30 November 2008

"JÁ TENS SOTAQUE..."



The Pied Piper Of Hützovina (Eugene Hütz of Gogol Bordello) - DVD real. Pavla Fleischer

Pavla Fleischer, de câmara à mão, caminha por uma vereda do acampamento cigano de Muchacevo, em Uzhorod, na fronteira da Eslováquia com a Ucrânia, nos Cárpatos, e um homem pergunta-lhe de onde vem. “De Praga”, responde. “Leva-me contigo”. “Para onde?”, “Para Praga”. Pavla pergunta-lhe porquê. “Para trabalhar”. “Mas, agora, vivo em Londres, em Inglaterra”, diz-lhe ela. “Não faz mal, posso ir para Londres, tenho passaporte e tudo”. Não, não era uma cena de engate. Alguns passos à frente, Zita, uma miúda de sete ou oito anos, cola-se a Pavla, olha-a timidamente e fecha o rosto. “Estás triste?”, “Sim...”, acena Zita. “Porquê?”. “Eu sei”. “Sabes o quê?”, insiste Pavla. Perdidas ambas na tradução do russo/ucraniano para o romani, nunca chegaremos a saber o que toldou os belíssimos olhos negros de Zita. De partida para o outro acampamento cigano de Svaljava, Eugene Hütz irá dizer a Pavla: “Vivem num planeta dentro de outro planeta. Quando chegámos, ficaram entusiasmados porque alguém os tinha ido ver e se lembrara que existiam. São das pessoas mais magoadas que existem”.



Hütz, por entre crianças seminuas e adultos no último círculo da indigência, num espaço circunscrito por barracas com telhado de zinco e coisa nenhuma, tocara e dançara com eles, os herdeiros, orgulhosos mas derrotados, da cultura da sua avó cigana que, mais tarde, irá rever, nos subúrbios de Kiev, e de quem ouvirá as palavras carinhosas mas suavemente desiludidas “Ah... já tens sotaque americano”. Eugene Hütz, ucraniano de ascendência cigana, Casanova impenitente e estrela ascendente da trupe gypsy-punk transcultural novaiorquina, Gogol Bordello, aceitara o desafio de se deixar filmar por Pavla – um quase “one night-stand” (apaixonado e, inevitavelmente, abandonado) com vocação documentarista – e escolhera refazer o percurso de regresso às suas origens. Dos Cárpatos (onde a realidade quase o silenciou), seguiriam para Kiev, ao encontro do ortodoxo director do teatro cigano da capital da Ucrânia que, após meia dúzia de minutos de escuta da música dos Bordello, o invectivaria, violentamente, com todas as letras: “Isso é exactamente aquilo contra que combato, é aquilo que nos destrói”. Etapas seguintes: Moscovo e Chita, na Sibéria, em busca de Sasha Kolpakov, o herói musical de Eugene. Que o compreende, aceita e apoia. Exemplar local praticamente único. Como explicou Amin Maalouf, as “identidades assassinas”, por definição, matam.

(2008)
ISTO É TÃO, TÃO PORTUGALINHO...


(Dmitri Medvedev, Sócrates e Cavaco Silva
em foto do "Expresso" não assinada)


Legenda: "Mas por quem é, sinta-se como em sua casa, somos dois seus criados! Vai um pastelinho de Belém?..."

(2008)

29 November 2008

CITY GHOSTS (XVI)

Ponte 25 de Abril, Lisboa, Portugal, 2008















(2008)

28 November 2008

NINGUÉM É PERFEITO
(nem mesmo ele)



"I have a lot of acid stories, as everyone does. At the side of my house there was a kind of garbage heap that during the spring would sprout thousands of daisies, and I was convinced I had a special communion with the daisies. It seems they would turn their little yellow faces to me and smile whenever I started singing or addressing them in a tender way" (Leonard Cohen à "Mojo" de Dezembro)

(2008)

27 November 2008

DAQUI NINGUÉM SAI VIVO


Nick Cave & The Bad Seeds - Murder Ballads

Anjo negro dos mundos subterrâneos ou príncipe "junkie" das trevas, Nick Cave nunca dissimulou a sua predilecção pelos temas de recorte gótico, de preferência com generosa exibição de lâminas afiadas e abundante derramamento de sangue. O palco podia situar-se nos assombrados pântanos do Sul americano ou nos corredores da morte mas o argumento que alimentava cada uma das suas canções era sempre o mesmo teatro do grotesco, excessivo e, às vezes, caricatural. A personagem-Nick Cave (amplificada por uma recente biografia onde o artista-enquanto-jovem é apresentado como um dostoievskiano psicótico, solitário, heroinómano e irrascível) estava suficientemente afirmada e, mesmo após a inflexão como "crooner" apocalíptico" encenada a partir de The Good Son, parecia conter as doses convenientes de dramatismo e convicção. Faltava só conhecer a devastadora componente de feroz humor negro que, nos bastidores, ia arrasando o cenário cuidadosamente montado. Na verdade, ela estava lá, desde o início, mas, em Murder Ballads, uma colecção de dez canções há muito prometida e agora publicada, dedicada ao homicídio como uma das belas-artes, revela ser não apenas o motor narrativo de um óptimo disco como a essência de um cómico irresistível.



Escrever nas paredes com o sangue de uma seringa, investir, de cabeça, em palco, contra a bateria até ela ficar vermelha de hemoglobina ou autorizar os fãs a espetarem-lhe agulhas de vudú durante os espectáculos, terão sido tanto gestos de uma catarse desatinada como variações privadas sobre o modelo do "stand-up comedian". Murder Ballads, entretanto, não deixa muitas dúvidas quanto ao facto de privilegiar esta última dimensão. Numa gloriosa paródia contemporânea sobre aquela literatura popular de cordel que não sabe viver sem os temas de faca e alguidar (no caso, a tradição anglo-americana das "murder ballads"), exige que se encare cada canção como aquilo que, neste contexto, acima de tudo, ela é: um delirante exercício de estilo carregado de sarcasmo onde as personagens resultam sempre melhor quando desenhadas a traço negro e grosso.



É bastante educativa uma viagem "à vol d'oiseau" pelo roteiro. A quase beethoveniana "Song Of Joy" inicial abre, como se impõe, com as palavras "Have mercy on me, sir, allow me to impose on you, I have no place to stay and my bones are cold right through". Logo a seguir (após o extermínio gráfico de uma família inteira à sombra de citações do Paradise Lost, de Milton), o mítico Stagger Lee, garanhão da história dos blues, renasce numa encarnação em que confessa "I'll crawl over fifty good pussies just to get to one fat boy's asshole", em saborosa inversão da lenda. Três homicídios mais tarde (e depois de afogada Kylie Minogue no lodo para comprovar que "all beauty must die"), em "The Curse Of Millhaven", Lottie, uma loira criança com uma boquinha linda escondida pela espuma do ódio, degola os habitantes da aldeia natal, inspirada pelos piedosos ensinamentos bíblicos da mamã que lhe explicara que todas as criaturas de Deus têm de morrer. Carregada de remorsos, evidentemente, quando o longo braço da lei, finalmente, a detém: "There's so much more I could have done if they'd let me!" Segue-se uma lição de moral oferecida às meninas que ninguém advertiu acerca dos perigos de acompanhar estranhos e outra história de armas fumegantes, mas nada nos poderia preparar para os épicos treze minutos de "O'Malley's Bar": mil vezes mais sanguinolento do que qualquer filme de Tarantino e com um rol de vítimas inocentes infinitamente superior, sobre uma cavalgada heróica dos Bad Seeds, desenha em cinemascópio o rasto de sangue de um "serial killer" narcisista ("Ive been known to be quite handsome, from a certain angle and in a certain light").



Por entre pólvora e disparos trovejantes, há debates filosóficos em torno do livre arbítrio, casuais conversas de vizinhos, visões de Francisco de Assis e de S. Sebastião trespassado de flechas, cabeças e tripas voando sobre pilhas de pratos sujos e, no final, um grande plano do protagonista vaidoso contando pelos dedos o número de baixas por que foi responsável, enquanto os megafones da polícia sibilam. Consideravelmente melhor que qualquer Desperado e, visualmente (proeza de tomo numa canção), muito mais eloquente, é o ponto final antes do posfácio: uma versão de "Death Is Not The End", de Bob Dylan, admissão derradeira de que, por mais amaldiçoada que tenha sido a existência (preparai-vos, profetas do suicídio!), a morte não põe fim a tudo. Se calhar, depois dela, tudo será ainda pior!... É o momento para o grande final em que aparecem ou regressam todos os convidados ilustres desta fantástica banda-desenhada inscrita na tradição folk (PJ Harvey, mais-Cave-do-que-Cave em "Henry Lee", Shane MacGowan, Anita Lane e Kylie Minogue)de onde, pela mão de Nick Cave e dos Bad Seeds e sob o omnipresente espectro de um Leonard Cohen que tivesse vendido a alma ao Diabo, ninguém, rigorosamente ninguém, sai vivo. Comédia "gore" do ano.

(1996)

26 November 2008

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (VIII)

EDIÇÃO ESPECIAL: SIX FEET UNDER EM VERSÃO INDÍGENA
(RTP-1, reportagem "A Alma do Negócio", hoje, às 21.00 h)



Monty Python - "The Meaning Of Life"

Responsável da mega-funerária Servilusa: "O funeral é um momento irrepetível e único"

Povo à saída do funeral:

"Gostei muito..."
"Então não fica para outro?"

"Gostei da reza"
"Gostou do tercinho, ontem?"
"Gostei, diz-se muito em poucas palavras, não aborrece..."


No carro funerário, a caminho do cemitério: "Depois, a seguir, o padre tem um baptizado, ali em Nogueira..."

Rita Pires, proprietária de agência funerária, em Bragança: "Era preciso cantar, era preciso rezar, eu não estava habituada... padres há poucos, comecei a comprar livros, a comprar CDs"; "eu, quando dou por mim, as lágrimas estão a correr... eu sei que é trabalho mas também tenho sentimentos".


Nick Cave, Kylie Minogue & Shane MacGowan - "Death Is Not The End"

(2008)
ERA ISTO QUE SE DEVERIA OUVIR
MAIS FREQUENTEMENTE E COM
MELHOR AMPLIFICAÇÃO SONORA:




"1) Haverá teorias boas e más em ciências da educação, como em tudo;

2) Parece-me que os professores do ensino secundário com que contacto conhecem, na sua maior parte, apenas versões degradadas de teorias educativas cientificamente ultrapassadas (assim como versões degradadas das disciplinas que ministram);

3) O discurso, programas e legislação ministerial caracteriza-se pela incompetência, apesar de se disfarçar de discurso científico sobre educação — e é a isso que se chama habitualmente “eduquês”;

4) A mesma incompetência generalizada que encontramos em matemática, física, biologia, filosofia ou português encontramos em ciências da educação e este é que é o nosso problema fundamental: incompetência científica. Não adianta tentar tapar com a peneira de teorias educativas mal compreendidas e pior expressas o Sol glorioso da incompetência em matemática, filosofia e noutras áreas centrais da vida escolar.

Referir o “eduquês” pode ser uma má ideia caso se interprete isso como um ataque às ciências da educação. Mas não é disso que se trata: trata-se de atacar a ideia de que os conteúdos académicos são de abandonar, que a escola deve ser uma brincadeira e que tudo o que conta é promover conversas vagas sobre contemporaneidade e cidadania. (...)

E isso torna-se mais claro quando se fala directamente com os responsáveis: tudo o que parecem ter em mente são tolices políticas sem qualquer relevância seja para quem for excepto para a sua própria carreira pessoal. Um interesse genuíno por geografia, história, filosofia, biologia ou literatura — ou artes — é coisa que não se vê em qualquer documento educativo emanado do Ministério da Educação. Tudo o que se vê é a instrumentalização política da escola, discursos vagos sobre a construção da cidadania e outras mentiras políticas, ao mesmo tempo que não se exprime com clareza uma ideia decisiva sobre como ensinar eficazmente história, literatura, física, matemática ou qualquer outro conteúdo. E é a isto que críticos como Carlos Fiolhais, Helena Damião, Jorge Buescu ou Nuno Crato — e eu próprio — se referem ao usar o refrão (já gasto, concordo — está na hora de o abandonar) do “eduquês”. Não se trata de modo algum de rechaçar o estudo científico da educação ou a aplicação de teorias da educação. Na verdade, alguns dos melhores especialistas nacionais em ciências da educação são os primeiros críticos das políticas educativas nacionais, supostamente feitas de acordo com as ciências da educação. Uma hipótese de trabalho plausível é que não são as pessoas mais competentes em ciências da educação que determinam as políticas do ministério, mas antes as que melhor se movem nos tristes corredores do poder político". (post integral aqui)

(2008)
CADAVRES EXQUIS



High Places - 03/07-09/07




High Places - High Places

Mary Pearson e Rob Barber fabricam “cadavres exquis” sonoros em miniatura, construídos a partir da sobreposição de múltiplas lâminas transparentes de gelatina electro-acústica. No seu covil de Brooklyn, ela, menina de conservatório na classe de fagote, e ele, designer “free-lancer” e professor de História de Arte, com o único auxílio de um computador arcaico e de um programa de edição e montagem do tempo em que eles ainda vinham em disquetes, captam, desfiguram, multiplicam e distorcem sons de electrodomésticos, do virar das páginas dos livros, de chaleiras, do vento, dos dois gatos de Mary, do caminhar sobre folhas de árvores, de insectos, pássaros, e até de instrumentos musicais tal como nos habituámos a conhecê-los. No primeiro concerto que deram, ocuparam-no integralmente com uma versão de “Autobahn”, dos Kraftwerk, para glockenspiel e fagote.



Agora, em 03/07-09/07 (compilação de singles e dispersos avulsos) e em High Places, consideravelmente mais elaborados do que nessa estreia pública a que soam? A Young Marble Giants perdidos no labirinto de uma colmeia. A Young Marble Giants repetindo, incansavelmente, três compassos de uma partitura de Steve Reich. A Young Marble Giants perdidos no labirinto de uma colmeia e repetindo, incansavelmente, três compassos de uma partitura de Steve Reich. A Young Marble Giants tocando “steel drums” num palco subaquático. A Young Marble Giants perdidos no labirinto de uma colmeia e repetindo, incansavelmente, três compassos de uma partitura de Steve Reich, tocada em “steel-drums”, num palco subaquático. Muito bom.

(2008)

25 November 2008

TATUAGENS E PIN-UPS

(departamento THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN (VII), segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")



Gretschen Hofner - Maria Callous

"Once I would make love to the mirror in the hall, till I found my ego wanting and my looks began to pall, I sought solace in my comfort pills, romanced the kitchen knife, with my Frances Farmer smile and my Judy Garland life". Estas são as palavras de abertura do quase épico "My Judy Garland Life", cartão de visita dos Gretschen Hofner. E não se inicia assim uma canção por acaso. Chamam-lhes "camp rockers" de "neo-vaudeville" mas eles garantem que quem apreciam mesmo é gente como Bertolt Brecht, Kurt Weill e Tchaikovski e grupos como os X-Ray Spex e os Birthday Party. Depois, há quem lhes associe imagens de encontros de Elvis Presley, John Barry e os Cramps em sórdidos bares do Soho londrino, por entre surradas cortinas de veludo, tatuagens de marinheiros e cantoras decadentes de cetim vermelho. Aí, eles confessam que têm influências, sim senhor, mas que elas são mais do género iconográfico: figuras trágicas como Judy Garland, a pin-up S & M dos anos 50, Bettie Page, evangelistas televisivos alucinados e outros que tais.



Pelo meio de tudo isto, existe ainda um peculiar fetichismo por sapatos ("Shoes are what you wear that's important and you extend from what you walk in", confessam em "Crow In Heels"), mas aquilo a que convém verdadeiramente prestar atenção é Maria Callous, o seu primeiro álbum, cujo título é um jogo fonético entre o apelido da célebre Maria Callas e a palavra "callous" ("insensível"). O elenco dos Gretschen Hofner é a impossível reunião de Justine Armitage (professora de piano que também toca violino), Paul Hofner (renascentista perverso e executante de "guitarra psicodramática"), Kieron Hunter (baixista e gentleman de cabaret) e Pinball Geoff (ex-assistente social em psiquiatria e actual baterista e reparador de "flippers"). Para trás ficaram ignoradas atribulações em bandas de travestis como a Brendan Duffy Bissexual Adventure e outras ilustres desconhecidas, dando, desta vez, lugar a nova personagem colectiva condenada a habitar aquele universo paralelo também já colonizado por Nick Cave ou pelos Gallon Drunk. Aqui, a coisa traduz-se numa espécie de surf meets-rockabilly operático e em cinemascópio, com enfáticas orquestrações de cordas a condizer e uma pose de dandyismo trágico meticulosamente simulado, em contraponto. Cenograficamente, resulta em pleno sendo que a música, em si mesma, deverá ser considerada apenas como uma componente da encenação total. A derradeira e gloriosa bizarria de 1996.

(1996)
LUXUOSA DECADÊNCIA



Marianne Faithfull - A Secret Life

Começa com um excerto da Divina Comédia, de Dante ("Midway this way of life we're bound upon, I woke to find myself in a dark wood where the right road was wholly lost and gone") e termina com outro da Tempestade, de Shakespeare ("We are such stuff as dreams are made of and our little life is rounded with a sleep"). Pelo meio, no decurso de "Bored By Dreams", deixa cair, quase inadvertidamente, num murmúrio, "after a certain age, every artist works with injury". Segundo se anuncia, este seria o álbum do apaziguamento de Marianne Faithfull. Será, pelo menos, o apaziguamento possível em alguém para quem a ideia de paz interior nunca foi a descrição mais adequada.



E que, ao escolher para compositor das melodias que, em A Secret Life, envolvem os seus textos o mesmo Angelo Badalamenti dos pesadelos narcóticos de David Lynch e da mórbida suavidade de Julee Cruise, acertou no encenador exacto para o trecho mais recente do seu teatro privado. Como talvez se adivinhe, esta Secret Life é a de uma luxuosa decadência. Já não se debate violentamente por entre fúria e imprecações como em Broken English nem se refugia na interpretação de versões de outros como fizera em Strange Weather. Agora, num disco confessadamente acerca de "love, sex and doubt", fala na primeira pessoa, ocasionalmente socorre-se do apoio de Frank McGuiness (autor de "Someone To Watch Over Me"), mas conduz todo o percurso por portentosas cortinas orquestrais, melodias de uma enganadora serenidade clássica e um quase comprazimento na beleza infinita de uma dor que se aprendeu a apreciar. Se calhar, só um efeito do tempo e da distância que ensinaram como os sonhos podem provocar o tédio e obrigaram a compreender que "things are never what they seem, they play a part most of the time". Amarga e magnífica Marianne Faithfull.

(1995)

24 November 2008

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (VII)

Laurinda Alves



"Este filme de multidões e este desfile permanente fazem-me sempre lembrar uma frase que Alberto Vaz da Silva me disse, citando Roseline Crepy a grande grafóloga francesa que no fim da sua vida ficou meio-cega e, mesmo não vendo tudo à sua volta, sentia as pessoas na rua e garantia que a fórmula 'para nunca ficarmos deprimidos é sairmos de casa todos os dias é cruzarmo-nos pelo menos com 400 pessoas'. Gira a ideia".



"Imagino que a iluminação da cidade tenha custos exagerados para os tempos que correm e não me custa acreditar que se não fossem alguns mecenas nem sequer haveria luzes de Natal mas pergunto se as lâmpadas azuis são assim tão mais baratas do que as encarnadas e as douradas. Serão? E a coisa compensa? Ou o azul é a cor de quem paga e, por ser a cor de quem paga, também tem que ser a cor do Natal em Lisboa. Se assim é parece-me absurdo o princípio. Imaginemos que os patrocinadores tinham uma marca conhecida por ser listrada, será que as lâmpadas de Natal passavam a ser luzinhas zebradas e toda a cidade se convertia num bisonho jardim zoológico de espécie única?".

(2008)

23 November 2008

A VOZ CERTA



Marianne Faithfull - Easy Come, Easy Go

Segundo rezam as lendas da grande narrativa pop, foi em 1969 que, ao acordar de um coma induzido por “overdose”, Marianne Faithfull teve o seu momento-Mia Wallace/Pulp Fiction: mal abriu os olhos, as suas primeiras palavras foram “Wild horses couldn’t drag me away”. Tê-las-à pronunciado, decerto, num inglês shakespeareanamente impecável, Mick Jagger tomou nota, tratou de escrever a canção homónima e aquelas “famous (but not) last words” entraram directamente para a História. O que importa aqui, no entanto, é não terem sido, de facto, “last” e não ser muito difícil adivinhar que, nas inúmeras vezes em que, durante quase duas décadas, episódios desses se terão repetido, a reacção terá sido bastante semelhante. Marianne nem desiste de caminhar à beira do precipício nem autoriza que ele a devore. Retirando até benefícios disso: se a sua cristalina voz de soprano se transformou num dramático contralto curtido pelo álcool, a nicotina e a cocaína – não ignorando que, caso desejemos encarar as coisas de um ponto de vista mais pragmático, não sejam de desprezar privilégios como aquele de que gozou aquando do concerto na St Anne’s Cathedral, de Brooklyn, em 1989, de que resultaria o álbum Blazing Away: no programa, alertava-se o público de que “a ninguém será permitido fumar na sala, à excepção de Marianne Faithfull” –, segundo ela tratou-se, na realidade, de uma bênção: “Tenho a voz certa para mim, não preciso de representar, não tenho de fazer nada; basta-me abrir a boca e aí está ela”.



Claro que não é verdade. Marianne Faithfull, de Broken English (1979) a Strange Weather (1987), Vagabond Ways (1999) ou Kissin’ Time (2002), não tem feito outra coisa senão apropriar-se interpretativamente das canções de autores diversos, não se limitando para tal, de modo nenhum, a abrir a boca e cantar. De novo produzida por Hal Willner, Easy Come, Easy Go instala-se, de imediato, no seu cânone de ouro: acompanhada, pontualmente, por Nick Cave, Cat Power, Teddy Thompson, Keith Richards, Rufus Wainwright, Sean Lennon, Jarvis Cocker, Antony (a única autêntica nódoa, em “Ooh Baby Baby”, de Smokey Robinson) e Kate e Anna MacGarrigle, o reportório viaja, surpreendentemente, de Dolly Parton a Judee Sill, de Brian Eno aos Decemberists, de Duke Ellington a Neko Case, de Morrissey a Randy Newman, Bessie Smith, Merle Haggard ou aos Espers, num assombroso exercício de versatilidade e selecção de “songwriters” tudo menos óbvia que, nunca transformando o álbum num “patchwork” estilisticamente descosido, dá bem a medida do gigantesco e magnificamente amadurecido talento de Marianne Faithfull.

(2008)

20 November 2008

PLANO TECNOLÓGICO - adenda

(em virtude de um reprovável descuido
este post tinha ficado incompleto)




(2008)
CIDADES (IX)

Brighton, Reino Unido, 2008















(2008)
O ELOGIO DA PREGUIÇA

(departamento THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN (VI), segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")



It's Immaterial - Song

Vão-se preparando para sofrer mais um ou dois sérios abanões com epicentro no mesmo ponto que, no final de 1989, nos trouxe de volta os Blue Nile. A causa da coisa saiu no passado dia 25 de Junho, em Londres, tem o conciso título de Song e os agradecimentos pela sua criação devem ser endereçados para Liverpool, ao cuidado de John Campbell e Jarvis Whitehead, aliás, It's Immaterial. Não esqueçam já os Blue Nile pois o paralelismo não é fortuito. Tal como com eles, também sobre Campbell e Whitehead (igualmente ex-colegas de universidade que se descobriram mutuamente compositores) se poderia falar de um caso de invisibilidade deliberada, de uma estratégia de captação das atenções pela fuga à banalização da presença sob os focos dos media e assente na valorização da raridade da discografia. Nuns e noutros, a produção reduzida ao mínimo indispensável para poder constituir prova legal de existência, traduzida em dez anos para dois álbuns e meia dúzia de singles. Encaremo-los como a expressão de um derradeiro elogio da preguiça ou uma apologia da virtude dos metabolismos lentos: A Walk Across The Rooftops (1984) e Hats (1989), dos Blue Nile, e Life's Hard And Then You Die (1986) e, agora, Song, dos It's Immaterial, pertencem todos por legítimo direito à selecção restrita dos indispensáveis da música britânica dos anos recentes. Último traço de união: em ambos os casos, o regresso fez-se pela porta dos Castlesound Studios de East Lothian, sob a orientação do produtor Calum Malcolm.



A separação das águas pode iniciar-se, sem prejuízo, pela via das aparências. Onde os escoceses não sentem a obrigatoriedade de imprimir os textos das canções, o duo de Manchester "exilado" em Liverpool responsável por Song sabe bem como é imprescindível fazê-lo para possibilitar um entendimento sem equívocos do seu universo. Têm todos razão. Ainda que habitantes de territórios sonoros parcialmente coincidentes, a função das palavras que, nuns, é mero adereço na definição dos ambientes, para os outros, assume um papel central enquanto elemento de estruturação dos temas. Legíveis como trechos autónomos dedicados ao registo impressionista de paisagens de desolado despovoamento ("From the shore to the station, the blinds are down, people say the place is slowly dying, there's not a sound, above the rooftops, from the high rise, you can see for miles, a caravan on every plot of land, up and down the coastal plain, in New Brighton when it rains; yesterday I saw you Main Street way, looking at the empty boarding houses and closed arcades, well it's funny just to think the tide's now out and there is very little story to be found in the shops and buildings here") ou à narração de histórias individuais de isolamento e claustrofobia provincial ("When he was tirty five, Mr. Hart met Bernice, the check-out girl, spending all his time hanging around the doors of the junk food store, will they ever speak?"), não limitam nunca, no entanto, a liberdade de acção da música na busca de um espaço próprio.



Acontece, aliás, exactamente o oposto: da perfeita aderência das duas componentes resulta o desdobramento de sentidos de cada uma, num notável exercício de estimulação simultânea que multiplica os ângulos de abordagem. Aquando da edição de Life's Hard And Then You Die, era praticamento impossível não lhe identificar a proliferação de referências musicais que, entre o jazz, a pop, a folk, a "systems music", o electro ou a "contemporânea", se deixavam integrar num tecido vivo e diverso mas livre de problemas de rejeição imunitária. Ecléticos até aquele grau em que o próprio termo se torna redundante, os It's Immaterial recusavam já então a colagem ou o exercício de estilo como método de escrita, preferindo-lhe a fusão quase genética das linguagens sobre que operavam. Song prossegue e intensifica essa lógica, conduzindo-a a um estado de sofisticadíssima cirurgia plástica, incapaz de revelar o menor vestígio de cicatrizes no lugar dos implantes. "Atmosféricas" mas, de modo algum, carentes de consistência e coerência formal, às dez "songs" de Song seria dramático que estivesse reservado o mesmo destino do álbum anterior: coleccionar um invejável dossier de recortes de imprensa com a crítica unanimente ajoelhada e não vender senão o bastante para ocupar fugazmente um modesto lugar no top-75 britânico.

(1990)

19 November 2008

WITH GOD ON BOTH SIDES OU O SAPIENS SAPIENS NO SEU MELHOR



Já tem uma semana e tal mas só agora dei com o Tubo. Há quem faça questão de facilitar a vida ao Richard Dawkins & Friends. Só lhes podemos ficar gratos (o monge arménio dava um belo duplo do Borat).



(2008)
PLANO TECNOLÓGICO

Escola algures em Lisboa, Portugal, 2008












(2008)

18 November 2008

AN EVENING WITH THE NOTWIST


"Pick Up The Phone"



"Pilot"



"Gone Gone Gone"



"One With The Freaks"



"This Room"

(2008)

17 November 2008

MICRO-POÉTICA



The Notwist - The Devil, You + Me

“I won’t sing you algebra, I won’t sing you anything”, canta Markus Archer, muito Neil Tennant-like, sobre uma complexa matemática sonora na qual se pode ler, “bleep” a “bleep”, toda a história do minimalismo pop alemão e adjacências. Leia-se, dos Kraftwerk aos Stereolab, passando por Young Marble Giants, Brian Eno, os ignorados It's Immaterial e um ou outro psicadelismo de tendência mais geométrica. Valeu inteiramente a pena esperar os seis anos de sesta prolongada que, muito pouco germanicamente, os irmãos Markus e Michael Archer (aqui acrescidos do programador Martin Gretschmann e da Andromeda Mega Express Orchestra) se ofereceram, após o magnífico Neon Golden, com aparições intercalares nos Lali Puna, Ms John Soda ou Tied & Tickled Trio.



Não se distanciaram muito dessa micro-poética de delicada relojoaria musical para estações de serviço nas redes de comunicação intergalácticas, mas acrescentaram-lhe intrincados sinfonismos de brinquedo, maquilharam-na discretamente com estridências acústicas e digitais, iluminaram uma ou outra núvem com relâmpagos virtuais. No final, apetece dizer que só não se trata de um Robert Wyatt portátil porque este dificilmente escreveria uma frase como “Let’s just imitate the real until we find a better one”.

(2008)

16 November 2008

CITY GHOSTS (XV)

Lisboa, Portugal, 2008












(2008)
PERDÃO E SALVAÇÃO



Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Red Empire Orchestra



Micah P. Hinson - The Surrendering EP

Aos 19 anos, Micah P. Hinson estava na cadeia, dependente de tranquilizantes, a caminho da condição de “homeless”, sem um tostão e nenhum futuro. A sua “experiência-Mrs. Robinson” não poderia ter corrido pior: Melissa Berggren, uma ex-modelo da “Vogue” consideravelmente mais velha do que ele, apossara-se do seu coração imberbe, iniciara-o no abuso de comprimidos vários e, na ausência de fundos e de receitas médicas, daí à falsificação e ao desastre – com internamento psiquiátrico pelo meio – fora um pequeno trajecto. Oito anos mais tarde, em Dezembro de 2007, perante o público que o aplaudia na Union Chapel de Londres, Micah chamou a namorada, Ashley, ao palco, ajoelhou-se diante dela e pediu-a em casamento. Tudo isto poderia e deveria ser remetido para a categoria das coscuvilhices com que se entretém a imprensa “del corazón” se não tivesse muito (na verdade, se não tivesse tudo) a ver com as canções que Hinson escreve. Mais, muito mais do que a Laura, de Petrarca, ou a Beatriz, de Dante, mais até do que – para referir um exemplo próximo e de contornos idênticas – a Cassie, de David Berman (Silver Jews), Ashley não foi apenas musa inspiradora mas, sobretudo, anjo redentor.



A expressão bíblica não é excessiva: criado numa família cristã fundamentalista, na biografia (e na música) de Micah P. Hinson há feridas irremediavelmente abertas pelos demónios da culpa e do pecado (é ele mesmo quem fala de “salvation and forgiveness”) e pelo enfrentamento da figura do pai, professor na Abilene Christian University. Abilene, Texas: cem mil criaturas – 80% caucasianas –, 15% abaixo do limiar de pobreza, uma base da força aérea (o maior empregador local) e, aparentemente, a 17ª melhor cidade no sistema de ensino público norte-americano. Que não chegou, porém, para evitar que Micah, em poucos anos, estivesse inteiramente à altura de exceder largamente as condições que Sam Phillips, em 1954, impusera a Johnny Cash para aceitar gravá-lo: “Volta para casa, peca muito, e traz-me, depois, uma canção que valha a pena”. Hinson tinha (e continua a ter) uma figura de Elvis Costello pré-púbere mas, nas canções que escreve e na voz de sexagenário corroído pela nicotina, não há menos vida vivida do que nas de Cash ou Hank Williams.



E é exactamente aqui que se torna obrigatório desmontar o lugar-comum: “alt.country”, “americana”, “gothic-folk” são categorias a que a sua música, definitivamente, nunca se ajustará. No álbum de estreia, Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress (2004), no seguinte, Micah P. Hinson & The Opera Circuit (2006), e no actual Micah P. Hinson & The Red Empire Orchestra (acrescido do EP de esboços e fragmentos, The Surrendering), se se adivinha a presença de alguns desses espectros, não só não são eles quem comanda as operações como o tempo e o lugar são irrelevantes. Porque também os de um Cohen mais rude, de um John Cale menos erudito ou (em particular, no último disco) do Scott Walker dos arrebatamentos orquestrais por aqui pairam. Não se procure nele o primeiro ou o último da interminável fila de novos candidatos a Townes Van Zandt com alma murcha de James Taylor. Micah P. é da estirpe dos maiores, dos duros e autênticos. E que, mesmo agora supostamente apaziguado, em equilíbrio instável sobre espirais de violino, frágeis valsas ébrias e incêndios de guitarra, continua sobressaltado por visões (“the flood came down to my knee and you were there drowning below”) e longe da beatitude (“I’m not afraid of the suffering or the pain, I’m just afraid of dying alone”).

(2008)

15 November 2008

MICAH P. HINSON & THE OPERA CIRCUIT


"Drift Off To Sleep"



"It's Been So Long"



"You're Only Lonely"

(2008)

14 November 2008

WANT BETTER SCHOOLS? HIRE BETTER TEACHERS
(Edward L. Glaeser, professor de Economia na Harvard University
e director do Rappaport Institute for Greater Boston)




"President-elect Barack Obama has declared that 'now is the time to finally meet our moral obligation - to provide every child a world-class education'. But how? Mindless increases in school spending will be an expensive fiasco that will generate more disillusionment than human capital. The clearest result from decades of education research is the importance of teacher quality. My colleague Tom Kane finds that students who are lucky enough to get a teacher in the top quarter of the teacher-quality distribution jump 10 percentile points in the student achievement distribution relative to children who end up with less able teachers. Improving teacher quality has about twice the impact on student outcomes as radically reducing class size. Just as the human capital of our citizens will determine the strength of our nation, the human capital of our teachers will determine the quality of our schools. The first step toward improving teacher quality is to attract more talented teachers. The second step is to improve teacher selection on the job, promoting the best and encouraging the worst to help society in some other way. (...)



The experience illustrates that it isn't easy to assess teacher quality with standard teaching credentials. If attracting a wave of good people into teaching is the first step, the second step is keeping the best teachers and redirecting the rest. Performance in the classroom is the best way to know if a teacher is a success. Teacher promotion and tenure needs to be based on clear performance measures, including student test scores. Perhaps teachers unions could start endorsing the use of test scores to evaluate their members and determine tenure. Even without formal performance metrics, principals are quite able to assess pedagogical talent. Several years ago, New York City School Chancellor Joel Klein championed a deal where principals received greatly enhanced authority in exchange for greater accountability. That sounds like a good deal for parents and children. Let the principals choose better-performing teachers and require the principals to leave if their school doesn't improve. Principals have inside knowledge. Like CEOs throughout our economy, they need to have the independent authority to use that knowledge.

This election marks a new beginning. Improving our schools may be the most important way that President-elect Obama can leave America stronger than he found it. He must avoid any small plans. America doesn't need an $18 billion Band-Aid. The country needs a massive education overhaul, and better teachers will be the most important element in that overhaul. Spending more and attracting able teachers is the best way to use resources to improve the human capital of our children and the future of our nation". (texto integral no Boston Globe)

(2008)

13 November 2008

EXPIAÇÃO



Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Opera Circuit

Antepassado directo do “free folk” nas gavetinhas dos míopes profundos da catalogação, o “alt.country” é outro galho da mesma árvore folk/country (pelo menos, a fazer fé em Louis Armstrong que garantia que “all music is folk music, I ain’t never heard a horse sing”), no qual houve quem quisesse, à viva força, arrumar Micah P. Hinson, aquando da publicação, há dois anos, do seu primeiro e óptimo álbum, And The Gospel Of Progress.



Não era verdade, então, e ainda o é menos agora quando Micah P. Hinson And The Opera Circuit – de novo, criado na ressaca de outra temporada de dependência de “painkillers”, agora provocada por um acidente que atirou o “ex-con” de Abilene para uma cama de hospital – projecta tudo isso para aquela decadente e gloriosa equação Tom Waits meets Pogues meets Tindersticks meets Psychedelic Furs meets Lambchop, na qual, o universo rodopia à volta de meia dúzia de polcas debochadas, quartetos de cordas elegantemente cambaleantes, uivos de harmónica, trémolos de banjo, guitarra e bandolim, celebrações marítimas de vela enfunada, crescendos de guitarras panorâmicas e aquele género de festiva expiação da esquálida natureza do mundo em que não fica mal declarar, à sombra de um piano trôpego que já bebeu demais, “don’t leave me now, I must confess, haven’t been the worst, haven’t been the best, since you came, found the word ‘digress’ and made it a home”. E tudo isso é muito, muito belo.

(2006)
A LITTLE BIT CLOSER TO COLORBLIND



" (...) Not to put a sour note on the celebrations, but I can’t help wonder at what will happen to race relations in the US now. I suspect a lot of folks will feel that if a black man can be elected president, from a single parent household and with not a whole lot of connections and help, then why should other black folks deserve help and assistance? There may be a feeling that if Obama can do it, why can’t the rest of you out there pull yourselves up by your own bootstraps? There might be a feeling that, 'Hey, how can anyone claim that there is discrimination now? So why are we spending all this money to help folks?'



Well, the US is still largely a racist country that discriminates — that isn’t going to change in one night. But the election definitely does give one hope that most of the country can put that aside and inch a little bit closer to being colorblind. A friend who was going door to door for Obama in Pennsylvania, hitting the houses where the voters were undecided, got into discussions during which many of the white folks claimed to agree with Obama’s positions, but some, mysteriously, just couldn’t take the next step of saying they were going to vote for him. She, the volunteer, suspected it was race that might be holding them back, and carefully pressed them on that point. Some of them admitted that that’s what it was, whereupon she sometimes said, 'It’s OK to be racist [or something to that effect] but don’t you want to vote for what’s right for your country? You can still be racist and vote for a better life for yourselves'. Wow, don’t know if I could have pulled that line of reasoning out of a hat! No doubt about it, it’s a huge step that’s been taken. Gives one a little faith in human beings for a change". (post integral: David Byrne Journal)

(2008)

12 November 2008

TV GHOSTS (IV)















(2008)
MICAH P. HINSON & THE GOSPEL OF PROGRESS


"Don't You Forget"



"Stand In My Way"



"The Day Texas Sank To The Bottom Of The Sea"

(2008)

11 November 2008

S. MARTINHO? NÃO, CELEBRAÇÃO DO REI URSO!



Recordando e reforçando a defesa pagã do urso.

(2008)
QUASE UM REQUIEM



Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress

Acorrem imediatamente à memória os melhores dos melhores: John Cale, Leonard Cohen, Johnny Cash, Townes Van Zandt. E, logo a seguir, alguns dos seus filhos dilectos: Tindersticks, Lambchop, Sparklehorse, David Berman. Micah P. Hinson é, realmente, um pouco de todos eles mas, nem de longe, num daqueles exercícios calculados de montagem de puzzles sonoros com as peças rigorosamente seleccionadas para lançar o anzol ao máximo público-alvo. Micah é a coisa a sério: um "ex-convict" de 23 anos, apanhado na armadilha de uma história de "love gone terribly wrong" com uma ex-modelo da "Vogue", consequentes receitas de sedativos falsificadas e outros ilícitos demasiado comprometedores. Fado.



E a tradução de tudo isso para um álbum que dá corpo ao milagre de não chafurdar no confessionalismo da desgraça: os textos são mínimos quando não apenas telegráficos (obsessões em "loop" como "it's all my fault", "there are things that I've said that don't mean a thing, anyway"), a música — não dar um átomo de crédito aos arquivadores preguiçosos que hão-de querer, à viva força, arrumá-lo na "alt.country", na "new folk" ou outras invenções adventícias — tão só as coordenadas de uma trajectória de inexorável queda em espiral ("At Last, Our Promises" faz pensar na asfixia de Music For A New Society), instantâneos de câmara para pequenas feridas de guitarra, piano, euphonium, acordeão, melódica, Hammond, mellotron, violoncelo ou flauta, valsas de espectros pálidos, amabilidades de salão um segundo antes do salto através da vidraça, fanfarras fatigadamente amargas, melodias circulares esvaídas. Quase um requiem. E belo como poucos.

(2004)
OH, AS SAUDADES!...



(2008)

10 November 2008

PIMBA CHIQUE



Madredeus & A Banda Cósmica - Metafonia

Quando Pedro Ayres de Magalhães inventou os Madredeus, os ingredientes conceptuais incluíam uma certa visão diluída de meia dúzia de estereótipos da “portugalidade” que costumam figurar nos folhetos turísticos (a melancolia indígena, a inevitável “saudade”, as sofridas mulheres de negro, o tremendo e épico mar e uma pitada de “folclorismo” urbano/rural sobre o pano de fundo de um “ersatz” do fado), concentravam-se num formato de ensemble acústico e, essencialmente, na voz de Teresa Salgueiro. Dando de barato que, de tal esquematismo concebido a régua e esquadro, dificilmente poderia resultar algo musicalmente muito interessante, é forçoso reconhecer que o que essa fórmula tinha para dar se esgotou nos dois primeiros álbuns, Os Dias da Madredeus (1987) e Existir (1990): cançonetas ligeiras e ingenuamente melodiosas, uma visão de Portugal retirada dos antigos livros da instrução primária e uma banda sonora que não incomodava nem os jantares pequeno-burgueses nem as recepções das embaixadas. O potencial “de mercado” era evidente, tanto entre fronteiras como, bem mais importante, “lá fora”. E o potencial concretizou-se e ampliou-se, mesmo que as publicações seguintes fossem já só uma penosa repetição da receita, esticada até às margens da “new age” menos potável. Com o abandono final de Teresa Salgueiro (restando, da formação original, apenas Pedro Ayres), a opção por uma dupla de cantoras e a inclusão de bateria, guitarra eléctrica, harpa e violino, o “produto Madredeus” afocinhou em plena indigência pimba-chique: a música é massacrantemente rudimentar (o que a longa duração da maioria das faixas ainda evidencia mais), os textos, confrangedores, dir-se-iam escritos por pré-adolescentes fraquinhos a Português (só dois exemplos: “Pedi uma muamba e já vou na segunda, se voltar a Luanda também tomo mais uma” e “Vozes em comoção, terra que não se faz, vozes que não se dão, não atingem a paz, tratam-se mal e sem razão, tornam mortal a situação”) e a Mariana Abrunheiro – uma belíssima intérprete que não merecia que lhe fizessem isto – e Rita Damásio pede-se apenas que mimetizem Teresa Salgueiro. O nadir absoluto.

(2008)