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07 April 2015
BALANÇO E CONTAS
Mui compreensivelmente, Allan Jones, na “Uncut”, pergunta a David Corley porque lhe foi necessário tanto tempo para gravar o álbum de estreia. E ele responde “É preciso viver uma vida para poder escrever sobre ela. Não é coisa que possa ser inventada”. E, ao "Hear! Hear!" Music, quase em modo Fight Club, explica: “Tenho duas regras acerca da escrita de canções. A primeira é: ‘é melhor ter algo para dizer’; e a segunda é: ‘é melhor ter algo para dizer’”. Não estaremos, pois, perante o caso inédito de um “difícil primeiro álbum”, uma vez que não se terá tratado de uma questão de dificuldade mas apenas de respeitar o imprescindível período de maturação. O que, contudo, não torna menos invulgar o facto de Corley, só agora, aos 53 anos, ter publicado o primeiro tomo da sua discografia, Available Light, e reclama algum conforto biográfico. Filho de Lafayette, Indiana, fugiu do "Twinkle, Twinkle Little Star" nas aulas de piano e atirou-se a um "songbook" dos Beatles, estudou informática na Universidade de Athens, Georgia (na mesma altura em que os R.E.M., moços da mesma criação, por lá iam começando a fazer história), e não hesitou em adquirir o estatuto de "dropout".
Nos trinta e picos anos seguintes, foi camionista, carpinteiro, empregado de mesa, operário, barman, agricultor. Mas aquele tipo menos comum de elemento das classes laboriosas que lia Joyce, Whitman, Blake e Rilke enquanto, na consagrada tradição americana, deambulava, de costa a costa. E ia vivendo imensamente mais do que o indispensável para ter algo que dizer. Da destilação de tudo isso, em registo de exemplar classicismo (imaginem o mais que perfeito lugar geométrico onde Springsteen, Willy Vlautin, Mark Eitzel, Dylan, Van Morrison, Randy Newman, Tom Waits, David Ackles e Lou Reed coabitam – sim, são esses os seus pares) e interpretadas com o género de voz de quem já consumiu a quantidade de cigarros e bourbon recomendada, as dez canções de Available Light, balanço e contas de perdas, desencontros e erros (“I hopped up into my truck but I headed to the wrong bar, got way too fucked-up, started wishin' on the wrong star, but the sky, man, it's so large, that's just an easy mistake”), constituem exactamente aquilo que se costuma designar como clássico instantâneo.
26 April 2012
VINTAGE (LXXXIV)
American Music Club - "Big Night"
Big nights are black and blue They get cold and they get wet And they're calling out for you Like no one you ever met
No one dreams in the hours around me The more I lose the more you find me I lose track with every kiss We shouldn't be isolated like this
Yeah, you're my friend And when we're lost I'll still hold your hand Revealed in white when the shadows fail In any shadow that you can name I'll be the shadow of your name
Hold the prize close to your heart Prizes made for those who failed Hold the prize away from you So maybe you can hold me as well
When time peels off your statued skin I'll still be fooled by what remains Yeah whatever's left of you will be my dream
Yeah, you're my friend And when we're drunk I'll still hold your hand Revealed in white when the shadows fail In any shadow that you can name I'll be the shadow of your name
LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (III) (com a indispensável colaboração do R & R)
(clicar na imagem, depois, em "ver imagem", a seguir, usar a lupa)
13 March 2012
31 DE FEVEREIRO
Lambchop - Mr. M
Bastava ouvir isto: “Took the Christmas lights off the front porch, February 31st”. O universo wagneriano (de Kurt Wagner) fica instantaneamente desenhado – coisas insignificantes, rotineiras, banais, mas que ocorrem num mundo paralelo onde Fevereiro tem 31 dias sem que tal chegue, sequer, a tornar-se assunto de conversa. E, mesmo que isso possa ser lido como uma obliquíssima alusão ao suicídio, em 25 de Dezembro de 2009, de Vic Chesnutt (amigo de Wagner e colaborador dos Lambchop, a quem Mr M é dedicado), é apenas mais uma peça solta no tabuleiro do grande puzzle para o qual não vale muito a pena tentar descobrir outro sentido que não o que uma palavra somada à anterior e aquela à seguinte, pela própria inexorabilidade do desenrolar de texto e música, irremediavelmente desenham. Mas talvez tudo fique um pouco mais claro se recuarmos até 2008, após a publicação de OH (Ohio).
A “art country orchestra symphonette” que, no início dos anos 90, começou por se chamar Posterchild e, enquanto Lambchop, tinha chegado ao décimo álbum de estúdio – com dois ou três clássicos no currículo (pelo menos, How I Quit Smoking, 1996, e Nixon, 2000) e deixando perplexa, pelo caminho, a tribo dos classificadores, incapaz de se decidir entre pós-country, funk-folk, pós-folk ou country de câmara –, parecia decidida a pôr um ponto final na trajectória, regressando Kurt Wagner à sua primeira paixão, a pintura. Cerca de um ano mais tarde, porém, coincidindo com a morte de Chesnutt, o produtor Mark Nevers – fã dos Ramones mas valete indispensável na corte dos Silver Jews, Calexico e Bonnie "Prince" Billy – desafia-o para cúmplice de uma conspiração musical, sob o nome de código “Psycho-Sinatra”: inspirado pela escuta de September of My Years (LP de Frank Sinatra de 1965) e pela sofisticação dos arranjos de Gordon Jenkins, o plano era enviar canções de Kurt Wagner a orquestradores externos (Peter Stopschinski e Mason Neely), tratando Nevers de, a seguir, desmontar e recompor as partituras, fazendo uso de cada fragmento como se de um instrumento solista se tratasse.
No papel, parece mais bizarro do que, finalmente concretizado, acabou por ser. Qual discípulo de Raymond Carver determinado em conduzir o minimalismo às últimas consequências através de uma espécie de "cut-up" impressionista, Wagner alinha frases esquartejadas e observações sobre o trabalho de composição (“Grandpa’s coughing in the kitchen but the strings sound good, maybe add some flutes” ou “A sentence past is paraphrased and you pick up trash in the rain, beside the motor-way”) enquanto, à sua volta, a orquestra, entretida consigo mesma, desenha espirais. Antes disso, aguardara serenamente que cascatas disneyanas de cordas acabassem de se precipitar para lançar um “Don’t know what the fuck they talk about, maybe blowing kisses, and what difference does it make?”, para, depois, permitir que "Gone Tomorrow", aparentemente concluída, se dissolvesse num oceano sinfónico do “deconstructed freaky sound of the Sinatra era“. E, à vez, fantasia-se de Randy Newman, David Berman, Nat King Cole ou Mark Eitzel, imagina-se Stuart Staples pela mão de Van Dyke Parks soltando, aqui, “We have crawled among the elements, taking pictures with our phones”, ali, “The wine tasted like sunshine in a basement” e, mais à frente, ausenta-se e entrega o palco ao fantasma de Chopin que, a quatro mãos com Sérgio Mendes, inventa um sonho zen nos caldeirões do Inferno. Nada que não seja comum e previsível em qualquer 31 de Fevereiro habitual.
(2012)
22 February 2012
VINTAGE (LXIII)
American Music Club - "Johnny Mathis' Feet"
I lay all my songs at Johnny Mathis’ feet
I said, "Johnny tell me
Can you tell me how to live?
All my hopes are unraveling and I just lost my lease
On my house without love, doors, or windows
Without peace"
And with a wave of his jewel-encrusted hand
Across the glittering Las Vegas scene he said,
"You gotta learn how to disappear in the silk and amphetamine"
Johnny looked at my songs and he said,
"Well at first guess, never in my life
Have I ever seen such a mess.
Why do you say everything as if you were a thief?
Like what you’ve stolen has no value
Like what you preach is far from belief?"
And with a wave of his red white and blue hand
Across the glittering Hollywood scene he said,
"You gotta learn how to disappear in the silk and amphetamine"
Johnny looked at my old collection of punk rock posters
Anonymous scenes of disaffection chaos and torture
And he said, "You were on the right track
But you’re a lamb jumping for the knife"
He said, "A real showman knows how
to disappear in the spotlight"
(2012)
26 January 2011
PETÚNIA À BEIRA DO DESMAIO
Sun Kil Moon - Admiral Fell Promises
Mark Kozelek – desde as origens nos Red House Painters à discografia assinada com o próprio nome ou sob o heterónimo Sun Kil Moon – nunca foi o género de criatura que se convida para dar vida a uma festa. Nada de grave: Leonard Cohen, Nick Drake ou Mark Eitzel também não devem a celebridade ao facto de terem uma costela de "stand-up comedians" e isso não os impediu de, por entre dilúvios de melancolia e saturnidade, terem legado discografias memoráveis. Se, por outro lado, optarmos por tentar descobrir traços de afinidade estética com Neil Young – tanto em variante acústica como eléctrica –, instantaneamente nos aperceberemos de que nunca o canadiano praticou nada de tão entorpecente quanto a modalidade-Kozelek de rock/folk/country-on Xanax. Dylan?... Mas deixar-se-ia ele alguma vez apanhar a destilar (mesmo nos anos das trevas "born again") inefáveis essências poéticas do género “Come out from the burning fire, butterfly, let me lock you in my room and keep you for a while, could you be the answer to my every prayer?” Não, nem sequer Bonnie ‘Prince’ Billy, demasiado alucinado para poder dar-se a tais luxos de auto-comiseração. Kozelek vive, de facto, na sua bolha estanque de ruminativa solidão cultivada como uma petúnia sempre à beira do desmaio, terminalmente desinteressado de alterações de "mood" ou de expressão, sem rumo e sem alento, mas obstinado na multiplicação desta espécie de "easy-listening" para almas indie asténicas. Nessa exacta medida, Admiral Fell Promises é bem capaz de ser o seu melhor álbum: apenas voz e guitarra acústica entregue a arpejados devaneios monocromáticos, morosas ornamentações proto-“hispânicas” e, Zeus o proteja, um mundo sentimentalmente esfarrapado que não desiste de conspirar contra ele.
Uuuuf!... Não são bons, são magníficos. Em cima de um palco, quero dizer. Pelo menos, no da Aula Magna, há meia dúzia de dias. Explico-me: depois de Alligator e Boxer, ninguém se atrevia sequer a pingar o primeiro ponto de reticências acerca da grandeza de The National enquanto autores de algumas das mais assombrosas canções contemporâneas, deste lado de David Berman, Mark Eitzel ou Micah P. Hinson. Mas – relatórios de campo e histórias avulsas chegavam daqui e dali –, poderíamos encontrar-nos perante um novo “caso Go-Betweens”: sublimes em disco, constrangedores (muitas vezes) ao vivo. Nada que diminua uma obra mas que pode comprometer bastante alguns preciosos encontros imediatos. Foi coisa de instinto: o som de “Brainy” – a turva obsessão “you know I keep your fingerprints in a pink folder in the middle of my table” –, abertura dos trabalhos, poderá não ter sido transcendente mas havia matéria de facto suficiente para adivinhar que se estava a fazer História (sublinhem a maiúscula). Estava. Daí em diante, Matt Berninger, o seu templo do duplo par de anjos gémeos caídos e o violinista demente, Padma Newsome, ungiram a mole. “Squalor Victoria”, “Abel”, “Fake Empire”, “Mr. November” (com imersão – espontânea? calculada? que importa? – na massa dos fiéis) operaram, caso ali houvesse almas a converter, infinitas conversões instantâneas e meia dúzia de apocalipses sonoros. Incêndios de guitarras e palavras. E uma escansão rítmica que dividia e multiplicava uma espécie de poética cardiográfica quase absurdamente matemática. Demasiado perfeito para sonhar vê-los outra vez. (2008)
28 March 2008
A TREMENDA VERDADE
American Music Club - The Golden Age
Quando, por altura da publicação de San Francisco, conversei com Mark Eitzel (no dia seguinte a um devastador concerto, a solo, no Shaw Theatre, de Londres), dizia ele com aquele sentido de humor ácido e autodepreciativo que raramente abandona: “American Music Club é um nome estúpido com as três piores palavras possíveis: espera-se algo de espalhafatoso (ou, então, blues...) e saímos nós”. E acrescentava: “Canções felizes, comigo, não têm vida muito longa no papel. Escrevo sobre o que me excita. É como se houvesse uma espécie de prazer na dor que faz parte da vida e é uma forma muito precisa de reagir ao mundo”. Esse iria ser, durante uma década, o último álbum da banda (individualmente, Eitzel publicaria meia dúzia de gravações) que, apenas em 2004 se voltaria a reunir para Love Songs For Patriots, um álbum-em-tempo-de-guerra.
Quatro anos depois, The Golden Age (alerta: ironia muito negra!) retoma praticamente o programa que Mark Eitzel expunha em 1994 e, se aqui e ali, ele parece voltar a prestar alguma atenção ao mundo-lá-fora (“the bankers, the liars and the thieves they want to sell you into a life of fear, they call it a plan to make you free”, de “The Sleeping Beauty”, quase ecoa “Who are the ones that we kept in charge? Killers, thieves and lawyers”, de “God’s Away On Business”, de Tom Waits, em Blood Money), é, no entanto, o surdo confronto dos demónios interiores que regressa intacto, num tremendo programa de canções em equilíbrio instável entre o “crooning” suicidário, o rasgão dos espasmos eléctricos da guitarra de Vudi, o requinte Bacharach/Prebab Sprout e a valsa ebriamente demente. O mais “feliz” que Eitzel consegue mostrar-se é “all the lost souls welcome you to San Francisco, a city built by fire trucks and skeletons who grin and grin, pimps and thieves who can’t believe their luck, saints proud to show you their sin”. A partir daí, a espiral desce infinitamente até – como diria Leonard Cohen – à “awful truth which you can't reveal to the eyes of youth": “No one here will ever save you”. (2008)
26 March 2008
THE JOURNEY
"Songs wouldn't have any sense of vitality if there wasn't a sense of journey. And the journey is: 'I don't know what the fuck I'm trying to say'. And then you say it. The problem is that, the older you get, it's really easy to do it identikit. It's really hard for me to write a song these days because it's so easy now and I don't want it to be easy". (Mark Eitzel, American Music Club, à "Uncut")
(2008)
02 June 2007
CANÇÕES DENTRO DE UM QUARTO
The National - Boxer
Na página The National, do MySpace, pode ler-se: “A banda canta o tipo de sonhos capazes de arruinar vidas e, desses sonhos, cria o tipo de música que as salva”. Que se pode dizer depois disto? Que Leonard Cohen, David Berman, John Cale ou Mark Eitzel nunca fizeram outra coisa senão isso? Que é inteiramente verdade mas que Matt Berninger e os dois pares de gémeos – Dessner e Devendorf – que constituem The National se inscrevem de pleno direito na linhagem dos que padecem dessa magnífica enfermidade mas, aos antecessores, devem apenas o contágio do vírus e pouco ou nada da particular matéria orgânica do espírito onde ele se alojou e, desordenadamente, se multiplica? Que a banda que, há dois anos, publicou o enorme Alligator, acaba de criar para si mesma o gigantesco problema que decorre de, de álbum para álbum, elevar absurdamente as expectativas, e, mais tarde ou mais cedo, já não ter fôlego para pular sobre a impossível fasquia seguinte que deliberadamente estabeleceu?
Tenhamos a decência de ser um pouco menos tontos: nada disso importa. Boxer, agora mesmo, é apenas um dos mais avassaladores álbuns de canções que (em vários desses – e de outros – que ficaram nomeados aí mais acima) essa substância pouco definível que é a poética pop alguma vez conseguiu gerar. Não, por favor, não dêem já o habitual desconto ao vício para a hipérbole crítica: não acontece todos os dias, nem todos os meses, nem sequer todos os anos, desenvolver-se uma tão inquietante e persistente dependência em relação a um disco. Porque inquieta, de facto, apercebermo-nos de uma sanguínea afinidade para com os estados de alma de apática abjecção, para a estetização do “mal de vivre” mais intolerável, para a transfiguração dos pesadelos em licores divinos do esquecimento e da cobarde distanciação metódica. Será, talvez, uma questão de forma (álibi idiota mas convenientemente funcional): Matt Berninger escreve como quem colecciona aforismos desgarrados mas que, improvável e fortuitamente, ganham um sentido superior quando alinhados no corpo de uma canção.
“Underline everything, I’m a professional in my beloved white shirt” não deveria desaguar necessariamente em “Raise our heavenly glasses to heaven! Squalor victoria! Squalor victoria!”, nem o desamparado remate final teria, inevitavelmente, de ser, “This isn’t working, you, my middlebrow fuck-up”, tal como a sequência “Turn the lights out, say goodbye, no thinking for a little while, let’s not try to figure out everything at once, it’s hard to keep track of you falling through the sky, we’re half awake in a fake empire” não se alimenta do veneno do irremediável. Mas que, quando lançados sobre o tropel rítmico de uma marcha/antecâmara para um requiem indolentemente épico ou calcinados a frio pelo frenesim exausto de um Cohen em sobredose de lítium, se diriam desoladoramente evidentes.
Sim, o galope rítmico: melodia e densidades tímbrica e harmónica não escasseiam em Boxer mas é a bomba cardíaca de Bryan Devendorf que rasga a letargia e dispara os químicos detonadores de todas as taquicárdias, bradicárdias e fibrilhações que transtornam cada canção. E, sim, Cohen: não pela configuração exterior mas, muito mais propriamente, interior – quase todas estas são “songs from a room”: “we’ll stay inside till somebody finds us, do whatever the tv tells us”, “they’ll find us here, here in the guest room, where we throw money at each other and cry”, “sometimes you get up and bake a cake or something, sometimes you stay in bed”, “Ada, I can hear the sound of your laugh through the wall”, “I wanna hurry home to you, put on a slow, dumb show to you and crack you up”.
Tudo farrapos de textos distintos mas que a estética da variável geometria de Berninger poderia ter feito coabitar por entre as quatro (ou muitas mais) paredes de apenas um. Desgostantemente civilizadas, “pink, young and middle class”, as personagens de Boxer “expected something, something better than before, we expected something more”, admitem que “we miss being ruffians, going wild and bright in the corners of front yards, going in and out of cars, we miss being deviants” mas, após mais uma “uninnocent, elegant fall into the unmagnificent lives of adults”, quando buscam um ponto de apoio, “I leaned on the wall and the wall leaned away”.
Parede falsa, império falso, vitórias esquálidas, “appartment stories” sufocadas, mas... que nada se mova, “all things are well, we’ll be alright, we have our looks and perfumes”. O pesadelo tem “room service” e ar condicionado. (2007)
20 January 2007
TIKKUN OLAM OU OS MORANGOS SILVESTRES
À minha frente, num snack-bar encardido de King's Cross, em Londres, a dois passos do "Scala" onde, à noite, irá dar aquele que é apenas o 14º concerto da sua vida, está o homem que, de si mesmo, escreveu: "Fui a partida que a minha mãe pregou ao mundo, dezassete médicos não conseguiram decidir se me deveriam deixar entrar em jogo (...) Como forma de me manter em contacto com as minhas origens, todas as noites acerto o despertador para a hora em que nasci de modo a que acordar se transforme numa reconstituição histórica".
David Berman, 39 anos depois dessa indecisão numa sala de partos de Williamsburg, Virginia, "songwriter" e poeta, sombra chinesa por trás de uma banda hipotética, os Silver Jews. Que são, afinal, apenas ele e que, após cinco álbuns — Starlite Walker (1994), Natural Bridge (1996), American Water (1998), Bright Flight (2001) e Tanglewood Numbers (2005) —, só agora, pela primeira vez, se decidiu a pisar um palco.Mas não estava, de todo à espera, que, quando lhe pergunto se o nome, Silver Jews, era, de facto, giria de Brooklyn para designar "judeus de cabelo loiro", com pouco ou nada a ver com a sua ascendência judaica, a resposta que me deu fosse o ponto de partida para um dilúvio de convicções religiosas e uma exploração quase psicanalítica da sua conturbada história pessoal: "O nome da banda, inicialmente, foi só algo que eu e o Stephen Malkmus inventámos. Mas, se é verdade que não fui educado como judeu, eu identificava-me como tal. Uma das coisas que, desde há dois anos se me revelaram foi como todas os impérios — romano, grego, babilónio, o III Reich — desapareceram, mas esta pequena tribo persistiu, apesar de ter sido perseguida por todos eles. Eu queria compreender qual era o segredo disso, o que, apesar de dispersos pelo mundo todo, os manteve unidos, o que os impediu de serem assimilados. Toda a ideia do judaísmo é a de um grupo de pessoas que constitui uma comunidade. Se eu, todos dias, fizer as orações judaicas, tenho a certeza que isso acontece desde há 3 000 anos, pelo mundo todo, passando-as de geração em geração. O meu avô e o meu pai decidiram cortar com tudo isso, eram homens de negócios.
Quando tomei consciência do que pensariam todos os meus antepassados acerca destes dois homens, disse 'Isto não está certo, não temos o direito de fazer uma coisa destas, de quebrar esta cadeia!'. A minha fé em Deus é algo em que ainda tenho de trabalhar. Mas, mesmo assim, escolhi viver como judeu porque descobri que não posso viver o meu dia-a-dia de outra forma, aquela perspectiva de procurar que tudo o que acontece em cada dia seja divino. Toda a minha visão acerca do futuro se modificou, trabalho activamente para ele. Quero deixar uma marca. Neste Verão, vou tocar a Telavive. Noutro dia, peguei num numero da 'Time Out' de Telavive em que vinha uma entrevista minha e dei comigo a pensar nas dezenas de milhar de judeus que terão olhado para a minha fotografia e dito 'Mas que raio de gajo é este, judeu do Tennessee, duma banda chamada Silver Jews?!!!...' É por isso que agora penso que dar concertos faz todo o sentido se relacionar isso com o meu judaísmo. Sem o judaísmo, nunca teria tocado ao vivo, nunca teria sentido esta obrigação de lidar com as outras pessoas. O objectivo é tikkun olam, reparar o universo. Todos os dias, a mais pequena acção deverá melhorar um pouco o universo. Temos a obrigação de fazer aquilo que está certo. Todas aquelas pequenas coisas que eu fazia, como mentir ou enganar alguém, não são pequenas, são realmente muito grandes".
Bom, este parece ser um David Berman consideravelmente diferente do autor do magnífico livro de poesia Actual Air (1999) ou do escritor de canções na directíssima descendência de Cohen, Randy Newman, Mark Eitzel ou Tom Waits, aquele de que nunca resistimos a citar infinita e extensamente nacos de textos como "Eis-me bêbedo num sofá em Nashville, num duplex perto da lixeira, e cada coisa em que penso é como um murro na cara, pareço um coelho a tiritar de frio agarrado a uma estrela; no lado errado de um domingo de manhã, desfeito em cacos sob uma luz insuportável, a trabalhar para um circo falido, no lado errado de sábado à noite", "Belíssima e estúpida, a neve cai frente à silhueta negra das árvores de Abraham Lincoln, o céu baixo como uma mesa japonesa e as pernas dos cavalos como quatro caçadeiras castanhas", "Fui hospitalizado em 1984 por me ter abeirado da perfeição" ou "Quando Deus era jovem, criou o sol e o vento, desde então, tem sido uma demorada educação". Mas regressemos aquela expressão que Berman, casualmente, deixou escapar, "desde há dois anos". Foi nessa altura que ele terá deixado para trás um prolongado pesadelo de drogas e alcoolismo e iniciado aquilo a que só se poderá chamar "uma nova vida". Falemos, então, sobre isso: "Quando inventei o nome Silver Jews, nem sequer pensava nesta questão do judaísmo. Mas, às vezes, penso que foi uma coisa providencial. Durante muito tempo, chegou a ser um fardo, só nestes dois últimos anos é que compreendi como, na verdade, era uma benção. Só por causa desse nome, todos os meus interesses na vida estão, finalmente, juntos. Se represento algo mais do que apenas eu próprio, isso alegra-me. No passado, nunca teria desejado representar algo ou alguém porque as minhas acções eram demasiado sinuosas e pessoais, demasiado tortuosas e erróneas. Agora, penso no meu futuro como uma sequência de boas decisões. Ainda só há dois anos eu estava na sarjeta, não possuía nada. Voltei a conseguir por-me de pé muito depressa. Para mim, tudo isto é muito difícil porque não acredito no sobrenatural".
Naturalmente, tenho de lhe perguntar por que motivo toda essa colecção de bons propósitos será especificamente judaica e não apenas uma questão de bom senso cívico, uma certa ética de comportamento comum a todas as religiões ou mesmo a quem não professe nenhuma. Da mesma forma nervosa mas determinada com que, aparentemente, descobriu a resposta para tudo, diz-me: "É verdade. Mas foi um alívio quando descobri que os cristãos não tinham razão. Nunca fui cristão mas pensava que, se toda a gente dizia que eles estavam certos, então, deviam estar. Na verdade, agora acredito que eles saquearam o judaísmo e o transformaram de acordo com os seus próprios objectivos. Na América, o cristianismo é muito intimidatório. Afastar-me dos Republicanos, dos cristãos e de todos os idiotas melhorou muito a minha vida. Mas tem razão, tudo começou por aí, por aquilo que, no judaísmo, se relaciona com a justiça social. O meu pai é um judeu muito, muito, muito mau!... É uma das piores pessoas do mundo. Não comigo, até suponho que gostava de mim.. De certo modo, a minha adesão ao judaísmo foi uma forma de o afastar. É curioso como eu tendo a rodear-me de pessoas que é bom afastar. Lembro-me de uma vez em que tive de lutar fisicamente com o meu pai e o venci. O olhar dele dizia-me claramente 'Tu não fazes parte de mim'. Foi uma sensação muito estranha, embaraçou-me muito. Foi nessa altura que saí de casa, todo o comportamento dele me parecia muito indigno. Nunca mais me voltou a incomodar mas só recentemente me consegui libertar da intimidação que a figura dele representava. Talvez através daquela imagem de Deus-Pai tenha conseguido eliminar a outra do meu pai biológico. Agora, sinto-me, finalmente, capaz de realizar coisas. É curioso que, ao mesmo tempo que comecei a descobrir estes sentimentos religiosos, reparei também que tinha algum público e apeteceu-me descobri-lo. No papel, tudo apontava para que isso corresse mal: um tipo da minha idade, que já publicou 4 ou 5 álbuns a que ninguém ligou nenhuma... A salvação talvez tenha surgido do nome, Silver Jews, que permitiu um certo anonimato: fica-se sempre na dúvida se colocar "silver" e "jews" na capa de uma revista não irá criar problemas".
E, apesar de começar a estar preparado para todo o tipo de revelações, ainda me surpreendo quando David Berman me conta que, desde há dois anos (sempre "desde há dois anos"...), segue um rabi: "Não o procurei, foi ele quem me encontrou. Mandou-me um email a convidar-me para um programa na universidade sobre escrita espiritual. É também um excelente escritor que se dedica ao estudo da confluência do budismo com o judaísmo e ensina meditação judaica. Um rabi não tem nada a ver com um guru, limita-se a fazer muito bem o seu trabalho, devolve-nos a nossa responsabilidade. Fez-me muito bem à cabeça. Os temas religiosos costumavam aborrecer-me de morte e agora tenha uma pilha de livros sobre o assunto que, embora nem tenha conseguido chegar a meio, estou a devorar. Não me meto em temas como a Cabala, nada disso... Tento apenas aprender os princípios e isso está a interessar-me imenso".
Parece-me a altura certa para lhe dizer que, apesar de sempre ter tido a maior admiração pela sua poesia e canções, o último álbum, Tanglewood Numbers, me soou (começarei agora a compreender porquê?)... perigosamente feliz. Não se desconcerta, garante-me que já outros lhe disseram o mesmo e acrescenta: "Quando saí da desintoxicação e fazendo parte de uma tradição musical onde existem tantas almas perdidas, foi um desafio enfrentar o mundo e andar em frente. Vivi no inferno durante vários anos, num inferno ainda mais profundo durante seis meses, e nunca mais quero voltar para lá. Farei tudo para o evitar. Mas sei perfeitamente que nunca voltarei a gravar outro álbum com tantas canções "upbeat", quando a minha personalidade se reequilibrar por completo não irá repousar aí".
As canções e a poesia, então: como começou tudo? "No princípio, ainda na faculdade, tentei escrever canções rock mas não me saí muito bem. As primeiras de que gostei abordavam temas fora do que é habitual no domínio 'cool' do rock que é, aliás, muito limitado, pouco vai além do habitual 'boys and girls'. Expandiu-se um bocadinho mas, na verdade, não aquilo que seria de esperar numa forma de arte. As fronteiras sonoras têm-se alargado mas, no que diz respeito à palavra, à linguagem, nem por isso. É raríssimo encontrarmos um autor de canções que se dedique realmente à forma como emprega as imagens numa canção. Não é nada de terrivelmente abstracto... Tudo decorreu também de ver aquilo que os meus amigos faziam. Quando o Sephen Malkmus publicou o seu primeiro 7", para mim, foi como atirar uma bola ao mar e ver até onde é que ela ia. Nem eu nem ele percebíamos nada acerca de editoras independentes. Mas, porque ele fazia um determinado tipo de música, eu iria, necessariamente, tentar fazer algo diferente dele. Daí que os meus limites tenham sido parcialmente definidos por ele. Aquilo que eu lia, alguma poesia em prosa, mostraram-me como uma ideia pode ser moldada sob formas muito diferentes. O Charles Simic tem um livro, The World Doesn't End, que saíu em 1988, tive de o ler na faculdade, tem parágrafos espantosos, como pequenas caixas que contém aquela ideia muito-Joseph Cornell de colecção de objectos e imagens que me atraía muito. Antes disso, provavelmente imaginava que isso não seria permitido, numa canção, pegava numa ideia e tentava desenvolvê-la até ao fim. A partir daí, diverti-me a escrever como quem vai atirando uma moeda, um clip, um lápis para dentro de uma caixa... Ao mesmo tempo, também ia escrevendo poesia segundo essa ideia de textos como objectos concisos e auto-suficientes, nunca me interessei pelo romance, pela pintura ou por coisas que me ocupassem muito tempo. Prefiro temas rápidos, curtos que consiga olhar e apreender de uma só vez. Quando estou a ler um romance, se o interrompo e, a seguir, volto a ele, há muita coisa que se perde. Obviamente, sentimo-nos atraídos para aquilo que somos capazes de fazer.
Tenho uma quase total ausência de memória. Não sou capaz de aguentar nada de um dia para o outro. Quando deixei de beber, a minha capacidade para alinhar uma sequência de pensamentos e acompanhar um projecto durante mais do que um dia melhorou um pouco mas, ainda assim, preciso de fazer as coisas depressa. Mas, desde os primeiros tempos, nunca pretendi soar como outra banda qualquer. Claro que admirava muitas bandas e músicos como os Dinosaur Jr, os primeiros quatro álbuns dos R.E.M., The Fall, Pussy Galore, Royal Trux..." Recordo-lhe uma entrevista em que confessava que, ter trabalhado como vigilante no Whitney Museum of Art, de Nova Iorque, havia sido, realmente, a circunstância que dera origem à ideia-Silver Jews. "É verdade, foi aí que compreendi o que os Silver Jews deveriam ser: não só a maioria das canções foram literalmente escritas durante as horas de trabalho (eu escrevia o tempo todo) como, nessa altura — final dos anos 80, início de 90 —, a maioria do que se fazia era arte política ou conceptual. No Whitney, o museu mais importante para os artistas jovens, eu e o Steve (Malkmus) víamos todas aquelas obras, conversávamos imenso acerca delas e de artistas como o Bruce Nauman, Charles Ray... Quando comecei a gravar o primeiro 12", nunca pensei que os Silver Jews fossem realmente uma banda: eu enviava para o mundo esta espécie de ideia de uma banda, uma cópia desbotada de um Xerox de uma banda. Sentava-me no Whitney e, com o Steve, inventávamos nomes de bandas, títulos de canções. Nunca iríamos tocar ao vivo, vendermo-nos comercialmente, fazer parte da economia de mercado, na verdade, nunca iria existir banda nenhuma, os discos pareceriam ser discos mas não seriam mais do que umas fitas que gravávamos lá em casa. A certa altura, no entanto, pareceu-me que aquilo que eu fazia era bom, até podia ganhar algum dinheiro com isso e continuei". A opção de nunca dar concertos — justificando e legitimando o "stagefright" — também surgiu aí: "Os artistas e escritores não fazem digressões em que sejam obrigados a 'tocar' as suas obras. Via-me como um deles, gostava de ir a concertos mas nunca me identificava tanto com os músicos em palco como o fazia quando, por acaso, via um pintor numa galeria: quero ser como este tipo! Ele faz o que lhe apetece durante o dia todo, ninguém o aborrece, pode viver como um ermita ou no centro de Nova Iorque, é isso mesmo que eu quero!"
Acerca do único livro de poesia publicado e do modo como divide a escrita entre textos para o papel e para as canções, tudo deixa a impressão de estar bem resolvido na cabeça de Berman: "Acaba por ser uma questão de decidir: o que vou fazer agora? Escrever poemas ou canções? Funciono por períodos separados. Às vezes uma coisa comunica com a outra. Mas só publicarei outro livro quando tiver a certeza de que será bastante diferente do primeiro. Já o poderia ter feito mas seriam apenas outras versões dos mesmos poemas. Aliás, entretanto, Actual Air foi até adaptado ao teatro. Estava cheio de medo que resultasse muito mal mas o grupo de teatro de Huston que trabalhou sobre ele era excelente e o resultado foi óptimo: retiraram cerca de doze cenas/vinhetas do livro, colocaram versões de músicas minhas como elemento de ligação, foi uma surpresa magnífica, nunca pensei que fosse tão bom". Queiram, então, reler, agora, todo o início desta conversa com David
Berman. Porque é absolutamente necessário habitarmos um pouco o interior
da sua (renascida) mente para não vacilarmos demasiado quando, a uma
pergunta simples como "Qual a razão para, só quase quinze anos depois,
se decidir a subir a um palco?", ele nos responde assim: "Quando
entrei no processo de desintoxicação, de repente, tive de me convencer a
lidar com pessoas a que não estava habituado e de que não gostava.
Também, durante a gravação do álbum, fui obrigado a responsabilizar-me
por diversos aspectos da produção. Estava sempre pronto a regressar à
minha caverna mas, quando o disco saíu, um dia em que caminhava em
Nashville, pela Tanglewood Drive, pedi a Deus que me desse algum sinal
acerca do que deveria fazer. Fazia parte das minhas experiências com a
oração... No início da rua, colocava a pergunta — deverei fazer uma
digressão em 2006? — e esperava que, no fim dela, surgisse uma resposta.
Como estava convencido que não receberia qualquer sinal, a ideia de
fazer concertos mal se chegava a pôr. No fundo da rua, havia um canteiro
apenas coberto de relva onde, quando andava a passear com o cão, eu,
habitualmente, voltava para trás. Nesse dia, reparei que estava cheio de
morangos silvestres. Provavelmente, os morangos crescem ali todos os
anos. Mas eu escolhi acreditar que aquele tinha sido o sinal de que
andava à procura". (2006)
VER-LHE O BRANCO DOS OLHOS
"Quanto menos o meu corpo se mover, mais energia o meu cérebro tem para escrever": David Berman disse-o mas — embora fosse uma justificação tão boa como outra qualquer — nunca o chegou a utilizar como argumento para (à parte uma ou outra leitura de textos e poesia) sempre ter posto de lado a possibilidade de transformar o conceito-Silver Jews numa banda real, daquelas que publicam álbuns, aparecem nas televisões e nas rádios e se fazem à estrada em intermináveis digressões transcontinentais, na insana missão de, cidade a cidade, somar cachets e convencer os fãs a comprar uma cópia do último opus. Não, Berman, não era um "animal de palco" (imagina-se mesmo que deverá abominar a expressão) e muito dificilmente seria aos 39 anos que se transformaria num exemplar dessa espécie.
Apenas com treze concertos norte-americanos no currículo — isto é, a parte inicial da actual tournée —, os Silver Jews de turno no "Scala" de Londres foram, assim, um sexteto de "indie" rock muito próximo daquela admirável incompetência que, por exemplo, os Go-Betweens converteram na sua imagem de marca: duas guitarras (mais a do próprio Berman, um tanto ou quanto... impressionista), baixo (nas mãos de Cassie "american belle" Marrett, aliás, Mrs. Berman), teclado e bateria, com excelentes momentos de coesão que se percebe irem sendo conquistados em cada concerto, instantes de total desacerto (com Berman e o grupo iniciando, simultaneamente, duas canções completamente diferentes) e, para o que conta, inteiramente capaz de — pela simples presença no mesmo espaço físico dos fãs que, finalmente, puderam ver o branco dos olhos ao autor de "Random Rules" — sintonizar instantaneamente o mesmo comprimento de onda de um público que não buscava mais do que essa epifania. Mesmo socorrendo-se de uma estante (com os textos das canções e sequências de acordes), David Berman poderia ter cometido muito mais gaffes do que aquelas que aconteceram, que tudo lhe seria relevado: quem ali se deslocara não vestira a toga de examinador. E ele nem sequer insistiu demasiado no último Tanglewood Numbers (apenas foram interpretadas "There Is A Place", "Animal Shapes", "Sometimes A Pony Gets Depressed", "Sleeping Is The Only Love" e um arrasador "Punks In The Beerlight"), preferindo serpentear por todo o reportório anterior, de "Time Will Break The World" a "Slow Education", "Smith & Jones Forever", "Trains Across The Sea" ou "Horseleg Swastikas". Na noite de 24 de Abril em Londres (socorrendo-nos daquela frase de William Carlos Williams que Berman também gosta de citar), ninguém morreu "por falta do que na poesia se pode encontrar".