02 August 2009

... E, POR FIM, O LUDOPÉDIO 
TRIUNFA SOBRE O ISLÃO 
(o resto virá a seguir)

Hugo Chávez com um jornalista amestrado ao ombro
Último episódio da refrega Islão vs Ludopédio - no número de hoje do "Público", o provedor do leitor, Joaquim Vieira, esclarece que:

1) "não (lhe) parece curial que o jornal envie para criticar um espectáculo quem a priori assume a sua aversão aos artistas. Não é crível que um crítico com tal parti pris consiga manter o mesmo tipo de abordagem e distanciamento que terá perante intérpretes que aprecia ou lhe sejam indiferentes. Tal aitude prejudica a igualdade de tratamento que o 'Público' deverá dar a todos os intervenientes nos eventos que cobre, como jornal cujo estatuto editorial defende o recurso aos 'indispensáveis mecanismos de objectividade'.

Tradução: "não apreciar" um artista é igual a "ter-lhe aversão"; quando "não se aprecia um artista" (isto é, quando se lhe "tem aversão"), o "distanciamento", o "tipo de abordagem", a "igualdade de tratamento" e os "indispensáveis mecanismos (???) de objectividade" ficam comprometidos; mas, quando "se aprecia" (ou se lhe é... "indiferente"), a "objectividade" fica salvaguardada. Daqui decorre que: a) para o trabalho crítico de cobertura de um festival - com muitas bandas e músicos de variados estilos e géneros, todos susceptíveis de gerar graus diversos de "aversão", "apreciação" ou "indiferença" -, o "Público" deverá mobilizar um exército de críticos seleccionados banda a banda, de acordo com uma declaração de afinidades estéticas previamente preenchida e entregue ao editor; b) para a crítica ao concerto/disco/DVD de uma única banda ou músico (presume-se que o mesmo se aplique ao cinema, teatro, dança, literatura, artes plásticas...), os críticos deverão ser, preferencialmente, recrutados nos seus clubes de fãs e, para que tudo corra bem, mediante a aprovação dos próprios artistas (e, já agora, dos respectivos agentes e promotores dos concertos/festivais); c) o trabalho crítico passa, de aqui em diante, a ser encarado como um "exercício de objectividade".

2) "O 'Público' que ambiciona claramente ter uma função federadora em relação à população portuguesa, deveria cuidar de não alienar os diversos grupos sociais com considerações gratuitas ou de mau gosto, eventualmente ofensivas. A responsabilidade não é de J.B., mas de um editor que deveria ter feito a leitura prévia do texto e chamar-lhe a atenção para uma passagem mais desprimorosa para os adeptos de um clube. Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado e o texto cumpre na mesma a sua função".

Tradução:

"função federadora" - vender mais do que os miseráveis números actuais, que o Belmiro, não tarda nada, fecha a torneira;

"não alienar os diversos grupos sociais" - na gebalhada da bola, não se toca nem com uma flor que os gajos passam-se! É piar fininho e deixar-se de fantasias (para a política, haverá normas a expor posteriormente);

"a responsabilidade não é de J.B. mas... de um clube" - os jornalistas/críticos são uns tontos que não medem o perigoso alcance do que escrevem e tem de haver quem os meta na ordem.

"Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado" - na esmagadora maioria dos casos, o redactor recorda-se que tem a prestação da casa para pagar, que não lhe dá jeito nenhum perder o emprego, mete o rabo entre as pernas e obedece ao chefe;

"o texto cumpre na mesma a sua função" - o texto "enche o buraco" na página que estava previsto sem aborrecer ninguém.

Nota: na página anterior à do Provedor, no mesmo espaço do "editorial" em que, há dias, apresentara desculpas públicas ao Belenenses pelas "ofensas" de João Bonifácio, Nuno Pacheco insurge-se indignadamente contra os limites à liberdade de informação impostos por Hugo Chávez, na Venezuela.

(texto completo do Provedor, cartas de protestantes e explicações de João Bonifácio aqui)

(2009)

17 comments:

Ana Cristina Leonardo said...

o problema ainda mais grave é que a moda vai pegar e do ninguém toca no belenenses é só esperar para ver o resto

Beep Beep said...

Triste precedente. A partir de agora, todos os imbecis que pensam que a crítica é uma reportagem, e deve ser "objectiva" (só reclamam disso quando se diz mal, porque será?) vão sentir-se legitimados para continuar a protestar. No Público e não só.

João Lisboa said...

"do ninguém toca no belenenses é só esperar para ver o resto"

"No Público e não só"

Receio que tenham ambos razão.

André Gomes said...

Já foi dito aqui, abre-se hoje um triste precedente. Lamentável um provedor do leitor não perceber minimamente o que é um exercício crítico. Se calhar acabou hoje aqui a crítica tal como a conhecemos. Aconselho vivamente: provedor@publico.pt.

João Lisboa said...

O endereço é este:

http://provedordoleitordopublico.blogspot.com/search/label/Homepage

Já lá coloquei o link para este post. Era, realmente, aconselhável que acontecesse "carpet bombing" de comentários.

manuel said...

É hora de uma contra-revolução:

"Há muitos perigos em invocar diferenças puras, liberadas do idêntico, tornadas independentes do negativo. O maior perigo é cair nas representações da bela-alma: apenas diferenças, conciliáveis e federáveis, longe das lutas sangrentas. A bela-alma diz: somos diferentes, mas não opostos... E a noção de problema, que veremos estar ligada à noção de diferença, também parece nutrir os estados de uma bela-alma: só contam os problemas e as questões... Todavia, acreditamos que, quando os problemas atingem o grau de positividade que lhes é próprio e quando a diferença torna-se objeto de uma afirmação correspondente, eles liberam uma potência de agressão e de seleção que destrói a bela-alma, destituindo-a de sua própria identidade e alquebrando sua boa vontade."

Deleuze

Beep Beep said...

Pela minha parte já enviei email ao Provedor. Espero que outros o façam para que ao menos o Público saiba que o outro lado existe.

Pedro Leitão said...

A imprensa livre morreu! Viva a imprensa livre!

Ainda temos a internet para escrever o que nos dá na real gana.

Paulo said...

Algo vai muito mal quando é uma parte do público (leitores) a ter de pressionar um jornal para não se deixar arrastar pelo instituído lado aceitável da força. Sem pensamento divergente arrasa-se com qualquer arremedo de pensamento crítico, no fundo de qualquer capacidade de pensar tout court. Essa deveria ser a primeira função do jornal, pôr à vista os ataques ao pensamento divergente. O contrário é autofágico. Não admira que já andem como tontos a tentar descobrir uma forma de regular a net, essa espécie de último reduto sem editores que recuam face ao cheiro da mínima turbulência.

np said...

A crítica de facto foi má, estive lá e também não gostei mas, se fizesse um texto sobre o festival, focaria pontos bem mais relevantes neste tipo de eventos.
De qualquer forma, pior é tudo o que se está a desenrolar por causa disto, não faz sentido nenhum e já leio críticas e críticos há muito anos.
Vou então enviar o email ao provedor, aliás Sr. Provedor, ainda por cima foi meu prof. na faculdade, que desgraça.

João Lisboa said...

"Não admira que já andem como tontos a tentar descobrir uma forma de regular a net, essa espécie de último reduto sem editores que recuam face ao cheiro da mínima turbulência"

Ah pois... é o tipo de coisa que - possam eles (sempre esses "eles" de sujeito indeterminado...) - não há-de poder continuar a existir tal como é.

Ana Cristina Leonardo said...

pus-me a matutar e apesar de não ser fã do bonifácio (o que me pareceu irrelevante) linkei-te

Anonymous said...

Tudo merda.
Joaquim Alcobendas

Táxi Pluvioso said...

"Jornalista amestrado" mas existe outro tipo?

O caso Watergate definiu o que é "jornalista". Dois otários do Washington Post são manipulados para destituir Nixon (um perigo perigo que era necessário remover. Se não fosse o Kissinger a segurar as pontas, o mundo teria mais fogo nessa altura).

E a guerra no Iraque deu mais um exemplo do que é "jornalismo": mostrar para não se ver nada.

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