08 January 2024

HISTÓRIA PRESERVADA

Na manhã do passado 30 de Novembro, quando a notícia da morte de Shane MacGowan foi difundida, John Francis Flynn viajara de Dublin para Belfast e regressara após receber uma cópia de vinil recém-prensada do seu segundo álbum, Look Over The Wall See The Sky. Quase profeticamente, entre as oito canções que o compunham, encontravam-se "Kitty", último tema de Red Roses For Me (álbum de estreia dos Pogues, 1984) - MacGowan confessara tê-la aprendido da mãe que, em criança, a escutara cantada à lareira nos campos de Tipperary - e "Dirty Old Town", de Ewan MacColl (do segundo, Rum Sodomy & The Lash, também dos Pogues, 1985). "Há anos, ouvi uma versão de 'Kitty' num concerto dos Pogues", contou Flynn ao "Irish Examiner". "A forma como ele interpretava cada canção era espantosa mas essa em particular agarrou-me logo. É curioso que tenha sido necessário alguém como Shane MacGowan para salvar estas canções. 'Kitty' é, talvez, uma daquelas que poderiam ter-se perdido se Shane não a tivesse gravado". De agora em diante, poderá vir a dizer-se coisa muito semelhante acerca do trajecto musical que Flynn iniciou em 2021 com o extraordinário, I Would Not Live Always. (segue para aqui)


The Pogues - "Kitty"

Edit (13:08) - ... mas a obra recente já o projectava para altíssimos voos...

07 January 2024

06 January 2024

Será possível alguma vez levar a sério conversa de tolinhos da aldeia sobre o Diabo e os gambozinos?
... e, já agora, com o "dar nota de" (para não voltar a falar da maldição das frases começadas pelo infinitivo do verbo & horrores afins)

05 January 2024

"The Down Below"
 
(sequência daqui) Ao quarto álbum, após os óptimos Choose Your Own Adventure (2016), The Age of Immunology (2019) e Ookii Gekkou (2021), os Vanishing Twin - agora, a formidável Valentina Magaletti (percussões), Susumu Mukai (multi-instrumentista, electrónica ) e Cathy Lucas (voz e guitarra) - já não são tanto os delfins dos Stereolab e/ou Broadast mas sim uma poderosa central de difusão de singularidades visionárias (escutem "Brain Weather", "Marbles", "Lotus Eater", "Lazy Garden"). À "The Quietus", Magaletti explica-se: "Dadaístas ou surrealistas, são esses os artistas que dão corpo à nossa estética. É essencial gostar do que fazemos e nunca o fazer por obrigação. Desejamos sempre ver o que se esconde por trás da moldura". Em menos palavras: "A realidade, lá fora, está cheia de coisas interessantes".

2023 - REEDIÇÕES
 
 
 
   
  
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 

 
 
 
 
Assim sendo, não deixa muito mais hipóteses do que um final "à Ceausescu"

02 January 2024

SINGULARIDADES VISIONÁRIAS
Em 1848, procurando identificar o que "distinguia a época burguesa de todas as anteriores", Marx e Engels, no Manifesto Comunista, escreviam: "Todas as relações fixas e enferrujadas, com a sua série de antigos e veneráveis preconceitos e opiniões, são varridas, e todas as novas formações tornam-se antiquadas antes de poderem consolidar-se. Tudo o que é sólido se dissolve no ar, tudo o que é sagrado é profanado". 125 anos depois, em "Melty", faixa de abertura de Afternoon X, após uma introdução feita de um ostinato de duas notas que borbulham à superfície de um caldo sonoro electrónico onde a sombra de um vibrafone flutua, a voz de Cathy Lucas, harmonicamente triplicada, entoa "All that is solid melts into air". Cinco passos à frente, nos mais de oito minutos de "The Down Below", deambulamos por um labirinto de "lounge" desfiguradamente "latino", dissonâncias febris, cornucópias em estado de liquefação, e segredos conspirativamente soprados (“Revelation! Revelation! It’s all a revelation!”, “America! America!”) no planisfério estropiado de um território imaginário. (daqui; segue para aqui)
 
"Melty"
A Winter Union - "Minstrels" 
 (W. Wordsworth)