16 January 2020

Mais coisa, menos coisa, 
essencialmente, é isto

Yves Klein - Blue Monochrome 1961

"A História de Arte sendo uma história inevitavelmente imersa no cenário mais vasto da História das transformações sociais, políticas, económicas, das revoluções sonhadas, da democracia possível, e das ditaduras que vamos permitindo, é, ao fim e ao cabo, mais uma história de indivíduos que, oriundos indiferentemente das massas ou das elites, constroem entre si cumplicidades de acção e de pensamento, acumulando nesse processo uma inteligência que se vai transmitindo de geração em geração através da poesia ou da literatura, do teatro ou da música, do cinema ou da dança, da arquitectura ou da arte, da filosofia ou da ciência. É neste tesouro acumulado ao longo dos séculos por gentes de muitas geografias, de culturas, religiões e rituais, práticas sociais e políticas diversas, que parece moldar-se aquilo que, à falta de melhor, convencionámos designar por civilização, termo que, por muito precário e discutível que se nos possa afigurar hoje no seu significado e limites, é ainda uma das poucas palavras desejavelmente possíveis. A arte que, apesar de tudo, não é tão velha como a espécie, seguramente continuará a acompanhá-la e, num qualquer dia próximo ou longínquo, virá a perecer com ela. Mas até esse dia, artistas hão-de continuar a nascer e morrer, o pensamento transformar-se-á incessantemente, revoluções hão-de talvez continuar a ser feitas, gerações suceder-se-ão, os jovens serão combativos como sempre foram, a humanidade construirá novos sonhos sobre os escombros de horrores ainda por vir. A arte, essa, será sempre. Até ao último dos dias"

15 January 2020

VINTAGE (DVIII)

Malaria! - Kaltes Klares Wasser


Anthony Holborne - "The Fairie Round/Galliard No. 3" (Early Music Consort of London dir. David Munrow)


"The spacecraft will be encountered and the record played only if there are advanced space-faring civilizations in interstellar space, but the launching of this 'bottle' into the cosmic 'ocean' says something very hopeful about life on this planet" (Carl Sagan)
Trupa Trupa - "Satellite"

14 January 2020



(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)
Mega Bog - "Wet Moss"

Nacionalismo, coisa sempre peçonhenta, porém, pior ainda em versão trolha

O REINO DESUNIDO


Em Novembro de 2018, 50 anos após a data de publicação original, The Kinks Are The Village Green Preservation Society atingiu, finalmente, o estatuto de Disco de Ouro no Reino Unido por vendas superiores a 100 000 cópias. Lançado em Novembro de 1968, no mesmo dia do White Album dos Beatles, enquanto este, numa semana, despachou 2 milhões de exemplares pelo mundo fora, Village Green não conseguiu sequer meter um pé nas tabelas de vendas, transformando-se no que Ray Davies qualificaria como “the most successful flop of all time”. O êxito tardio, coincidindo com a publicação comemorativa da "Super Deluxe 50th Anniversary Edition" de 11 CD, teve, porém, um catalisador invisível mas decisivo: o desunido reino do Brexit tinha, enfim, chegado ao momento histórico no qual podia apreciar devidamente aquela – meio imaginária, meio real – “Englishness” em vias de extinção que as canções de Ray Davies celebravam, caldo de cultura para todas as peçonhas nacionalistas. 

"Victoria" (todo o álbum aqui)
 
Continham tanto de candura quanto de ironia – como levar a sério “God save little shops, china cups, and virginity”? – mas o lado-B desse mítico paraíso rural-proletário tornar-se-ia gritante no álbum do ano seguinte, Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire) - agora também reeditado noutra "Super Deluxe 50th Anniversary Edition". Porque esta história de um homem vulgar esquecido pelo império era tudo menos idílica: da era vitoriana (“Long ago, life was clean, sex was bad, called obscene, and the rich were so mean”) às bravíssimas forças armadas (“Give the scum a gun and make the bugger fight and be sure to have deserters shot on sight, if he dies we'll send a medal to his wife”) e às pequenas ilusões (“She's bought a hat like Princess Marina's to wear at all her social affairs, she wears it when she's cleaning the windows, she wears it when she's scrubbing the stairs, but you will never see her at Ascot”) dos peões no tabuleiro (“You look like a real human being, but you don't have a mind of your own”), o retrato ferozmente realista emoldurado em requintada pop era assaz deprimente. Em 1969, foi muito mais bem acolhido do que Village Green. Desta vez, não é tão certo.
"Fora com os líderes religiosos!" (de todas as cores, no poder ou fora dele) é uma bela palavra de ordem