e quem não goste. Existe, de facto, na cena folk, quem pense que fomos longe de mais. Por mim, não existe aí nenhum problema. Sempre ouvimos tipos de músicas muito diferentes e isso reflecte-se na forma como compomos e arranjamos. Muito egoistamente, pretendemos que essa música nos estimule e que a achemos interessante, ainda que, sem a menor dúvida, o nosso coração esteja com a música tradicional. Mas, mais do que procurar agradar ao público, queremos que nos satisfaça a nós. De outro modo, não estaríamos a ser honestas”.



Por outro, o reforço da identidade – na Northumbria, mais uma questão de classe do que local – distingue a folk inglesa das congéneres irlandesa e escocesa: “Os escoceses e irlandeses sentiram uma maior necessidade de afirmar a sua tradição. Para os ingleses, isso é capaz de ser mais difícil por poder ser encarado como um gesto imperialista. Claro que estas coisas evoluem e, no fundo, a maioria destas canções têm uma origem proletária. O Noroeste, é uma zona marcadamente operária e muito politizada. Quando não é necessário lutar-se pela identidade nacional, luta-se pelos direitos de trabalho. A indústria mineira está muito presente nas canções. O Birtley Folk Club, por exemplo, pertence a uma velha família de mineiros comunistas, socialistas e humanistas. Mesmo ‘The Testimony Of Patience Kershaw’ embora seja uma canção do Yorkshire que se situa mais a Sul do que a região de onde nós somos, ainda pertence ao Norte e partilha as mesmas referências culturais. De um modo geral, escolhemos canções com histórias acerca da dureza da vida e da luta das mulheres, no fundo, sobre a condição humana, histórias sombrias… e isso corre nas veias e está agarrado aos ossos do próprio Nordeste, é um território lindíssimo mas selvagem e agreste”.



O gume traiçoeiro da faca surge, porém, quando – como conta Rachel – as questões identitárias se deixam sequestrar (e isso acontece com demasiada frequência) por meliantes racistas: “Este é um momento muito interessante para a política no contexto da folk: existe um movimento chamado 'Folk Against Fascism' que foi constituído quando se descobriu que o British National Party [extrema-direita] incitava os seus militantes a infiltrar-se nos grupos de 'morris-dancing' e nos eventos folk, reivindicando-os como marca de identidade nacionalista. Para mim, a folk tem apenas a ver com gente trabalhadora, com uma atitude inclusiva e de partilha”. A notícia de que isso sucede exactamente no instante em que o über-clássico, Morris On, acaba de ser reeditado, provoca uma enorme gargalhada a Rachel: “A sério?... O Morris On era o disco que, aos sábados de manhã, os nossos pais punham a tocar para que nós nos entretivéssemos a dançar e eles pudessem dormir até mais tarde!...”

(The Unthanks - Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra, 10 de Maio, 21h30)

(2010)

07 December 2009

A REPÚBLICA ESPIRITUAL DE NORTHUMBERLAND



The Unthanks - Here’s The Tender Coming

Os Elliotts, de County Durham, são uma lenda do folk revival britânico: dinastia de mineiros do nordeste de Inglaterra – Jack, Em e os quatro filhos –, intérpretes da tradição musical do proletariado industrial, comunistas, fundaram, em 1962, o Birtley Folk Club, onde, em plena efervescência da redescoberta do baú de tesouros da música popular, gente como Peggy Seeger, A. L. Lloyd ou Ewan MacColl os foi encontrar e, como relata Pete Wood, no livro The Elliotts of Birtley, os fez chegar à rádio, à televisão e à gravação de discos. Chamemos (como já outros o fizeram) a esta atmosfera geográfica, social, musical e política que se respirava no Birtley Folk Club a “república espiritual de Northumberland” e acrescentemos que foi nela que os pais de Rachel e Becky Unthank cresceram e, mais tarde, as educaram, embaladas pelos "sea shanties" que, nos Keelers, Mr. Unthank cantava, ou pelos álbuns da série Morris On (conspiração folk-rock de Ashley Hutchings, Richard Thompson, Shirley Collins e outras cabeças coroadas do género) que animavam os fins-de-semana domésticos. Acessoriamente, esclareça-se que o apelido “Unthank” deriva da designação dos ocupantes ilegais dos terrenos "de ninguém" (os "squatters" primordiais) entre o norte de Inglaterra e a Escócia.



O que não deixa de ser belissimamente simbólico no que respeita à música das irmãs Unthank (anteriormente, Rachel Unthank & The Winterset): se a matéria sobre que trabalham é (quase) toda ela profundamente enraizada na memória das terras da Northumbria, depois de haver sido filtrada pelas assombrosas vozes de ambas e transfigurada pela requintada relojoaria dos arranjos instrumentais (para cordas, sopros, acordeão, ukulele, bandolim, marimba, autoharp e piano), pertence tanto às antiquíssimas lendas mineiras como ao idioma barroco revisto por Steve Reich, ao jazz tal como, obliquamente, Robert Wyatt o sobrevoa, ou à pop de câmara que habita as fantasias de Sufjan Stevens. A propósito do anterior, The Bairns (2007), era impossível não invocar como termos de comparação June Tabor ou o melhor de Richard & Linda Thompson, de Shirley Collins e dos Fairport Convention. A partir de Here’s The Tender Coming e de puríssimos milagres da estirpe de "The Testimony of Patience Kershaw", "Living By The Water", "Sad February" ou "Tender Coming" (em rigor, todas, da primeira à décima segunda faixa, entre tradicionais e temas de Anne Briggs, Ewan MacColl ou Lal Waterson), dificilmente se encontrará forma de não ter as Unthanks como padrão para tudo o que, na muito ampla área da folk e imediações, vier a seguir.

(2009)

03 November 2008

A TEIA-FAIRPORT

Fairport Convention - What We Did In Our Holidays e Unhalfbricking

(What We Did In Our Holidays integral aqui)
 
Há discos cujas editoras, por superior imperativo legal transnacional, deveriam estar obrigadas a reeditar ao primeiro indício de desaparecimento no mercado. Os dois primeiros dos Fairport Convention (se descontarmos o ensaio “de aquecimento” de Fairport Convention, 1968, quando Judy Dyble – famosa por, em concerto, nas canções em que não intervinha, se sentar à boca de cena, a tricotar – ainda era a cantora do grupo) caem, de pleníssimo direito, nessa categoria: raras vezes na história da música popular contemporânea se reuniu numa única banda tão prodigiosa e fecunda semente de tanto do que viriam a ser algumas das mais notáveis trajectórias (individuais e colectivas) do último meio século. Não por acaso, em The Complete Rock Family Trees, de Pete Frame, publicado pela Omnibus Press em 1993, a gigantesca genealogia dos Fairports ocupa lugar de relevo. Dos Steeleye Span aos Fotheringay (cujo oculto e, até agora, ignorado segundo álbum acaba de ser exumado) ou The Bunch, às séries Morris On/Compleat Dancing Master, às diversas encarnações da Albion Band, às discografias de Sandy Denny e Richard Thompson (a solo e com Linda Thompson), à persistente carreira dos sobreviventes que, anualmente, desde 1977, se reúnem no Cropredy Festival, ou aos inúmeros pontos intermédios e outras dificilmente recenseáveis intersecções, a teia-Fairport é densa, intrincada e extraordinariamente rica.



E, afinal, em What We Did On Our Holidays e Unhalfbricking (ambos de 1969), não era impossível adivinhar que aquela banda na qual, aos 23 anos, Ashley Hutchings fazia o papel de ancião (Ian Matthews tinha 22, Sandy Denny, 21, Simon Nicol, 18, e Martin Lamble e Richard Thompson, 19) tinha digerido por completo a história do rock e da folk e, em versões de Dylan ou Joni Mitchell, em revisões de “tradicionais” ou em assombrosos temas originais – “Fotheringay”, “Autopsy”, “Meet On The Ledge”, “Who Knows Where The Time Goes”, “Genesis Hall” – estava madura para entrar de imediato nos compêndios. Faltava apenas Liege & Lief (ainda de 1969, annus mirabilis-Fairport), alegada pedra inaugural do folk-rock britânico – apesar de “A Sailor’s Life”, de Unhalfbricking, já o anunciar – para que a trilogia de ouro de uma discografia de infrequente prata se concluísse. Reedite-se assim que, de novo, se esgotem.

(2008)

19 October 2008

TEATRO RETRO



She & Him - Volume One

Começou muito bem: em 2006, durante a rodagem de The Go-Getter, o realizador Martin Hynes sugeriu a Matt Ward (que se ocupava da banda sonora) a ideia de, para o genérico final, ele e a actriz principal, Zooey Deschanel, gravarem uma versão de “When I Get To The Border”, de Richard & Linda Thompson. O proverbial “marriage made in heaven” musical – com os melhores padrinhos – estava encontrado. Volume One é apenas a sequência natural (e quase inevitável) desse episódio inicial onde a luminária “alt./country/folk” Ward actua como catalisador e eminência parda da beldade “indie” e lhe oferece o cenário ideal para que o seu talento de actriz floresça.



Sim, porque, neste requintado exercício de retro-pop/country, Deschanel vai desempenhando sucessivamente os papéis de Tammy Wynette, Linda Ronstadt, Carole King, das Ronettes ou de Karen Carpenter, num desfile de modelos que cobrem todo o espectro que vai de Phil Spector à Motown e de Tin Pan Alley a Nashville. Acrescente-se que o argumento é também dela: dez das doze canções são suas (uma a meias com o actor Jason Schwartzman) e as duas restantes dos Beatles e de Smokey Robinson.

(2008)