11 November 2015

O SUBLIME (POR INVERSÃO) 


Florence Foster Jenkins, a figura real que inspirou a ficcional “Marguerite” do filme homónimo de Xavier Giannoli (e que será objecto de "biopic", de Stephen Frears, com Meryl Streep e Hugh Grant), é a mais célebre de um restrito mas precioso grupo de divas do bel canto que tinham em comum um entendimento pessoalíssimo dos conceitos de afinação, ritmo e andamento, na interpretação do reportório operático, em particular, e da arte vocal, em geral. Espíritos mais perversos acusa-las-iam de esquartejar a sangue frio árias de ópera, "Lieder" e temas populares, em exuberantes espasmos de estridência, vertiginosas espirais de uivos e gorgolejos, e chilreios frenéticos em descomandada derrapagem. Houve, no entanto, sempre quem, sob pretextos vários, lhes tenha prestado a merecida atenção. Foi o caso de Gregor Benko que, em 2004, no CD The Muse Surmounted: Florence Foster Jenkins and Eleven of Her Rivals, compilou as oferendas líricas de todas aquelas para quem “a dedicação e inabalável sinceridade transcendiam os meros detalhes auditivos”



É um verdadeiro universo sonoro paralelo que aí se revela nas contribuições de Foster Jenkins mas também no festim de coruscantes Castafiores como Alice Gerstl Duschak, Betty-Jo Schramm, Tryphosa Bates-Batcheller, Olive Middleton, Norma-Jean Erdmann-Chadbourne, Sylvia Sawyer, Vassilka Petrova, Mari Lyn, Sari Bunchuk Wontner, a sobrenatural Natália de Andrade e a também lusa e injustamente ignorada, Rosalina Mello. Na verdade, há poucas atitudes mais desgraçadamente incompreendidas do que a do autêntico, sincero amante das diversas variedades de kitsch: não uma pose superiormente condescendente mas de genuíno pasmo perante o que se suporia humanamente impossível, coisa exactamente simétrica do assombro provocado por manifestações de genialidade – gente em tudo igual a nós, perpetrando aquilo de que nunca seríamos capazes. Uma experiência (por inversão) do sublime, igualmente pronta a ser desfrutada no CD Sem Fronteiras, do ex-eurodeputado Mendes Bota (1992), nos saudosos anos de ouro do Festival da Eurovisão, em Café Poesia 2012 - Uma Noite de Poesia no Palácio de Belém, nas obras literárias de William McGonagall e Amanda McKittrick Ros (fãs na primeira fila: Aldous Huxley, C.S. Lewis e Mark Twain), nas modas e bordados de Joana Vasconcelos ou nesse cume temível do contorcionismo vocal, de 1997, que é Mary Schneider Yodelling the Classics.

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