08 November 2016

O EMBARAÇO

  
As boas almas podem já dormir descansadas: Bob Dylan aceitou o Nobel da Literatura e disse todas as frases recomendáveis na circunstância (“Fiquei sem palavras...”, “Quem sonharia com tal coisa?... ", “Incrível...", “Foi uma grande honra...”). Quinze dias depois, mas disse. Não, claro (livrasse-se de não o fazer!), sem evitar puxar o lustro aos galões: “É verdade, algumas das minhas canções – 'Blind Willie McTell,' 'The Ballad of Hollis Brown,' 'Joey,' 'A Hard Rain,' 'Hurricane' e mais algumas – possuem, definitivamente, um valor Homérico” (com “h” maiúsculo e tudo). E prometeu que, “se for possível” – que a vida dele não é isto –, irá a Oslo, a 10 de Dezembro para receber o prémio. Mais divertidas, no entanto, do que a "petite histoire", são as ondas de choque que continuam a fazer-se sentir. Por exemplo, no dossier de 8 páginas que o “JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias” lhe dedicou. Onde, tanto os “pró” como os “contra” e os “sei lá eu” demonstram clarissimamente o embaraço de um assunto que obriga a pensar ao lado dos cânones. 



A abrir, a professora Maria Alzira Seixo admite que Dylan “publica os seus poemas” – que, embora “de reduzida relevância (...) serão até melhores que os de Sully Prudhome, o primeiro Nobel da Literatura” –, pelo que “eles podem ser lidos separados das músicas” (pelo menos, desde 1965, Dylan diz que “podem mas não devem”). Contudo, essa “expressão musical e instrumental concebida à medida do humano comum (o da classe média ocidental da 2ª metade do século XX)” enferma de um problema terrível: “Em função da linha melódica (mais rápida ou mais lenta), as palavras deformam-se, tornando-se por vezes pouco apreensíveis”. Entre muitas outras coisas, poderia observar-se que as melodias não são rápidas nem lentas mas sim os andamentos, porém, já Valter Hugo Mãe declara que “a atribuição do Nobel a Dylan é uma declaração pungente de ratificação do percurso menos óbvio de um autor”, supondo, imagina-se, que será o Nobel da Química que está em causa. O qual, diga-se, por volta de 65/66, teria tido, sem dúvida, em Bob Dylan um justíssimo galardoado. O poeta e ensaísta António Carlos Cortez, entretanto, embora reconhecendo que “há textos que resultam sem instrumentalização ” [sic], prefere “pensar em Dylan tocando banjo num faroeste rude e nostálgico ou a empunhar a harmónica em sinal de reenvio ao ethos do seu povo”. Oh, a harmónica!... esse instrumento inventado no início do século XIX pelo alemão Christian Friedrich Ludwig Buschmann, que tanto diz ao ethos do povo norte-americano...

2 comments:

Ana Cristina Leonardo said...

Já me ri o suficiente
o valter não podia trair a sua própria vocação musical outra... :)

João Lisboa said...

:-)))