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05 June 2025

Pulp Later With Jools Holland 1st June 2025
 
(sequência daqui) O essencial, porém, fora assegurado: o instável grupo de criaturas que ia constituindo os Pulp mantinha-se junto (tanto quanto era possível num permanente vai e vem) e os próprios acidentes que ocorriam - por exemplo, Jarvis cair da janela de um primeiro andar quando, para impressionar uma miúda, fazia uma imitação do Homem Aranha - enquadravam-se perfeitamente nas coordenadas daquela peculiar normalidade. O que, caminhando ao longo de uma produção discográfica razoavelmente regular - Freaks (1987), Separations (1992) - lhes permitiu chegar a Intro - The Gift Recordings (1993), que, antes de His 'n' Hers (1994) e Different Class (1995), por essa altura, me obrigava a vê-los como "A banda sonora para um circo de aberrações (Individuais, domésticas, sociais)" na qual "a eufórica celebração da Grã Bretanha e da sua paisagem humana como sarjeta da moral cristã e vistoso lixo para incinerar numa colorida feira popular foi organizada por quem, pelo povo não revela um exagerado afecto. (...) Different Class (a baixa, desprezível, abjecta e orgulhosa) foi o alfa e o ómega de uma trajectória única. A escuta de tudo aquilo que o antecede pode não ser sempre exaltante mas, pelo meio do 'glamour' rasca, das lantejoulas em segunda mão e do 'chic' de saldo (isto é, Roxy Music devolvido ao proletariado suburbano), explica demasiado bem a genealogia de uma glória adiada". (segue para aqui)

04 August 2024

The Unthanks - "Three Shaky Ships"
 
(sequência daqui) Não porque isso tivesse algo a ver com o seu passado: "Não, na altura, não ouvia os Roxy Music. Provavelmente, escutava música folk búlgara. Líamos Blavatsky e Gurdjieff, todos esses velhos charlatâes, e acreditávamos em tudo. E, ui!... o Livro Tibetano dos Mortos... Levavamo-nos muito a sério e, agora, não sou sequer capaz de perder um segundo com aquilo", confessou Linda ao "Guardian". Na verdade, o que aqui importa é a fantástica legião de músicos, vozes e instrumentos que, para Proxy Music convergiram: os filhos Teddy e Kami, o neto Zak, Richard Thompson, as Unthanks, The Proclaimers, The Rails, Martha e Rufus Wainwright, Eliza Carthy, John Grant, o veterano violinista Aly Bain, e as óptimas revelações Ren Harvieu e Dori Freeman, entregues a belíssimas e saborosas confissões auto-irónicas ("I’m alone now, you’d think I’d be sad, no voice, no son, no man to be had, you’re wrong as can be boys, I’m solvent and free boys, all my troubles are gone”), abrindo espaços por ocupar na riquíssima linhagem das dinastias folk - os Wainwrights, Roches, McGarrigles, Watersons, Carthys, Coppers e Thompsons - que, por entre afinetadas avulsas (“And if it’s true, that only the good die young, lucky old you, ’cause you’ll be around until kingdom come”), em "Those Damn Roches", celebram, identificando com precisão a delicada relojoaria familiar que tudo move: “Faraway Thompsons tug at my heart, can’t get along ’cept when we’re apart, Is it life, or is it art? One and the same”.

01 August 2024

 
Ren Harvieu - "I Used To Be So Pretty"
 
(sequência daqui) Meio século depois de, com o então companheiro (e ex-Fairport Convention), Richard Thompson, ter gravado a obra-prima absoluta I Want to See the Bright Lights Tonight, e pouco menos após os nada menores Hokey Pokey (1975), Pour Down Like Silver (1975), First Light (1978), Sunnyvista (1979) e Shoot Out the Lights (1982), bem como, a solo - mas já então atormentada pela disfonia espasmódica que lhe condicionava seriamente o uso da voz -, One Clear Moment (1985), Fashionably Late (2002), Versatile Heart (2007) e Won't Be Long Now (2013), Linda Thompson ver-se-ia, enfim, obrigada a abdicar do canto, concentrando-se apenas na composição. É em momentos destes que, sob as mais duras adversidades, a imaginação e o sentido de humor podem fazer milagres. Seleccionando um grupo de intérpretes - família próxima e amigos - que, por procuração (em inglês, "by proxy"), emprestariam a voz âs suas canções, chamaria, naturalmente, ao álbum Proxy Music. Mas não se ficaria por aí: a capa seria uma perfeitíssima reprodução da do álbum de estreia dos Roxy Music, com a septuagenária avançada Linda no lugar de Kari-Ann Muller. (segue para aqui)

30 July 2024

POR PROCURAÇÃO

Ex-aluno de Richard Hamilton - pioneiro britânico da pop art - na universidade de Newcastle, Bryan Ferry sentia muito pouca afinidade com a austeridade visual da estética "prog" no início da década de 70. O que o fazia vibrar era a sofisticação, a sensualidade e o brilho das estrelas de Hollywood das décadas anteriores, acima de todas, Rita Hayworth. Por isso, quando, em 1972, chegou o momento da gravação e publicação do primeiro álbum dos Roxy Music (nome de sala de cinema escolhido pela ressonância de "faded glamour") a responsabilidade pela imagem da capa do LP recairia sobre Karl Stoecker - fotógrafo norte-americano inspirado pelas inúmeras ilustrações de "pin-ups" de Alberto Vargas para a "Esquire" - e sobre a série de imagens que realizara com a modelo de origem norueguesa, Kari-Ann Muller. Vestida pelo estilista Anthony Price que, confessava desejar vê-la , estirada sobre cetins, "como um gelado napolitano" azul, cor-de-rosa e branco, de sombra azul carregado nas pálpebras, seria, desde então, um dos exemplos clássicos - embora não exactamente justo - do triunfo do estilo sobre a substância. (daqui; segue para aqui)

Kami Thompson - "Solitary Traveller"

06 March 2018

12 FUTUROS


Richard Hamilton já tinha exibido a colagem Just What Is It That Makes Today's Homes So Different, So Appealing? (1956) que o transformaria num dos pioneiros da Pop Art, cuja definição, aliás, estabeleceu: “popular, transient, expendable, low-cost, mass-produced, young, witty, sexy, gimmicky, glamorous, and Big Business". Fora também o responsável pela capa do White Album, dos Beatles (1968), em radical contraste com a do igualmente pop, Peter Blake, para Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, no ano anterior. Mas foi após ter conhecido a obra dos Roxy Music que não hesitou em declarar Bryan Ferry, seu antigo aluno na universidade de Newcastle, como a sua “maior criação”. Em 2009, dois anos antes da morte de Hamilton, Ferry recordá-lo-ia: “Ele transformou a arte numa parte tão importante da minha vida que influenciava tudo o que eu fazia. Pretendia que os Roxy Music, estilisticamente, fossem muito ecléticos e, quando comecei a escrever canções, todas as influências surgiram. Foi então que a concepção hamiltoniana da colagem me ocorreu, retirando elementos daqui, dali, de todo o lado, e, a partir deles, criando algo novo. Ele foi o nosso Warhol e Duchamp”.


O programa estético estava bem patente – a começar pelo título, "Re-Make/Re-Model" – na primeira canção do álbum de estreia: 26 segundos de colagem sonora "concrète" de uma "cocktail party", explosão rock’n’roll de guitarra, piano, baixo, sax, e bateria perfurada pelos uivos atonais do sintetizador VCS3 de Brian Eno, o texto estranguladamente cantado por Ferry (“I tried but I could not find a way, looking back all I did was look away, next time is the best we all know, but if there is no next time, where to go?”) cujo refrão é uma matrícula de automóvel (“CPL593H”), e os micro-solos finais em que o baixo de Graham Simpson cita "Day Tripper", dos Beatles, a guitarra de Phil Manzanera macaqueia "C’mon Everybody", de Eddie Cochran cruzada com "Peter Gunn" de Duane Eddy, e, à maneira de King Curtis, o sax tenor de Andy MacKay atira-se às Valquírias, de Wagner. Em "Ladytron", Ferry era um cowboy a tocar castanholas numa paisagem lunar à sombra de Prokoviev, "The Bob (Medley)" constituia-se de 7 diferentes secções e 8 mudanças de andamento em menos de 6 minutos, e todo o álbum – agora reeditado em caixa "deluxe" de 3 CD + DVD –, sob o signo da "pin-up", Kari-Ann Muller, era uma extravagante e gloriosa colisão de futurismo e nostalgia. Ou, como diria Brian Eno, “Em 1972, os Roxy Music continham 12 futuros diferentes para o rock”. E 12 diferentes passados.

19 October 2017

FESTA


Trata-se de uma singularidade cósmica particularmente rara: o lugar onde o clube das bandas lendárias que publicaram apenas um álbum (Young Marble Giants, The United States Of America, Sex Pistols, The Germs, The Del-Byzanteens, Life Without Buildings, The Monks) se cobre com a poeira dos arquivos nos quais se ocultam os míticos "great lost albums". Com o incalculável valor acrescido de, no caso, não ser por gentileza ou reflexo de "hype" instalado que "great" acompanha "lost album": Slights Still Unspoken (Selected Recordings 1978-1979), dos Voigt/465, é, sem a menor dúvida, uma preciosa recuperação arqueológica por que teremos de ficar eternamente gratos à editora espanhola Guerssen Records. Oriundos da nunca suficientemente louvada cena rock australiana que, entre inúmeros outros, nos deu a conhecer os Triffids, Go-Betweens, Apartments, Nick Cave, The Saints, Radio Birdman e The Church, os Voigt/465 eram cinco catraios da Technical Boys High School, de Sidney (Rae Byrom, voz, Phil Turnbull, voz e teclados, Lindsay O'Meara, baixo, Rod Pobestek, guitarra, e Bruce Stalder, bateria), que, em 1976, no espaço de uma oficina cedida pelo pai de um deles, lançaram desordenadamente para o caldeirão das bruxas todos os ingredientes que tinham à mão. 



A saber, os mais suculentos nacos dos Velvet Undergtound, Roxy Music (fase Eno), Pink Floyd (aliás, The Piper At The Gates Of Dawn, isto é, Syd Barrett), Stooges, Pere Ubu e Devo, generosamente temperados com pitadas de Faust e Can, essências-garage, art-rock britânico, ruído avulso e libérrima improvisação. Como será fácil de compreender, uma tão rica e eclética dieta não conduz ao tipo de digestão fácil que faz desenrolar as passadeiras vermelhas para carreiras gloriosas. Na verdade, o radar da notoriedade apenas lhes assinalou a existência durante aqueles fugazes instantes em que o único single, “State”/“A Secret West” (1978), soou nas ondas radiofónicas de John Peel. Tanto assim que o solitário álbum que publicariam, Slights Spoken (1979) era só um registo para memória futura de uma banda já oficialmente dissolvida. Quase 40 anos mais tarde, apenas poderemos dizer que, como só improvavelmente acontece, nunca havíamos ouvido nada semelhante antes e dificilmente o viremos a fazer depois. Uma estrondosa festa para o canal auditivo.

09 September 2017

10 February 2016

Two bald heads collide


"Services are going to require a lot fewer people as a result of artificial intelligence, so the call centres and paralegal professions will be replaced by robots who can do the job better. Turing said if we can communicate with a machine and we can’t tell it’s a machine, then we can assume that machine is intelligent. Now the Turing test has been passed, that will destroy hundreds of millions of jobs. But will the ones created, making this artificial intelligence, be enough to replace the ones lost? So far with capitalism, every labour-saving technology has created more jobs than it has destroyed. The car destroyed jobs for horsemen and stage coach people, but then auto workers and those building the motorways and petrol stations brought more jobs than they destroyed. For the first time, we are running the risk that technology will destroy a lot more jobs than it creates" (aqui; sequência daqui; ver também aqui)

09 July 2014

ONZE HORAS

  
25 de Dezembro é, sem dúvida, uma data importante. É nesse dia que se comemora o nascimento de Isaac Newton (1642), Humphrey Bogart (1899) e – caso ainda não se tivesse reparado –, informam-nos as cinco melhores páginas do número de Agosto da “Uncut”, também Shane MacGowan (1957). Não é o único nem sequer o mais importante dado que se pode retirar da entrevista do ex-Pogue com Nick Hasted que se iniciou à meia noite, no pub Boogaloo, do Norte de Londres, e terminou por volta das 11 da manhã seguinte quando MacGowan concluiu a sua dissertação acerca de "life, the universe & everything" e colapsou sobre um sofá. Sim, porque o tipo que, em 1989, confessava “Nunca escrevo quando estou sóbrio, nem saberia por onde começar. A razão por que continuo a beber é que detesto ressacas. Sou um exemplo lixado, muito mau mesmo. Mas também diria que os nossos fãs não precisam de maus exemplos. São perfeitamente capazes, por si mesmos, de serem verdadeiras bestas degeneradas, Deus os abençoe...”, agora, ameaça frequentar um ginásio, distribui generosamente conselhos sobre “beber responsavelmente”, pratica remo e (por muito que as circunstâncias da entrevista o contradigam), asseguram os actuais companheiros de The Aftermath com quem gravará ou não um novo álbum, “em estúdio, é só chazinho”

Shane MacGowan, Sharon Shannon - "Rainy Night in Soho"

A restante dieta parece reunir um sortido rico de MC5, The Chieftains, Roxy Music, Nick Cave, Sex Pistols, Beatles, Van Morrison, o tenor irlandês Frank Patterson e filmes de Scorsese, Leone e Woody Allen. Mas o que, verdadeiramente, sobressai do longuíssimo périplo pelo passado de um fulano que recebeu a sua primeira garrafa de whiskey aos 6 anos, cuja mãe, pela mesma altura, o fazia ler Thomas Hardy, Dickens e Edna O’Brien e o pai lhe metia James Joyce nas mãos, ele que, hoje, jura por Brendan Behan, Yeats e Seamus Heaney e que, com a tia Nora, rezava fervorosas novenas “to get the Brits out”, é o meio alívio/meio remorso por, durante o Verão-punk de 1976 (“Os Sex Pistols surgiram, o IRA fazia explodir tudo o que mexia, era um mundo maravilhoso: drogas, sexo e violência!”), terem sido os Pogues a contribuir para que ele não se tivesse convertido em guerrilheiro nacionalista irlandês: “Sempre me senti culpado por não ter arriscado a vida pela Irlanda. Tenho vergonha de nunca ter tido coragem suficiente para me juntar ao IRA. Os Pogues foram a minha forma de ultrapassar essa culpa”.

18 April 2012

POUPINHA NEO-ROMÂNTICA

 
Fanfarlo - Rooms Filled With Light 

Se os Fanfarlo do inicial Reservoir (2010) se apresentavam como uma versão convenientemente aparada da pop descabeladamente barroca dos Arcade Fire, bem acompanhada, à época, pelos Mumford & Sons e Noah & The Whale, não se pode, de todo, dizer que os dois posteriores anos de crescimento lhes tenham sido benignos – tal como, já agora, não foram para os Noah, os que mediaram entre o óptimo The First Days Of Spring (2009) e Last Night On Earth (2011), peça inexplicavelmente insonsinha. Não há-de restar muita gente que ainda se deixe embalar pela velha cantilena do “difícil segundo álbum”: as “dificuldades” podem surgir em qualquer etapa e a história está repleta de excelentes segundos álbuns facilmente concretizados.

Porque, se algum problema existe, ele reside apenas nas decisões estéticas que se toma e as que passaram pelas cabeças de Simon Balthazar e cúmplices estiveram bastante longe de ser acertadas. Isto é, tentar converter a matriz anterior numa sua versão oitentamente recauchutada – pinceladas de sintetizador, polimento lustroso à la Roxy Music-modelo-lounge, acenos pouco decorosos aos Dexys Midnight Runners tal como as playlists os indexaram (aquela e só aquela banda que gravou "Come On Eileen"), ou, nos momentos mais embaraçosos, enlevos melódicos de poupinha neo-romântica – é o género de ideia que nunca deveria ter ocorrido a uma banda que retirou o seu nome de uma novela de Baudelaire. Não que o resultado seja insultuosamente vil (nos melhores trechos, aproxima-se de uma infusão descafeínada dos Divine Comedy) ou que, se apanhados, por acidente, no rádio, obriguem a saltar, em pânico, para o zapping. Mas apetecia outra coisa que não dissesse apenas bem com os cortinados.